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PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil


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Paulo Roberto de
Almeida
1. O mito
fundador: a revolução que se transformou em reação
Poucos mitos, na
América Latina, especialmente entre os acadêmicos, são tão poderosos
quanto o da Revolução Cubana, usualmente identificada com as figuras
de Fidel Castro e de Ché Guevara – ele próprio um mito à
parte, icônico em suas manifestações mais apelativas, sem esquecer o
merchandising – tanto quanto pelo tremendo valor simbólico da
“resistência ao imperialismo”, especialmente relevante para todos
aqueles que acreditam em outro mito da mesma família: a de que esse
mesmo imperialismo é responsável pela miséria e subdesenvolvimento
da América Latina, cujas veias abertas estariam sendo constantemente
drenadas por esse monstro capitalista (trataremos, em outro artigo
da série, dessa outra falácia acadêmica).
O próprio conceito
de Revolução Cubana constitui um mito inaugural: não existe mais
revolução cubana, e isto há muito tempo. Tudo o que restou das
transformações políticas na ilha, feitas entre 1959 e 1965
aproximadamente, foi um regime autocrático, de inspiração
supostamente socialista (mais exatamente ao estilo soviético),
incapaz de garantir um abastecimento adequado ao seu próprio povo
(como, aliás, ocorria com todos os socialismos realmente existentes,
sem exceção). Sublinho deliberadamente transformações políticas,
posto que em matéria de transformações econômicas, o que
ocorreu, mais exatamente, foi uma tremenda involução, um retrocesso
absoluto, que resultou em que o ex-principal exportador de açúcar da
região é obrigado, atualmente, a importar o produto para o consumo
do seu próprio povo, sem falar da inexistência quase completa de
indústrias de consumo dignas desse nome. Mas voltemos, em primeiro
lugar, ao mito da revolução.
Como sabem todos
aqueles que estudam sociologicamente o fenômeno revolucionário,
nenhum processo desse quilate, absolutamente nenhum, dura cinqüenta
anos, ainda mais com a promessa – constantemente refeita pelos
dirigentes ‘revolucionários’, na verdade, reduzidos hoje a uma
nomenklatura geriátrica – de que a revolução é um movimento
vivo, que deve renovar-se e continuar para sempre. Um processo
insurrecional e de ativa preparação para a tomada do poder político
pode até durar muitos anos, como foi o caso, por exemplo, da
revolução chinesa, que depois conheceu várias etapas no processo de
construção do totalitarismo maoísta: a aliança de classes e as cem
flores nos anos 1950, o grande salto para a frente e sua desastrosa
falência entre 1959 e 1962, a revolução cultural de 1965 a 1969, a
grande luta entre as cliques dirigentes depois disso e, finalmente,
o que não tinha nada mais de revolucionário, a reforma gradual do
socialismo chinês em direção de formas de mercado que não excluem (e
até promovem) o capitalismo mais selvagem que se conhece desde Marx
e Engels.
As revoluções
constituem processos extremamente concentrados no tempo, ainda mais
concentrados na utilização da violência política, que costumam
substituir uma classe dirigente por outra, alterando completamente o
sistema político e, até mesmo, as bases econômicas de funcionamento
de uma determinada sociedade. Revoluções duram somente o tempo de
substituição dos dirigentes no comando do Estado, a partir daí o que
se tem são processos mais ou menos lentos de alteração das relações
sociais, o que pode ser feito com doses extras de violência – como
no caso chinês ou soviético, sob Mao e Stalin – ou, mais
freqüentemente, por meio das burocracias que emergem com o novo
poder. Enfim, uma revolução que dura 50 anos, na mais perfeita
normalidade do comando ‘revolucionário’, é uma contradição nos
termos. Todas as revoluções, a partir de um certo tempo se
‘estabilizam’ e a nova classe dirigente passa a cuidar de sua
própria conservação, ou seja, a revolução se transforma em reação,
quando não em algo profundamente reacionário.
No caso da Revolução
Cubana, pode-se traçar, perfeitamente, uma cronologia para o
processo revolucionário: a fase insurrecional durou poucos anos, a
rigor desde Moncada (1953) até a tomada do poder, em janeiro de
1959, com a etapa guerrilheira se estendendo durante pouco mais de
dois anos, tão somente. Ou seja, o processo de luta contra a
ditadura de Batista foi algo extremamente rápido, em termos
estritamente temporais, e absolutamente exitoso nos planos
político-social e estratégico-militar, inclusive com a colaboração
involuntária do próprio regime, que consentiu em anistiar o jovem
advogado condenado por sedição após poucos meses de prisão (aqui
entra um outro mito, o da “História me absolverá”, mas que pode ser
deixado ao cuidado dos historiadores, por falta de espaço neste
ensaio).
A partir daí se abre
o processo revolucionário propriamente dito: uma fase nacionalista
em 1959, logo alterada por escolhas mais radicais nos planos
político e econômico – inclusive as decisões de não realizar
eleições livres e de expropriar grandes latifúndios para fins de
reforma agrária – seguida, finalmente, da opção propriamente
socialista, entre 1961 e 1962. A partir daí, a ‘revolução’
socialista se aprofunda, com a completa estatização dos meios de
produção e a ‘sovietização’ do estilo de poder e das formas de
dominação, processo que culmina, basicamente, em 1965, quando
começam os primeiros expurgos e o regime perde sua aura romântica
que ele tinha mantido até então. Muitos intelectuais e o próprio
Ché Guevara abandonam a ilha, cada qual com suas opções
intelectuais e políticas intactas, os primeiros por não concordarem
com essa orientação do regime cubano, o segundo para tentar fazer a
revolução em outros países.
Esta é a Revolução
Cubana, nada mais do que isso: a tomada do poder em nome da luta
contra a ditadura, pela democracia e pela justiça social, com
promessas de reforma agrária (que aliás estavam sendo impulsionadas
em quase toda a América Latina pelo próprio imperialismo,
insatisfeito com o estilo oligárquico atrasado de quase todos os
seus aliados na região). O que veio depois de 1965 foi a
administração de um socialismo que não escapou às mesmas fatalidades
de seus congêneres em outras partes: ineficiência econômica,
irracionalidades produtivas, falta de inovação pela ausência de
estímulos apropriados e, sobretudo, repressão política, falta de
liberdade completa no plano partidário, de imprensa e intelectual, e
as pequenas e grandes misérias morais de todo e qualquer regime
socialista.
Pior do que isso,
talvez, pois outros regimes atrasados na própria América Latina
também exibiam ineficiência econômica, baixíssimos índices de
produtividade econômica e, tanto à direita quanto à esquerda,
repressão política e falta de liberdades elementares: no caso de
Cuba, tudo isso se viu agregado do velho estilo soviético
(stalinista, quero dizer) de dominação e de monopólio político
absoluto pelo partido monocrático e todo poderoso (algo que nem as
ditaduras direitistas mais extremas na região jamais produziram).
Quem achar que estou errado, deveria, supostamente, poder provar-me
que a ilha caribenha dispõe de: eficiência econômica, vibrante
sistema produtivo, tecnologia avançada no plano internacional,
liberdade política, imprensa livre e ausência de dissidentes
encarcerados por divergência de opinião. O teste é muito simples e
pode começar pela existência de balseros (boat-people),
algo que só as ditaduras mais extremas conseguem produzir: a
existência de pessoas desesperadas, dispostas a enfrentar os riscos
terríveis de uma aventura no mar, para escapar ao desespero das
misérias cotidianas (que geralmente são mais econômicas do que
propriamente políticas). Apenas a existência contínua desses
candidatos a náufragos do regime já provaria o tremendo fracasso da
‘revolução’ cubana.
2. A
especificidade cubana: uma ilha que é quase uma fazenda pessoal
O que teve, e talvez
ainda tenha, a Revolução Cubana de diferente, em relação aos modelos
do gênero, é o tremendo carisma de dois de seus dirigentes, um deles
efêmero, é verdade, mas aparentemente eterno: Fidel Castro e Ché
Guevara. Desaparecido precocemente este último, restou o velho líder
revolucionário, que empolgou muita gente, na ilha e fora dela, e
permanece como o símbolo do processo revolucionário. Quanto ao
Ché, é um fenômeno planetário: trata-se, possivelmente,
depois da Coca-Cola, da imagem mais conhecida e valorizada do mundo,
presente em dez de cada nove manifestações organizadas por
movimentos de esquerda, sobretudo conquistando os jovens, que
compram avidamente pôsteres e camisetas para indicar sua preferência
romântica, alimentando com isto um dos mais pujantes mercados
capitalistas de que se tem notícia na história do merchandising
mundial.
Do Ché ficou
a imagem do guerrilheiro heróico, seja em Cuba, seja na Bolívia,
onde fracassou na tentativa de criar um outro Vietnã no coração da
América Latina. Pouco se fala de seu período à frente de La Cabaña,
uma caserna do ancien régime cubano convertida rapidamente
num dos mais ativos centros de fuzilamentos logo depois da vitória
da revolução, muitos dos quais após sumaríssimos julgamentos, outros
sem sequer essa formalidade ‘burguesa’. Se fala ainda menos de suas
rápidas e catastróficas passagens pela presidência do Banco Central
cubano e pelo Ministério da Indústria, cujas conseqüências mais
notáveis, aliás, foram as de apressar a subordinação da ilha aos
interesses da União Soviética e o início de um longo período de
dependência dos subsídios russos durante praticamente toda a
existência residual da URSS. Seus planos de industrialização – sem
falar na tentativa de criação de um ‘homem novo’, cuja realização
perfeita seria um trabalhador sem qualquer tipo de exigência
material, funcionando apenas à base de ‘emulação socialista’ – foram
tão desastrosos que, já em 1965, Cuba escolhia voltar para a
monocultura açucareira (atenção, quem diz isso não sou eu, e sim
Celso Furtado, no último capítulo de seu livro, aliás deficiente,
sobre a Formação Econômica da América Latina, de 1967).
Com a morte precoce
de Camilo Cienfuegos, com o afastamento de Ché Guevara e o
desaparecimento ou eliminação de outros possíveis concorrentes da
fase insurrecional, a revolução cubana acabou sendo dominada pela
figura ímpar, sem dúvida excepcional historicamente, de Fidel
Castro, que passou a administrar a ilha como se fosse uma fazenda
pessoal. Foram muitas as suas tentativas improvisadas de mudar a
economia da sua fazenda – como o estímulo à plantação de café, na
base do empirismo puro, sem qualquer viabilidade agronômica – com
resultados catastróficos a cada vez. Mas a figura de Fidel Castro há
muito tempo já passou por esse fenômeno que Max Weber identificou
como a ‘rotinização do carisma’, sendo improvável que esse carisma
sobreviva ao desaparecimento físico do titular. O mais provável é
que a ‘revolução’ – que de fato já não existe mais – se estiole numa
dominação puramente autocrática-oligárquica, até sua completa erosão
numa futura redemocratização e normalização da ilha, segundo
modalidades ainda não detectáveis neste momento.
Enfim, este é o
primeiro mito ligado a Cuba, que cabe, portanto, descartar no plano
histórico e mais exatamente sociológico. Vejamos, agora, quais
seriam as outras falácias que podem ser associadas ao mesmo mito,
entretido com tamanho desvelo em certos círculos acadêmicos, que eu
chego a receber de um desses representantes da espécie mensagens
eletrônicas que são finalizadas por um desses orgulhos ingênuos de
certos companheiros de viagem do socialismo cubano: “Esta noite, 200
milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma é cubana.”
Incrível como acadêmicos aparentemente bem informados conseguem se
deixar mistificar pela propaganda de um regime incapaz de assegurar
a essas mesmas crianças um futuro decente, em termos de conforto
material, emprego e, sobretudo, liberdade política para se expressar
normalmente pela internet, como mesmo crianças de favelas
brasileiras conseguem fazer em centros comunitários que existem,
justamente, para conectá-las ao mundo. Atribuo esse tipo de equívoco
à ‘inconsciência revolucionária’.
O Brasil é
certamente um país com muitos indigentes, alguns até com problemas
de desnutrição ou de moradias precárias, falta de cuidados médicos
e, sobretudo, de educação e de capacitação técnica ou profissional
para o mercado de trabalho, daí a baixa produtividade, os
precaríssimos rendimentos e a insuficiência geral no consumo e
portanto, a baixa qualidade de vida, segundo os índices do PNUD. Não
são esses indigentes, contudo, os principais candidatos à emigração
econômica, característica associada à paisagem social brasileira nas
últimas duas ou três décadas, aliás coincidentes com as crises
econômicas, o baixo crescimento, a falta de oportunidades de emprego
decente e o desalento geral com a violência, a extorsão estatal e
outros traços menos agradáveis de nossa situação presente.
Geralmente são pessoas próximas dos estratos intermediários
inferiores, ou até da classe média, que escolhem sair do Brasil, por
acaso os mesmos tipos de candidatos a partir de Cuba, com uma
diferença fundamental, porém: nenhum deles é boat-people,
pela simples razão de que ninguém é impedido de sair do país. No
caso de Cuba, é desnecessário precisar, os mesmos candidatos
frustrados se sentem como que obrigados a deixar a ilha, pelo
simples fato de que não vislumbram nenhuma possibilidade de mudança
em sua situação econômica no futuro previsível. Poucos, ou
praticamente nenhum, dos boat-people são verdadeiramente
dissidentes ou opositores do regime: na quase totalidade dos casos,
se trata apenas de pessoas desejosas de escapar das misérias
cotidianas da ilha, aspirando viver normalmente num país normal, não
numa ilha que vive, ou sobrevive, à base de cartões de racionamento.
3. Os mitos
entretidos pelo regime e por seus admiradores
Todo e qualquer
Estado normalmente constituído na história humana, ou seja, uma
organização política capaz de garantir o funcionamento regular de
instituições de comando e um sistema econômico capaz de se
auto-sustentar – independentemente de suas características mais
estatais ou mais privadas, de mercado, portanto – deveria,
minimamente, poder assegurar algumas condições básicas para sua
manutenção, preservação e continuidade. Aqueles que não conseguem,
costumam desaparecer nas dobras da história, como demonstrou em
relação a alguns casos exemplares o cientista americano Jared
Diamond em seu livro Colapso. Esse Estado deveria, em
princípio:
1) funcionar em
bases políticas razoavelmente legítimas, suscitando o consenso em
torno dos mecanismos de dominação, ou despertando muito pouca
oposição ou dissidência em relação ao comando do Estado; quando
houver dissensão, ela deveria poder ser canalizada por meios
políticos não violentos, justamente;
2) garantir
requisitos mínimos de satisfação material à população, sem o que
aquela legitimidade logo se esvai, sobretudo se os cidadãos (ou
súditos) se sentem espoliados em seus direitos elementares à
segurança alimentar, patrimonial ou até pessoal; essa satisfação
requer, portanto, um funcionamento razoável dos sistemas de produção
e de distribuição, com alguma possibilidade de acumulação privada ou
familiar, geralmente no que se refere à habitação, mas também a
outros bens físicos;
3) assegurar um
mínimo de direitos quanto à segurança pessoal dos cidadãos (ou
súditos), na sua disposição de residência, livre escolha de uma
ocupação, de culto ou de expressão pública de suas preferências
políticas e culturais, sem o que o país em questão poderia viver em
estado de tensão social permanente;
4) alguma
legitimidade ou reconhecimento no plano externo, de maneira a se ter
um relacionamento normal no plano internacional, sem ameaças
externas ou conflitos destrutivos; ainda que o ambiente externo
possa ser uma variável independente – e o fenômeno do imperialismo e
do colonialismo independem da configuração política e econômica que
possa adotar um Estado independente qualquer – um Estado normal deve
ser capaz de assegurar um mínimo de tranqüilidade para os seus
cidadãos (ou súditos), sem aquela sensação de estarem sendo
constantemente ameaçados por algum poder externo.
Pois bem, com base
nesses critérios aparentemente anódinos e perfeitamente burocráticos
no plano da análise sociológica, podemos analisar os mitos da
Revolução Cubana, por meio de elementos o mais possível objetivos,
para verificar, justamente, as falácias que têm sido apregoadas em
torno desse fenômeno. São muitas as falácias que vem sendo
apregoadas em torno da “Revolução” Cubana, mas algumas têm mais
consistência do que outras.
Vejamos, por
exemplo, o que se lê em recente matéria em homenagem aos 50 anos
dessa “revolução” no site do único movimento político brasileiro
que, aparentemente, ainda defende resolutamente o que é chamado de
conquistas da “Revolução” Cubana, o Partido Socialismo e Liberdade:
Os companheiros
desse partido “não podem duvidar em afirmar que a revolução cubana
foi o acontecimento mais importante acontecido em nossa ‘Pátria
Grande’ latino-americana. Talvez possamos divergir sobre apreciações
de seu regime político, da política internacional seguida pelo Fidel
em certos períodos. Mas o concreto é que foi um movimento tão
poderoso e tão genuíno para que hoje Cuba seja o único país do
chamado “socialismo real” que existe e do qual não só podemos
reivindicar sua história como também seu presente; Cuba mantém suas
conquistas sociais e seu orgulho de ser independente do imperialismo
a menos de cem milhas de suas costas.” (4.01.2009;
http://www.socialismo.org.br/portal/socialismo/197-artigo/709-cuba-festeja-meio-seculo-de-revolucao)
O que se reivindica,
portanto, são três coisas: (a) ser o único país do “socialismo
real”; (b) conquistas sociais; (c) independência do imperialismo. A
bem da verdade, esses três elementos resumem, efetivamente, o que se
apregoa como positivo em torno da “Revolução” Cubana e são eles que
devem motivar uma reflexão sobre se esses mitos são justificados.
Não devo esconder desde já meu argumento de que esses três mitos
constituem, justamente, as três grande falácias em torno da
“Revolução” Cubana. Vejamos cada um deles sistematicamente.
4. O mito do
socialismo
Não é verdade que
Cuba seja o único representante do chamado “socialismo real”: o
comentarista do PSol esquece a República Popular Democrática da
Coréia e... vejamos, talvez o Vietnã, ou, quem sabe ainda, a China?
Não é seguro que estes dois últimos sejam ainda socialistas, estilo
“real”, mesmo que suas equipes dirigentes possam fazer apelo ao
conceito para definir seus regimes políticos e seus sistemas
sociais. Em todo caso, sobra a RPDC, ou Coréia do Norte, na
companhia de Cuba, a defender, contra ventos e marés, o sistema que
perdura em ambos os países desde mais de meio século. O que isto
significa no plano das falácias acadêmicas?
O conceito original
de ‘socialismo científico, segundo os demiurgos originais, seria o
de um regime baseado na apropriação coletiva – não necessariamente
estatal – dos meios de produção e na organização social da produção
e da distribuição segundo a fórmula clássica enunciada na Critica
ao Programa de Gotha: “de cada um segundo suas capacidades, a
cada um segundo suas necessidades”. Independentemente do fato de que
essa frase de efeito não quer dizer rigorosamente nada, a verdade é
que, tanto para Marx, como para Engels, o Estado deveria
simplesmente desaparecer assim que os trabalhadores conseguissem
colocar em marcha o programa da revolução socialista – basicamente
os dez pontos do Manifesto de 1848 – com a sociedade de
produtores organizados funcionando em ‘piloto automático’ e o Estado
se encaminhando gentilmente para o museu das antiguidades, ao lado
do machado de bronze e da roca de fiar (segundo Engels, em A
Origem da Família, da Propriedade..., etc.).
Não é preciso dizer
que, já a partir de Lênin, não foi exatamente isso que aconteceu,
mas o seu contrário, com o Estado mais fortalecido do que nunca, e
os trabalhadores organizados em batalhões de produtores
compulsórios, mais próximos do regime fordista – ou taylorista – do
que daquela imagem romântica dos Cadernos Econômico-Filosóficos,
segundo a qual o homem socialista seria um trabalhador pela manhã,
um pescador de tarde e um filósofo pela noite. O fato é que o Estado
leninista serviu de padrão para a dominação mussoliniana na Itália,
logo em seguida, e mais adiante para o regime de partido único e de
Estado totalitário da experiência hitlerista.
Qualquer que seja a
opinião de acadêmicos anticapitalistas sobre as excelências dos
regimes socialistas – a igualdade social, a segurança do trabalho e
da moradia, o ‘futuro brilhante’ de realizações materiais do
‘socialismo real’ – a realidade legada por esse tipo de regime e de
sistema de engenharia social é uma só, quase uniforme em sua
materialização concreta nos diversos continentes em que ele existiu
(ou onde ele ainda sobrevive, como nos casos cubano e
norte-coreano): ditadura política, polícias secretas, delação de
vizinhos, crimes políticos no caso da simples expressão de um
pensamento dissidente, controle estrito das populações, misérias
econômicas, catástrofes ecológicas, quando não Gulag ou extermínio
dos ‘inimigos do povo’. Sequer preciso mencionar aqui a fome
organizada por Stálin no caso da coletivização forçada da
agricultura no início dos anos 1930 – que não apenas resultou na
eliminação física de milhares de kulaks, mas sobretudo na
privação absoluta de populações inteiras, sobretudo na Ucrânia – ou
no ‘grande salto para trás’, organizado pelo presidente Mao, entre
1959 e 1962, que pode ter resultado na morte de algumas dezenas de
milhões de camponeses, com cenas de canibalismo jamais vistas desde
tempos míticos...
Gostaria de frisar,
em direção dos acadêmicos true believers nas ‘reais’
possibilidades do socialismo, e que poderiam desconsiderar algumas
das asserções acima, como sendo apenas ‘acidentes circunstanciais’
numa trajetória feita de boas intenções potenciais desse sistema,
que, mesmo retirando os ‘acidentes’ (com alguns milhões de mortos, é
bom lembrar), as demais características não dependem da opinião ou
posição política do observador: são fatos materiais
indiscutíveis e associados genericamente à história do socialismo no
século 20 e, ainda hoje, ao socialismo cubano em particular:
ditadura política, monopólio do partido, regime policial, repressão
aos dissidentes, encerramento de toda uma população numa
ilha-prisão. O acadêmico que for capaz, ainda assim, de defender
esse regime, certamente não merece esse título, podendo apenas ser
classificado como sustentáculo voluntário de uma ditadura, o que é
propriamente indigno de quem se pretenda acadêmico.
Em uma palavra, o
socialismo do século 20 representou apenas e simplesmente isto:
totalitarismo, uma herança certamente pesada para que seus supostos
herdeiros ainda possam reivindicar, hoje, qualquer tipo de filiação
intelectual. Que acadêmicos ou militantes brasileiros ainda defendam
o socialismo como idéia, e a ‘revolução’ cubana em especial, apenas
constitui um testemunho eloqüente sobre mais uma ‘inconsciência
revolucionária’, que também poderia ser traduzida por duas singelas
expressões: suprema ingenuidade política ou brutal ignorância
informativa, em ambos os casos exemplos de estupidez acadêmica. Que
alguns desses personagens tenham ódio à democracia parlamentar – que
eles equiparam a uma ‘ditadura da burguesia’ – e à economia de
mercado – para eles indistintamente capitalista, sem sequer saber
que estão transformando deste sistema produtivo, ainda bastante
limitado na história econômica mundial, em um superlativo conceitual
– apenas confirma como preconceitos políticos podem obstar uma
apreensão historicamente adequada das realidades políticas do século
20. Ou seja, além de estupidez acadêmica, cegueira intelectual.
Se o socialismo,
enquanto conceito e enquanto realidade social, não é uma falácia
completa, seus defensores deveriam ser capazes de provar que ele
pode funcionar, de fato, segundo os quatro requisitos formais de um
Estado normal, tal como enunciados acima, quais sejam: legitimidade
política interna, funcionalidade produtiva ou material, liberdades
elementares e relacionamento externo com base numa garantia de
reconhecimento da representatividade do Estado em face de sua
população (o que implica na admissibilidade, por exemplo, de livre
acesso de órgãos multilaterais em setores específicos: livre
organização de trabalhadores, segundo as convenções da OIT; respeito
aos direitos humanos, segundo tratados internacionais monitorados
pelo Conselho de Direitos Humanos; transparência dos procedimentos
legais e judiciais, como estabelecido na Carta da ONU; liberdades
fundamentais, como acordado na Declaração Universal de 1948, etc.).
Trata-se, obviamente, de um teste muito simples, que qualquer
acadêmico minimamente bem informado seria capaz de atender, sem
alimentar qualquer falácia conceitual ou prática.
5. O mito das
conquistas sociais
Mesmo reconhecendo
alguns ‘problemas políticos’ – geralmente justificados pelo ‘assédio
imperialista’ – os acadêmicos simpáticos a Cuba costumam argumentar
com a excelência dos serviços cubanos de saúde e com a alta
qualidade de sua educação, constituindo esses dois elementos as
grandes justificativas em face das demais ‘deficiências’ do regime,
uma espécie de compensação social pela falta de liberdades políticas
e por todas as misérias da vida econômica. Estas ‘bondades da
Revolução’ estão sempre na primeira linha da defesa das conquistas
do socialismo cubano, constituindo, no entanto, mais um dos grandes
mitos que cercam a ilha. Elas estão identificadas com as supostas
conquistas sociais da ‘revolução’, como se a ilha, antes de Fidel
Castro, fosse um inferno de misérias humanas e um deserto de avanços
sociais. Um pouco de objetividade factual pode ajudar a avaliar essa
questão.
Em 1958, Cuba
ostentava bons indicadores sociais em diversos quesitos,
situando-se, geralmente, nos três primeiros lugares do ranking
latino-americano, junto com a Argentina e o Uruguai. Obviamente,
muitos indicadores, baseados em médias nacionais, não refletiam
exatamente a distribuição de serviços públicos pelo conjunto da
população cubana, mas se os dados nacionais refletem uma metodologia
uniforme para todos os países da amostra, eles devem poder
significar realidades objetivas quanto aos serviços disponíveis. De
modo geral, Cuba se situava entre as sociedades mais avançadas da
América Latina, com um perfil social bem mais próximo da Europa
mediterrânea do que dos demais países latino-americanos.
De um conjunto de
122 países analisados, Cuba ocupava, em 1958, o 22º. lugar em
matéria sanitária, com 128,6 médicos e dentistas por 100.000
habitantes, à frente de países como França, Reino Unido e Bélgica.
Sua taxa de mortalidade já era uma das mais reduzidas do mundo (5,8
anuais por 1.000 habitantes; Estados Unidos 9,5) e o nível de
alfabetização da ilha era de 80%, semelhante ao do Chile e da Costa
Rica e superior ao de Portugal na mesma época. Ou seja, resulta
equivocado pensar que Cuba fosse uma ilha habitada por miseráveis
antes da revolução. O regime socialista cubano invoca a baixa
mortalidade infantil para destacar a excelência dos cuidados de
saúde disponíveis para a população, mas o fato é que esse indicador
já apresentava uma taxa muito baixa desde os anos 1950: em 1958, o
índice cubano registrava 40 mortes infantis por cada mil nascidos
vivos, uma taxa melhor do que os índices da França (41,9), do Japão
(48,9) e da Itália (52,8). Não obstante essa boa situação de
partida, Cuba foi ficando para trás, pois que, em 2007, o indicador
cubano registrava 5,3 óbitos, contra 4,2 para a França, 3,2 para o
Japão e 5,0 para a Itália.
Mesmo a situação
relativamente favorável de Cuba, no confronto com outros países
latino-americanos, deve ser considerada em termos de dotação de
recursos para gastos de saúde: durante muito tempo, o regime cubano
foi de fato subvencionado pela União Soviética, de uma forma como
nenhum outro pais latino-americano foi ajudado pelo império
americano. Essas subvenções, embutidas nos pagamentos pelo açúcar
acima dos preços dos mercados mundiais e no financiamento direto das
aventuras militares cubanas em outros continentes, sustentaram os
investimentos cubanos na área social durante muito tempo. Uma vez
interrompidas as transferências diretas e indiretas, a situação
cubana começou a se deteriorar seriamente.
O sistema
educacional cubano é, de fato, abrangente no mais alto grau, ainda
que a suposta excelência não se traduza em uma pujante produção
científica ou na transferência desse saber para o sistema produtivo,
no qual patentes são quase desconhecidas. Pena também que, com o
analfabetismo virtualmente inexistente, os cubanos não disponham
para sua leitura diária que de jornais controlados pelo Partido
Comunista e que seu acesso à internet só é comparável com a situação
na Síria e na Birmânia. Apenas alguns poucos países exóticos mantêm,
hoje, uma repressão à liberdade de informação tão ampla – com perdão
pelo paradoxo involuntário – quanto a existente em Cuba. Uma
população tão educada mereceria mais, certamente.
Outra das alegações
freqüentes do regime se refere à suposta igualdade dos cubanos
quanto à distribuição de renda. Não existem dados oficiais a esse
respeito, mas estimativas de especialistas indicam que essa
distribuição se deteriorou muito desde a crise do socialismo, sendo
que o coeficiente de Gini passou de um índice 0,22 em 1986 para
0,407 em 1999. Em especial, no tocante à distribuição entre as
classes de renda, a situação cubana conheceu uma evolução bem mais
negativa do que o resto da América Latina: a razão entre o quintil
mais rico e o quintil mais pobre de renda cresceu de 3,8 a 13,5 na
ilha, entre 1989 e 1999, ao passo que, nesse mesmo período, a razão
entre o quintil mais rico e o quintil mais pobre cresceu de 11,90 a
19,91 para a região como um todo: ou seja, em Cuba o aumento foi
3,85 vezes, enquanto o aumento na América Latina foi de apenas 1,67
vezes.
Se formos examinar a
disponibilidade de habitações, a deterioração também foi sensível,
com uma diminuição do número de moradias em função da baixa taxa de
natalidade e da emigração. No plano mais geral do crescimento
econômico a longo prazo, a trajetória cubana é também reveladora da
incapacidade do sistema em produzir bem-estar. Como revelado na
tabela abaixo, a posição relativa de renda por habitante de sete
países selecionados, colocava Cuba em terceiro lugar em 1957, à
frente da Espanha e de Portugal, tendo a ilha caído para o último
lugar em 2007.
|
Classificação de países
segundo o PIB per capita |
|
Posição |
1957 |
2007 |
|
1 |
Venezuela |
Espanha |
|
2 |
Argentina |
Portugal |
|
3 |
Cuba |
Chile |
|
4 |
Espanha |
Venezuela |
|
5 |
Portugal |
México |
|
6 |
México |
Argentina |
|
7 |
Chile |
Cuba |
|
Fonte:
United Nations Statistics Division |
Na verdade, o
sistema socialista cubano é incapaz de alimentar o seu próprio povo
atualmente, tendo a ilha de importar volumes significativos de
alimentos, inclusive dos EUA, um dos principais parceiros
comerciais. Incapaz de produzir bens exportáveis, Cuba tem uma
balança comercial altamente deficitária, o que se reflete na dívida
externa cubana e nas insolvências bilaterais com vários países
europeus, com o México, com o Chile, com o Brasil e com o Japão. No
total, a dívida externa cubana deve superar 38 bilhões de dólares, o
que equivale a 3.410 dólares por habitante, três vezes a média
latino-americana, de 1.173 dólares por habitante.
Um estudo recente
sobre a situação do abastecimento alimentar em Cuba revelou dados
assustadores: “Ao menos 13% da população é clinicamente subnutrida,
na medida em que o estado do racionamento alimentar provê, agora,
apenas entre uma semana e dez dias das necessidades alimentares
básicas” (Antonio E. Morales-Pita, “Possible Scenarios in the Cuban
Transition to a Market Economy”, Proceedings da Association
for the Study of the Cuban Economy: Cuba in Transition 2007,
p. 330). Um outro estudo confirma que “A economia cubana tem
sobrevivido em larga medida graças aos investimentos, comércio,
créditos e ajuda da Venezuela e, em menor medida, da China, assim
como de investimento estrangeiro em setores estratégicos, como
petróleo e gás, níquel e turismo, o que permitiu a Fidel lançar um
processo de recentralização da tomada de decisão em 2003-2006, que
reverteu a maior parte dos progressos feitos pelas modestas reformas
orientadas para o mercado implementadas em 1993-1996, operando uma
rígida transição de poder para Raúl” (Carmela Mesa-Lago, “The Cuban
Economy in 2006-2007”, ASCE: Cuba in Transition 2007, p. 15).
Esse mesmo estudo
citado imediatamente acima traz estatísticas arrasadoras sobre o
declínio da produção cubana entre 1989 e 2006, em quase todos os
setores da economia, sobretudo alimentares, como revelado na tabela
abaixo.
|
Cuba: indicadores da
produção física, 1989 e 2006 e variação 2006-1989 (%)
(milhares de
toneladas métricas, ou unidades especificadas) |
|
Setores, produtos |
1989 |
2006 |
2006-1989 % |
|
Petróleo |
718 |
2.900 |
303 |
|
Gás Natural (milhões
metros cúbicos) |
34 |
1.085 |
3.091 |
|
Níquel |
47 |
73 |
55 |
|
Açúcar |
8.121 |
1.474 |
-82 |
|
Aço |
314 |
257 |
-18 |
|
Cimento |
3.759 |
1.705 |
-55 |
|
Eletricidade (bilhões
kW/h) |
16 |
16 |
0 |
|
Têxteis (milhões de m2) |
220 |
27 |
-88 |
|
Fertilizantes |
898 |
41 |
-95 |
|
Charutos (unidades) |
308 |
418 |
35 |
|
Sapatos (milhões de
pares) |
12 |
3 |
-75 |
|
Sabão (lavanderia) |
37 |
14 |
-62 |
|
Cítricos |
1.016 |
373 |
-63 |
|
Arroz |
532 |
434 |
-18 |
|
Ovos (milhões de
unidades) |
2.673 |
2.341 |
-12 |
|
Leite (vaca) |
1.131 |
415 |
-63 |
|
Fumo |
42 |
29 |
-31 |
|
Gado (milhares de
cabeças) |
4.920 |
3.737 |
-24 |
|
Peixes e frutos do mar
|
192 |
55 |
-71 |
|
Fonte:
Carmela Mesa-Lago, “The Cuban Economy in 2006-2007”, op.
cit., p. 4. |
De fato, a situação
econômica é deveras preocupante, daí as tentativas do novo governo
pós-Fidel de introduzir algumas reformas pró-mercado para paliar
essas dificuldades, como já tinha ocorrido com diversos outros
países socialistas no período anterior à implosão final. Não é
preciso alinhar muitos dados sobre essa deterioração constante,
bastando mencionar o aumento da prostituição, do mercado negro e das
transações ilegais, bastante visíveis para qualquer turista que
tenha visitado a ilha nos últimos anos. Por uma dessas ironias da
história, uma das principais alegações para o exacerbado
nacionalismo e anti-americanismo cubano do período imediatamente
posterior à revolução foi, justamente, a eliminação da designação
infame da ilha como sendo o ‘bordel do imperialismo’. Aparentemente,
os velhos tempos estão de volta...
6. O mito do
imperialismo como ameaça
Finalmente, a escusa
principal do regime para tentar explicar as dificuldades da vida
econômica em Cuba sempre foi, historicamente, o ‘embargo americano’,
aparentemente responsável por todos os problemas da ilha. Trata-se,
provavelmente, do maior mito entretido pelo regime durante o último
meio século, posto que esse embargo é amplamente contornado pelo
comércio de Cuba com todos os demais países do mundo, sendo as
únicas exceções as empresas americanas instaladas nesses países. Na
verdade, como explicitado acima, os EUA converteram-se atualmente no
principal fornecedor de alimentos para Cuba, sendo que muitos outros
produtos americanos ingressam na ilha por terceiros países. A
alegação é falsa, portanto.
Pode-se mencionar,
também, as remessas dos cubanos emigrados a seus familiares na ilha,
um aporte tão ou mais substancial do que aquele representado pelas
transferências de trabalhadores mexicanos nos EUA para seu país
natal. Cabe registrar que são essas divisas, ademais das gorjetas
que médicos ou engenheiros ganham como taxistas clandestinos ou
guias turísticos, que permitem paliar, um pouco, a situação de
penúria absoluta da maior parte das famílias, aliás incontornável
para todos aqueles que não dispõem de uma fonte de renda em moedas
fortes.
De fato, o
imperialismo tentou derrubar o regime cubano em 1961, numa
desastrada operação da CIA que tinha sido montada ainda antes da
administração Kennedy, assim como a CIA tentou assassinar Fidel
Castro várias vezes, sem sucesso nenhum, em vista da excepcional
qualidade da inteligência cubana, muito bem treinada por soviéticos
e alemães orientais. Mas, as tentativas para minar o regime
terminaram logo depois da crise dos mísseis de 1962, assim como o
Congresso americano impôs um veto, desde os anos 1970, aos atentados
contra a vida do líder cubano. O que restou, de tudo isso, foi o
estúpido embargo americano, mais determinado pelo Congresso do que
pelo Executivo, em função das expropriações de propriedades
americanas não indenizadas no período de radicalização da revolução.
Se o embargo tivesse sido suspenso – o que é difícil em vista do
lobby cubano da Flórida – o regime não teria praticamente nenhuma
desculpa para os níveis baixíssimos de padrão de vida para a maioria
da população cubana.
Para ser mais
preciso, é verdade que o governo socialista cubano abandonou o FMI e
o Banco Mundial, consideradas entidades subordinadas a Washington,
mas Cuba nunca deixou de fazer parte do GATT – atualmente da OMC – e
pode, assim, transacionar com todos os demais membros do sistema
multilateral de comércio. Portanto, ainda que exista animosidade do
governo americano em relação ao regime socialista, na prática a ilha
está absolutamente livre para intercambiar produtos com a quase
totalidade do planeta, não o fazendo apenas por falta de
competitividade de sua economia e da ausência de oferta exportável,
inclusive de produtos tradicionais. O imperialismo, como diriam os
maoístas, é um tigre de papel, hoje sobretudo interessado na
normalização de relações, com o afastamento dos falcões do
ex-governo Bush. Cuba já é membro da Aladi e foi admitida no Grupo
do Rio, inclusive com o ativo apoio do Brasil, relacionando-se
normalmente com todos os países do hemisfério, à exceção,
ridiculamente, do império.
7. À guisa de
conclusão: um manifesto a favor do povo cubano
Para não dizer que
todos os acadêmicos ou intelectuais alimentam falácias sobre Cuba e
sua situação econômica e política, permito-me transcrever aqui um
manifesto de apoio ao povo cubano escrito por intelectuais
argentinos. Assim diz o texto, no original, com cortes mínimos por
conter informações desnecessárias:
“Ante la situación política de Cuba, un grupo de intelectuales
argentinos dio a conocer una declaración, en la que expresa su
apoyo moral al pueblo de ese país en su lucha para restablecer
el imperio de la libertad y la justicia en la tierra de Martí.
La declaración dice así:
“Los escritores y artistas argentinos que subscriben (...)
expresan su solidaridad con quienes, en otros pueblos de
América, luchan por la liberación de sus respectivos países,
sometidos a regímenes de fuerza. Desean manifestar especialmente
su apoyo moral al pueblo cubano, que, tremendamente agraviado y
despojado de las garantías elementales de la civilización
política, sufre persecución, vejamen y tortura, y lucha con
admirable decisión y valentía para abatir la dictadura y
restablecer, en la tierra de Martí, el imperio de la libertad y
la justicia, cimentados en la soberanía del pueblo y la vigencia
del derecho.”
Firmaram esse
documento dezenas de nomes de intelectuais conhecidos na história
artística e literária argentina, entre eles Adolfo Bioy Casares e
Jorge Luis Borges. Pois bem, como ambos escritores, como se sabe, já
não estão mais entre nós desde algum tempo, cabe fazer um
esclarecimento a respeito e agregar um comentário pessoal sobre esse
tipo de exercício, se eventualmente conduzido atualmente.
O texto, na verdade,
não é atual, tendo sido publicado no diário El Mundo, de
Buenos Aires, em 2 de março de 1958, e se referia, portanto, à luta
dos democratas e revolucionários cubanos contra a ditadura de
Fulgencio Batista, justamente. Os argentinos, então, saíam de uma
outra ditadura, ainda que alguns a classificassem simplesmente de
regime populista: o governo peronista, que tinha durando dez anos,
desde o imediato pós-segunda guerra. Os intelectuais argentinos se
orgulhavam, assim, de ter deixado para trás um triste período de sua
história e se dispunham a ajudar outros povos da América Latina que
também lutavam contra a ditadura em seus respectivos países,
antecipando um pouco o que seria a chamada “doutrina Betancourt”,
formulada depois de superada uma outra ditadura na Venezuela nesse
mesmo ano de 1958 (e que levou inclusive o governo venezuelano a
suspender relações diplomáticas com o Brasil, quando instalada aqui
a ditadura militar de 1964).
Se me permito,
agora, fazer um comentário atual, na verdade uma triste constatação,
seria esta. Não creio que, atualmente, intelectuais brasileiros ou
argentinos, ou de qualquer outro país latino-americano, se
dispusessem a assinar um manifesto do mesmo teor – que poderia ter,
inclusive, exatamente o mesmo texto – em favor do povo cubano, em
luta pelo restabelecimento da democracia e do império da liberdade,
da justiça e do direito naquela ilha, desde cinqüenta anos dominada
por um regime que prometeu acabar com uma ditadura opressiva.
Pode ser patético
fazer tal tipo de constatação “regressiva”, mas ela nos revela o
quanto recuaram os intelectuais latino-americanos na defesa da
democracia e da liberdade em nossos países. Em nome de não se sabe
qual ‘soberania popular’ e de não se sabe qual ameaça de ‘dominação
imperialista’, intelectuais dos países latino-americanos se mostram
muito mais dispostos, na verdade, a assinar, de forma totalmente
servil e incompreensível, manifestos em favor da continuidade da
ditadura na ilha caribenha. Se pretendesse citar nomes, eu poderia
alinhar alguns acadêmicos brasileiros que cometeram a indignidade de
apoiar o regime cubano quando este condenou à morte alguns
balseros (boat-people) que tentavam fugir da ilha, em
2003. Triste constatação, sem dúvida, que talvez merecesse adjetivos
mais fortes.
Esta última
constatação não constitui, obviamente, uma falácia acadêmica, no
sentido aqui analisado. Trata-se, mais propriamente, de uma renúncia
à inteligência e à dignidade intelectual, e de um abandono de
valores normalmente exibidos por membros da academia, como os dos
direitos humanos, do princípio democrático, da liberdade de opinião
e de expressão e, sobretudo, da liberdade de ir e vir, valores pelos
quais muitos desses acadêmicos se bateram durante a ditadura militar
brasileira. O fato de não termos, em direção do povo cubano, a mesma
defesa enfática de princípios e objetivos que animaram, no passado,
a comunidade acadêmica brasileira, só pode revelar uma deterioração
tremenda de seu senso moral ou mesmo da simples coerência com
valores filosóficos que deveriam ser universais. Mas, parece que
não...
Nota
1: Retirei o texto transcrito em espanhol, acima, do seguinte
capítulo neste livro: “Expresan su adhesión al pueblo de Cuba
intelectuales argentinos”. In: Jorge Luis Borges, Textos
Recobrados (1956-1986). Buenos Aires, Emecé Editores, 2007, p.
323-324.
Nota 2: Os dados econômicos referidos neste
ensaio foram retirados dos ‘proceedings’ de 2007, da Association for
the Study of the Cuban Economy, com o apoio da Universidade do
Texas, em Austin, neste link:
http://lanic.utexas.edu/project/asce/publications/proceedings/index.html;
adicionalmente, recorreu-se à publicação “Carta de Cuba, la
escritura de la libertad”, sob a responsabilidade de um conjunto de
autores e disponível no link:
http://www.elcato.org/node/3948; acesso em
fevereiro de 2009. |
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