Golpe
Militar na Argentina: apontamentos históricos
O
golpe militar ocorrido em 24 de março de 1976, na Argentina, na
realidade, é a culminância de um processo mais longo, de controle
e repressão contra a esquerda peronista e a esquerda tradicional.
Desde 1955, com a queda do governo do general Juan Domingos Perón,
vinha ocorrendo um amplo e crescente processo de institucionalização
do poder militar como ator político. As Forças Armadas
transformaram-se em sujeitos de poder com alta margem de autonomia
institucional, consolidando-se como ator tutelar do cenário político,
principalmente porque a liderança civil democrática estava
debilitada e concedia amplos espaços de atuação aos militares no
cenário político. Nesse sentido, segundo Sain, o sistema político
argentino seguiu três grandes orientações que se constituíram em
condições de
funcionamento desse cenário: 1- exclusão política do peronismo;
2- o papel assumido pelas Forças Armadas de guardiães tutelares e
fiadoras dessa exclusão; e 3- a aceitação ativa pela classe política
não-peronista dessas duas condições anteriores (SAIN, 2000, p.
21-22).
O
surgimento dos militares no cenário político marca o “ápice dos
conflitos sobre a continuidade do modelo surgido com Perón”
(SILVA, 2001, p. 324). Enuncia-se o rompimento do modelo de
industrialização, ancorado fortemente na participação do Estado
e no setor trabalhista, para um modelo liberal-conservador,
arraigado sobretudo nas elites agrárias e associado ao capital
estrangeiro, principalmente o norte-americano.
Esse
novo modelo irá se intensificar a partir de 1966, com o golpe
militar do general Juan Carlos Ongania. A partir de então, os
militares se declaravam imbuídos da “missão de salvar a pátria”
(SILVA, 2001, p. 324). “Salvar a pátria” nesse caso, seria
formular uma ambiciosa estratégia de longo prazo, visando, por um
lado, realizar o desenvolvimento econômico, impulsionando a
industrialização através da participação do capital
estrangeiro, e de outro, construir uma estabilidade política,
reformulando o padrão de conflito existente na sociedade argentina,
“superando a antinomia peronismo-antiperonismo e substituindo-o
por um padrão julgado mais adequado para o desenvolvimento harmônico
da nação, segundo os critérios militares, dentro de um contexto
ocidental e cristão” (DELLASOPPA, 1998, p. 278).
Para
salvar a pátria e harmonizar a nação, os militares buscaram
sustentação na Doutrina de Segurança Nacional (que povoou os países
do hemisfério sul, sobretudo após a II Guerra Mundial), visando
conceber instrumentos idôneos capazes de enfrentar a infiltração
marxista e o perigo comunista, nos marcos do alinhamento ocidental e
cristão (DELLASOPPA, 1998; HUGGINS, 1998). Começa assim, uma forte
repressão contra militantes políticos, sociais e culturais. A
pretexto de barrar a penetração marxista, os militares se
empenharam em uma repressão mesquinha, “que punha sob as tesouras
da censura a mídia, o cinema, o teatro, os costumes, os cabelos
compridos e o namoro em público” (DELLASOPPA, 1998, p. 275). O
padrão moral era dado pelo catolicismo de direita e tudo o que se
afastasse disso era considerado subversivo ou perigoso à segurança
nacional.
A
repressão - principalmente aquela voltada para o movimento operário
e organizações políticas de esquerda (peronistas ou não) - vai
fazer com que esses movimentos assumam uma clara posição de
confronto com o Estado e o regime militar (que por sinal tinha
dificuldades de montar uma base popular). Síntese disso foi a eclosão
da rebelião popular de Córdoba em 1969 – El
Cordobazo, que irá deixar os militares perplexos diante dos
acontecimentos e da resistência operário-estudantil.
O
período entre 1966-1983 revela um período de intensa repressão,
que pode ser caracterizado como terrorismo
de Estado (SAIN, 2000), diante da participação e da ação dos
militares nesse processo. Uma pausa nessa brutal política de Estado
poderia ser observada no curto período que vai de 25 de maio de
1973 até 24 de março de 1976 (período que sucedem no governo Héctor
Cámpora, Perón e Isabelita Perón), caso não tivéssemos o indício
de participação de membros da Escola de Mecânica da Armada (Esma)
no terrível grupo paramilitar Triple A (Aliança Anticomunista
Argentina).
Nesse
sentido, a desenfreada violência na Argentina começou antes do
golpe militar que depôs Isabelita Perón em 1976. O governo de
Isabelita foi marcado por uma grande disputa entre várias forças
sociais de partidos da esquerda e da direita. Em 1970 os partidos
adotaram ações radicais financiando suas ações com seqüestros,
chantagens e assaltos. O Exército Revolucionário (ERP) era o
principal grupo de esquerda e promoveu ações políticas nas
universidades e fábricas. Enquanto isso, a Aliança Anticomunista
Argentina (Triple A) era o grupo de direita mais importante. Entre
maio de 1973 e março de 1976 foram contabilizados 1207 mortos e 847
feridos pertencentes ao “campo do povo” e 336 mortos e 604
feridos pertencentes ao campo do “regime” (DELLASOPPA, 1998, p.
328).
Em
24 de março de 1976, quando a Junta Militar compostas pelos
comandantes-em-chefe das três Forças Armadas - o general Jorge
Rafael Videla, o almirante Emílio Eduardo Massera e o brigadeiro
Orlando Ramón Agosti - tomou o poder e dissolveu o Congresso,
iniciou-se a ditadura militar “mais violenta e transformadora da
história argentina” (SAIN, 2000, p. 22).
Tal
ditadura implicou uma fissura na ação do poder militar, não só
pela tendência autodefinida e auto-sustentada da interferência
castrense no sistema político, mas particularmente, pela capacidade
de reconstituição das condições de dominação social, pela
redefinição do papel do Estado e pela reestruturação social e
política provocada por essa ação, no quadro da mais cruel experiência
de terrorismo de Estado observada
no Cone Sul (SAIN, 2000, p. 22).
A
intensidade da repressão revela que o terrorismo de Estado foi
infinita e proporcionalmente maior do que a ação da oposição. A
chamada guerra sucia,
com sua maquina repressiva estatal, impôs um verdadeiro
genocídio. Entre 1976 e 1979, foram dadas como desaparecidas cerca
de 9 mil pessoas identificadas pela Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas. Outras fontes
apontam até 30 mil desaparecidos. Outras 1.898 pessoas foram
assassinadas, sendo seus cadáveres encontrados e identificados
posteriormente. Nesse período ainda, foram criados mais de 350
campos de concentração. Em suma, a repressão procesista
assassinou, em menos de uma década, mais de 30 mil pessoas, após
intermináveis sessões de tortura (SAIN, 2000; SILVA, 2001).
Essas
atrocidades começaram a vir a público quando em 1984, a Comisión
Nacional sobre la Desaparición de Personas (Conadep), presidida
pelo escritor Ernesto Sábato publicou o seu livro Nunca
más, suscitando as informações acima. Outros indícios sobre
a violência praticada pela ditadura militar na Argentina e em
outros países do Cone Sul puderam ser desvendadas quando em
dezembro de 1992 foram descobertos os arquivos da polícia secreta
do Paraguay, o chamado Arquivo
do Terror, que demonstra como as ditaduras militares colaboraram
entre si.
Mas
nenhum acontecimento causou mais espanto, quando em março de 1995,
o ex-capitão da Marinha, Adolfo Francisco Scilingo foi entrevistado
pelo jornalista Horácio Verbitsky, do diário Página 12, e
confirmou o que todos já imaginavam, mas não tinham certeza: a
ditadura militar fez quase uma centena de “vôos da morte”,
jogando em alto mar entre 1500 e 2000 prisioneiros vivos (MARIANO,
1998).
Os
passageiros dos “vuelos de
la morte” estavam presos na Escola de Mecânica de la Armada (Esma).
Esses vôos eram executados sempre às Quinta-feiras e levavam de
cada vez, entre 15 e 20 passageiros. Antes de serem jogados ao mar,
os prisioneiros eram entorpecidos com o soro da verdade (pentatol),
para que sedados, não pudessem ver o seu triste fim.
Com
as declarações de Adolfo Francisco Scilingo, foi possível levar a
público todas as atrocidades cometidas pela Esma.
Alfredo Astiz, outro oficial da Marinha, também em depoimento,
admitiu ter participado de operações de "grupos de
tarefa" da ESMA, destinada a seqüestrar, fazer
"desaparecer" ou matar pessoas consideradas
"inimigas" do governo militar
(WESCHLER, 1990). Porém as declarações dos oficiais da
Marinha causaram um grande impacto na sociedade, pela primeira vez,
além de seqüestros, torturas e assassinatos, houve o
reconhecimento de seqüestros e mortes de bebês durante a ditadura
Argentina. Na Esma,
funcionou uma maternidade clandestina – pelo menos 18 partos estão
comprovados. A maioria das crianças foi entregue às famílias de
militares e colaboradores. Na ESMA passaram cinco mil detidos, dos
quais somente cerca de 40 sobreviveram.
A
repressão não conseguiu conter totalmente os grupos de resistência
ao governo. Na Argentina, as Mães
da Praça de Maio é originalmente um movimento de protesto das
mães que tiveram seus filhos desaparecidos durante o regime
militar. Desde então, o movimento tem confrontado as autoridades
para responsabilizar os culpados pelos desaparecimentos dos seus
filhos. As Mães da Praça de
Maio tornaram-se um grupo internacionalmente reconhecido pela
coragem de enfrentar o governo repressivo através de manifestações
pacíficas. Ainda hoje, lutam para saber quem são os assassinos de
seus filhos.
Após
um longo período de repressão a ditadura começou a dar sinal de
estagnação nos países sul americanos. No caso da Argentina, após
a extensiva política econômica liberal sucatear a indústria nacional,
os militares começaram a perder o seu poder. Procurando o apoio
popular, em 1982, os militares, liderados pelo general Leopoldo
Galtieri, invadiram as Malvinas, território britânico reivindicado
pela Argentina. A derrota argentina levou à renúncia de Galtieri.
Seu substituto, general Reynaldo Bignone, negociou a volta dos civis
ao poder.
Em
1983, Raúl Alfonsín venceu a campanha para presidência. Em seu
discurso eleitoral prometeu promover a redemocratização, a criação
de um programa de direitos humanos e rejeitar a tentativa dos
militares de adotarem a auto-anistia. Alfonsín ordenou a prisão
dos comandantes das juntas militares, que foram julgados e
condenados à prisão. No entanto, para evitar a onda de vingança
Alfonsín promulgou, em 23 de dezembro de 1986, a Lei
do Ponto Final, que estabelecia um prazo de 60 dias a partir
daquela data para a apresentação de novos processos contra os
envolvidos na repressão. Em 05 de junho de 1987 foi sancionada a Lei
da Obediência Devida que isentou de culpa os oficiais
subalternos, baseado no fato de que, supostamente, estariam
cumprindo ordens. Vários militares foram anistiados, porém em
1990, novos fatos foram levados a público e muitos oficiais foram
novamente presos, acusados de seqüestro de cerca de 200 menores de
idade (a grande maioria bebês) que atualmente estão sendo
procurados pelos seus familiares e pelas organizações não-governamentais
argentinas. Os seqüestros de menores por parte do Governo estão
excluídos da legislação conhecida como "Ponto Final",
aprovada em 1986.
Atualmente
a Argentina vem questionando as leis que privilegiaram os
representantes do governo autoritário. O atual presidente Néstor
Kirchner está promovendo mudanças na legislação através de
anulações de decretos que impediam a extradição de militares
acusados de violação de direitos humanos. Recentemente as leis do Ponto
Final e da Obediência Devida foram declaradas inconstitucionais, e a ESMA foi
transformada em arquivo e lugar de memória sobre a ditadura. São
passos importantes para que a Argentina possa debater e reencontrar
o seu passado, tão presente nas mentes e corações de uma parte da
população.
É
importante frisar que a memória desse período é ainda incômoda e
imprecisa. É incômoda porque as novas descobertas sobre o período,
além de descobertas de arquivos, como o “arquivo do
terror”, no Paraguay, desvenda com mais nitidez o terror que se
abateu sobre os dissidentes do regime militar.
Isso
faz com que, tanto a direita, como as classes dominantes, procurem
se imiscuir dessa herança, através de discursos sobre a
excepcionalidade do período e dos atos praticados. Elas estão imbuídas
de apagar o passado e promover o esquecimento como a melhor forma da
recuperação da harmonia nacional. Apagar da memória os crimes
cometidos pelas ditaduras é apagar da memória as lutas
desenvolvidas contra elas. Apagar da memória esse passado traumático,
indesejado, é querer impedir que a sociedade conheça o arbítrio e
a violência política instaurada pelas ditaduras. Em contrapartida,
os grupos de esquerda, os familiares e os ativistas de direitos
humanos tem desenvolvido uma importante ação no sentido de
construir uma memória que se contraponha à memória oficial, como
bem frisou na edição anterior desta revista, Silvia Beatriz Adoue
(REA, 58, março/2006).
Para
finalizar, vale concordar com Adoue, que “a luta política é também
uma batalha por impor uma narrativa sobre o passado, sobre o
presente e também sobre o tempo por vir, uma vez que é uma batalha
para impor projetos (todo projeto é uma “narrativa” sobre o
tempo que virá). Essa luta está sendo travada agora mesmo, no
presente”.