A
privatização do apoio à Cultura
Naquele
ano, 1922, toda a classe artística brasileira, e em particular a
do Rio de Janeiro, estava esperançosa e radiante. Afinal, a Lei
Renaud estava em pleno vigor e aquela original idéia da chamada
"renúncia fiscal" dava maior credibilidade ao governo
Epitácio Pessoa. Era o ano do primeiro centenário de nossa
independência e esta, finalmente, começava a sorrir para os
artistas brasileiros.
As
mais importantes empresas brasileiras recebiam projetos e mais
projetos que, com base na Lei do Mecenato, atraíam a atenção e
o interesse dos empresários. As empresas que mais receberam
projetos dos artistas foram a São Paulo Coffee, o Banco Nordeste,
as Lâmpadas Edison-Mazda, a Vanadiol ("o grande
fortificante!"), a Antarctica ("os grandes productos do
mercado: cervejas – licores") e a Companhia Fiat-Lux.
A
reunião da diretoria da Fiat-Lux, naquela agitada noite de 22 de
julho de 1922, iria ser muito inflamada. Apenas três projetos
culturais haviam sido apresentados à empresa, mas a discussão
era acalorada. Um filme, uma viagem de concertos eruditos e uma
viagem de um conjunto de música popular eram os projetos a serem
analisados. Seus autores eram Benedetti, Villa-Lobos e um tal de
Pixinguinha, jovem de 24 anos de idade que havia criado um
conjunto de nome "Os Oito Batutas".
O
Dr. Pullen, apaixonado por cinema, puxava a brasa para a sardinha
do projeto do tal Paulo Benedetti: um filme intitulado "A
Gigolete". O roteiro até que era bem medíocre. Mas o autor
do projeto incluía no elenco, com um expressivo papel, o famoso
ator Jaime Costa.
Mas
outro membro da diretoria, o Dr. Davidson, estava intransigente.
Ia ser difícil demovê-lo do propósito de dar toda a verba para
o projeto do compositor Villa-Lobos: uma viagem a Paris, para
difundir a nova música brasileira. Os argumentos do Dr. Davidson
eram contundentes. "– Este doido, o Villa-Lobos, faz uma música
que ninguém entende hoje porque ele é um gênio!" –
vociferou o Dr. Davidson.
"–
Mas ele foi vaiado recentemente, lá em São Paulo, naquela tal
Semana de Arte Moderna! Você não se lembra?" – gritou o
Dr. Pullen, completando: " – Este desgraçado faz parte da
turma do Graça Aranha, o calhorda subversivo!"
Mas
tudo indicava que o flautista Pixinguinha e o Paulo Benedetti
seriam prejudicados. Dr. Davidson foi categórico:
"
– Somente uns gatos pingados gostam das músicas malucas deste
tal Villa-Lobos. Seus concertos estão sempre vazios, mesmo com
entrada franca. Mas este jovem, que agora está com 35 anos, daqui
há 70 anos poderá ser considerado o maior compositor brasileiro
de todos os tempos, com renome maior que o de Carlos Gomes!"
As
expressões faciais do Dr. Davidson eram fortes, marcantes. Ele
franzia a testa e o pescoço inflava dando a impressão que ia
fazer estourar o colarinho apertado. Prosseguia ele:
"–
Devemos apoiar a música brasileira contemporânea, apesar de seus
sons estranhos. O Heitor Villa-Lobos tem usado, nas suas obras
para orquestra, um naipe avantajado de instrumentos de percussão.
Coisa de doido. Lá na ABI, noutro dia, vi o maestro regendo uma
barulheira infernal, em que os sons dos violinos eram apoquentados
pelos barulhos de caxambus, chocalhos de lata, tambores africanos,
ganzás, matracas, pios e cuícas. Até saxofones o doido
descabelado coloca na orquestra. Não entendi nada, mas sinto que
este músico precisa de apoio para que as gerações futuras
obtenham o devido retorno".
"–
Que irresponsabilidade!" – esbravejou o Dr. Pullen.
"Queremos lucro, luuuuuuucro!" – completou. "Que
negócio é este de gerações futuras?
"–
Meu prezado! Pense bem! Somos capitalistas e imperialistas, mas a
arte e a cultura estão acima de tudo! Investimento imaterial!
É este o bom caminho! Nós devemos aproveitar a renúncia fiscal
do governo para aplicarmos em cultura, mesmo sabendo que, apoiando
malucos, não teremos nenhum retorno financeiro. Os malucos de
hoje hão de ser os gênios consagrados de amanhã, que enriquecerão
o acervo cultural daquela nação cujos cidadãos serão os nossos
filhos e os nossos netos."
O
Dr. Davidson não era o único, na reunião, a demonstrar preocupação
com a arte de vanguarda, de pouco público. Mr. Martin e a
assessora Margareth concordavam com ele:
–
"Este projeto, Os Oito Batutas, não precisa de nosso apoio.
Isto é música popular, que se sustenta sozinha. Tem público
certo, pagante!" – opinou a Sra. Margareth.
Mr.
Martin foi mais longe:
–
"É isso mesmo! O argumento vale também para este projeto de
filme: A Gigolete. Esta cambada do cinema só pensa em dinheiro.
Querem ganhar altíssimos lucros, faturando com doações, patrocínios
e bilheterias. Ainda têm a coragem de chamar isto de Sétima
Arte! Vejam só! São industriais que se camuflam de
artistas!"
Já
estava na hora de votar. Realmente, só a música arrojada, de
vanguarda, sem público, deveria ser apoiada. As opiniões
afunilavam para este consenso. Música popular, cinema,
literatura, artes plásticas, tudo isso tinha público certo,
pagante, que podia sustentar a produção.
"–
Veja como vendem o Calixto e o Batista da Costa! Dizem que até
aquela moça de Capivari, a Tarsila, está vendendo seus quadros
em Paris!" – exclamou Mr. Martin.
Unanimidade!
O resultado da votação foi favorável ao projeto de Villa-Lobos.
O empresariado, classe de cidadãos conscientes, esclarecidos,
longânimes, que sempre condenaram a exploração e a injustiça
social, faziam de tudo para ajudar os artistas inovadores.
O
leitor acreditou nessa estória? — Pura invenção! Tudo falso!
É
bem verdade que Villa-Lobos, em 1922, recebeu algumas dezenas de
contos de réis para empreender uma viagem de concertos na Europa.
Mas o grande mecenas foi o poder público.
No
dia 22 de julho de 1922, graças a uma brilhante defesa do
deputado Gilberto Amado, a Câmara dos Deputados aprovou uma
subvenção de cento e oito contos a fim de que Villa-Lobos
pudesse realizar concertos na Europa. Em 30 de junho de 1923
Villa-Lobos, a bordo do navio francês Croix, deixava o Rio
de Janeiro com destino a Paris.
Sendo
tudo pago com o dinheiro do povo brasileiro, em 3 de maio de 1924
Villa apresentou concerto com suas obras, para alguns gatos
pingados, na salinha da Editora Max Eschig, em Paris. Mas os gatos
pingados eram multiplicadores e formadores de opinião e deu no
que deu. Novas portas começaram a se abrir para o gênio
brasileiro, graças ao empurrão inicial do povo brasileiro, via
poder público.
Mas
a primeira viagem de concertos que Villa-Lobos faria a Paris,
patrocinada pelo governo brasileiro, não podia deixar de ser
precedida de uma bela e cerimoniosa despedida. Assim, o Presidente
Epitácio Pessoa esteve presente ao concerto, em sua homenagem,
que Villa regeu no Teatro Municipal do Rio em 11 de novembro de
1922. O presidente teve a paciência de ouvir oito obras do
revolucionário promissor. Não se fazem mais presidentes como
antigamente.
Em
outubro e dezembro de 1927 a façanha brasileira se repetiu, com
alguns concertos na Salle Gaveau. Essa nova estada de Villa-Lobos
em Paris foi possível porque o deputado Carlos Guinle emprestou
ao maestro o seu apartamento da Place Saint Michel nº 11. Era ali
que Villa organizava, todo domingo, uma feijoada para ser
deliciada por Edgar Varèse, Arthur Rubinstein, Vera Janakopoulos,
Antonin Artaud, Luigi Russolo, Calder e vários figurões que lhe
abriram espaços na Radio ORTF, na Salle Gaveau, na Orchestre
Colonne, na Révue Musicale, etc.
Villa-Lobos
– há de se concluir – é hoje um patrimônio nacional e
internacional não apenas por sua genialidade, mas também porque
o Estado brasileiro deu-lhe o apoio devido no momento certo. Esse
momento foi longo, porque durou vários mandatos: Epitácio,
Bernardes, Washington Luís, Dutra e Getúlio.
A
arte revolucionária, que está à frente de sua época, e
portanto com um público reduzidíssimo, não pode avançar e
contribuir para a cultura nacional se for colocada à mercê do
mercado. Não são os empresários e o público consumidor que hão
de sustentar a nova e revolucionária produção artística,
porque o retorno desse tipo de arte é de longo prazo.
Evidentemente,
apenas o poder público ou, enfim, o Estado, pode ter consciência
do problema e, assim, dispor-se a resolvê-lo. Infelizmente o
neoliberalismo das políticas governamentais faz com que todas as
rédeas do futuro brasileiro sejam entregues à iniciativa
privada. Ao bandido são entregues o ouro, o lucro, a segurança
nacional, o poder decisório, o controle da informação e da
comunicação e também o recriado poder de censura.
A
Lei do Mecenato nada mais faz do que privatizar o apoio à
cultura. Esse, que constitucionalmente é dever do Estado, é
passado às mãos do empresário usurpador. Teorizações e
desenvolvimentos desse raciocínio certamente nos levariam a
concluir que a Lei Rouanet e seus filhotes são inconstitucionais.
O
governo resolve praticar a "renúncia fiscal". Que vem a
ser isso? Praticamente, o governo demonstra não confiar em si
mesmo, porque ao renunciar a uma percentagem ou à totalidade do
imposto o governo está, no fundo, dizendo ao empresário: "—
Não vou arrecadar seu tributo. Fique com a grana, porque se você
me a entregar vou gastá-la em bobagens, não a aplicando em
cultura. Vários níveis de meus escalões poderão até mesmo
embolsá-la. Portanto, aplique você mesmo em cultura,
diretamente, porque eu não confio em mim!"
Há
alguns anos o Ministério da Cultura divulgou, através de sua
Secretaria de Apoio à Cultura, os objetivos da Medida Provisória
que pretendeu dar às Artes Cênicas, à Ópera e à Música
Erudita os mesmos benefícios que vinham sendo dados apenas aos
cineastas (sempre eles!). Mas foram feitas, nos esclarecimentos
governamentais, sérias restrições em nome e em defesa do
"interesse público" (sic). Aquele que usa a expressão
"interesse público" está sempre a se referir ao
interesse dos cidadãos seus contemporâneos. Assim, o
"interesse público" a que se referia o MinC, é o
interesse do "público" de hoje, do povo de hoje. Em
outras palavras, quando os detentores do "poder público"
dizem estar defendendo o interesse público, ele está querendo
dizer que defende os interesses daquela sociedade contemporânea,
cujos membros eles representam ou dizem representar. Mas, muita
coisa que é de "interesse público" para a sociedade de
hoje, é desinteressante, e muitas vezes prejudicial, para a
sociedade de amanhã: a sociedade que vai ser formada pelos filhos
e netos dos cidadãos da sociedade de hoje. Antagonicamente, muita
coisa que é de "desinteresse público" para a sociedade
de hoje é de "interesse público" para a sociedade de
amanhã.
O
Estado precisa olhar por seus artistas inovadores, brilhantes e
fecundos, apoiando-os incondicionalmente, porque há de ser ele,
sempre, o único ator do cenário nacional que poderá agir sem
interesses imediatistas. Apenas o poder público, e nunca o poder
privado, poderá ter condições para o vislumbre magnânimo que
resulta em investimentos de risco para possíveis – e não
assegurados – retornos imateriais no futuro longínqüo.
É
o governo, para que se cumpra o dever do Estado, que deve direta e
especificamente apoiar a cultura. Se a questão estratégica for
considerada em sua plenitude, será fácil ter-se consciência de
que a Cultura e as Artes, melhor que o Comércio, a Indústria e
as Forças Armadas, são os fatores que provocam a admiração e o
respeito internacional. É justamente a intensidade desse apoio às
Artes que irá determinar, em termos políticos, a opção entre
hegemonia, aliança ou submissão.