por PAULO JOSÉ KOLING

Professor Adjunto na UNIOESTE – Campus de Marechal Cândido Rondon

 

(Re)Visões de uma historiografia dependentista sobre a Guerra contra o Paraguai

 

 

Nos últimos anos os estudos sobre a Guerra contra o Paraguai vêm apresentando uma revisão da história do conflito e da historiografia produzida, principalmente, nos anos de 1960 e 1970[1]. A própria revista Espaço Acadêmico publicou, recentemente, artigos que tratam do assunto e fazem parte do próprio debate. Neste exercício de aprendiz de feiticeiro, daremos alguns “pitacos”, provocativos, para situar melhor certos elementos da análise revisionista dependentista, que é o foco central da revisão.

Uma segunda versão sobre aquela guerra foi produzida por Francisco F. M. Doratioto (1991, 2002) na qual o autor apresenta uma crítica à abordagem dependentista sobre a história latino-americana referente à história da guerra contra o Paraguai, ocorrida no período de 1864 a 1870, que envolveu os países do Cone Sul – Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai – no maior conflito bélico internacional realizado no Ocidente durante o século XIX. Considerando que este assunto vem sendo revisado e ocupa espaço na historiografia brasileira – dentre os quais destacamos, para o momento, a participação de Francisco Doratioto e de André Toral (2001) na crítica à abordagem de León Pomer (1997) e Júlio José Chiavenatto (1988), bem como a crítica de Leslie Bethell (1995) a Pomer e a crítica de Mário Maestri (2003) à crítica de Doratioto, ou mesmo a inclusão do movimento da guerra contra a guerra e da solidariedade entre os povos do Cone Sul vivida outrora e na atualidade, como enfatizam os autores do Livro da Guerra Grande, organizado por Augusto Roa Bastos (2002) –, convém indicar alguns acertos e/ou lacunas destas (re)visões.

As (re)visões de Doratioto, partilhadas por André Toral partem, acertadamente, dos embates existentes no contexto histórico latino-americano da década de 1960 e 1970,  para situar a interpretação dependentista da guerra contra o Paraguai, considerando-a revisionista (DORATIOTO, 1991). Dada a importância desta contextualização dos autores, delimitaremos o enfoque deste artigo a este ponto, justamente por coincidir com um momento de enfrentamentos entre opções de dependência (regimes militares na América Latina) e de resistência ao imperialismo.

Ao tratar da interpretação surgida durante os anos 1960, André Toral situa-a, na mesma perspectiva de Doratioto (1991) na seguinte passagem:

Mais especificamente essa linha interpretativa é a vertente antiimperialista da chamada teoria da dependência, que procurava explicar a relação centro–periferia ou países desenvolvidos – América Latina. Essa vertente não considera a dinâmica própria nas relações entre os países periféricos, explicando-as como reflexo dos interesses do centro [...]. No caso da Guerra do Paraguai, o conflito é explicado como conseqüência das políticas do imperialismo inglês, o que representa a transposição das bandeiras das lutas políticas dos anos 60 e 70 (antiamericanismo, desenvolvimento autônomo etc) para a explicação de um conflito ocorrido há mais de um século num contexto político bastante diferente (TORAL, 2001, p. 40).

Esta abordagem dependentista foi produzida por León Pomer, em sua obra La Guerra Del Paragua! Gran Negócio! (cf. Nota 2), de 1968, e sua versão brasileira foi apresentada pelo jornalista Júlio Chiavenatto, na obra Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai, em 1979, que obteve um significativo sucesso editorial e historiográfico, pelo menos nos livros didáticos de História[2]. Tratando-se do texto de Chiavenatto, outros autores indicaram os exageros e erros, a exemplo de Alberto M. R. da Silva[3].

Também é correta a relação que Francisco Doratioto (2002, p. 79 ss) fez entre a crítica que os dependentistas antiimperialistas e críticos do subimperialismo brasileiro apresentaram ao aproximar as ditaduras militares na América Latina – com seu projeto ideológico e de desenvolvimento econômico, associado e dependente do imperialismo estadunidense – com o projeto livre-cambista de inserção internacional existente no século XIX, no Cone Sul. Neste sentido, Doratioto comparou a defesa do “modelo cubano de revolução antiimperialista”, apresentada pelos dependentistas, nos anos 1960, com o “modelo paraguaio de desenvolvimento independente e autônomo”, realizado no século XIX, desde sua independência até o momento da guerra. A crítica da esquerda dependentista aos regimes militares – brasileiro, argentino e uruguaio – e ao seu ideário (neo)liberal de inserção internacional era feita através da interpretação de que a Guerra contra o Paraguai tinha sido realizada a partir dos interesses do imperialismo, livre-cambista, britânico, ou seja, por determinações externas. A imagem do passado estava sendo projetada a partir do presente, no qual o imperialismo estadunidense também era o elemento externo determinante, o demiurgo externo da história latino-americana, sendo seus atores locais fantoches.

Uma lacuna, ou erro, desta revisão do antiimperialismo pode ser vista no fato, muito questionável, de entenderem que os dependentistas partilhavam de uma visão do determinismo externo[4]. Por outro lado, o engajamento político não joga por terra toda a interpretação da Guerra do Paraguai apresentada por León Pomer. É oportuno separar a criança da água suja!

Tratando-se de León Pomer – mesmo que não seja citado como um intelectual da teoria da dependência­ –, num primeiro momento, é imprescindível situá-lo como intelectual militante de esquerda, até porque sofreu o exílio após o novo golpe militar de 1976, ocorrido na Argentina, que depôs Isabelita Perón[5]. Da mesma forma, estes nacionalistas antiimperialistas tinham clareza do caráter entreguista dos desenvolvimentistas conservadores e autoritários, sejam eles civis e/ou de caserna. Moniz Bandeira (1987) citou o caso argentino para evidenciar que os rumos da nova política econômica argentina de Martinez de Hoz, de corte neoliberal (abertura da economia, privatização e a reorientação agroexportadora), também teve o caráter restabelecedor do poder conservador nas relações entre capital–trabalho no setor industrial naquele país. Já em 1976, o próprio Raúl Prebisch (1981), havia denunciado o caráter autoritário, conservador, livre-cambista e desindustrializante da política econômica neoliberal adotada em seu país, bem como do sucesso febril das “novas idéias” de Hayek (1977 e 1980) e dos Friedman (1980). Em seu estudo sobre a internacional capitalista, René Dreifuss (1987) explicita os vínculos entre os “meninos de Chicago” - economistas chilenos formados por Milton Friedman - e a nova política econômica da primeira experiência neoliberal na América Latina, adotada pela ditadura Pinochet (ANDERSON, 1998), e três anos após, também na Argentina.

Em sua obra de 1997, León Pomer colocou em questão o significado da intervenção brasileira na política interna uruguaia ocorrida em 1971[6], suas implicações no cenário do Cone Sul (eixo São Paulo–Montevidéu–Buenos Aires) e comparou-a aos atos do Império brasileiro em 1850 e em 1864, relacionados à guerra – e também aos negócios![7]

Em sua exposição durante o seminário sobre os 130 anos da Guerra do Paraguai, Leslie Bethell (1995) criticou a visão de León Pomer e de demais autores dependentistas, como André Gunder Frank[8], que apontavam os interesses do imperialismo inglês como fator do conflito e da destruição do Paraguai. Mesmo realizando uma pesquisa da diplomacia inglesa para o Prata e referindo-se à oficialização da neutralidade da Coroa britânica, Leslie Bethell não chegou a convencer ao afirmar que a diplomacia privada (bancos e casas comerciais inglesas) extrapolava a esfera das relações externas da Inglaterra[9].

O próprio León Pomer (1997) e Augusto Roa Bastos (2002) explicitam e exemplificam os álibis, as contradições e os interesses existentes entre os pratenses livre-cambistas (partidários do liberalismo econômico e comercial), tal como Bartolome Mitre e Domingo Faustino Sarmiento, e a participação nos negócios da guerra (os provedores de armas, dos financiamentos em libras esterlinas e dos alimentos necessários aos soldados). Em tempos do pós 11 de setembro (mais o das Torres Gêmeas, em 2001, do que o do Palácio de la Moneda, em 1973), não se constitui em um erro interpretar as guerras (do tempo presente e do passado) a partir dos negócios que uma guerra garante, seja pelos interesses dos Estados ou de particulares, isso, se for possível separá-los.

Em sua análise da revisão de Doratioto, Mário Maestri (2003) situa nela um restauro novecentista, certamente marcado pelo olhar atual do historiador-diplomata: “O livro Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai, do historiador Francisco Doratioto, recentemente lançamento pela Companhia das Letras, por sua qualidade, excelência e erudição, constitui exemplo paradigmático do assinalado restauro historiográfico”[10].

Comparando Francisco Solano López com o ditador nazista do século XX, Mário Maestri enfatiza que Doratioto, ao enfocar os motivos da guerra nas sandices do ditador, restaura a propaganda oficial do império brasileiro (a guerra era contra o ditador e bastaria derrubá-lo) e não responde sobre o que teria mobilizado a população paraguaia para uma guerra longa em seu território. A partir do enfoque de Augusto Roa Bastos (2004) podemos afirmar que os interesses particulares ultrapassavam os espaços dos gabinetes dos estados nacionais pratenses e os negócios da guerra também distavam longe dos palcos das batalhas e da bacia do Prata, o que mostra a validade da abordagem que León Pomer fez sobre os negócios da guerra contra o Paraguai. No capítulo que lhe coube na obra Los Conjurados del Quilombo del Gran Chaco[11], Alejandro Maciel (2004) também revira a historiografia ao recuperar a experiência daqueles que lutavam contra a guerra dos governos e generais dos estados nacionais, evidenciando que existia várias guerras dentro da guerra.

 

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[1] Da primeira abordagem sobre a guerra, os escritos dos militares de alto escalão – que estiveram no comando das tropas no front – serviram de referência para a produção dos heróis nacionais, tanto no Brasil, como na Argentina e no Uruguai. Tratando-se da historiografia sobre a guerra, Mário Maestri (2003), denominou-a de instauração.

[2] Tendo a oportunidade de conversar com León Pomer, na Unioeste, em 1998, o professor Pomer esclareceu que teve certa participação ou responsabilidade na discussão apresentada por Chiavenatto, pois teria indicado e repassado alguns materiais. Naquele momento Pomer informou que, no Brasil, realizou sua pesquisa no Rio de Janeiro e, durante os anos duros do regime militar no Brasil, teve acesso às fontes sobre a Guerra do Paraguai na Biblioteca do Exército. Expôs também que já havia deixado de pesquisar o assunto há muitos anos, porém, continuava sendo referência. O primeiro estudo de León Pomer, publicado em 1968, foi traduzida e publicada pela primeira vez, no Brasil, em 1980, A Guerra do Paraguai: a grande tragédia rioplatense, depois do lançamento do livro de Chiavenatto. Como a obra do Chiavenatto não é o foco da nossa atenção e é muito conhecida no Brasil, seria repetitivo analisá-la detalhadamente.

[3] Para uma leitura crítica dos erros de Chiavenatto, principalmente sobre a população paraguaia e as mortes durante a guerra, confira a tese de doutorado do historiador Alberto Moby Ribeiro da Silva (1998).

[4] Se levarmos em conta os estudos e a discussão entre os dependentistas de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto (Desenvolvimento e Dependência na América Latina), de Rui Mauro Marini (Desarrollo y Revolución e Dialética da Dependência) e de Theotônio dos Santos (Teoria da Dependência) a crítica ao determinismo externo era um ponto em comum na crítica que fizeram ao estruturalismo cepalino, ao marxismo ortodoxo (stalinismo), à teoria da modernização e ao evolucionismo. Ao considerarem a dependência como uma condição do desenvolvimento do capitalismo na América Latina, na fase imperialista, a partir da (re)construção de alianças hegemônicas internas e suas articulações internacionais (na esfera do Estado, da sociedade civil e da economia), os dependentistas rompiam com a noção do determinismo econômico e da dependência exclusiva dos fatores externos.

[5] Em 1976, o historiador León Pomer era professor na Universidade de Buenos Aires. Durante seu exílio, no Brasil, foi professor em várias universidades brasileiras (PUC/SP, UNESP).

[6] “A 19 de maio de 1971, o diário `La Opinión´ de Buenos Aires reproduz passagens de um editorial publicado em ‘O Estado de São Paulo´. `O que ocorre no Uruguai, escreve o órgão paulista, está longe de ser assunto interno desse pequeno país´. `O Estado de São Paulo´ refere-se à crise em que se debate o Uruguai no auge do Movimento de Libertação Nacional, mais conhecido como Tupamaros. `O jornal lembra os argumentos, como afirma `La Opinión`, que motivaram a participação brasileira na Guerra da Tríplice Aliança, que o Paraguai enfrentou contra a Argentina, o Brasil e o Uruguai” (POMER, 1997, p. 28).

[7] Em seu artigo “1976: Os Estados Unidos e o golpe na Argentina”, Luiz Alberto Moniz Bandeira aborda os vínculos e os interesses estadounidenses com o Golpe e a Ditadura Militar na Argentina, bem como as articulações dos militares brasileiros com os golpes militares na Bolívia, no Uruguai, no Chile e na Argentina, através da Operação Condor, apoiada pela CIA.

[8] Em sua obra Capitalismo y Subdesarrollo en América Latina, André Gunder Frank tratou da Guerra do Paraguai como parte dos interesses metropolitanos: “Las potencias metropolitanas ayudaron a sus socios menores de América Latina con armas, bloqueos navales, e intervención militar directa e instigación de nuevas guerras dondequiera que fue necesario, como la de la Triple Alianza contra Paraguay, que perdió el 86% de su población masculina en defensa de su ferrocarril financiado nacionalmente y de su esfuerzo de desarrollo autónoma genuinamente independiente” (FRANK, 1970, p. 343).

[9] A neutralidade do Dr. Leslie Bethell também pode ser vista pela ausência (inexistência) do tema da Guerra do Paraguai na coleção The Cambridge History of Latin America, que ele organizou em 1984. A coleção está sendo traduzida no Brasil: BETHELL, Leslie (org). História da América Latina. São Paulo/Brasília: EDUSP/Fundação Alexandre Gusmão, 1999. (cf. v. IV-V).

[10] No referido artigo, Maestri apresentou uma síntese da historiografia sobre a guerra, enfocando, especialmente, sua relação com a construção do ideário da Primeira República e do papel do Exército na política brasileira: “As primeiras narrativas de vocação historiográfica sobre o conflito foram construídas após sua conclusão, nos últimos anos do Império. O golpe republicano de 1889 deu-se sob a égide da alta oficialidade do Exército, principal interessada na consolidação dessas leituras apologéticas” (MAESTRI, 2003).

[11] A obra foi traduzida para o português e editada no Brasil em 2004, com o título O Livro da Guerra Grande: quatro escritores latino-americanos e a guerra do Paraguai, organizada por Augusto Roa Bastos e com a participação de Alejandro Maciel, Omar Prego Gadea e Eric Nepumuceno.

por PAULO JOSÉ KOLING

   

 

 

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