|
A educação para além
do capital
de István Mészáros
O ensaio que dá título a
este volume foi escrito por István Mészáros para a conferência
de abertura do Fórum Mundial de Educação, realizado em Porto
Alegre, em 2004. Nesse texto, o professor emérito da Universidade
de Sussex afirma, entre outras coisas, que a educação não é um
negócio, é criação. Que educação não deve qualificar para o
mercado, mas para a vida. Na sessão inaugural do ginásio
Gigantinho, enfatizou o sentido mais enraizado da frase “a educação
não é uma mercadoria”.
Mészáros discute como
pensar a sociedade tendo como parâmetro o ser humano, exige a
superação da lógica desumanizadora do capital, que tem no
individualismo, no lucro e na competição os seus fundamentos.
O autor deste livro
sustenta que a educação deve ser sempre continuada, permanente,
ou não é educação. Defende a existência de práticas
educacionais que permitam aos educadores e alunos trabalharem as
mudanças necessárias para a construção de uma sociedade na
qual o capital não explore mais o tempo de lazer, pois o que as
classes dominantes impõem é uma educação para o trabalho
alienante, com o objetivo de manter o homem dominado. Já a educação
libertadora teria como função transformar o trabalhador em um
agente político, que pensa, age, e usa a palavra como arma para
transformar a realidade.
Nascido em 1930, na
Hungria, com doze anos e meio Mészáros já trabalhava como operário
em uma fábrica de aviões de carga, tendo que mentir a idade em
quatro anos para isso. Começou a trabalhar como assistente de
Georg Lukács em 1951, e seria indicado como seu sucessor na
universidade de Budapeste, mas a invasão soviética de 1956 forçou-o
a sair do país. Vive hoje na Inglaterra. Sua experiência como
trabalhador e estudante na Hungria “socialista” foi
determinante para a compreensão da educação como forma de
superar os obstáculos da realidade.
Pensando na construção
da ruptura com a lógica do capital, Mészáros reflete nas páginas
deste livro sobre algumas questões essenciais: Qual o papel da
educação na construção de um outro mundo possível? Como
construir uma educação cuja principal referência seja o ser
humano? Como se constitui uma educação que realize as transformações
políticas, econômicas, culturais e sociais necessárias?
Os direitos autorais
desta, e de toda a obra de Mészáros no Brasil, foram doados para
o Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra, o MST. |
|
Prefácio
Por
Emir Sader
O
objetivo central dos que lutam contra a sociedade mercantil, a
alienação e a intolerância é a emancipação humana.
A
educação, que poderia ser uma alavanca essencial para a mudança,
tornou-se instrumento daqueles estigmas da sociedade capitalista:
“fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário à maquinaria
produtiva em expansão do sistema capitalista, mas também gerar e
transmitir um quadro de valores que legitima os interesses
dominantes”. Em outras palavras, tornou-se uma peça do processo
de acumulação de capital e de estabelecimento de um consenso que
torna possível a reprodução do injusto sistema de classes.
Em
lugar de instrumento da emancipação humana, agora é mecanismo de
perpetuação e reprodução desse sistema. A natureza da educação
– como tantas outras coisas essenciais nas sociedades contemporâneas
– está vinculada ao destino do trabalho. Um sistema que se apóia
na separação entre trabalho e capital, que requer a
disponibilidade de uma enorme massa de força de trabalho sem acesso
a meios para sua realização, necessita, ao mesmo tempo, socializar
os valores que permitem a sua reprodução. Se no pré-capitalismo a
desigualdade era explícita e assumida como tal, no capitalismo –
a sociedade mais desigual de toda a história –, para que se
aceite que “todos são iguais diante da lei”, se faz necessário
um sistema ideológico que proclame e inculque cotidianamente esses
valores na mente das pessoas.
No
reino do capital, a educação é, ela mesma, uma mercadoria. Daí a
crise do sistema público de ensino, pressionado pelas demandas do
capital e pelo esmagamento dos cortes de recursos dos orçamentos públicos.
Talvez nada exemplifique melhor o universo instaurado pelo
neoliberalismo, em que “tudo se vende, tudo se compra”, “tudo
tem
preço”, do que a mercantilização da educação. Uma sociedade
que impede a emancipação só pode transformar os espaços
educacionais em shopping centers, funcionais à sua lógica
do consumo e do lucro.
O
enfraquecimento da educação pública, paralelo ao crescimento do
sistema privado, deu-se ao mesmo tempo em que a socialização se
deslocou da escola para a mídia, a publicidade
e
o consumo. Aprende-se a todo momento, mas o que se aprende depende
de onde e de como se faz esse aprendizado. García Márquez diz que
aos sete anos teve de parar sua
educação
para ir à escola. Saiu da vida para entrar na escola – parodiando
a citação de José Martí, utilizada neste livro. Seu autor, István
Mészáros, filósofo no melhor sentido da palavra – aquele que
nos ajuda a desvendar o significado das coisas –, húngaro de
nascimento, pôde conviver com um dos maiores pensadores marxistas,
Georg Lukács.
Mészáros
orienta sua obra por uma demanda de seu mestre: reescrever O
capital de Marx – trabalho que empreendeu em seu Para além
do capital 1, hoje
leitura indispensável para
se
entender o sistema de relações capital–trabalho, seus limites,
suas contradições, seu movimento e seu horizonte de superação.
Ao
pensar a educação na perspectiva da luta emancipatória, não
poderia senão restabelecer os vínculos – tão esquecidos –
entre educação e trabalho, como que afirmando: digam-me onde está
o trabalho em um tipo de sociedade e eu te direi onde está a educação.
Em uma sociedade do capital, a educação e o trabalho se subordinam
a essa dinâmica, da mesma forma que em uma sociedade em que se
universalize o trabalho – uma sociedade em que todos se tornem
trabalhadores –, somente aí se universalizará a educação.
“A
‘auto-educação de iguais’ e a ‘autogestão da ordem social
reprodutiva’ não podem ser separadas uma da outra” – nas
palavras de Mészáros. Antes disso, educação significa o
processo
de “interiorização” das condições de legitimidade do sistema
que explora o trabalho como mercadoria, para induzi-los à sua
aceitação passiva. Para ser outra coisa, para produzir insubordinação,
rebeldia, precisa redescobrir suas relações com o trabalho e com o
mundo do trabalho, com o qual compartilha, entre tantas coisas, a
alienação.
Para
que serve o sistema educacional – mais ainda, quando público –,
se não for para lutar contra a alienação?
Para
ajudar a decifrar os enigmas do mundo, sobretudo o do estranhamento
de um mundo produzido pelos próprios homens?
Vivemos
atualmente a convivência de uma massa inédita de informações
disponíveis e uma incapacidade aparentemente insuperável de
interpretação dos fenômenos.
Vivemos
o que alguns chamam de “novo analfabetismo” – porque é capaz
de explicar, mas não de entender –, típico dos discursos econômicos.
Conta-se que um presidente, descontente com a política econômica
do seu governo, chamou seu ministro de Economia e lhe disse que
“queria entender” essa política. Ao que o ministro disse que
“ia lhe explicar”. O presidente respondeu: “Não, explicar eu
sei, o que eu quero é entender”.
A
diferença entre explicar e entender pode dar conta da diferença
entre acumulação de conhecimentos e compreensão do mundo.
Explicar é reproduzir o discurso midiático, entender é
desalienar-se, é decifrar, antes de tudo, o mistério da
mercadoria, é ir para além do capital. É essa a atividade que
István Mészáros chama de “contra-interiorização”, de “contraconsciência”,
um processo de “transcendência positiva da autoalienação do
trabalho”.
Os
que lutam contra a exploração, a opressão, a dominação e a
alienação – isto é, contra o domínio do capital – têm como
tarefa educacional a “transformação social ampla
emancipadora”. Se em Para além do capital Mészáros
retomava o fio condutor de O capital, neste texto –
vibrante, lúcido, decifrador – ele se insere na prolongação do Manifesto
Comunista, apontado para as tarefas atuais do pensamento e da ação
revolucionária no campo da educação e do trabalho – isto é, da
emancipação humana.
|
|

|