Hizbullah
à mesa: Royal Straight Flush à vista?
Quem
dá as cartas no jogo Hizbullah-Israel? A trajetória desses dois
atores vem proporcionando jogadas bastante elaboradas, muitas vezes,
sem que se consiga entender exatamente qual é o objetivo do
jogador. Um desses lances, bem elaborado... e estranho, se deu em
julho último. Depois de um atrito na fronteira entre a milícia
xiita libanesa (Hizbullah) e soldados israelenses, o Estado de
Israel resolveu fazer uma jogada que poderia desestruturar seu
adversário e, quem sabe, até a
mesa.
Para
entender a relação entre Hizbullah e Israel não é possível
ater-se somente às questões religiosas, políticas ou econômicas.
Tal é a quantidade de fatores que orbitam esses atores que, somente
ampliando o raio de análise será possível entender melhor a razão
para que o conflito não chegue ao fim.
Assim,
esses atores vêm prolongando a partida, blefando e usando todos os
recursos necessários para que o fim signifique a impossibilidade de
o adversário retornar à mesa,
ou seja, para que um vença e o outro perca tudo: um “jogo de soma
zero”. E, talvez, o “perder tudo” não esteja sendo utilizado
de maneira figurada, somente com a aniquilação da outra parte o
jogo será concluído.
Outro
aspecto interessante dessa é o fato de que a
mesa aonde o jogo se desenvolve continua a atrair muitos
espectadores. Talvez o termo espectador não caiba nesse contexto,
haja vista, serem muito mais que passivos observadores. Alguns
torcem pela vitória de um dos atores por questões políticas,
outros, por questões ideológicas, temos ainda aqueles que se
alinham religiosamente à causa, por fim, também há os que apenas
querem utilizar o jogo para obter vantagens colaterais.
De
fato, mesmo quando o jogo principal entre Hizbullah e Israel tem uma
trégua estratégica, os demais espectadores acabam assumindo outros
papéis no intuito de conseguir as vantagens que buscavam ou, quiçá,
recolher os louros da vitória com as apostas que fizeram na última
rodadas de cartas que foi jogada.
O
mais interessante nesse jogo não é saber quem irá ganhar, uma vez
que, como se pressupõem, o final está muito distante porque não
advirá apenas com a derrota momentânea no adversário, mas sim com
seu compromisso de que não voltará à mesa nunca mais, e isso dificilmente acontecerá. A partida entre
esses dois atores é longa e marcada pelas revanches. Perder hoje é
apenas resultado de uma mão de cartas mal dada... E sempre haverá
quem empreste uma ficha para que o jogo não termine.
Então,
entender o conflito entre Hizbullah e Israel não é o mais
importante se o objetivo for conhecer os atores, para isso, deve-se
observar como esses espectadores do jogo influem na partida. E mais,
saber até onde poderão estender essa influência.
Um cenário inóspito
Desde
o início da década de 1980 o cenário internacional passou a
conhecer o Hizbullah. O Líbano encontrava-se numa Guerra Civil que
iniciara em 1975 e que já havia dizimado o país. A população
xiita – que não era tratada como os demais cidadãos libaneses,
sendo subjugada e vivendo em condições políticas, sociais e econômicas
muito inferiores –, gradualmente foi se desprendendo do Estado e
estreitando suas relações com as organizações que supriam suas
necessidades. Primeiramente tivemos o Amal, depois, com a secularização
dessa organização, houve a ascensão do Hizbullah.
Assim,
o Hizbullah passou a atender grande parte das necessidades da população
xiita libanesa. Criou escolas, hospitais, consultórios odontológicos,
faculdade, mesquitas, etc. Cada vez mais cumpria os deveres do
Estado e, num momento ímpar, quando a Guerra Civil colocava em
xeque a autoridade central do país – desempenhada por cristãos
maronitas – a ligação da população com o Hizbullah acabou se
intensificando.
Como
a Guerra Civil pode ser entendida como o resultado de uma demanda da
população xiita – e mesmo de outros grupos excluídos do poder,
como sunitas e drusos – por uma maior participação nos desígnios
do Estado e fim do sectarismo político, é bem provável que o
Hizbullah surgisse para atender os anseios de sua comunidade. No
entanto, esse momento foi precipitado pela presença do Estado de
Israel no conflito libanês.
Em
1978 os israelenses invadiram o Líbano no intuito de frear as
atividades militares da OLP (Organização para a Libertação da
Palestina), porém, foi em 1982 que o exército de Israel invadiu o
país, marchou até Beirute, expulsou a OLP e, ao retornar, acabou
criando a “Zona de Segurança” numa faixa que abrangia 10% do
território libanês.
Logo
no início dos anos de 1980, ainda sem a formalização do Hizbullah,
outras organizações menores – que futuramente viriam a
integrar-se ao Hizbullah – programaram grandes atentados com
“homens-bomba” contra alvos estadunidenses, franceses e
israelenses.
Essas
ações mudaram o rumo da história libanesa. A luta numa guerra
convencional facilmente seria vencida por Israel, ou mesmo pelos
Estados Unidos, entretanto, frustrados com a derrota no Vietnã, o
governo norte-americano, após o atentado ao seu quartel em Beirute,
optou por retirar suas tropas do Líbano antes que fosse tarde
demais.
A
grande falha dos Estados Unidos foi ter permanecido do Líbano após
a retirada dos milicianos da OLP. No intuito de impedir que a Guerra
Civil se alastrasse ainda mais pelo país e se tornasse mais
sangrenta do que já era; cada vez mais o exército norte-americano
foi se alinhando aos israelenses e maronitas, contra muçulmanos e
drusos. A retaliação não demorou e, em 1983, 241 militares foram
vitimados com a explosão de um caminhão-bomba em frente ao quartel
general dos marines. (JABER,
1997)
Nesse
panorama, em 1985, o Hizbullah divulga sua Carta Aberta, na qual
fazia uma opção fundamentalmente estratégica ao escolher o
inimigo comum de grande parte dos muçulmanos (o Estado de Israel)
para ser alvo de sua luta, ante mesmo a direcionar suas forças na
solução das questões internas libanesas. O Hizbullah continuava
envolvido na Guerra Civil, entretanto, ao optar por travar sua lutar
contra a existência de Israel, conforme a Carta Aberta explicitava,
"A
Necessidade de Destruição de Israel
Nós
vemos em Israel a linha de frente dos Estados Unidos em nosso mundo
islâmico. É um inimigo odiado que deve ser combatido até que os
demais, também odiados, tenham o que merecem. Esse inimigo é o
maior perigo para nossas futuras gerações e para o destino de
nossas terras, particularmente porque ele glorifica as idéias de
assentamentos e expansão. Iniciadas na Palestina e ansiando
expandir até a extensão da Grande Israel, do Eufrates ao Nilo.
Nossa
primeira hipótese em nossa luta contra o Estado de Israel é que a
entidade Sionista é agressiva em sua acepção e constrói em
terras retiradas de seus donos, ao
custo dos direitos do povo muçulmano. Portanto, nossa luta só
terminará quando essa entidade for eliminada. Nós não
reconhecemos nenhum acordo com ele [Israel], nenhum cessar fogo e
nenhum acordo de paz, seja em separado ou consolidado.
Nós,
vigorosamente, condenamos todos os planos de negociação com Israel
e consideramos todos os negociadores como inimigos, pela simples razão
de que cada negociação é nada menos que o reconhecimento da
legitimidade da ocupação Sionista da Palestina. Portanto, nós nos
opusemos e rejeitamos os Acordos de Camp David, as propostas do Rei
Fahd, o Plano Fez e Reagan, as propostas de Brezhnev e franco-egípcia,
e todos os outros programas que incluem o reconhecimento (mesmo o
reconhecimento implícito) da entidade Sionista."
Conseguia
contar com o apoio de grande parte do mundo muçulmano e dos
palestinos; abrindo possibilidades, inclusive, para receber apoio
financeiro de outros Estados muçulmanos que não somente Irã e Síria,
que desde o início dos movimentos xiitas apoiaram o Hizbullah
contra o Estado de Israel.
Apesar
de a Guerra Civil ter chegado ao fim em 1990, com o Acordo de Taif ,
a relação entre Hizbullah e Israel não sofreu alteração, haja
vista os israelenses terem permanecido em território libanês até
2000. Outro fato de grande importância, e ligado ao ano de 1990,
diz respeito à transformação do Hizbullah de milícia em partido
político. A partir dessa data, de certa forma, o Estado libanês
legitimou a luta do Hizbullah contra Israel e deu-lhe um valor
institucional. Essa questão seria bastante atacada por Israel
durante sua última invasão em julho último, isso porque, se o
Hizbullah encontra amparo e reconhecimento dentro do Estado libanês,
segundo o entendimento dos israelenses, deveria responder por suas ações
também.
O
final da Guerra Civil também trouxe algumas mudanças no panorama
político libanês, no entanto, não atendeu, em sua plenitude, à
demanda da população muçulmana. A participação dos muçulmanos
nos cargos eletivos e na administração pública, que atendia a
proporção de 6 para 5 em prol dos cristãos,
foi alterada para 50% para cada grupo religioso, ou seja, participação
igualitária, porém, já em 1990 a população muçulmana era
superior à cristã. Os poderes do presidente (cargo exercido
exclusivamente por cristãos maronitas) foram diluídos dentre os
membros do Gabinete, Primeiro-ministro e Chefe do Parlamento –
esses dois últimos, cargos reservados aos sunitas e xiitas,
respectivamente.
Um
item que constava no Acordo de Taif, no entanto não foi cumprido em
sua plenitude, diz respeito à deposição de armas por parte das
milícias que dominavam o país durante o período da Guerra Civil.
Com a pressão do governo sírio e total apoio dos Estados Unidos
– que pretendiam isolar o Iraque, por isso deram apoio ao plano de
paz implementado pelo governo sírio e outras autoridades do mundo
árabe –, todos os grupos que faziam oposição ao Acordo de Taif
foram obrigados a capitular ou deixar o país. Exceção feita ao
Hizbullah, que conseguiu obter o aval do governo sírio para
continuar lutando pela soberania do Estado libanês.
Uma jogada arrojada
Como
partido político, o Hizbullah conseguiu ampliar sua zona de atuação
e obter prestígio perante a população xiita, contudo, não podia
ampliar sua participação no cenário político devido à legislação
eleitoral que determina qual a participação de cada grupo
religioso no Legislativo. Assim, a disputa do Hizbullah dava-se (e
ainda se dá) com o Amal, outra grande força política xiita
libanesa.
Nas
eleições de 1992 e 1996 o Hizbullah conseguiu obter grande êxito,
mas não maior que o pleito eleitoral de 2000, quando ainda usufruiu
dos louros da vitória obtida sobre o Estado de Israel, o qual havia
sido derrotado e expulso do Líbano pelos milicianos do Hizbullah.
Ao
contrário do procedimento que pautava a relação entre os grupos
religiosos durante a Guerra Civil, quando o Hizbullah recuperou os
territórios do sul do Líbano, sua postura não foi retaliar a
população dos enclaves cristãos que apoiaram os israelenses, ou
mesmo executar os membros da milícia maronita SLA (South Lebanon
Army – Exército Libanês do Sul) – que dava suporte militar à
ocupação israelense –, contrariamente, as autoridades do
Hizbullah prenderam os apoiadores da ocupação
e delegaram ao governo libanês julgá-los.
A
partir de 2000 a legitimidade da luta do Hizbullah, que se apegava
à necessidade de restaurar a soberania territorial do Líbano, também
teve de ser revista e, cada vez mais latente se tornou o projeto da
organização islamita que havia sido difundido em sua Carta Aberta.
A luta com o Estado de Israel não mais poderia fundamentar-se na
questão territorial, mas sim, contra o projeto sionista de criação
da Grande Israel. Ao mesmo tempo, a questão da restauração da
soberania do Líbano não foi resolvida completamente, os membros do
Hizbullah alegavam que Israel ainda ocupava uma parcela do território
libanês conhecido por Shebaa Farms.
À
parte o questionamento acerca da propriedade do território – haja
vista a ONU entender que Israel cumpriu a determinação de suas
Resoluções e deixou o território libanês e, por sua vez,
parcelas dos libaneses e sírios alegarem que Shebaa Farms sempre
foi libanesa e que Israel a conquistou durante a Guerra dos Seis
Dias (1967) –, o fator principal é que o Hizbullah conseguiu,
mais uma vez, burlar o que fora assumido no Acordo de Taif e
permaneceu armando. Segundo suas autoridades, enquanto não fosse
reconquistada a soberania territorial libanesa, na sua totalidade, o
Hizbullah não poderia depor as armas.
Nesse
aspecto, o apoio do governo sírio à decisão do Hizbullah foi
providencial. Para que a Síria continuasse tendo esperanças de
reaver as Colinas de Golã – também perdidas durante a Guerra dos
Seis Dias, para Israel –, seria necessário manter a tensão entre
a milícia libanesa e Israel, assim, os sírios poderiam defender
seus interesses indiretamente.
Com
a manutenção do argumento de “restauração da soberania
territorial”, ao mesmo tempo em que a credibilidade internacional
perdera força, a vitória do Hizbullah sobre o exército israelense
o elevou a uma categoria inesperada de único ator a ter conseguido
vencer o Estado de Israel. E, com isso, conseguiu absorver o apoio
de outros grupos religiosos libaneses.
A
tendência natural seria o Hizbullah ampliar sua base de sustentação
nas eleições de 2005, inclusive, superando seu maior adversário,
o Amal. Para o crescimento do partido político Hizbullah, muito da
maneira original com que uma organização islamita era vista deixou
de constar no perfil do partido político xiita libanês. (HAMZEH,
2004)
Se,
no programa do Hizbullah ainda consta a intenção de que o Líbano
se transforme num Estado islâmico, as declarações de seu Secretário-geral,
Sayyed Hassan Nashallah, demonstram que já houve sua flexibilização.
Cada vez mais Nashallah assume o discurso de que o modelo ideal para
o Líbano continua sendo o iraniano, contudo, esse é um projeto que
se encontra distante da realidade libanesa.
O
segundo passo na direção contrária do islamismo
puro se deu quando o Hizbullah aceitou fazer parte do Gabinete
do Primeiro-ministro Fouad Siniora. Após o resultado das eleições
de 2005 o Hizbullah conseguiu ampliar sua participação no
Parlamento e, também, assumiu duas pastas no Gabinete (Ministério
da Energia e Água, com Mohamad
Fneich; e, Ministério do Trabalho, com Trad Hamadé), além
de contar com o apoio de outro parlamentar independente no Ministério
das Relações Exteriores, Faouzi
Salloukh, que acompanha o Hizbullah.
As cartas mudam de mãos
De
2000 a 2005 o Líbano viveu um período de relativa tranqüilidade.
O Hizbullah, no intuito de fortalecer sua representatividade em
algumas regiões do país, aceitou compor sua lista eleitoral com
parlamentares cristãos. (HAMZEH, 2004) Mais uma transformação
antes inaceitável para os padrões de uma organização islamita.
Esse pragmatismo surtiu efeito positivo nas eleições de 2005.
Mas
o ano de 2005 não ficou marcado, apenas, pelo crescimento da
participação do Hizbullah no Parlamento libanês, dois outros
fatos tiveram repercussão direta nesse resultado: o assassinato do
ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri, em 14 de fevereiro de 2005; e, a
retirada das tropas sírias do Líbano, após quase trinta anos de
influência direta sobre o país.
A
morte de Hariri gerou uma comoção nacional e levou a população
às ruas clamando por justiça. Hariri cresceu politicamente e
financeiramente graças às suas estreitas relações com o Poder e,
indiretamente, com o governo sírio. Entretanto, no final de 2004,
quando a Síria receava tornar-se o próximo alvo dos Estados Unidos
na “Luta contra o Terror”, o governante sírio, Bashar al-Assad,
resolveu prestar apoio ao Presidente libanês, Emile Lahoud, no
intuito obter solidariedade da população cristã libanesa para a
manutenção de sua presença militar no Líbano. Para tanto, Assad
conseguiu influir na prorrogação do mandato presidencial de Lahoud
por mais três anos.
Os
protestos de Hariri fizeram com que ele rompesse com Assad e se
tornasse um dos críticos mais ferozes da presença síria no Líbano.
Sua morte acabou gerando o surgimento de movimentos populares que
pediam abertamente a saída das tropas sírias do Líbano. A
“Revolução do Cedro”, como ficou conhecido esse momento histórico,
alcançou seus objetivos nos meses seguintes com a retirada oficial
dos militares sírios de solo libanês.
Durante
a “Revolução do Cedro” as posições do Hizbullah e do Amal
foram totalmente a favor da permanência das tropas sírias no Líbano.
Esse posicionamento estava ligado ao vínculo entre as lideranças
do Hizbullah e Assad. A Síria continuava precisando do Hizbullah
para exercer influência sobre a política libanesa, assim como para
fazer frente a Israel. E o Hizbullah, por sua vez, tem na Síria um
aliado contra Israel e elo logístico para receber apoio do Irã.
Daniel Byman, em artigo da Foreign Affairs, apresentava suas dúvidas
sobre o futuro do Hizbullah com a retirada das tropas sírias, mas
via boas perspectivas pela frente:
O
Hizbullah é muitas coisas: um grupo terrorista, um movimento de
guerrilha, um fantoche do Irã e da Síria para ser usado contra
Israel, o campeão da comunidade muçulmana xiita do Líbano, uma
forte liderança política libanesa e, inclusive, um construtor de
hospitais e escolas. Através de todos esses papéis, ele exerce notável
influência sobre o Líbano, mas não é claro quais aspectos da
organização virá a se destacar se as forças sírias deixarem o
país. Se o Líbano estiver livre da dominação síria os Estados
Unidos aceitariam que o Hizbullah participe de um novo governo libanês.
Washington exploraria essa participação para empurrar o Partido de
Deus da influência síria – e, em última instância, do
terrorismo e das atividades anti-Israel. No recente discurso do
presidente George W. Bush ele disse que o Hizbullah poderia provar
que não é uma organização terrorista “depondo as armas e não
ameaçando a paz”, atacando no tom correto. (BYMAN, 2005)
Apesar
de toda a força das manifestações programadas pelo Hizbullah o
governo sírio foi obrigado a aceitar os desígnios da Resolução
1559 da ONU (8 de outubro de 2004), que exigia a retirada de todas
as tropas estrangeiras de solo libanês para a restauração de sua
soberania, assim como o desarme das milícias ali em ação.
As reviravoltas das cartas à mesa
Apesar
de a eleição libanesa de 2005 ser considerada a primeira livre da
ação síria em quase três décadas de ocupação, muitos
analistas acreditam que a influência do vizinho não deixou de
existir. Alguns parlamentares que foram eleitos – além dos
membros do Hizbullah e Amal – também continuaram leais à Assad.
Assim, é possível concluir que o governo libanês ainda não
conseguiu trilhar um caminho independente e que objetive o
desenvolvimento do Estado.
Se
a saída das tropas sírias do Líbano significou certa derrota para
o Hizbullah, sua influência política não foi abalada. Com a eleição
de 14 parlamentares, o Hizbullah manteve seu prestígio em alta e
passou a utilizá-lo para influir nos rumos do jogo. Nesse aspecto,
a presença de Fouad Siniora como Primeiro-ministro significava uma
barreira a ser transposta. Siniora fora eleito pelo bloco que lutara
contra a presença síria no Líbano e, com isso, mantivera sua
bandeira hasteada nesse sentido.
A
situação política libanesa, que já era tensa, tornou-se ainda
mais complicada quando, em julho de 2006, o Hizbullah manteve um
atrito com militares israelenses e acabou seqüestrando dois deles,
ferindo mortalmente outros.
Israel
exigiu a devolução dos militares, ou de seus corpos, mas o
Hizbullah somente aceitaria fazê-lo através de uma troca de
prisioneiros. A negociação não teve sucesso e o governo
israelense resolveu atacar o Líbano para destruir as bases do
Hizbullah e seu poder de barganha. A força militar empregada pelo
Estado de Israel provocou, em pouco mais de um mês de ataques, a
destruição da região sul do país, assim como de sua
infra-estrutura. Mas os ataques não se concentraram no sul e a
capital também foi alvejada pela artilharia israelense, provocando
o bloqueio aéreo, naval e terrestre do país.
Nesse
período que o Líbano foi bombardeado, o Hizbullah não esmoreceu e
continuou enfrentando o Estado de Israel com seus mísseis katiusha.
O saldo final dos ataques foi a morte de mais de 1000 libaneses e
uma centena de israelenses. Israel não conseguiu reaver seus
soldados e o Hizbullah saiu fortalecido perante a população
libanesa por ter lutado contra o invasor.
Essa
vitória moral do Hizbullah colocou o governo de Siniora em xeque.
Potencializado pelo fracasso israelense, o Hizbullah passou a exigir
a renúncia de Siniora e a convocação de novas eleições. Diante
da recusa o Hizbullah caracterizou sua retirada do governo com o
desligamento de seus parlamentares do Gabinete.
Como
é possível perceber, o Hizbullah conseguiu jogar sua partida
estudando as características de seus adversários e aproveitando
seus erros. A grande dúvida que se apresenta no momento é se o
Hizbullah, de fato, transformou-se num partido político
diferenciado – não compatível com o modelo Ocidental –, ou fez
disso uma estratégia para chegar a esse momento e implementar seu
projeto islamita.
É
bem provável que o Hizbullah dos anos de 1980 não exista mais,
exceto na visão de alguns integrantes mais radicais, no entanto, o
que se apresenta é algo ainda mais delicado: a revisão do status
da população muçulmana no Líbano. O Hizbullah alcançar essa força
significa que, ou será revisto o modelo político libanês, ou o país
poderá ser catapultado a outra guerra civil.
No
momento atual, ainda repleto de incertezas, a jogada feita pelos
israelenses com a invasão de julho pode ter sido um grande blefe.
Como não havia a possibilidade de ganhar o jogo na
mesa, resolveu reacender as diferenças internas dentre os
grupos religiosos libaneses para que eles mesmos se destruíssem e,
caso algum deles volte à mesa,
as cartas já estarão arrumadas para Israel baixar um Royal
Straight Flush com o tão esperado final do “jogo de
soma zero”!
Bibliografia
BYMAN,
Daniel. “Hezbollah’s Dilemma” In: Foreign
Affairs. 13/04/2005,
disponível em: www.foreignaffairs.org
.
HAMZEH,
Ahamad Nizar. In the Path of Hizbullah. Syracuse: Syracuse University Press, 2004.
HARIK,
Judith Palmer. Hizbullah, the changing face of terrorism. Londres:
I. B. Tauris, 2004.
LEWIS,
Bernard. O Oriente Médio. Rio de Janeiro: Editora Jorge
Zahar, 1996.
JABER,
Hala. Hezbollah, born with a
vengeance. New York: Columbia University Press, 1997.
McDOWALL,
David. “Lebanon: a conflict of minorities” In: Minority Rights Group.
Report n. 61. London, 1986.
por
RENATHO
COSTA