por FRANCIS DOV POR MARIA SCINTILA DE ALMEIDA PRADO POR

Francis Dov Por, nascido 1927 na Romênia. Desde 1960 na Universidade Hebraica de Jerusalém. Professor emérito de zoologia, na área de zoologia aquática, biogeografia e evolução. Presidente Fundador da Sociedade Internacional de Zoologia.
Professor convidado da USP, Depto. de Ecologia Geral, 1981-1997.

 

Maria Scintila de Almeida Prado Por é bióloga , assistente professora  do Instituto Oceanogrâfico da USP. Apos sua aposentadoría em 1986 , trabalhou e vive em Jerusalém

 

Lembrando o Bento

O Bergsoniano Bento Prado Jr. (1937-2007)

 

Bento Prado Jr. (1937-2007)Bento Prado de Almeida Ferraz Jr., o grande filósofo brasileiro faleceu em Janeiro último. Morando longe do Brasil tivemos somente as lembranças de uma juventude vivida em comum e muitos anos depois, das intensas conversas com ele, durante as nossas visitas anuais ao Brasil. Histórias familiares e o interesse pela filosofia da evolução misturam-se neste curto ensaio panegírico.

Junior, como era chamado em família, nasceu em Jaú, mas de fato viveu e cresceu em São Paulo. Apesar disso, ele sempre permaneceu em certo sentido um interiorano, gostando da vida pacata e do ar livre. Não se modernizou. Entre as botas que calçava na sua fazenda, a bengala e a gravata borboleta que vestia quando ia para São Paulo, faltava a imagem do homem do mundo moderno.

Muitos aspectos da biografia do Bento já foram publicados. A sua primeira tese escrita durante a primeira estadia em França entre 1961-1963 foi sobre Rousseau. Poucos anos depois publicou um ensaio num livro em homenagem a Lévi-Strauss intitulado "Philosophie, musique et botanique – de Rousseau á Lévi-Strauss" (publicado no Brasil em 1968). O próprio Lévi-Strauss ajudou depois o Bento a obter uma bolsa do CNRS na França, quando foi cassado.

A noite que Bento passou na prisão durante a "guerra" em Maria Antônia de 1968 ficou famosa na nossa família. O biógrafo Ted Goertzel afirma que na verdade foi o Fernando Henrique Cardoso, colega de estudos e de faculdade do Bento, que a polícia queria prender. Foram ambos, entre os 23 docentes aposentados da USP em 1969 por um Decreto Presidencial.

Bento e Fernando Henrique foram e ficaram bons amigos, mesmo quando Bento não se mostrou interessado por qualquer função no governo do amigo. Discreto, ele nunca sonhou ser ministro ou preencher outro cargo oficial. O seu protesto foi se recusar a reassumir seu cargo na USP depois da volta do exílio. A posição na Universidade de São Carlos, no interior menos tenso e nervoso, correspondia mais à sua personalidade.

A melhor caracterização póstuma do Bento veio da parte do Antonio Candido: Bento Prado Junior era simples, discreto, cheio de humor, muito poético, capaz de olhar o mundo com a lucidez singularmente revestida de pureza”. Perto do ideal rousseauniano, Bento evitava quanto possível todas as preocupações mundanas, financeiras e técnicas. Vivia somente na família, no mundo da filosofia e da literatura.

Mesmo exilado na França, Bento e a sua família, escolheram morar longe de Paris, em Pierres, num casarão com quintal grande, muito a seu gosto. Amava aquela casa. Foi aqui que Bento Prado Neto, de quatro anos, decidiu ser também professor de "filosofia" como seu pai. Hoje ele é professor de filosofia na Universidade de São Carlos.

Neste quintal, dois corvos, Chico e Juca, pareciam saber que Lúcia, mulher do Bento, fazia neste tempo o seu doutoramento em comportamento animal (de formigas...), se especializaram para alegria de todos, em sistematicamente roubar isqueiros coloridos e armazená-los num canto escondido sob uma árvore.

Na França, Bento fez os seus importantes estudos sobre Bérgson.

Bento, falando do grande filósofo francês, chegou a exprimir para nós a sua admiração pelo exemplo pessoal dado por Bérgson: judeu convertido, e já laureado com um prêmio Nobel, Bérgson se recusou a receber um tratamento especial que lhe foi oferecido sob a ocupação alemã. Ele insistiu em ficar solidário com os seus antigos correligionários perseguidos. Descendente de uma família de cristãos novos, Bento gostava muito mencionar a sua possível ascendência, o filósofo judeu Juan do Prado que foi o mestre de um outro Bento cristão novo, o Benedito de Espinoza.

Além do convívio familiar, foi a biologia do Bérgson que nos aproximou nos últimos anos. Curiosamente, Bento publicou sua tese, sua maior obra, “Presença e campo transcendental: consciência e negatividade na filosofia de Bérgson" somente em 1988. Traduzido para o francês em 2002 pelo filósofo Renaud Barabás, o livro foi muito bem recebido no exterior. Uma resenha dizia que o livro “apresenta uma espécie de corte de um dos períodos os mais fecundos da filosofia francesa”. O livro resultou numa verdadeira reatualização do Bérgson na França e na Inglaterra, onde Bento foi por duas vezes convidado a participar e lecionar em seguida.

Dotado também de um refinado talento literário, Bento se definia mais como um filósofo literário e não como um filósofo da ciência. Mesmo assim, como dizia numa das suas entrevistas publicadas, relacionando-se a contraposição Bérgson-Einstein feita pelo filósofo Merleau-Ponty, “não são filósofos que são culpados pela ignorância da ciência, mas sim os cientistas pela ignorância da filosofia".

Iniciamos uma interação muito frutuosa quando ele ficou sabendo que um de nós ( F. D. Por)  apreciava  o Bérgson da "L'Evolution Creatrice" e não como "vitalista", como fazia a grande maioria dos outros biólogos evolucionistas, se iniciou uma interação muito frutuosa. As minhas idéias sobre a participação ativa do organismo animal na sua própria evolução, em oposição ao mecanicismo casuístico cego, e a idéia de uma evolução progressiva no mundo animal, encontravam-se em concordância com as idéias do grande filósofo francês. Bento ficou muito interessado em se atualizar com as discussões travadas na comunidade dos biólogos evolucionistas da atualidade. Fui convidado dar uma palestra em seu curso em São Carlos, e estimulado a escrever um artigo para a publicação dos bergsonianos na França.

Perdemos um irmão e um cunhado. Uma frutuosa interação entre biólogos e um dos maiores filósofos da atualidade foi cortada.

Bento continuou lecionando, semanas antes de se calar para sempre. Como eminente professor, gostava de platéia. Morreu no seu palco.

Jerusalém, Março de 2007.

 

por por FRANCIS DOV POR* & MARIA SCINTILA DE ALMEIDA PRADO POR

 

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