Valquíria
Padilha.
Shopping
Center – a catedral das mercadorias.
São
Paulo: Boitempo,
2005 (224p.) - Coleção: Mundo do
Trabalho
“Templo” do consumo, símbolo de “progresso”, o shopping
center, mais que um espaço para compras, tem se tornado um local
de lazer e uma miragem, um desejo de participar de um mundo de
sonhos vendidos pela publicidade. Local que exclu dele aqueles que
não podem consumir, ampla maioria em um país como o Brasil, e
que também exclui, na sua lógica privada, a cidadania, o espaço
pública, a cidade e sua história. O shopping não é apenas uma
construção física, mas também uma prisão social ainda pouco
estudada de forma crítica pela sociologia e pelo urbanismo. Shopping
center, de Valquíria Padilha, novo lançamento da coleção
Mundo do Trabalho, vem preencher essa lacuna com uma análise
profunda e fundamentada das suas origens, efeitos e ideologia.
Junto com O nome da marca: McDonald’s, fetichismo e cultura
descartável, de Isleide Fontenelle, forma um par de estudos
fundamentais para a compreensão dos artifícios do capitalismo
contemporâneo.
Para entender o fascínio que o shopping center provoca, Padilha
discute a relação entre trabalho, lazer e “tempo livre” no
capitalismo, e como o shopping “captura” esse tempo e essa
atenção, reduzindo a relevância das pessoas a uma única dimensão
de existência: comprar.
Das suas origens nas lojas de departamento européias e sua rápida
proliferação pelos Estados Unidos do pós-guerra, a autora
explica os interesses do capital que levaram à construção dos
shopping centers, chamados pelos norte-americanos shopping malls,
e como eles redefiniram a orientação urbana nas cidades,
esvaziando os centros, valorizando o automóvel e os subúrbios
isolados. Ela também investiga como essa “novidade” chegou ao
Brasil, e quais as suas características peculiares em um país tão
desigual: a extrema valorização da segurança que mascara o
desejo de segregação social, e as formas subjetivas e objetivas
de manter a população pobre fora dele.
Outros aspectos que o livro aborda são o papel da publicidade em
gerar a angústia que move o consumismo, os gostos como sinais de
diferenciação entre as classes sociais e as relações humanas
mediadas por mercadorias no reino do “ter” que é o shopping
center.
Padilha mostra como por trás do discurso de “qualidade de
vida” está apenas a busca de lucros por meio do esvaziamento da
cidade real, para uma crescente concentração de negócios, serviços
e ocupação do tempo das pessoas pelo shopping center.