Religião e Política:
Memória e História da Renovação Carismática Católica em Maringá
(PR)
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Parte II]
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parte I]
por Antonio Ozaí da Silva
RCC, Fé e Política
A RCC, como as demais manifestações religiosas,
por mais que se afaste do ‘mundo’ e priorize as relações com o
divino e o sagrado, se vê diante da realidade social e política
profanas. Religiosos de todos os tipos pisam no chão, ainda que
suas cabeças estejam voltadas ao sagrado e o pensamento no
paraíso. Em outras palavras, ao interagirem com a realidade
material concreta, profana e pecadora, vêem-se chamados a darem
respostas, a influenciarem e serem influenciados por esta.
Não foi diferente com a RCC. A política esteve
ausente em suas origens e por bom tempo da sua caminhada.
Sua existência se funda na espiritualidade, no resgate da fé,
dos carismas de caráter pentecostal. Na verdade, esta se via
diante de uma realidade sócio-política, interna e externa à
Igreja, que não era possível descartar. Por exemplo, ainda que
investisse primordialmente na espiritualidade, a RCC, até mesmo
por isso, sofria perseguições e tinha sua ação restringida pela
força da teologia da libertação impulsionada pelo contexto
político e social da época. Este dilema é reconhecido por Sidnei
de Oliveira Telles Filho, ex-Coordenador Nacional do Ministério
Fé e Política:
“Coincidentemente no Brasil a
experiência da RCC foi contemporânea dos grandes debates sócio
políticos na América Latina, com a influência dos documentos de
Medellim e Puebla, das Conferencias Episcopal Latino Americana,
a grande maioria dos lideres da RCC passou dentro de suas
paróquias e dioceses por esta formação, uma vez que o Espírito
nos impulsionava à participação na vida da Igreja e na pastoral
orgânica, apesar disto a falta de preparo na condução do
processo Eclesial no nascimento destas forças gerou uma tensão
política, uma vez que a matriz da RCC é a evangelização e a
busca de santidade, a ação do Espírito Santo para em
conseqüência transformar as estruturas e a matriz de outras
correntes é a da transformação das estruturas para gerar um
campo para o evangelho e por fim resultar na santidade pessoal,
este conflito gerou um bloqueio para a ação conjunta e mesmo
estrutural da RCC no campo da política, visto que era preciso
reforçar o caráter evangelizador, e a salvação apresentadas a
todos os homens, em especial aos pobres mas não somente a eles”
(TELLES Fº., 01.06.2005).
A RCC acaba por ser estigmatizada por opor fé e
política. Sua ênfase na espiritualidade induziu à crítica de que
desconsiderava a esfera política, priorizando uma concepção
intimista,
individualista e com risco de degenerar no fundamentalismo
religioso. O Documento 53 da CNBB,“Orientações
Pastorais sobre a Renovação Carismática Católica”,
alerta e deixa claro a preocupação da hierarquia católica
brasileira:
“35. Para não
prejudicar uma reta leitura da Bíblia, é preciso estar atentos
para não cair, entre outros, nos seguintes perigos: 1º O
fundamentalismo, que é fixar-se apenas no que as palavras dizem
"materialmente" sem respeitar o contexto nem a contribuição das
ciências bíblicas; 2º O intimismo, que é interpretar a Bíblia de
modo subjetivo, e até mágico, fazendo o texto dizer o que não
era intenção dos autores sagrados (...).
47. A fé não
pode ser reduzida a uma busca de satisfação de exigências
íntimas e de resposta às necessidades imediatas (...).
49. A
espiritualidade cristã integra o social e o espiritual, o humano
e o religioso. Não está, porém, isenta das ambigüidades e mesmo
distorções que podem caracterizar as reações do psiquismo
humano, seja individual, seja grupal. Por isso, evite-se
alimentar um clima de exaltação da emoção e do sentimento, que
enfatiza apenas a dimensão subjetiva da experiência da fé”
(CNBB, 1994).
Este documento
oficial expressa a necessidade da hierarquia da igreja católica
em enquadrar a RCC, estabelecendo os parâmetros da sua atuação.
Simultaneamente, expressa o reconhecimento da sua existência e
do direito de fazer parte da
ecclesia
e indica mudanças no interior da igreja católica, em especial
quanto aos aspectos doutrinários levantados pela concepção de
espiritualidade da RCC.
Não obstante a
dualidade instituída entre fé e política, espiritualidade e
razão, indivíduo e sociedade, a RCC evoluiu para uma compreensão
e atuação que também inclui a dimensão terrena, social e
política. As primeiras manifestações ocorrem na área da promoção
humana.
De início, portanto, a relação fé e política aparece sob esta
face. “A partir daí, brota a necessidade dos cristãos abrirem os
olhos e o coração para uma esfera mais ampla de caridade, onde o
bem praticado já não tem destinatário definido” (NASCIMENTO
et alli: 2007: 76).
Contudo, a
inclusão do tema política no interior da Renovação Carismática
Católica também é determinado pela necessidade de levar em conta
as orientações oficiais da Igreja, sua doutrina social e os
diversos documentos e posicionamentos oficiais e, não menos
importante, pelas necessidades inerentes à participação política
de seus membros, em especial líderes que disputam eleições e
exercem mandatos e cargos políticos. A atuação de indivíduos
junto aos movimentos sociais e partidos políticos, como durante
a reforma partidária com a redemocratização brasileira, assumia
um caráter diferente daquele que vinculava os leigos e clero da
Teologia da Libertação à militância social e partidária. Se
neste caso era considerado quase que como uma exigência natural
a participação em forças políticas como a CUT e o PT, o que
terminava por ter ressonância no trabalho pastoral, em relação à
RCC a pertença a partidos e movimentos sociais era diluída e
caracteristicamente uma decisão de cunho individual, sem
vínculos com o movimento carismático. Assim, por exemplo,
membros da Renovação Carismática aderiam em caráter pessoal ao
“movimento solidarista brasileiro, que teve como um dos seus
mais ilustres nomes o Ex Governador do Estado de São Paulo
Franco Montoro”. Esta “dupla pertença” gerava uma situação de
tensão e a Renovação se viu obrigada a se posicionar, em
especial, a partir do momento em que destacados membros de sua
direção, inclusive nacional, participavam da política (TELLES
Fº., 01.06.2005). Como relata o ex-Coordenador Nacional do
Ministério Fé e Política:
“A primeira participação na vida
pública com destaque nacional aconteceu com a eleição do
Deputado Federal Constituinte Osmânio Pereira de Oliveira em
Minas Gerais,
uma vez que o referido deputado foi Presidente do Conselho
Nacional da RCC do Brasil e membro do ICRS, escritório da
Renovação Carismática responsável por representá-la no mundo e
dentro da Santa Sé. (...) Temos que ressaltar que já haviam
políticos e participantes da vida publica que tinham tido
contato com a RCC, e outros foram participando desta experiência
de Deus, mas foi a primeira que mobilizou a RCC de uma forma
estruturada, no entanto era ainda uma ação de indivíduos que se
colocavam a serviço da sociedade. Algumas ações foram feitas a
partir deste momento procurando formar a liderança a respeito da
forma de caridade que é a ação política e de dar uma formação a
partir da doutrina social da Igreja.” (Id.).
A candidatura de
Osmânio Pereira de Oliveira também contribuiu para o debate no
interior da RCC, em especial entre a sua liderança, sobre a
relação do movimento com a política. O tema da política e, por
conseguinte, do compromisso político dos carismáticos, passou a
se fazer mais presente. É interessante observar que, mesmo neste
momento, a política é concebida como uma forma de caridade e
enquanto exigência moral da ação humana no mundo.
A experiência
política dos membros da RCC mostra a diversidade de posições e
ideologias políticas. Enquanto indivíduos aderiam às forças
políticas mais diversas, inclusive ao Partido dos Trabalhadores
(PT).
De qualquer forma, a partir da eleição de Osmânio Pereira de
Oliveira, a participação dos carismáticos na política ganhou
maior visibilidade:
“Nesta
segunda etapa apareceram outras personalidades da RCC que
exerceram mandatos nas câmaras de vereadores, nos executivos
municipais inclusive algumas lideranças a partir de seus
conselhos estaduais elegeram-se deputados estaduais, foi o caso
em Minas Gerais, Paraná, São Paulo, Goiás, Rio de janeiro,
apesar de discutidas em conselhos da RCC, estas candidaturas e
mandatos seguiram seus caminhos a partir dos partidos a que
estavam vinculados e da formação dentro da doutrina social, mas
sem uma capacidade real de acompanhamento por parte dos
respectivos conselhos, saíram dos grupos de oração e mantiveram
vínculos com eles os deputados federais Salvador Zimbaldi, hoje
no terceiro mandato e que alcançou em sua segunda candidatura
uma votação surpreendente, Durval Lopes Orlato ambos de São
Paulo, Osmânio Pereira de Oliveira e Odair José da Cunha de
Minas Gerais, e o surgimento de deputados simpatizantes ou
ligados a comunidades e organismos da renovação mas sem a
natureza de pertença e da participação na vida da RCC, também
vários deputados estaduais se elegeram no Paraná, Minas Gerais,
São Paulo, Rio de Janeiro, com um numero maior ainda de
vereadores” (TELLES Fº., 01.06.2005).
A RCC, então, se
viu diante da premência de incorporar a discussão sobre a
participação política dos seus membros, o compromisso destes com
a fé e as exigências morais e políticas da doutrina social
cristã e, é claro, de unificar sua postura diante da diversidade
ideológica e política. O Conselho Nacional decidiu criar uma
secretaria específica, a “Secretaria Matias”, para debater e
definir as orientações para a atuação política dos seus membros,
e escolheu Hucley Coelho, do Mato Grosso do Sul, como
coordenador nacional.
A concepção
política que norteia as orientações da Secretaria Matias repousa
sobre a clássica definição da ação política em prol do bem
comum. Mas o que é o bem comum?
“Compreende o
conjunto daquelas condições de vida social que permitem os
grupos e cada um de seus membros atingir de maneira mais
concreta e desembaraçadamente a própria perfeição (GS 26).
O bem comum
implica em direitos e deveres que dizem respeito a todo gênero
humano, devendo levar em conta as necessidades e aspirações
legítimas de todos. Seus direito e deveres são invioláveis e
portanto devem se tornar acessíveis ao homem, para que ele
alcance a dignidade de filho de Deus,
O fim da vida
social é o bem comum que leva desinteressadamente, mas
eqüitativamente, a distribuir por todos os seus associados em
todas as suas necessidades, físicas, intelectuais, morais e
religiosas. “Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre,
nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gal
3,28) (RCC/CN, 1998:26)
O cristão deve,
portanto, se comprometer com a política. Não cabe à Igreja
enquanto instituição interferir diretamente na política terrena.
Esta é uma esfera que cabe especialmente ao leigo, o qual tem
como “dever central a justa ordem da sociedade”. É nesta
perspectiva que a fé e a política se amalgamam. “Conclui-se que
o objetivo e a medida intrínseca de toda política é a justiça. É
aqui que a política e a fé se tocam”, afirma Marizete
(NASCIMENTO, LACERDA et alli, 2007: 82). Atuar politicamente em
prol do bem comum é dever e direito dos cristãos. Como proclama
João Paulo II, na Chistifidelis Laici:
“As acusações
de arrivismo, idolatria do poder, egoísmo e corrupção que muitas
vezes são dirigidas aos homens do governo e do parlamento, da
classe dominante ou partido político, bem como a opinião muito
difusa de que a política é um lugar de necessário perigo moral,
não justificam o ceticismo dos cristãos pela coisa pública”.
O fundamento da
política dos carismáticos, e para a religião em geral, é de
cunho moral, ou seja, pauta-se pela moral religiosa e pela
vinculação entre fé e política na perspectiva do sagrado. É uma
concepção teológica da política, pois vincula esta à salvação e
à construção do Reino de Deus na terra. A Secretaria Matias
expõe esta noção sobre a política na cartilha que elaborou para
a formação dos líderes carismáticos, “capazes de ocupar, como
verdadeiros cristãos, os espaços da vida política nacional”.
A Secretaria
Matias, na apresentação, cita a
Lumen Gentium:
“Para
expandir o projeto de Deus, o cristão deve comprometer-se com a
criação de uma sociedade justa e solidária, eliminado o pecado
como gerador de divisão com Deus e os irmãos. A dimensão social
da fé, à luz da Doutrina Social da Igreja, requer a luta para
debelar as estruturas do pecado pessoal, comunitário, social e
estrutural e assim, estabelecer o Reino de Cristo e de Deus”
(LG5, cit.
In. RCC/CN, 1998: 3).
Nesta nova fase,
quando a política passa a ganhar relevo no interior da RCC,
observa-se em suas publicações, declarações e documentos
internos, a constante referência aos documentos oficiais da
Igreja sobre o tema. Recorre-se mesmo às fontes antes comumente
citadas pela teologia da libertação, o que deixa transparecer
certas similitudes discursivas (o que não causa surpresa, já que
a fonte original é a mesma).
A RCC objetiva
evangelizar os que atuam no setor público e construir a
“civilização do amor”. O Projeto Político Nacional,
aprovado por seu Conselho Nacional, tem como objetivo principal
“a conversão das pessoas envolvidas” com a máquina do governo em
todas as suas esferas e, inclusive, do setor empresarial. Essa
“evangelização do meio público” objetiva formar os indivíduos
dentro dos princípios da Doutrina Social da Igreja e da Moral
Social. Outra frente de atuação neste campo, é o acompanhamento
do processo eleitoral, o que envolve uma postura em relação aos
eleitores (“sensibilização sobre o voto e os mecanismos que
regem as eleições”); aos políticos (como candidatos ou
mandatários), o que inclui o acompanhamento do mandato, no
sentido de verificar se há coerência entre a atuação do eleito e
as exigências morais e éticas da Renovação; e, finalmente,
inclui o posicionamento desta em relação à política, desde o
nível local, “para o qual se aconselha que seja em comunhão com
a Igreja”.
Nas palavras da Coordenadora Nacional, Marizete Martins Nunes do
Nascimento,
“a ação do
Ministério Fé e Política, visa proporcionar a evangelização e o
esclarecimento aos vocacionados à política partidária para que
possam, a partir do consenso interno do Movimento da Renovação
Carismática Católica, serem apresentados à sociedade como opção
de escolha, por escrutínio, para o exercício do mandato
político, representando o povo e sendo a sua voz frente às
necessidades do Bairro, Cidade, do Estado, da Nação, podendo
gozar a confiança do povo, por estarem em processo de conversão
pessoal e terem em Deus e na comunidade o principal sustentáculo
para o exercício do seu mandato” (NASCIMENTO, LACERDA et alli,
2007: 12).
É uma política que se pretende amparada na moral
cristã. Coerentes quanto à fé, honestos, evangelizadores,
exemplos a serem seguidos, candidatos a santos em meio a
pecadores, eis o perfil que se espera do cristão carismático que
se compromete com a política.
A fé se encontra com a política, e vice-versa, não apenas na
esfera política partidária. O Ministério Fé e Política realiza
ações concretas e campanhas conjuntas, envolvendo outros
ministérios.
A atuação política da RCC em Maringá
Raul Pimenta (Coordenador da Equipe de Serviço
Diocesana), em texto publicado no Água Viva, Boletim
Informativo da RCC Maringá, de outubro de 1994, faz um
chamamento à que os carismáticos votem nos candidatos: Emerson
Nerone (deputado estadual) e Sidnei Telles (deputado federal).
Ambos concorriam às eleições pelo Partido dos Trabalhadores
e com o apoio declarado da RCC:
“No Estado do Paraná os
coordenadores diocesanos se reuniram em um dia de oração
buscando conhecer a vontade do Senhor, sendo manifestada na
escolha de dois candidatos para nos representar.
Um Deputado Estadual – EMERSON NERONE.
Um Deputado Federal – SIDNEI
TELLES.
Conhecendo seu testemunho e
impedindo assim que dentro dos nossos Grupos de Oração surgissem
pessoas oportunistas que dizem (sic) cristãos mas não
são.
Por isso nós não podíamos deixar de nos
posicionar, convocando todos os cristãos para orar sem cessar no
dia 03 de outubro para que o Espírito Santo coloque em todos os
corações a vontade do Pai.
Irmãos é nossa responsabilidade,
não fuja dela” (PIMENTA, 1994:1).
Emerson Nerone era vereador pelo Partido dos
Trabalhadores, eleito com o apoio da RCC.
Sidnei Telles relata que houve uma reunião na qual todos queriam
que fosse o candidato. Na época, ele estava no PSDB e fez
campanha pelo parlamentarismo. Ele declinou da indicação:
“E aí nós escolhemos um jovem, que era membro
da equipe de serviço, sindicalista no Banco do Brasil e era
do PT. Era o Emerson Nerone. O elegemos. Não tiro os méritos
dele, claro, como sindicalista, mas todos nós trabalhamos
pra isso. Uma vez eleito, ele considerou que o caminho mais
fácil para a candidatura que íamos ter a deputado, em vista
da inserção mais forte da Renovação Carismática, seria pelo
PT, uma vez que ele era mandatário do PT. Então me filiei ao
PT, com muita luta interna, não é?! Na época, ser do PSDB
não era um problema. Pelo contrário, era um partido de
centro-esquerda esquerda. Disputamos essa eleição. Tornei-me
formador do PT, responsável pela formação e pela regional. E
militei no PT durante mais quatro anos. Só saí do PT porque
na época nós – eu, com muitas dúvidas, afinal, não tinha
convicção disso – achamos que o melhor caminho era construir
outro partido que fosse independente. Construímos então o
PSN, Partido da Solidariedade Nacional. Eu saí pelo Brasil
construindo este partido, dando ensinamento e formação para
os membros da igreja a respeito da Doutrina Social da
Igreja. E aí disputei a segunda eleição pra deputado
estadual por esse partido. Fiquei de suplente, acabei
assumindo. Este partido depois se extinguiu, tornando-se
outra sigla e aí já não me interessou mais porque mudou os
princípios e os propósitos” (Entrevista ao autor,
15.02.2007).
Na época, Valter Viana, atual vereador pelo PHS
em Maringá, participava do Grupo de Oração de Jovens, que se
reunia na casa do Sr. Israel. Ele conta que numa destas reuniões
o líder do grupo informou que a RCC-Maringá tinha um candidato a
vereador, o Emerson Nerone, e que era preciso organizar o apoio
à campanha eleitoral. “Eu não o conhecia”, disse Viana. Mas,
prontamente se dispôs a colaborar. “Automaticamente chamei o seu
Israel e disse pode deixar que eu coordeno”, afirma (Entrevista
ao autor, 23.02.2007).
Emerson José Nerone se tornou o primeiro membro
vinculado à RCC com mandato político na cidade de Maringá. Isto
representa um marco importante na trajetória da Renovação
Carismática no que diz respeito à relação fé e política. Até
então predominava uma relação de tensão e desconfiança dos
carismáticos, mesmo entre os dirigentes. O testemunho de Valter
Viana é esclarecedor:
“Eu era filiado ao PT na época. Mas quando
entrei na Renovação dei uma afastada. Porque também naquela
época tinha-se a visão de que a Renovação não se envolvia
com política, de que tinha que ser separado política e
igreja. Não posso dizer que era 100% dos seus membros, mas
tinha essa visão de que a Igreja não tinha que se envolver
com política. Então, automaticamente me afastei do processo
político e do PT. Não me desfiliei, mas me afastei do
partido e das discussões políticas” (idem).
Ierecê
Jussara Correia Gilberto observou que o envolvimento com a
política foi encarado de forma tranqüila entre a liderança,
“porque já tinha uma caminhada mais madura”. O mesmo não
ocorreu em relação aos novatos na RCC. Com estes, houve “um
embate bem difícil, bem complicado na época. Porque tinha-se
aquela visão de que fé e política não tem como caminhar
juntas, que vai dividir. Principalmente com relação ao PT.
Tinha uma visão muito negativa em relação ao PT” (entrevista
ao autor, 21.02.07).
A resistência à participação política-partidária
começa a se flexibilizar a partir da liderança e dos esforços
para a formação quanto à Doutrina Social da Igreja, encíclicas,
documentos oficiais e o chamamento ao comprometimento dos leigos
com a realidade social e política. Nas palavras de Valter Viana:
“As lideranças da Renovação passaram a ter
uma formação não apenas bíblica, mas formação religiosa da
doutrina da igreja. Com isso, a idéia foi mudando. Se a
igreja pensa, nós também temos que pensar e temos que
participar na política. E aí foi criando uma conscientização
política dentro da Renovação. Outras pessoas também
começaram a participar dos partidos políticos, a se envolver
no processo político, de uma forma ou de outra, como
candidato ou ajudando o candidato. Acho que o que ajudou os
membros da Renovação a ter este espaço para a participação
política foi a formação que o pessoal começou a ter e tem
hoje. Não só da Bíblia, mas também daquilo que a Igreja
prega, daquilo que ela ensina” (Entrevista ao autor,
23.02.07).
Por outro lado, temos que considerar a vocação de
determinados indivíduos em participarem da política. Este
processo deve ser avaliado a partir da realidade nacional, isto
é, da crescente preocupação da coordenação nacional em
relacionar fé e política. Contudo, também deve-se levar em conta
as particularidades maringaenses, incluindo a candidatura e
eleição de Emerson Nerone a vereador e posteriormente à
assembléia legislativa paranaense e a militância política de
outros como Osvaldo Reginato, José do Nascimento Neto, Sidnei
Telles e Valter Viana. Este último, quando da eleição do
vereador Nerone, não era ainda uma liderança de destaque na RCC.
Valter Viana viria a desempenhar funções importantes no interior
desta
e também na política maringaense, sendo eleito vereador duas
vezes e um dos principais organizadores e fundador do Partido
Humanista da Solidariedade (PHS) – ex-Partido Solidarista
Nacional (PSN).
Sidnei Telles também teve participação importante
na organização do PSN/PHS, mas terminou por se distanciar e
mudar de partido. Em sua avaliação, ao se unir a grupos
humanistas, por exemplo do Rio Grande do Sul, o PSN tomou um
rumo diferente. “Hoje há dúvida se de fato o partido era o
melhor caminho. Creio que não. O melhor caminho é cristãos
comprometidos com um grande projeto que possa se aliar e dirigir
um projeto mesmo em partidos distintos, mas com um compromisso
maior com o evangelho do que com o seu partido”, argumenta
Telles (entrevista, 15.02.07). Já na avaliação de Nascimento:
“O PSN não tinha uma liderança forte, em
nível federal, e precisava para poder garantir a sua
existência. O PH tinha um nome forte federal, só que nos
estados tinha pouca representatividade. Aí juntou a
representatividade do PSN em alguns estados, que era o
necessário, que o partido existia oficialmente, com a
representatividade federal do PH, que era só o Partido
Humanista. Iniciou-se uma discussão entre... sobre a sigla e
tal. Chegou-se a um acordo e ficou Partido Humanista da
Solidariedade. Porque nem todo humanista é solidário, chegou
a essa conclusão. O fato de você ser solidário não quer
dizer também que necessariamente você seja humanista. De
repente sou humanista, penso no ser humano e tal, mas na
hora que preciso ser solidário não sou. Mas eu defendo a
causa e tal... mas eu sou solidário, aí eu tenho mais chance
de ser humanista do que humanista que solidário”
(Entrevista, 14.02.07).
Outro depoimento importante sobre este ponto foi
dado pelo professor Antonio Carlos Lugnani:
“Os documentos da igreja são claríssimos. Os
leigos têm um papel de ser agente de transformação da
sociedade, na vida política e ninguém deve fugir do desafio
político. Os documentos da igreja são claríssimos neste
sentido. Então o cara vai participar aonde, em que partido?
Os partidos políticos padecem de uma contaminação, jogo de
interesses. Por que não começar um movimento novo, um
partido com uma ideologia muito clara e que tenha uma ética
muito bem desenhada. Aí vem a idéia de se fundar um partido.
Não seria o PDC, partido democrata cristão, porque já está
um pouco batido. O ser humano tem uma capacidade de deturpar
as coisas. Vamos começar um partido novo. A caminhada dele é
complicadíssima porque você vai entrar numa seara que é
complicada. Nosso grande desafio dentro de um partido
político é estar com gente e não se contaminar pelo que a
política tem de ruim, mas usar os bons meios que ela
fornece. É tratar a política com ‘P’ maiúsculo e fazer a
ação política para o bem-comum. Então é assim que nasce o
partido” (entrevista, 15.02.07).
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