A
inesperada reabilitação de Getúlio Vargas
Getúlio
Vargas tem sido desancado devido às violências cometidas contra
as comunidades alemãs e italianas do Rio Grande do Sul, sobretudo
durante a II Guerra Mundial. Atribuiu-se -se também à campanha
getulista de “nacionalização” dos kystos raciais a
crise dos falares étnicos alemães e italianos. Em geral, os
fatos sucederam-se no passado em forma bastante diversa da que são
percebidos pelo senso comum, mesmo historiográfico.
René
Gertz, 57, professor da PUCRS e da UFRGS, tem dedicado boa parte
de sua produção historiográfica ao estudo dos sucessos
ocorridos quando do Estado Novo [1937-45], no que se refere
sobretudo à comunidade colonial alemã da qual descende. Seu
ensaio O perigo alemão, de 1991, constitui referência
obrigatória na discussão do imaginário brasileiro sobre
os alemães no RS. Gertz tem dirigido também trabalhos de
pós-graduação sobre esse e temas correlatos.
A
publicação do livro O Estado Novo no Rio Grande do Sul,
de René Gertz [Passo Fundo: EdiUPF, 2005], constituiu ato por si
só meritório, considerando-se a carência de estudos referentes
ao Estado Novo no RS, pobreza em parte talvez devida aos inevitáveis
constrangimentos biográficos ensejados pelo período, no que se
refere ao comportamento dos próceres sulinos durante o período
ditatorial.
O
livro de René Gertz destaca-se pelo candente revisionismo,
com destaque para a inesperada absolvição de Vargas que, do
inferno historiográfico, é transferido para suave purgatório, já
que o peso dos pecados da “campanha de nacionalização” é
lançado às costas do interventor Cordeiro de Farias e de seus
dois principais súcubos, o secretário da Educação, Coelho de
Souza, e o famigerado coronel Aurélio Py, autor do best-seller
A 5ª coluna no Brasil: a conspiração nazi no RS,
publicado pela Globo, em abril de 1942.
O
Estado Novo no Rio Grande do Sul impõe-se
sobretudo por suas interpretações. A apresentação inicial dos
sucessos históricos que levaram ao Estado Novo é sumária e a
proposta do enfraquecimento da economia sulina durante o período
fica em aberto, sobretudo devido às limitadas fontes disponíveis,
fato assinalado pelo autor. Também são sintéticos os capítulos
“Administração e sociedade” e “Educação e saúde”,
ricos em sugestões para novas investigações.
O
capítulo a “Cultura no Rio Grande do Sul” apresenta dura
radiografia da ação da intelectualidade sulina durante o Estado
Novo que, tanto na versão positivista como na católica, segundo
Gertz, colaborou, direta ou indiretamente, com a ditadura, ou
adaptou-se a ela, sem maiores pruridos. Nas raras exceções que
confirmam a triste regra encontram-se os intelectuais comunistas
Dionélio Machado, Cyro Martins e Ivan Pedro Martins, que seguiram
disparando sobretudo com as armas da ficção.
René
Gertz apresenta provas incontestáveis da adesão de intelectuais
sulinos de destaque ao Estado Novo. Para outros, o material probatório
é mais fraco. Assinala que Érico Veríssimo compareceu, com Moysés
Vellinho, Dante de Laytano, entre outros, ao lançamento do Comitê
Intelectual pró-Estado Novo, pronunciando palestra radiofônica,
em abril de 1938, na Rádio Farroupilha, em defesa da ditadura. De
Mário Quintana, registra-se a participação em “Comissão
Julgadora de frases alusivas ao ‘Dia da Bandeira’”.
Ainda
que novos estudos retoquem o longo rol de intelectuais “cuja
vinculação ou a proximidade com o regime está claramente
documentada”, não modificarão a constatação da harmonia entre
a pena, do mundo das idéias, e o coturno, da ordem
ditatorial. Fenômeno que exige discussão mais profunda, já que
envolve as raízes próximas da cultura erudita do Rio Grande do
Sul. Sobre
essa questão, temos também a valiosa dissertação, ainda inédita,
de Gláucia Konrad, de 1994, “A política cultural do Estado
novo no RS: imposição e resistência”, na qual o autor apóia-se
parcialmente. Com sensibilidade, Gertz lembra que a talvez
“alegada falta de entusiasmo” rio-grandense sobre o Estado
Novo e, portanto, a colaboração despreocupada com ele, registre
sentimento de que “nada de muito novo estava ocorrendo”,
sobretudo em relação à República Velha.
No
valioso capítulo final, Gertz empreende sentida denúncia das
violências da “campanha da nacionalização” que, para ele,
teria vitimado sobretudo a população colonial alemã. Segundo o
autor, a “campanha” teria sido “menos agressiva” na
“região de colonização italiana ao norte de Porto Alegre, em
Caxias do Sul e adjacências” do que “nas regiões de colonização
alemã”.
Entre
as razões do comportamento diferencial estariam a maior simpatia
brasileira para com os “italianos”; a existência de
sentimento sobre o
“perigo alemão” desde a chegada dos imigrantes em 1824; a
mobilização antialemã durante a I Guerra Mundial; a adesão e
simpatia ao partido nazista no Estado, fenômeno para o qual não
contamos ainda com análise de fôlego como a realizada para a
Região Colonial Italiana por Loraine Giron, em As sombras
do littorio:
o fascismo no Rio Grande do Sul, de 1994.
Na abordagem da espinhosa questão, Gertz assinala que “mais ou
menos a metade dos pastores do Sínodo Riograndense eram filiados
ao partido nazista”.
Sobretudo,
Gertz defende que os excessos da “campanha da nacionalização”
seriam obra de Cordeiro de Farias, “claro adepto da tese do
‘perigo alemão’, preocupadíssimo com a situação ‘etnográfico-internacionalista’”
sulina. Sugere que a partida do interventor para a Itália, como
membro da FEB, constituiu “justificativa pública” para superação
de situação insustentável. Sua substituição pelo cel. Ernesto
Dorneles seria também tentativa de distensão
René
Gertz é historiador ponderado e contido. A tensão afetiva devido
à abordagem das violências antialemãs no Estado Novo fica
registrada em algumas raras ênfases lingüísticas. Professora brasileira
agindo na zona colonial alemã durante a “campanha de
nacionalização” em forma desembaraçada é classificada
de “menininha”. As depredações populares, em 18 e 19 de
agosto, após os duríssimos ataques a navios mercantes
brasileiros desarmados por submarino alemão que causaram mais de
seiscentos mortos, são definidas como “anarquia”,
“animalescas”, produto da ação de “fanáticos”.
René
Gertz assinala que a intervenção do Exército, pondo fim às
manifestações populares anti-Eixo de agosto, ocorreu “à
revelia do interventor”, constituindo desautorização de sua
exacerbação da “campanha de nacionalização”. Assinala
pedido de renúncia de Cordeiro de Farias, de 22 de agosto de
1942, após a ação do Exército. Mais ainda. Em 1950, Getúlio
justificava a nomeação do cel. Ernesto Dorneles como medida
“contra aqueles” que, em seu nome e contra a sua vontade,
“praticavam atos de violência e de arbítrio, com base em prejuízo
étnico”.
Além
das violências da “nacionalização”, René Gertz refere-se
rapidamente à repressão do truculento Cordeiro de Farias ao
movimento operário, aos comunistas e aos integralistas. Não
chega a abordar o maior crime cometido pelo interventor nas
primeiras semanas de seu consulado, contra pacífico
movimento religioso popular de caboclos e colonos empobrecidos, em
Sobradinho e Soledade, com a morte de talvez mais de cinqüenta
beatos absolutamente desarmados. Sucessos que tardam ainda a ter a
reparação que exigem na memória e na historiografia
rio-grandense.