Lembrando
o Bento
O Bergsoniano
Bento Prado Jr. (1937-2007)
Bento
Prado de Almeida Ferraz Jr., o grande filósofo brasileiro faleceu
em Janeiro último. Morando longe do Brasil tivemos somente as
lembranças de uma juventude vivida em comum e muitos anos depois,
das intensas conversas com ele, durante as nossas visitas anuais ao
Brasil. Histórias familiares e o interesse pela filosofia da evolução
misturam-se neste curto ensaio panegírico.
Junior,
como era chamado em família, nasceu em Jaú, mas de fato viveu e
cresceu em São Paulo. Apesar disso, ele sempre permaneceu em certo
sentido um interiorano, gostando da vida pacata e do ar livre. Não
se modernizou. Entre as botas que calçava na sua fazenda, a bengala
e a gravata borboleta que vestia quando ia para São Paulo, faltava
a imagem do homem do mundo moderno.
Muitos
aspectos da biografia do Bento já foram publicados. A sua primeira
tese escrita durante a primeira estadia em França entre 1961-1963
foi sobre Rousseau. Poucos anos depois publicou um ensaio num livro
em homenagem a Lévi-Strauss intitulado "Philosophie, musique
et botanique – de Rousseau á Lévi-Strauss" (publicado no
Brasil em 1968). O próprio Lévi-Strauss ajudou depois o Bento a
obter uma bolsa do CNRS na França, quando foi cassado.
A
noite que Bento passou na prisão durante a "guerra"
em Maria Antônia de 1968 ficou famosa na nossa família. O biógrafo
Ted Goertzel afirma que na verdade foi o Fernando Henrique Cardoso,
colega de estudos e de faculdade do Bento, que a polícia queria
prender. Foram ambos, entre os 23 docentes aposentados da USP em
1969 por um Decreto Presidencial.
Bento
e Fernando Henrique foram e ficaram bons amigos, mesmo quando Bento
não se mostrou interessado por qualquer função no governo do
amigo. Discreto, ele nunca sonhou ser ministro ou preencher outro
cargo oficial. O seu protesto foi se recusar a reassumir seu cargo
na USP depois da volta do exílio. A posição na Universidade de São
Carlos, no interior menos tenso e nervoso, correspondia mais à sua
personalidade.
A
melhor caracterização póstuma do Bento veio da parte do Antonio
Candido: “Bento Prado Junior
era simples, discreto, cheio de humor, muito poético, capaz de
olhar o mundo com a lucidez singularmente revestida de pureza”.
Perto do ideal rousseauniano, Bento evitava quanto possível todas
as preocupações mundanas, financeiras e técnicas. Vivia somente
na família, no mundo da filosofia e da literatura.
Mesmo
exilado na França, Bento e a sua família, escolheram morar longe
de Paris, em Pierres, num casarão com quintal grande, muito a seu
gosto. Amava aquela casa. Foi aqui que Bento Prado Neto, de quatro
anos, decidiu ser também professor de "filosofia" como
seu pai. Hoje ele é professor de filosofia na Universidade de São
Carlos.
Neste
quintal, dois corvos, Chico e Juca, pareciam saber que Lúcia,
mulher do Bento, fazia neste tempo o seu doutoramento em
comportamento animal (de formigas...), se especializaram para
alegria de todos, em sistematicamente roubar isqueiros coloridos e
armazená-los num canto escondido sob uma árvore.
Na
França, Bento fez os seus importantes estudos sobre Bérgson.
Bento,
falando do grande filósofo francês, chegou a exprimir para nós a
sua admiração pelo exemplo pessoal dado por Bérgson: judeu
convertido, e já laureado com um prêmio Nobel, Bérgson se recusou
a receber um tratamento especial que lhe foi oferecido sob a ocupação
alemã. Ele insistiu em ficar solidário com os seus antigos
correligionários perseguidos. Descendente de uma família de cristãos
novos, Bento gostava muito mencionar a sua possível ascendência, o
filósofo judeu Juan do Prado que foi o mestre de um outro Bento
cristão novo, o Benedito de Espinoza.
Além
do convívio familiar, foi a biologia do Bérgson que nos aproximou
nos últimos anos. Curiosamente, Bento publicou sua tese, sua maior
obra, “Presença e campo transcendental: consciência e
negatividade na filosofia de Bérgson" somente em 1988.
Traduzido para o francês em 2002 pelo filósofo Renaud Barabás, o
livro foi muito bem recebido no exterior. Uma resenha dizia que o
livro “apresenta uma espécie de corte de um dos períodos os mais
fecundos da filosofia francesa”. O livro resultou numa verdadeira
reatualização do Bérgson na França e na Inglaterra, onde Bento
foi por duas vezes convidado a participar e lecionar em seguida.
Dotado
também de um refinado talento literário, Bento se definia mais
como um filósofo literário e não como um filósofo da ciência.
Mesmo assim, como dizia numa das suas entrevistas publicadas,
relacionando-se a contraposição Bérgson-Einstein feita pelo filósofo
Merleau-Ponty, “não são filósofos que são culpados pela ignorância
da ciência, mas sim os cientistas pela ignorância da
filosofia".
Iniciamos
uma interação muito frutuosa quando ele ficou sabendo que um de nós
( F. D. Por) apreciava
o Bérgson da "L'Evolution Creatrice" e não como
"vitalista", como fazia a grande maioria dos outros biólogos
evolucionistas, se iniciou uma interação muito frutuosa. As minhas
idéias sobre a participação ativa do organismo animal na sua própria
evolução, em oposição ao mecanicismo casuístico cego, e a idéia
de uma evolução progressiva no mundo animal, encontravam-se em
concordância com as idéias do grande filósofo francês. Bento
ficou muito interessado em se atualizar com as discussões travadas
na comunidade dos biólogos evolucionistas da atualidade. Fui
convidado dar uma palestra em seu curso em São Carlos, e estimulado
a escrever um artigo para a publicação dos bergsonianos na França.
Perdemos
um irmão e um cunhado. Uma frutuosa interação entre biólogos e
um dos maiores filósofos da atualidade foi cortada.
Bento
continuou lecionando, semanas antes de se calar para sempre. Como
eminente professor, gostava de platéia. Morreu no seu palco.
Jerusalém,
Março de 2007.
por
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FRANCIS
DOV POR* & MARIA SCINTILA DE ALMEIDA PRADO
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