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Por
AUGUSTO C. BUONICORE
Historiador,
doutorando em Ciências Sociais/Unicamp, membro do Comitê Central
do PC do Brasil, do conselho de redação das revistas Debate
Sindical e Princípios, do conselho editorial da revista
Crítica Marxista e diretor do Instituto Maurício Grabóis
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Reflexões
sobre o marxismo e a questão racial
(1ª
parte)
I.
Racismo: a ideologia do colonialismo
O
preconceito contra outros povos e outras culturas é tão antigo
quanto a própria humanidade. Os gregos, por exemplo, consideravam bárbaros
(ou seja, inferiores) todos aqueles que não pertenciam à sua
cultura e nem falavam sua língua. Mais tarde os romanos, então
senhores do mundo, consideravam bárbaros aqueles que se encontravam
para além das fronteiras do seu Império – sejam eles brancos ou
não-brancos. Durante o período feudal o preconceito recaiu sobre
os não-cristãos: judeus e muçulmanos particularmente. A cor da
pele acabou ganhando maior projeção na distinção entre os povos.
Afinal, os povos da África, Ásia e América eram não-brancos e não-cristãos.
Por outro lado, os povos nórdicos – tidos como arianos -
foram saindo da lista de povos considerados bárbaros (e inferiores)
e assumindo um lugar ao lado daqueles que se consideravam
civilizados. Mais tarde eles próprios passaram a se considerar uma
fração superior da “raça” branca.
Nesse
artigo não trataremos do racismo em geral e sim do que chamaremos
de “racismo moderno”. Marx e Engels, no seu famoso Manifesto
do Partido Comunista de 1848, falavam da “indústria
moderna”, do “Estado moderno” etc. etc. Todos estes nascidos
com o desenvolvimento do capitalismo na primeira metade do século
XIX. O “racismo moderno” foi, justamente, aquele que se
desenvolveu ao lado da expansão mundial do sistema capitalista.
No
final do século XIX, a Revolução Francesa pôs abaixo as velhas
estruturas econômicas, políticas e sociais
feudal-clerical-absolutistas. Com elas pareciam, irremediavelmente,
derrotados os preconceitos imperantes durante todo período feudal
– entre eles o da existência de uma desigualdade inata entre os
homens, determinada por Deus. Os ideais da grande revolução eram
liberdade, igualdade e fraternidade. “O homens nasciam livres e
iguais” e assim deveriam permanecer, afirmavam os filósofos e políticos
revolucionários. Parecia que o tempo do obscurantismo e do
preconceito havia desaparecido, pelo menos onde a revolução havia
feito o seu trabalho profilático.
Segundo
o intelectual comunista Georg Lukács, no seu clássico O Assalto
a Razão, “a teoria racista – sob sua forma incipiente e
primitiva – foi cientificamente liquidada nos tempos da revolução
francesa” e mesmo “durante a primeira metade do século XIX o
racismo não chegou a alcançar uma influência ideológica digna de
menção”.
Mas
a radicalidade que assumiu sua própria revolução acabou
assustando a burguesia, que resolveu dar um basta aos abusos
igualitaristas. O processo revolucionário conheceu um lento refluxo
e a contra-revolução foi se impondo. Primeiro ato da tragédia
aconteceu em 1794, com a derrota dos jacobinos, chefiados por
Robespierre. O segundo ato em 1799, com o golpe de Estado de Napoleão
Bonaparte. No entanto, ainda sob Napoleão alguns ideais da revolução
sobreviveriam na França e este país continuava sendo a vanguarda
política da Europa, quando comparado à Rússia czarista, Áustria,
Espanha, Portugal e aos pequenos estados que compunham o que hoje
conhecemos como Itália e Alemanha.
Em
1814, com a derrota militar de Napoleão para uma coligação
arqui-reacionária e a constituição da Santa Aliança, abriu uma
nova fase conservadora na Europa e os ideais da revolução de 1789
começaram a perder força. Nem mesmo a retomada da ofensiva
revolucionária em 1830 e 1848 conseguiu restituir a aqueles ideais
o mesmo esplendor. A própria burguesia européia havia abandonado
seu projeto revolucionário e tendia a fazer acordos com as antigas
classes dominantes: os latifundiários feudais.
Mas,
qual a razão dessas mudanças? È que agora a burguesia tinha
diante de si, ameaçador, o proletariado revolucionário. O ano de
1848 foi emblemático nesse sentido. Após a revolução de
fevereiro – que foi uma revolução de “todas as classes e de
todas as cores” – eclodiu em Paris uma revolução nitidamente
operária, que acabou sendo derrotada num banho de sangue poucas
vezes visto. Um dos resultados dos conflitos cada vez mais agudos
entre as classes e frações de classes foi o golpe de Estado de
Louis Bonaparte em 1852 e depois a restauração monárquica –
dessa vez a serviço da expansão do capitalismo e do colonialismo
francês.
Em
1871, novamente, a capital francesa foi sacudida pelos operários
revolucionários que instituíram, pela primeira vez na história,
um poder de caráter popular e socialista que ficou conhecido como
Comuna de Paris. Esta experiência durou pouco tempo e foi esmagada
pela burguesia coligada. Por isso, entre 1848 e 1871, as burguesias
dos países capitalistas centrais abandonaram qualquer veleidade
revolucionária e progressista.
Acompanhando,
e impulsionando, esse processo de direitização das elites européias
estava a retomada do projeto colonial, sob novas bases. O
capitalismo, precisando de novas fontes de matérias primas e de
mercados para seus produtos, voltou-se para os continentes africano
e asiático. A própria América Latina não ficou de fora dos seus
planos expansionistas. Entre 1861 e 1866 as potências européias,
especialmente a França, promoveram uma guerra contra o México e
impuseram-lhe um Imperador europeu, Maximiliano I.
Foi
nesse momento que começou a ganhar força novamente as idéias
racistas. Mas, a ideologia racista da segunda metade do século XIX
não poderia ter por base os mesmos elementos da ideologia racista
da Idade Média. Era preciso que ele se revestisse de uma roupagem
nova, científica, adequada a época de expansão da indústria e da
técnica. Segundo Thomas Skidmore, “um tal corpo de pensamento
racista sistemático não existia na Europa de 1800. Por volta de
1860, todavia, as teorias racistas tinham obtido o beneplácito da
ciência e plena aceitação por parte dos líderes políticos e
culturais dos Estados Unidos e da Europa”.
O
Conde de Gobineau: o pai do racismo moderno
Um
dos primeiros grandes teóricos racistas do século XIX foi o Conde
Joseph Arthur de Gobineau (1816-1882). Na sua juventude estudou línguas
orientais e escreveu vários folhetins que tiveram alguma repercussão
popular. Quando Aléxis de Tocqueville foi indicado ministro de Negócios
Estrangeiros pelo então presidente Louis Bonaparte, chamou o jovem
Gobineau para ser seu secretário particular. Após o golpe de
Estado de Louis Bonaparte (1852), ele se projetou na diplomacia, se
colocando a serviço dos interesses coloniais franceses.
Em
1855 publicou a primeira parte de sua principal obra Ensaio sobre
a desigualdade das raças humanas, que somente foi concluída em
1858. Nela expõe sua tese sobre a existência de uma superioridade
inata das raças brancas e louras (arianas) sobre todas as outras.
Para sua infelicidade, entre 1869 e 1870, foi nomeado
representante diplomático no Brasil. Esta foi a experiência mais
traumática da sua vida, pois nada mais desagradável para um político
e cientista racista que ser obrigado a viver num país onde
predominavam amplamente raças consideradas inferiores.
Chegou mesmo a afirmar que o único membro da raça superior
que encontrou no Brasil foi Dom Pedro II, que se tornou seu amigo.
As
teses de Gobineau tiveram pouca repercussão entre os seus conterrâneos,
exceção de um pequeno círculo reacionário ao redor do poder.
Numa carta ao seu antigo protetor lamentou que suas idéias tinham
maior aceitação nos Estados Unidos que na própria França.
Tocqueville respondeu que o seu livro tinha repercussão apenas
entre as elites brancas do Sul, onde predominava o trabalho escravo.
Gobineau
não se deu por vencido e afirmou: “Tão certo como circula sangue
mesclado nas veias da maioria dos cidadãos de um Estado, estes se
sentem movidos pela força do número a proclamar como uma verdade
vigente para todos o que somente é verdade para eles, a saber: que
todos os homens são iguais”. O seu preconceito não era apenas
contra as raças não-brancas e sim contra o próprio povo francês.
A
teoria racista, justificadora da dominação feudal, se
transformaria numa ideologia justificadora da dominação dos países
capitalistas centrais sobre os países da África, Ásia e América
Latina e também da dominação de uma elite proprietária sobre o
conjunto da população trabalhadora.
O
“gobinismo”, como uma ideologia ainda permeada por preconceitos
feudais (pré-burgueses), não podia ser incorporado na sua
integralidade ao arcabouço ideológico da moderna burguesia européia
e norte-americana. Um dos seus aspectos mais problemáticos era o
seu pessimismo crônico, próprio da pequena nobreza decadente –
pessimismo que se refletiu na tese de que “a raça branca original
havia desaparecido da face da terra” e que ela estaria agora
representada por “bastardos”. Segundo Lukács, a obra de
Gobineau “lançou no mundo pela primeira vez um panfleto
pseudocientífico realmente eficaz contra a democracia e contra a
igualdade, baseada na teoria racista. O livro de Gobineau
constituiu, ademais, a primeira tentativa ambiciosa de reconstruir
toda a história universal por meio da teoria racista, reduzindo a
simples problemas raciais todas as crises da história, todos os
conflitos e as diferenças sociais”.
Ratzel:
A geografia a serviço do colonialismo
Friedrich
Ratzel (1844-1904) foi considerado, por muitos, o pai da geografia
moderna. Ele estudou nas melhores universidades alemãs e
participou, como oficial, da guerra franco-prussiana - um marco do
processo de unificação alemã. Se Gobineau foi o representante um
pouco incômodo da burguesia francesa sob Napoleão III, Ratzel era
o intelectual orgânico da burguesia pró-imperialista alemã, sob
Bismarck. Este último foi o principal comandante do processo de
unificação e construtor de um Estado nacional onipotente. A
Alemanha havia chegado atrasada ao banquete das nações
capitalistas e coloniais, mas em pouco tempo suplantou econômica e
militarmente a França – considerada então a segunda potência
européia. O militarismo foi um dos componentes principais desse
novo Estado emergente.
Ratzel
dividiu os povos em dois grandes grupos: “naturais” e
“civilizados”. Os primeiros eram dominados pela natureza e o
segundo a dominavam. Ele foi um dos primeiros a desenvolver um
conceito que seria tão caro aos nazistas alemães no século XX, o
de “espaço vital”. A história humana seria a história da luta
perpétua dos povos e grupos sociais pelo seu espaço vital –
guerras defensivas ou para conquista de novos territórios. Por
isso, as fronteiras nacionais eram sempre relativas e os povos que não
conseguissem defendê-las deveriam se submeter e concordar com a
redução do seu próprio “espaço vital”. Esta seria uma espécie
de “lei de seleção natural” que regeria a história e as relações
entre povos e Estados.
A
guerra, assim, seria um estado natural das sociedades em expansão.
A naturalização da violência e das guerras de conquistas seria
bastante funcionais para o imperialismo alemão e demais
imperialismos. A expansão das nações civilizadas sobre os
“povos naturais” teria algo de positivo, pois imporia a eles
elementos de progresso. Aos povos naturais conquistados – preguiçosos
por natureza – deveria ser imposto um trabalho compulsório –
entenda-se servidão. Assim, os continentes africano e asiático
seriam áreas de expansão para os povos civilizados da Europa
Ocidental.
As
teorias de Ratzel eram um passo a frente em relação às teorias de
Gobineau, pois não punham o centro de suas explicação da história
nas raças humanas – pois nenhuma seria biologicamente superior à
outra. A superioridade das nações européias estaria vinculada à
sua própria história e, especialmente, a sua localização geográfica
privilegiada. O resultado, no entanto, era o mesmo: justificava-se a
dominação dos países coloniais e de seus povos, que se compõe de
uma maioria não-branca. O determinismo racial deu lugar ao
determinismo geográfico.
Nesse
período, entre 1884 e 1885, ocorreu a Conferência Internacional de
Berlin, da qual participaram cientistas e diplomatas das potências
capitalistas européias - como a Alemanha, Inglaterra, França, Bélgica
- e dos Estados Unidos. A presidência do conclave coube ao próprio
chanceler alemão, Oto Von Bismarck. Atrás da mesa diretora dos
trabalhos se estendia um enorme mapa do continente africano, que
eles pretendiam repartir entre eles. O atual mapa geográfico da África,
que não respeita a divisão tradicional que havia entre os povos e
etnias africanos, é um dos resultados daquela reunião.
Cesare
Lombroso: o crime está na cara.
A
última tentativa expressiva de dar status científico ao racismo
moderno foi a teoria do criminologista italiano Cesare Lombroso
(1835-1909). Nasceu em Verona e exerceu o cargo professor de
psiquiatria e medicina forense. Seu grande prestígio internacional
foi conquistado graças a sua tentativa de demonstrar a relação
existente entre as características físicas dos indivíduos e sua
capacidade mental e propensões morais. Algumas décadas antes já
haviam sido criados novos ramos da “ciência racista”: como a
antropometria e a frenologia. A primeira afirmava que era possível
prever a potencialidade de uma raça através da medição do diâmetro
da cabeça dos indivíduos, a segunda estudava a conformação dos
crânios. No início do século XX ainda eram comuns exposições de
cérebros humanos nos museus do chamado mundo civilizado. Lombroso,
na mesma linha, fundou um novo ramo daquela “ciência”: a
antropologia criminal e escreveu O homem delinqüente (1876)
e O crime, causas e remédios (1899), entre outros títulos.
Quando
diretor do manicômio de Pádua, entre 1871 a 1876, chegou à
conclusão de que se poderia descobrir quem tinha propensão para o
crime observando o formato do crânio, da mandíbula, assimetrias na
face e outras deformações, segundo seus padrões estéticos. A
“teoria” de Lombroso era anticientífica e se assentava apenas
em preconceitos sociais. Segundo Lilia Schwarcs, ele “costumava
visitar escolas e observando crianças pequenas descobria, por meio
de estigmas, os futuros delinqüentes”.
Os sinais físicos desses criminosos em potencial eram: mandíbulas
grandes, ossos da face salientes, pele escura, orelha chapadas, braços
compridos, rugas precoces, testa pequena e estreita. Outras marcas,
não físicas, seriam a epilepsia, o homo-sexualismo e a prática de
tatuagem.
Apesar
de inconsistentes, suas idéias tiveram ampla repercussão no mundo,
especialmente entre policiais, juizes e juristas. O líder comunista
italiano, Antônio Gramsci, fez uma crítica aos métodos da
antropologia criminal lombrosiana. Afirmou ele: "este era o
costume cultural do tempo: em vez de estudar as origens de um
acontecimento coletivo, e as razões de sua difusão, de seu ser
coletivo, isolavam o protagonista e se limitavam a fazer-lhe a
biografia patológica, muito freqüentemente partindo de motivos não
comprovados ou interpretáveis de outro modo. Para uma elite social,
os elementos dos grupos subalternos têm sempre algo bárbaro ou
patológico”.
A
homens como Alfred Rosemberg, caberia a macabra missão de fazer a
fusão entre o racismo de Gobineau, o determinismo geográfico de
Ratzel e as teses de Lombroso para construir o que seria a mais
racista e cruel ideologia do século XX: o nazismo.
II.
Racismo e Ciência no Brasil
As
ideais pseudocientífica predominantes na Europa na segunda metade
do século XIX influenciaram fortemente a intelectualidade
brasileira até a década de 1930. As ideologias racistas,
trans-vestidas de ciência, serviram para justificar as restrições
à cidadania da grande maioria do nosso povo, que era composta de
pessoas não-brancas, e buscaram transformar aquilo que era uma
conseqüência nefasta do nosso processo de desenvolvimento histórico-social
em coisa natural. Naturalizavam assim a nossa miséria, jogando a
culpa nas costas da natureza e do próprio povo, que seria composto
por raças e sub-raças inferiores. A igualdade entre os homens,
inclusive a formal, passou a ser considerada uma utopia – um sonho
irrealizável.
Nina
Rodrigues: o negro como marginal
O
primeiro grande cientista brasileiro a incorporar as teses racistas
modernas foi Nina Rodrigues (1862-1906). Ainda em 1888, ano da abolição
da escravatura, escreveu: “A igualdade é falsa, a igualdade só
existe nas mãos dos juristas”.
Poucos anos depois, em 1894, publicou um ensaio sobre a relação
entre as raças humanas e o Código Penal, no qual defendeu a tese
de que deveriam existir códigos penais diferentes para raças
diferentes. No Brasil, por exemplo, o estatuto jurídico do negro
devia ser o mesmo de uma criança. Esta teoria era particularmente
nefasta, pois aparecia no momento que os negros recém libertados
lutavam para ocupar um lugar na sociedade de classes como cidadãos
portadores de plenos direitos.
Nina
Rodrigues era professor de medicina legal na Bahia e foi um dos
introdutores da antropologia criminal, da antropometria e da
frenologia no país; ou seja, introduziu aqui o que existia de pior
na Europa e Estados Unidos. Em 1899 publicou “Mestiçagem,
Degenerescência e Crime”, procurando provar suas teses sobre a
degenerescência e tendências ao crime dos negros e mestiços. Os
demais títulos publicados também não deixam dúvidas sobre seus
objetivos: “Antropologia patológica: os mestiços”,
“Degenerescência física e mental entre os mestiços nas terras
quentes”. Para ele o negro e os mestiços se constituíam em
chagas da nossa nacionalidade.
Mas,
sua grande obra foi Os Africanos no Brasil, coletânea de
textos escritos entre 1890 e 1905 – publicada postumamente. Estes
foram os primeiros grandes estudos sociológicos sobre a presença
negra na cultura brasileira e, contraditoriamente, foram os mais
importantes trabalhos baseados no chamado racismo científico
publicados no final do século XIX e início do século XX. Logo na
introdução procurou desfazer a falsa concepção existente sobre
os negros brasileiros construída pelo movimento abolicionista.
Escreveu ele: “Para dar-lhe (a escravidão) esta feição
impressionante foi necessário ou conveniente emprestar ao negro a
organização psíquica dos povos brancos mais cultos (...) O
sentimento nobilíssimo de simpatia e piedade, ampliado nas proporções
duma avalanche enorme na sugestão coletiva de todo um povo, ao
negro havia conferido (...) qualidades, sentimentos, dotes morais ou
idéias que ele não tinha e que não podia ter; e naquela emergência
não havia que apelar de tal sentença, pois a exaltação
sentimental não dava tempo nem calma para reflexões e raciocínios”.
Para
ele seria preciso separar a simpatia pelos negros que haviam sido
escravizados e a ciência: “Os destinos de um povo não podem
estar à mercê das simpatias ou dos ódios de uma geração. A ciência,
que não conhece estes sentimentos, está no seu pleno direito
exercendo livremente a crítica e a estendendo com a mesma
imparcialidade à todos os elemento étnicos de um povo (...) Se
conhecemos homens negros ou de cor de indubitável merecimento e
credores de estima e respeito, na há de obstar esse fato o
reconhecimento dessa verdade – que até hoje não puderam os
negros constituir em povos civilizados.”
No
mesmo sentido escreveu: “A Raça Negra no Brasil, por maiores que
tenham sido os seus incontestáveis serviços à nossa civilização,
por mais justificadas que seja as simpatias de que a cercou o
revoltante abuso da escravidão, por maiores que se revelem os
generosos exageros de seus turiferários, há de constituir sempre
um dos fatores de nossa inferioridade como povo”.
Por isso mesmo enaltecia aqueles que destruíram Palmares,
pois haviam colocado um fim na “maior das ameaças à civilização
do futuro povo brasileiro: esse novo Haiti, refratário ao progresso
e inacessível a civilização, que Palmares vitorioso teria
plantado no coração do Brasil”.
Segundo
o renomado cientista baiano, a inferioridade do negro – e das raças
não-brancas – seria “um fenômeno de ordem perfeitamente
natural, produto da marcha desigual do desenvolvimento filogenético
da humanidade nas suas diversas divisões e seções”. No Brasil
os arianos deveriam cumprir a missão de não permitir que as massas
de negros e mestiços possam interferir nos destinos do país. “A
civilização ariana está representada no Brasil por uma fraca
minoria da raça branca a quem ficou o encargo de defende-la (...)
(dos) atos anti-sociais das raças inferiores, sejam estes
verdadeiros crimes no conceito dessas raças, sejam, ao contrário,
manifestações do conflito, da luta pela existência entre a
civilização superior da raça branca e os esboços de civilização
das raças conquistadas ou submetidas”. Talvez nunca antes alguém
tenha defendido com tanta ênfase a repressão aberta e o controle
social contra as camadas populares, representadas pelas populações
não-brancas. A grande ironia era que o fenótipo de Nina Rodrigues
não conseguia esconder sua descendência africana, portanto sua
condição de mestiço.
As
idéias de Nina Rodrigues tiveram grande aceitação social e
influenciaram fortemente toda uma geração de cientistas e
intelectuais brasileiros, inclusive escritores progressistas como
Euclides da Cunha. A sua monumental obra Os Sertões está
impregnada pelo espírito da época. Somente a capacidade daquele
grande jornalista brasileiro pode, em contato com a saga dos
sertanejos de Antônio Conselheiro, extrair conclusões que
contradiziam seus pressupostos teóricos e ideológicos. Essa
contradição está exposta claramente em uma de suas conclusões:
“O sertanejo é antes de tudo um forte”.
Oliveira
Vianna: O racismo decadente
Oliveira
Vianna (1883-1951) foi professor da faculdade de direito do Rio de
Janeiro e em 1920 iniciou a publicação do seu primeiro e mais
importante trabalho Populações Meridionais do Brasil. Logo
em seguida elaborou o ensaio de apresentação do censo oficial de
1920, que foi intitulado Evolução do Povo Brasileiro. Estas
duas obras o projetaram no cenário intelectual brasileiro. Após a
Revolução de 1930 foi indicado para consultoria jurídica do
Ministério do Trabalho e ajudou na elaboração da nova legislação
sindical e trabalhista.
Ele
foi o último grande expoente do racismo pseudocientífico
brasileiro. No seu primeiro livro não deixou dúvidas sobre quais
eram suas referências teóricas mais importantes: “o grande
Ratzel” e “os gênios possantes e fecundos” dos Gobineau e
Lapouge (ambos racistas). Vianna foi, essencialmente, um apologista
das oligarquias rurais brasileiras, procurando reconstruir
idealmente como teriam sido os primeiros colonizadores portugueses.
Entre outras coisas, escreveu: “Pela elevação dos sentimentos,
pela hombridade, pela altivez, pela dignidade, mesmo pelo fausto e
fortuna que ostentam, esses aristocratas, paulistas ou
pernambucanos, mostram-se muito superiores à nobreza da própria
metrópole. Não são eles apenas homens de cabedal (...) são também
espíritos do melhor quilate intelectual e da melhor cultura. Ninguém
excede nos primores do bem falar e do bem escrever. Sente-se na sua
linguagem ainda aquele raro sabor de vernaculidade, que na Península
parecia já haver se perdido. Pois é aqui, na colônia (...) que os
filhos de Lisboa vêm aprender aqueles bons termos, que já lhes
falavam, e com os quais se fazem, no trato social, pedidos e
distintos”. Em Evolução do Povo Brasileiro lançou a tese
de que os bandeirantes paulistas eram perfeitos arianos: altos,
fortes, loiros e de olhos claros. Estas descrições sobre o passado
das elites tradicionais brasileiras não passavam de puras fantasias
reacionárias.
Segundo
ele, o país seria o resultado da vontade e da energia das elites
brancas, racialmente superiores. Os negros e índios, por outro
lado, não haviam dado “nenhum elemento de valor” à nossa formação
histórica e cultural. Uns e outros se tornaram “massa passiva e
improgressiva” sobre a qual trabalhou “nem sempre com êxito, a
ação modeladora da raça branca”. A missão de conduzir o Brasil
rumo à civilização caberia apenas “aos arianos puros, com o
concurso dos mestiços superiores e já arianizados”, pois somente
eles que, “de posse dos aparelhos de disciplina e educação”,
poderiam dominar “essa turba uniforme e pululante de mestiços,
mantendo-a, pela compressão social e jurídica, dentro das normas
da moral ariana”.
Assim
a apologia da raça ariana foi acompanhada, naturalmente, pelo
desprezo quase genocida pelas camadas populares compostas por não-brancos.
Não teve vergonha de afirmar que “os preconceitos de cor e sangue
que reinavam tão soberanamente na sociedade do I, II e II séculos,
tiveram uma função verdadeiramente providencial. São admiráveis
aparelhos seletivos que impediram a ascensão até as classes
dirigentes desses mestiços inferiores, que formigavam nas
subcamadas da população dos latifundiários”. Nos, assim, teríamos
escapado da sina de nos transformarmos num grande Haiti. Para ele os
negros possuíam “fisionomia repulsiva, fácies troglodítica” e
“catadura simiesca”. Novamente temos aqui uma trágica ironia da
ciência racista no Brasil. Oliveira Vianna, tal como Nina
Rodrigues, era descendente de africanos, um típico mestiço
brasileiro.
Oliveira
Vianna não deixa de ser uma figura anacrônica: Era o ideólogo do
racismo, quando ele já começava a ser questionado nos países
capitalistas centrais e quando já se encaminhava para publicação
o livro Casa Grande e Senzala (1933) de Gilberto Freire. Como
afirmou Dante Moreira Leite, “a obra de Oliveira Vianna não
resiste a qualquer crítica, por mais benevolente que o leitor
procure ser”, pois ele “não tinha dotes de observador ou de teórico.
O que nele parece teoria é imaginação gratuita, grosseira deformação
dos fatos e teorias alheias”.
O
seu reacionarismo pode ser medido por sua posição em relação à
abolição da escravatura. Ao contrário de Nina Rodrigues, que a
considerava algo positivo, Vianna descreveu-a como um acontecimento
essencialmente negativo. A Lei Áurea teria concorrido para
“retardar a eliminação” do negro puro, pois a escravidão
teria feito desaparecer mais rapidamente”. Embora,
contraditoriamente, ele houvesse afirmado: “E verdade não havia
nenhuma razão interna que nos levasse imperiosamente à abolição
(...) E o Estado de degradação em que caíram depois da abolição,
e em que atualmente vivem, mostra que o regime da escravidão não
era tão bárbaro e desumano como fizeram crer o romantismo filantrópico
dos abolicionistas”. Quer porque eliminasse a população negra
quer porque impedisse que ela caísse na degradação, a escravidão
parecia ser alguma coisa fundamentalmente positiva.
Miscigenação
e racismo: o branqueamento
O
racismo brasileiro sempre foi eclético. Existiam duas grandes
correntes, que muitas vezes se intercruzavam. A primeira era
racista-segregacionista, que condenava toda e qualquer idéia de
miscigenação racial. Essa, em geral, conduzia a uma visão
pessimista sobre o futuro do Brasil. A segunda apostava suas fichas
no processo de miscigenação, visando solucionar o chamado problema
negro. Ela, pelo contrário, tendia ser mais otimista em relação
às possibilidades futuras do país, enquanto integrante da civilização
ocidental e cristã. O seu otimismo residia na esperança de que a
miscigenação não levaria necessariamente à constituição de um
povo degenerado (de pele escura) e sim de um povo superior, ao
moldes europeus. Esta vertente do racismo foi amplamente dominante
nos trinta primeiros anos do século XX.
João
Batista de Lacerda, diretor do Museu Nacional e representante
brasileiro no I Congresso Universal de Raças, realizado na cidade
de Londres em 1911, expressou de maneira exemplar esse segundo tipo
de racismo – um racismo verdadeiramente à brasileira. Na sua
famosa conferência afirmou que “já se viram filhos de métis
(mestiços) apresentarem, na terceira geração todos os caracteres
físicos da raça branca” e por isso seria “lógico esperar que
no curso de mais um século tenham desaparecido do Brasil. Isso
coincidirá com a extinção paralela da raça negra em nosso
meio”. Dois anos depois um conceituado político e escritor
paulista chamado Martins Francisco Ribeiro de Andrade escreveu:
“Em São Paulo, por exemplo, graças ao clima e a uma série de
fatores antropológicos, o sangue negro desaparecerá na quinta geração”.
Imediatamente
se instaurou uma polêmica entre políticos, cientistas e empresários
brasileiros. Muitos consideraram que a previsão do representante
brasileiro era muito pessimista. Cem anos era muito tempo para a
eliminação completa dos negros. Outros achavam a previsão
demasiadamente otimista. Sílvio Romero apostou que levaria ainda
“uns seis ou oito (séculos), se não mais” para extinção do
elemento negro na sociedade brasileira. No entanto, para todos, o
desaparecimento dos negros seria apenas uma questão de tempo. O
branqueamento era um processo irreversível – caso se impedisse a
entrada de mais negros no país e continuassem sendo mantidos os
altos índices de mortalidade desse segmento da população.
Um
visitante ilustre, o ex-presidente norte-americano Theodore
Roosevelt, que esteve entre nós entre 1913-1914, escreveu: No
Brasil “o ideal principal é o do desaparecimento da questão
negra pelo desaparecimento do próprio negro, gradualmente absorvido
pela raça branca (...) A enorme imigração européia tende, década
a década, a tornar o sangue preto um elemento insignificante no
sangue de toda a nação. Os brasileiros do futuro serão, no
sangue, mais europeus ainda do que o foram no passado”.
Buscando não ferir a suscetibilidade das elites brasileiras,
ele reprovou a idéia de que o brasileiro fosse um povo de negros e
mestiços, pois ele na verdade seria “um povo branco, pertencente
à raça do mediterrâneo (...) às grandes e velhas raças
civilizadas dos espanhóis e italianos”. Talvez aqui ele cometesse
um erro bastante comum entre os presidentes norte-americanos,
confundir o Brasil com a Argentina.
Mas,
se errou quanto ao país acertou em cheio ao definir a ideologia
racial dominante por aqui. Notou que esse processo era “aplaudido
calorosamente pelos mais autorizados estadistas do país”. Em
conversa com um deles ouviu uma crítica a política segregacionista
norte-americana: “Vocês dos Estados Unidos conservam os negros
como elemento inteiramente separado (...) Permanecerão como ameaça
à sua civilização, ameaça permanente e talvez, depois de mais
algum tempo, crescente. Entre nós a questão tende a desaparecer
porque os próprios negros tendem a desaparecer e ser absorvidos
(...) Não tenho por perfeita a nossa solução, mas julgo-a melhor
que a sua”.
Outro
observador norte-americano, crítico da segregação racial
existente em seu país, escreveu, comovido, sobre a original experiência
brasileira: “Uma honesta tentativa está sendo feita aqui para
eliminar os pretos e pardos pela infusão do sangue branco (...).
Este país revelará um dia ao mundo inteiro o único método
existente de interpenetração racial, o único que evitará guerras
raciais e derramamento de sangue”.
Um
dos personagens do romance A Esfinge, de Afrânio Peixoto,
publicado no mesmo ano do I Congresso Universal Sobre as Raças,
afirmava: “Em trezentos anos mais, seremos todos brancos; não sei
que será dos Estados Unidos, se a intolerância saxônia deixar
crescer, isolado, o núcleo compacto de seus doze milhões de
negros”. Para esse mesmo personagem o futuro do Brasil era
radioso, pois “pertenceria a um povo sentimental e inteligente,
digno dessa terra e do tempo em que vive”. Essa qualidade moral
seria fruto da miscigenação, mas esse povo de grandes qualidades
deveria, necessariamente, ser branco.
Existiam
também ideólogos do branqueamento que apostavam suas fichas na
imigração européia e viam com desconfiança a miscigenação.
Azevedo Amaral – ideólogo do Estado Novo – era um deles. Mesmo
após 1937 escreveria: “A entrada de correntes imigratórias de
origem européia é realmente uma das questões mais importantes na
fase de evolução que atravessamos e não há exagero afirmar-se
que o número de imigrantes da raça branca que assimilarmos nos próximos
decênios depende literalmente o futuro da nacionalidade (...) É
claro que somente se tornará possível assegurar a vitória étnica
dos elementos representativos das raças e culturas da Europa se
reforçarmos o fluxo continuo de novos contingentes brancos”. Isso
representaria um “reforçamento de valores étnicos superiores de
cujo predomínio dependem as futuras formas estruturais da civilização
brasileira”.
No
entanto, já no início do século XX, existiram intelectuais lúcidos
que submeteram o racismo de nossas elites a uma crítica mordaz,
entre eles se encontrava Manuel Bonfim que escreveu: “Tal teoria
(racista) não passa de um sofisma abjeto do egoísmo humano,
hipocritamente mascarado de ciência barata, e covardemente aplicado
à exploração dos fracos pelos fortes”. Afirmações como esta
explicam porque um pensador tão avançado tenha sido marginalizado
pelas elites políticas e intelectuais da época, que desposavam
teorias anticientificas assentadas em preconceitos sociais e de
classe.
O
crescimento de uma consciência antifascista na segunda metade da década
de 1930 e a derrota das potências do eixo em 1945 – e a conseqüente
expansão dos ideais democráticos e socialistas - não acabaram
definitivamente com o racismo, mas puseram uma pá de cal na
tentativa de dar-lhe uma base cientifica.
(continua
na próxima edição...)
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