O
Brasil e a nanotecnologia:
rumo
à quarta revolução industrial
O
mundo encontra-se no limiar de uma nova revolução industrial, ou
melhor, ele já está, de fato, mergulhado nela: trata-se,
obviamente, da transformação radical dos processos e produtos de
nossa atual civilização industrial por meio da aplicação do
infinitamente pequeno às mais diferentes utilidades da vida diária.
Essa revolução é bem mais importante, e mais desafiadora, do
que aquelas que presidiram ao domínio do homem sobre as forças
da natureza nas três revoluções anteriores ou etapas
precedentes de progressos materiais e tecnológicos desta nossa
civilização industrial.
Com
efeito, a primeira revolução industrial, iniciada na Grã-Bretanha
há pouco mais de dois séculos, assistiu à transformação da
energia em força mecânica, sob a forma de caldeiras e máquinas
a vapor, o que redundou, entre outros avanços materiais, no
impulso dado às indústrias manufatureiras (com destaque para o
setor têxtil) e aos transportes aquaviários e ferroviários. Ao
mesmo tempo, começou a funcionar o primeiro instrumento
verdadeiramente universal de comunicação quase instantânea, o
telégrafo (ainda funcionando à base de fios e de cabos
submarinos), que representou uma espécie de internet da era
vitoriana. Já na segunda revolução industrial, um século após,
o destaque ficou com a eletricidade e a química, resultando em
novos tipos de motores (elétricos e à explosão), em novos
materiais e processos inéditos de fabricação, paralelamente ao
surgimento das grandes empresas (algumas vezes organizadas em cartéis),
do telégrafo sem fio e, logo mais adiante, do rádio, difundindo
instantaneamente a informação pelos ares. A terceira revolução
industrial, nossa contemporânea por sua vez, mobilizou circuitos
eletrônicos e, logo em seguida, os circuitos integrados, os
famosos microchips, que
transformaram irremediavelmente as formas de comunicação e de
informação, com a explosão da internet e do comércio eletrônico
e voltada crescentemente para o lazer.
A
quarta revolução industrial, na qual estamos ingressando neste
momento histórico, mobiliza, fundamentalmente, as ciências da
vida, sob a forma da biotecnologia, bem como uma gama
multidisciplinar de ciências exatas e cognitivas que responde
pelo nome de nanociência. Esta, por sua vez, se confunde
praticamente com suas materializações práticas, sob a forma da
nanotecnologia. Desde várias décadas, senão há mais de um século,
os cientistas tentam domar o infinitamente pequeno, plenamente
conscientes de que é ao nível das moléculas, das partículas e
dos átomos que se joga parte importante do jogo da vida e da própria
composição e funcionamento do infinitamente grande, isto é, do
universo. Essa busca resultou em enormes avanços científicos e
materiais para a humanidade, assim como no deslanchar de forças
que chegaram a ameaçar a própria sobrevivência da civilização
sobre o planeta, tanto sob a forma do holocausto nuclear como na
perspectiva de uma guerra biológica ou química.
Agora,
quando os novos equilíbrios estratégicos e a diminuição das
tensões permitida pela relativa convergência de valores e de
sistemas econômico-sociais atribuem um sentido positivo às
pesquisas científicas nas áreas da energia atômica, dos novos
materiais, dos elementos químicos e da biologia, as
possibilidades abertas pela inovação tecnológica e pela cooperação
internacional nessas áreas de fronteira do conhecimento humano
abrem um potencial imenso de realizações, para a humanidade em
geral, e também para o Brasil.
O
Brasil logrou, com efeito, construir um sistema de ciência e
tecnologia que se caracteriza pela quase excelência, do ponto de
vista dos padrões conhecidos nos países em desenvolvimento,
inclusive não ficando a dever, em certas áreas de pesquisa,
quase nada aos países desenvolvidos. O desempenho do Brasil é
menos satisfatório no que se refere à transposição das
descobertas, inovações e resultados do saber científico para o
campo da pesquisa aplicada e no terreno prático de suas derivações
tecnológicas e industriais mais imediatas. Ambas as insuficiências
resultam de uma deficiente cultura patentária e de um preconceito
ainda latente na academia ‑ felizmente cada vez mais
residual ‑ contra aplicações instrumentais ou “utilitárias”
da pesquisa científica. Ainda assim, pode-se dizer que os
resultados já alcançados nessa área, inclusive a partir da
“marcha forçada” em direção dos últimos gargalos nos ramos
intermediários e de insumos, bem como os investimentos estatais
em alguns setores de ponta, oportunamente revertidos ao setor
privado, permitem classificar o Brasil como uma economia
industrializada e plenamente inserida na terceira revolução
industrial.
Mas,
esse “acabamento” relativamente satisfatório do processo
industrializador no Brasil pode doravante estar sendo ameaçado,
justamente, pelos novos processos, métodos e materiais inéditos
que estão emergindo como resultado da revolução da nanociência
e da nanotecnologia aplicadas ao complexo e diversificado setor
industrial ou manufatureiro. De fato, a nanociência permite,
impulsiona e praticamente obriga à geração de conhecimentos
avançados, que se revelam convergentes em vários setores da arte
e do engenho humanos, em biotecnologia, nos novos materiais, na
instrumentação técnica, assim como nas próprias formas de
organização social da produção e do trabalho humano. A
nanotecnologia, por sua vez, leva, quase que naturalmente, ao
surgimento de novos ramos industriais e de novos mercados que, ao
configurarem um novo padrão, superior, de produção fabril e
manufatureira, não tardarão a se impor, doravante, como a mais
nova fronteira da civilização industrial, um paradigma incontornável
de concepção, desenho e fabricação de novos produtos e insumos
que modificarão, de forma substancial e irremediavelmente, as
características da sociedade atual.
As
tendências que já apontam para uma situação de ruptura tecnológica
e de mudança profunda na configuração de procedimentos
industriais afetarão a produtividade relativa das indústrias, o
jogo das vantagens comparativas entre os países, bem como a própria
composição do comércio internacional, condenando os países que
não se alinharem aos novos padrões a perdas gradativas de
competitividade ou até mesmo à esclerose precoce de parques
industriais inteiros. Não há nenhum exagero na afirmação
precedente: o lado científico e, a
fortiori, o lado prático da nanotecnologia chegaram para
alterar definitivamente velhos padrões industriais e correntes
tradicionais de comércio internacional. Uma coisa precisa ficar
clara, desde já: os países que não se decidirem por incorporar,
por adotar ou que, simplesmente, não se adaptarem ao novo
paradigma correm o sério risco de serem alijados dessa nova face
da civilização industrial emergente.
Trata-se,
portanto, de uma questão de sobrevivência e de preservação dos
níveis de bem-estar. Não se deve estranhar, assim, que os níveis
de investimentos financeiros nessa área, tanto em países
desenvolvidos (como EUA, Alemanha e França), como em países em
desenvolvimento (com destaque para a China, Índia e Coréia),
sejam, desde já, significativos e crescentes. As perspectivas, de
certa forma, são comensuráveis com as altas expectativas de
mercado para produtos da nanotecnologia: cerca de 1 trilhão de dólares
nos próximos 10 a 15 anos, com a possibilidade, segundo
estimativas, de que o Brasil ocupe talvez 1% deste faturamento.
Essa
personagem central da nova revolução industrial de nosso tempo,
que é a nanotecnologia, apresenta a potencialidade de acoplar e
introduzir novas sinergias ao esforço brasileiro de
desenvolvimento econômico, científico e tecnológico. Existem,
claramente, oportunidades abertas ao Brasil, enquanto economia que
possui uma competência identificada (ainda que não de forma
inteiramente sistemática) numa área que vai modificar de forma
irremediável o padrão de desenvolvimento industrial e tecnológico
no futuro próximo. Vale mencionar, neste particular, a existência
de um grupo de trabalho criado pelo Ministério de Ciência e
Tecnologia em 2003, ao qual foi atribuída a responsabilidade da
elaboração de Plano Trienal de Nanociência e Nanotecnologia, e
de uma comissão responsável pela Organização da Oficina de
Nanociência e Tecnologia, na Unicamp, também em 2003 (os relatórios
podem ser conferidos nos seguintes links: http://www.mct.gov.br/Temas/Nano/prog_nanotec.pdf
e http://www.prp.rei.unicamp.br/nano/resumos.pdf).
O Brasil possui pequeno (mas ativo) número de universidades
ocupadas nessa nova área de conhecimento. Duas universidades
brasileiras, a USP e a Unicamp, respondem por cerca da metade da
produção científica publicada em nanotecnologia, seguidas em
quase igualdade de condições pela Universidade Federal de São
Carlos, pela UFMG e pela UnB.
A
gama de atividades classificadas como nanotecnologia cobre áreas
de pesquisa tradicionais como a química e a física, chegando às
atividades que envolvem ciências dos materiais, biotecnologia,
etc., o que demonstra o caráter altamente abrangente da nanociência
e da nanotecnologia (N&N). De fato, uma das particularidades
da N&N é que ela requer competências científicas com os
mais variados horizontes. A N&N sendo uma área altamente
interdisciplinar não permite que se tenha uma idéia exata dos
aspectos relacionados a cada uma das disciplinas implicadas. Como
todas as áreas, ela está baseada em noções fundamentais
conhecidas dos cientistas e engenheiros. Aliás, a separação
entre nanociência e nanotecnologia não tem nenhum significado na
prática: é exatamente por esta razão que na maioria do tempo o
termo nanotecnologia acaba por recobrir nanociência.
Todos
os países inovadores estabeleceram e apóiam ativamente programas
de nanotecnologia, com orçamentos crescentes e do mesmo nível
que a biotecnologia, tecnologias da informação e meio ambiente.
Os programas de nanotecnologia analisados estão vinculados às
estratégias nacionais de desenvolvimento econômico e de
competitividade e todos têm alvos econômicos definidos. Todos os
setores industriais estão desenvolvendo produtos nanotecnológicos,
embora algumas empresas optem por não identificá-los como tal,
por razões, provavelmente, de imagem pública, ou talvez para
diminuir resistências do tipo das que se manifestaram em relação
a produtos da biotecnologia.
O
crescimento previsto pelos especialistas para os mercados de
produtos nanotecnológicos é muito superior ao crescimento de
outros mercados dinâmicos, como o de computadores e telefones
celulares. Estima-se que as aplicações de nanotecnologia e as
que estarão atingindo os mercados nos próximos anos são
evolucionárias, mais do que revolucionárias, estando
concentradas nas áreas de determinação de propriedades de
materiais, produção química, manufatura de precisão e computação.
Não existe, no momento, nenhuma possibilidade razoavelmente
definida para o uso de nanomáquinas capazes de fabricar materiais
montando-os átomo por átomo. Apesar delas ocuparem espaço na
imaginação de escritores, elas não estão nas cogitações de
estrategistas das empresas inovadoras a não ser nas formas de síntese
química/bioquímica e auto-organização. No entanto, é muito
provável o aparecimento – praticamente inevitável - de aplicações
revolucionárias da nanotecnologia, a médio e longo prazo.