Viana,
Nildo. Heróis e Super-heróis no Mundo dos Quadrinhos. Rio de Janeiro,
Achiamé, 2005.
Uma
análise dialética dos heróis e super-heróis dos quadrinhos
Esse
texto tem como objetivo analisar algumas questões da obra “Heróis e Super-heróis no Mundo dos Quadrinhos” de Nildo Viana,
publicado recentemente pela editora Achiamé do Rio de Janeiro. Um
estudo que, acreditamos, ter sido sistematizado com maestria,
evidenciando de forma clara e bem fundamentada as características
essenciais dos heróis e super-heróis no mundo dos quadrinhos, os
quais têm como determinação essencial o inconsciente coletivo. Um
pequeno livro de setenta e sete páginas, porém, com uma análise
profícua, organizado em quatro capítulos. Na primeira parte do
livro trata da era da aventura no mundo dos quadrinhos; no segundo
capítulo discorre sobre os super-heróis e axiologia; no terceiro tópico
analisa os “super-heróis” e inconsciente coletivo e,
finalmente, no quarto capítulo o autor discute a axiologia e
inconsciente coletivo no mundo dos quadrinhos.
O
que dizer deste gênero literário quando nos deparamos com uma
infinidade de bibliografias produzidas com finalidades específicas,
a exemplo das diversas ciências existentes no âmbito acadêmico?
Bem, as histórias em quadrinhos receberam um tratamento diferente
daquele dirigido à ciência evidenciando o caráter lúdico, o
lazer, etc., e na atualidade vem ganhando espaço nas prateleiras
escolares e mesmo como leitura indispensável em colos familiares. A
partir destas histórias veio se sistematizando uma consciência de
que desempenham um papel fundamental na constituição e formação
do indivíduo. Os profissionais da pedagogia que o digam com mais
afinidade, por estarem engajados nesta crença e, em grande maioria,
utilizam das HQ como meio de estimular seus alunos à leitura. Com a
mercantilização e burocratização das HQ ocorre uma distribuição
em massa, e envolta da massificação das HQ, a idéia de que
representam um poço de positividade foi se formando e, por sua
massificada distribuição na sociedade, despertaram atenção, até
mesmo de estudiosos, emergindo daí, inúmeras análises e discussões
derivadas destas histórias.
Analisar
as histórias em quadrinhos chega a desperta a atenção, num
sentido de levar alguns a pensar que nada poderia ser falado de
forma mais sistemática desta “coisa”, gibis, pelo simples fato
de serem direcionados a crianças e jovens e não conter nenhum
conteúdo que possa ser levado a sério, percebe que está contido aí
uma idéia paternalista e coercitiva, a crença de que os adultos
representam a seriedade. É esse, um valor propagado nas relações
sociais de classe. Por outro lado, quando se fala em seriedade se
refere a conteúdo que seja utilizado como material informativo ou
mesmo de orientação sobre questões que envolvem o indivíduo na
sociedade. Bom, aparentemente, as HQ podem ser interpretadas desta
forma, e é no sentido de esclarecer essas questões e outras
determinações das histórias em quadrinhos que vemos a grande
contribuição deste estudo realizado por Nildo Viana. Até o
presente momento não se tem conhecimento de interpretações que
tenham atingido a profundidade alcançada por esta análise sobre as
HQ, neste caso dos heróis e super-heróis. Assim, enquanto criações
do homem e elemento presente na sociedade, as HQ representam um
instrumento fundamental para a configuração e estruturação da
sociedade no moldes desejados pelos capitalistas.
Além
disso, não estranharia o leitor se disséssemos que a seriedade é
uma das características, bem analisada por Viana, que está
presente nas produções atuais do mundo dos quadrinhos, e ainda,
que vem sendo leitura degustada por muitos adultos. As HQ que em seu
alvor tinham como característica a comicidade passam a se
distinguir pela seriedade. Bom, poderia se questionar onde está o
caráter sério nessas histórias? Podemos citar a seriedade
presente na mudança de conteúdo das próprias histórias, que não
é uma mudança que ocorre por si só, de forma independente do
contexto social, mas, uma mudança conseqüente do processo de
desenvolvimento do regime de acumulação capitalista. Está aqui,
em si tratando de sua relação com a sociedade, o caráter
fundamentalmente sério dessas histórias, pois, sua existência tem
finalidades bem definidas, para agirem politicamente na configuração
e reprodução das relações sociais. Por outro lado, vê se a
seriedade sendo expressa na própria mudança formal na apresentação
de seus personagens. Essa mudança pode ser notada a partir do
conhecimento das etapas históricas em que foi passando as HQ. No início,
por exemplo, as histórias eram contadas em tiras de jornais e não
permitia o seu desenrolar em períodos longos. Nesse primeiro período,
final do século XIX e início do XX, as histórias eram curtas e
tinham um caráter voltado para a comicidade, baseadas em figuras
caricaturais. Portanto, a razão de ser das mudanças ocorridas nas
HQ está no desenvolvimento do capitalismo o qual, segundo o autor,
“provoca uma valoração cada vez maior do indivíduo” (Pág.
21). “E o individualismo é uma das idéias-força da ideologia
dominante e das construções fictícias da classe dominante” (pág.
22).
Nesta
variedade de leituras em quadrinhos podemos, então, encontrar uma
variedade de histórias. Essa variedade é que vai trazer conseqüências
para a ótica da sociedade em relação às HQ. Diante dessa vasta
produção, Viana analisa apenas dois gêneros, isto é, os heróis
e super-heróis, uma boa estratégia para não cair numa generalização
interpretativa, no sentido de analisar “todo” gênero existente
e não se chegar à essência das HQ. Além disso, é através
desses gêneros que ocorre, de forma mais explícita, a expressão
do inconsciente coletivo, questão que será analisada
posteriormente.
O
gênero aventura vem então para legitimar a característica
individualista do capitalismo, e uma das peculiaridades fundamentais
do gênero aventura é a transposição que realiza do
individualismo para o mundo da ficção” (pág. 22), uma
necessidade que a crise de 29 faz brotar, tendo a “necessidade de
um indivíduo forte, resistente, um verdadeiro ‘herói’” (pág.
22), e, assim, a necessidade de reforçar a idéia individualista.
Veja que as HQ têm um papel político importante a desempenhar em
direção à reprodução do capitalismo. Várias questões poderiam
ser citadas quando da sua existência. Uma delas está presente na
produção e distribuição de tais histórias. Enquanto mercadoria
são meios de enriquecimento dos proprietários de agências que estão
em volta de sua produção. Por outro, a sua produção se dá
envolta de determinações jurídicas e institucionais, o que
delimita o conteúdo e a forma dos personagens. Conseqüentemente,
aqueles artistas que as produzem, as fazem de acordo com
determinadas leis.
Portanto,
a principal característica do gênero aventura é o maniqueísmo, a
oposição entre o bem e o mal. A necessidade do maniqueísmo pode
ser explicada a partir da visão burguesa de não poder dizer tudo
nem revelar tudo. Daí recorrem à oposição entre o bem e o mal
ficando apenas na superficialidade das questões que envolvem a
sociedade, ou seja, mostrando apenas a causa e não o causador, a
luta de classe, o modo de produção capitalista. Essa idéia é
reforçada pelo papel do herói no mundo dos quadrinhos. Existe
ainda o herói conservador o qual busca manter a ordem em busca da
justiça. Ele não contesta o capitalismo, daí seu caráter
conservador, e se baseia na dualidade ordem e justiça.
Tarzan,
criado em 1912 por Edgar Rice Burroughs, é o exemplo de herói que
luta pela ordem. O mesmo ganha um novo perfil com a crise de 1929.
Esse contexto histórico marcado por profundas contradições e
fortes repressões vai dar às HQ um novo perfil aos seus
personagens bem como inaugurar uma nova forma de produção. Com a
crise do regime de acumulação intensivo surge uma necessidade de
inspirar a ação humana para se adequar às novas relações
sociais que emergiam. É com essa necessidade de se criar um herói
para compensar a imaginação que o novo gênero vai se
caracterizar. Com o fim da Primeira Guerra os EUA iniciam uma política
de expansão política e econômica e cria estratégias para
fortalecer e legitimar essa sua ação. Tarzan, então, é o herói
que vai ter como missão a colonização. Ao se deparar com a
civilização antiga e exótica vai promover a justiça e a ordem.
Muitos outros heróis são criados com essa finalidade política, os
quais vêm para dar força ao novo regime de acumulação que
surgia, como o príncipe valente, Dick Tracy, Flash Gordon, Zorro
entre outros.
No
capítulo que trata da Guerra
e a Visibilidade do Significado Social dos Heróis, Viana coloca
como determinação fundamental dos heróis, a sua ligação com os
interesses dominantes e esta concepção é questionada pela maioria
dos estudiosos do mundo dos quadrinhos. Essa discordância está
intimamente ligada aos valores de tais pensadores. Discordam que as
HQ têm uma proximidade com interesses dominantes por defenderam os
valores da classe minoritária da sociedade, e é por isso que se
faz de extrema importância essa análise de Nildo Viana, do nosso
ponto de vista, por defender os interesses da classe que representa
a parte majoritária da sociedade. É engajado numa perspectiva de
ruptura que Viana retrata a mudança formal e de conteúdo das HQ
que seguia o ritmo das mudanças do regime de acumulação. Com o
advento da segunda guerra mundial a aventura dá lugar à
superaventura. Os Heróis, com suas características terrenas,
destarte, com habilidades fantásticas, são substituídos pelos
super-heróis com poderes sobre humanos.
Heróis
e super heróis, portanto, são utilizados como estratégias políticas
pelos países mais desenvolvidos economicamente envolvidos em
conflitos e disputas políticas e econômicas, e isso pode ser
facilmente notado no envolvimento dos personagens com a guerra é o
que marca esse seu caráter político. Essa relação das HQ com o
contexto social em que foram criadas, retratada por Viana, é
fundamental para entender a configuração de tais histórias. A
maioria dos teóricos dos quadrinhos toma as histórias com fins em
si mesmo, isto é, que as histórias mudam a si próprias como se
elas fossem dotadas de vida e pudessem escolher o caminho a seguir.
Não interpretam as histórias em quadrinhos como sendo essas,
produtos e criações do próprio homem. Apesar do gênero aventura
e superaventura, analisados por Nildo Viana, serem produzidos dentro
de parâmetros institucionais, são expressões de
necessidades-potencialidades reprimidas em todos os indivíduos da
coletividade, naturalmente, expressão daquele que lhe produziu.
O
mundo dos quadrinhos, portanto, são “expressões das mudanças
sociais” (pág 37). O processo de burocratização e mercantilização
das relações sociais, uma determinação do capitalismo, cria a
necessidade, através da fantasia, de superar a prisão que se
tornou a vida social e conquistar uma liberdade imaginária para
compensar a falta de liberdade real (pág. 41). Os heróis e
super-heróis, nesse contexto, mantêm uma relação íntima com os
valores dominantes. Nesse sentido, acreditamos, uma das principais
contribuições oferecida por Nildo Viana é quando trata do sentido
axiológico e do inconsciente coletivo presente nas histórias em
quadrinhos.
“Axiologia”
é um conceito por ele desenvolvido para substituir o de
“ideologia” utilizado pela maioria dos estudiosos das HQ. Numa
visão dialética, esse conceito, axiologia, contribui profundamente
para o esclarecimento de algumas dúvidas, provenientes de confusões
que os positivistas, especificamente, criaram na utilização do
conceito de ideologia. Marx ao tratar a “ideologia” se referia
à falsa consciência sistematizada a partir da ação da classe
dominante sobre as classes dominadas. Porém, com o tempo esse
conceito foi deixando de corresponder à realidade e foi justamente
isso que fizeram os estudiosos dos quadrinhos utilizarem o conceito
de “ideologia” para expressar os valores culturais que as HQ
reproduziam. O termo “valor cultural”, por sua vez, não
consegue explicar as determinações intrínsecas nessas produções,
pois, deve-se especificar qual valor estão tratando. Daí a
contribuição de Viana com a criação do conceito “axiologia”.
Com esse conceito os valores podem ser expressos de forma
correspondente à sua especificidade, ou seja, como valor
proveniente da cultura dominante, portanto, como padrão dominante.
Conseqüentemente, abre-se espaço e instiga os estudiosos a
voltarem sua atenção para o que representa de fato o termo
“ideologia”.
Agora
podemos falar da relação dos super-heróis com o inconsciente
coletivo, sendo esse de fundamental importância para explicar a
existência e o gosto pelos super-heróis. Um conceito já citado
por Freud e Jung mas que não foi tratado em sua devida concretude.
Segundo Viana o inconsciente coletivo é “o conjunto de
necessidades/potencialidades, reprimidas em todos os indivíduos que
formam uma coletividade (grupo, classe, etc)” (pág. 59). Essa é
a principal contribuição deste autor, pois, até o presente
momento nenhum pensador conseguiu retratar com tamanha precisão
essa característica das HQ. E qual seria então a relação das HQ
com o inconsciente coletivo? Bom. No inconsciente coletivo estão
contidas as necessidades/potencialidades reprimidas, as quais criam
o desejo efetivo de liberdade, isto é, a sua busca na realidade
concreta.
Aí
o sentido de ser dos heróis e super-heróis no mundo dos
quadrinhos, mais especificamente da superaventura, pois, expressam
de forma fictícia os desejos reais, porém reprimidos, que o indivíduo
almeja que se efetivem. Um exemplo disso é o desejo de liberdade.
Na sociedade capitalista o indivíduo não vive a liberdade plena e
sim uma repressão convertida formalmente em liberdade. Mesmo
criando estratégias para ocultar a repressão que os indivíduos
sofrem na sociedade, o capitalismo não consegue banir por completo
o desejo de liberdade e, além disso, o desejo da transformação
que pode ser percebido na luta brutal existentes entre proletários
e capitalistas. Esse é um exemplo de que mais cedo ou mais tarde,
as relações sociais do capitalismo serão superadas. No mundo dos
quadrinhos essa liberdade se manifesta, por exemplo, no super-herói
que voa. O voar, “é um símbolo de liberdade, de superação de
limites” (pág. 61). E o modo que os heróis e super-heróis do
mundo dos quadrinhos contribuem na reprodução das relações
sociais capitalistas é a transposição que realizam, do desejo
real de transformação, para o mundo da ficção. A necessidade de
efetivação do inconsciente coletivo é real, e efetivando-se
coloca abaixo toda a estrutura baseada na repressão e na exploração,
e, junto, os privilégios daqueles que dominam. Os heróis e
super-heróis no mundo dos quadrinhos, por sua vez, alimenta esse
desejo de superação da exploração de forma ficcional. Assim,
sendo a aventura e a superaventura a expressão do inconsciente
coletivo, essas produções satisfazem parte do desejo de efetivação
do inconsciente coletivo, daí, ocorrer a reprodução do
capitalismo, pois, não contribuem para que o inconsciente coletivo
transponha-se para a realidade e sim para o mundo da ficção.
Nesse
sentido, “a superaventura é, em parte, manifestação do
inconsciente coletivo e é por isso que ela (e não só ela como
também os heróis comuns) tem um público tão grande” (pág.
61). Nesse contexto paradoxal das HQ, vivem aqueles indivíduos que
produzem tais histórias. Apesar de produzirem de forma consciente,
o conteúdo que elaboram é a expressão do inconsciente coletivo.
Além disso, o produto de suas habilidades não é produto de uma
produção baseada na liberdade de produção. As HQ são produzidas
dentro de parâmetros institucionais e devem corresponder às exigências
daqueles que lhes financia. O artista estando sob o controle
institucional, se torna impotente frente à burocracia que lhe
impossibilita agir da forma que desejar, mas se transforma no todo
poderoso nas HQ, o mundo da ficção, vencendo barreiras,
expressando sua vontade na ação de seus personagens, vontade essa
que na realidade recebe suas limitações. Um exemplo disso é o de
Clark Kent que mesmo disfarçado de um executivo, que trabalha, é
reprimido, e respeita as imposições do trabalho burocrático, em
determinado momento se transforma no super homem, aquele que luta
pela justiça, o indivíduo salvador da pátria e a quem cabe a missão
de restituir a ordem abalada ou colocada em risco por um determinado
vilão. Nesse sentido que Nildo Viana afirma que “a superaventura
significa a carta de alforria imaginária do ser humano escravizado
no mundo da burocracia e da mercadoria” (pág. 63).
Pode-se
perceber, portanto, que assim como o artista torna consciente
ficcionalmente o inconsciente coletivo, ou seja, expressa seus
desejos nas HQ, o inconsciente coletivo pode se tornar consciente
coletivo de forma prática. E o estudo do inconsciente coletivo
através do mundo dos quadrinhos se faz necessário para levá-lo á
consciência, contribuindo, conseqüentemente, para a transformação
social. Essa é uma necessidade fundamental para a libertação da
humanidade, e do nosso ponto de vista, a principal contribuição de
Nildo Viana nesta obra.
É,
portanto, na última parte do texto que o autor analisa a axiologia
e o inconsciente coletivo no mundo dos super-heróis. A axiologia,
portanto, expressa o lado conservador enquanto o inconsciente
coletivo o contestador. Isso é um paradoxo em si tratando dos
valores almejados pela classe dominante, no sentido de que os
criadores destas histórias ao produzi-la é submetido ao controle
institucional, de reprodução da ordem, porém, ao projetar a história
ele expressa seu lado contestador, de superação da ordem, na ação
dos super-heróis.
Uma
outra questão analisada é que “essas histórias exercem um grau
de influência ao leitor muito menor do que se pensa, pois, ao fazer
a leitura de tais produções o leitor não se prende aos detalhes
da narrativa que expressam seu caráter ideológico e sim nos
aspectos fantásticos da história (os combates, a luta pelo poder,
os tipos de poderes, os mundos estranhos e maravilhosos etc)” (pág.
65). Isso demonstra o quão desejosos estão os leitores dessas
produções, e a maior parte da sociedade, da busca efetiva da
liberdade, bem como da superação das relações sociais baseadas
no capitalismo, que tem como determinação fundamental a exploração.
Além disso, um dos fundamentos desta sociedade em relação à sua
sociabilidade é a competição. Essa competição pode ser
encontrada em várias HQ assim como em alguns desenhos de televisão.
Um exemplo dado pelo autor de programa televisivo, cuja origem
deve-se ao mundo dos quadrinhos, que enfatiza essa competição é
Dragon Ball onde seus personagens (Goku, Vendita etc) “vivem numa
luta eterna e infinita por possuir mais força, em ficar com mais
poderes do que os outros. O objetivo é ganhar a competição... (pág.
66)”.
Nesse
sentido, a maioria dos super-heróis criados são conservadores,
conseqüência dos valores que aqueles que os produzem possuem, e são
poucos que expressam a contestação. A ação estatal com a criação
de leis, proibindo ou mesmo determinando valores a serem respeitados
e não contestados nas produções, reforça esse conservadorismo.
Namor, o Príncipe Submarino, é um exemplo de herói contestador.
Namor, no entanto, com o tempo foi sofrendo alterações formais e
de conteúdo, tornando-se “calmo e controlado como qualquer outro
super-herói conservador” (pág. 67). O mundo da superaventura é,
no entanto, o gênero dos quadrinhos que se manifesta de forma mais
clara o inconsciente coletivo, mas é também aquele em que a
axiologia se faz presente e exerce certo controle em sua produção.
Na
conclusão desta obra o autor retoma algumas questões analisadas
nos quatro tópicos do livro, tais como: o surgimento do herói em
1929, o herói como figura axiológica, o herói na guerra, e isso
demonstra sua ligação ao poder, o surgimento dos super-heróis em
1938 através do super-homem, o super-herói como reprodutor dos
valores dominantes e do inconsciente coletivo na ação dos heróis.
Por fim, ressalta a importância deste estudo tirando dele “uma lição
da percepção dos limites da divisão do trabalho intelectual, que
pode deixar de lado aspectos importantes da realidade que não
corresponde à lente produzida por determinada disciplina científica”
(pág. 73). Finaliza ressaltando o seu propósito que é o de
perceber “tanto o sofrimento quanto sua negação, e ao fazê-lo
contribuir com a luta pela superação do sofrimento” (pág. 74).
Como
já dissemos em momentos anteriores, esta obra representa um
instrumento de fundamental importância para a compreensão dos
aspectos axiológicas presentes nas histórias em quadrinhos, bem
como, oferece uma importante contribuição para a efetivação prática
do inconsciente coletivo. É claro que sua leitura pode receber
diferentes interpretações, porém, podemos ressaltar que uma das
principais contribuições deste autor, ao escrever esta obra, foi a
tamanha habilidade em evidenciar com precisão, segundo suas próprias
palavras, o caráter axiológico, já tratado por outros pensadores,
porém de forma superficial, e, fundamentalmente, o inconsciente
coletivo presente nas histórias em quadrinhos. O prazer estimulado
por este gênero literário tem sua lógica de ser cuja essência
está estampada na dinâmica mercantil do capitalismo e esta análise
demonstra de forma idílica essa determinação das HQ. Por fim,
ressaltamos que nosso objetivo aqui foi de oferecer ao leitor uma análise
dialética dos pormenores que compõe essa obra, analisando os
pontos principais da análise traçada por Nildo Viana. E para que o
leitor possa rejubilar com suas próprias interpretações o conteúdo
desta obra, faz-se necessário que faça sua própria interpretação
na fonte direta que representa esta obra.
por
EDMILSON
MARQUES