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Por
DEIVY FERREIRA CARNEIRO
Doutorando em História Social pelo PPGHIS/UFRJ.
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Fredrik
Barth, Criminalidade e Justiça: algumas possibilidades metodológicas
e conceituais para o estudo de processos criminais
O
objetivo deste ensaio é trazer à tona algumas possibilidades de
utilização do aparato teórico e metodológico do antropólogo
norueguês Fredrik Barth para o estudo da criminalidade e da justiça
criminal no seio da História Social. Estaremos definindo alguns de
seus conceitos e métodos principais para então propormos utilizações
possíveis na leitura de processos criminais como documentação a
ser utilizada para a compreensão da formação e manutenção de
grupos sociais.
Nascido
na Noruega em 1928, Fredrik Barth sempre cultivou em seu trabalho
empírico a reformulação de mitos e paradigmas antropológicos.
Boa parte de seus artigos teóricos e empíricos buscaram construir
críticas aos modelos funcionalistas e estruturalistas, no que diz
respeito as variantes e condicionamentos comportamentais, que
dominavam a antropologia social de sua época. Pautado no conceito
de ação social de Max Weber (WEBER,
2000: 3-35), Barth percebeu que as ações dos atores sociais
não são dadas nem obedecem a normas sociais externas à ação.
Elas são desencadeadas e geram novas ações, o que nos leva as noções
de interação social, interdependências
e também à teoria dos jogos.
Seu modelo de pesquisa é então processual, ou melhor, é descrito
como generativo, no sentido de perceber como determinada situação é
gerada em seu processo. É no processo que as redes sociais dos
sujeitos se apresentam, fazendo com que a compreensão do contexto,
ou a definição da situação, seja de suma importância.
Em
Barth, o processo é sempre uma barganha entre atores ocupando posições
diferentes devido à posse de status
(direitos, obrigações e limites) diferentes. Sendo assim, os
atores estabelecem estratégias para maximizar seus ganhos, fazendo
do processo algo imprevisível e caótico. Isso é muito
interessante, pois nos possibilita perceber o social não através
de um indivíduo isolado, mas de um indivíduo imerso em relações,
interações e interdependências. O indivíduo é um individuo
relacional. Esse indivíduo relacional é por isso possuidor de um status
ligado a uma ordem social diferente dos demais indivíduos
devido às redes de interações que ele estabelece. Isso nos revela
uma cultura desigualmente distribuída, gerando transações onde
cada parte, com estratégias e valores diferenciados, busca
maximizar seus ganhos. Assim os comportamentos não são
determinados por normas sociais já prontas, mas pelo uso que cada
um faz da margem de manobra, do universo de possíveis que possui (ROSENTAL,
1998: 158-9). Neste sentido, os processos são compostos por
várias transações e podem ser entendidos como uma interconexão
de eventos. Eles são formados pelos elos entre os acontecimentos
interdependentes. Essa noção de processo tira toda e qualquer noção
de ação estática. Barth postula que mesmo havendo certos
constrangimentos no comportamento social, existe a mobilidade, fruto
das incertezas do processo.
Desta
forma, é fundamental para Barth a análise das transações dos
atores para se observar suas ações e modos de pensar, ou seja, nas
transações é possível perceber quais são os valores colocados
em jogo. Na transação nós podemos observar e estudar os processos
básicos que criam consistência entre as diferentes normas de
avaliação da cultura. A transação é constituída por um fluxo básico
de interações entre dois ou mais atores: em sua forma mais
elementar “A” oferece préstimos “x” e “B” é recíproco
com prestações “y”, por conseguinte Ax ®
¬yB.
Além disso, cada parte tenta consistentemente assegurar que o valor
ganho seja maior que o valor perdido. Isso então define dois princípios:
para A, x é menor igual que y; para B, x é maior igual que y (BARTH, 1981: 49-50). Assim, os valores que estão em jogo na
transação devem ser comparados para percebermos como o processo de
consistência na cultura é constituído. Contudo, esta não é uma
tarefa fácil pois estando posicionados para o jogo, os atores têm
diferentes intenções que se dirigem para avaliações diferentes
das prestações tanto que ambos podem tirar proveito. Além disso,
uma das partes pode conseguir informações incorretas, ou ser
desapontado em suas expectativas, isto é, ele pode ser enganado
pelo outro. Ocorre também que em transações mais
caracteristicamente institucionalizadas, as partes podem diferir com
respeito as suas circunstâncias particulares, isto é, os dois têm,
situacional e temporalmente, necessidades diferentes. Assim, é
necessário distinguir a mudança contínua no perfil dos apetites e
preferências do perfil dos julgamentos estáveis de valor através
dos quais as pessoas também parecem aderir. Esses valores mais estáveis
através dos quais diferentes situações e estratégias de longo
alcance podem ser comparados, se tornam mais fundamentais para uma
explanação das formas sociais.
É
importante lembrar que estes valores colocados em jogo são
desiguais, mas se tornam progressivamente sistematizados tão logo
eles passem a ser utilizados para mediar comparações de prestações
em transações: os princípios de avaliação são necessariamente
para pessoas engajadas em tais transações. Eles também se tornam
progressivamente compartilhados e são conhecidos através das
transações: os princípios de avaliação e seus usos se tornam públicos
e servem como guias nas escolhas dos outros. O processo de transação
assim guia simultaneamente a tendência à integração e à
institucionalização. Finalmente, surge um sistema onde os padrões
de comportamentos são gerados de um conjunto de valores
compartilhados onde a resolução dos dilemas individuais de escolha
pela construção dos princípios da avaliação terá um efeito
regenerativo sobre os valores compartilhados. Os valores
compartilhados serão modificados e corrigidos na direção de uma
maior consistência e integração, e outro padrão de escolha e
comportamento será gerado sucessivamente (id.: 51-52). Em suma, através das transações, as avaliações
não são somente corrigidas com referência à coerência e
compartilhamento, mas elas serão também modificadas em direção
da coerência em termos de critérios naturais e externos, isso é,
elas se tornam menos arbitrárias. Os valores então são
institucionalizados quando são usados reciprocamente em transações,
ou seja, quando eles passam a reger as escolhas.
Neste
sentido, a descrição de um processo de interação e interdependência
deve ressaltar mais que as obrigações recíprocas; deve-se levar
em conta os elementos que governam o curso dos eventos, isto é, os
valores norteadores das ações, já que os padrões de
comportamentos surgem a partir de um conjunto de valores
compartilhados. Segundo Barth, valores são o que as pessoas pensam
e como agem sobre certo fim. São julgamentos. A institucionalização
de novos valores através de ações é acompanhada pelo
desenvolvimento de avaliações novas e mais consistentes,
abrangendo e integrando um largo campo da cultura. Quando novos
valores passam a reger escolhas significa que eles foram
institucionalizados, ou seja, quando novas formas de julgamento e ações
são feitas surge a inovação nas estratégias e nas formas de
percepção das relações entre os atores
(id.: 48-60).
Para
colocar em cena um ator racional e ativo, Barth se utiliza de
elementos da teoria dos jogos. A partir dela somos capazes de
compreender o ator operando com suas próprias escolhas, permeadas
por obrigações e limitações o que acaba colocando a incerteza no
cenário onde ocorrem as ações. Em outras palavras, o uso dessa
teoria permite ver o ator social no momento da escolha, de tomar
decisões. Contudo é bom ressaltar que suas escolhas não dependem
apenas de si próprio, ou seja, de seus recursos e obrigações, mas
também das ações e reações (da interdependência, da interação)
dos outros atores posicionados para o
jogo. Neste sentido, em Barth, o modelo baseado na teoria dos jogos
é o mais indicado como chave cognitiva que abre e dá sentido aos códigos
de uma cultura, pois mostra as regularidades da vida social. Através
dele, a realidade resulta do comportamento individual de muitos
atores, que dão forma aos seus atos através da maneira que
utilizam as oportunidades oferecidas – mas o que nós percebemos
é o comportamento e suas conseqüências, e se são ou não
buscados pelos atores. Em suma,
mapear a cultura, descrever o sistema social e ver as categorias próprias
dos atores e seus significados. Ver também as restrições impostas
sobre os comportamentos individuais que surgem na interdependência,
vindo daí as estratégias pelas quais os atores sociais modificam
seus comportamentos
(id.: 14-31).
O
ponto de partida para tal empreitada é o ponto de vista dos atores
– percebe-se daí as categorias cognitivas partilhadas e os
valores dos participantes do sistema: devemos então agregar os
dados seguindo nossas observações e as informações dos
participantes. A partir daí podemos entender o lugar dos eventos
sociais no contexto da sociedade; traduzir o significado dos eventos
antes que sua importância seja documentada. Todavia, como ver o
lugar dos eventos no contexto social? Percebendo os eventos em padrões
de expectativa e obrigações no sistema social. Esses padrões são
descobertos através das ações, falas e relações entre as
pessoas e as informações obtidas dos participantes. É assim que
surgem pistas sobre o significado dos atos que nos revelam como
funcionam as convenções sociais e qual o papel esperado das
pessoas (id.: 14-31).
Esta
perspectiva, então, abre o caminho para identificar, na constituição
das pessoas e dos encontros, as correlações de maior característica
morfológica do sistema macro. Um conceito crucial nesta conexão é
o conceito de definição da
situação, que descreve como fatores culturais
de tipos variados são transformados pelos atores dentro das
limitações que operam no processo de interação. O conceito da definição da situação pode ser utilizado para descrever as
limitações que as diferentes tradições culturais impõem sobre o
controle dos atores e a habilidade de manipular tais definições.
Pode-se deste modo representar a dualidade essencial da organização
social como uma ordenação simultânea da atividade tanto em relações
quanto em empreendimentos (id.: 130-133).
Podemos
então, com base nesses pensamentos de Barth, sugerir uma maneira de
se analisar um grupo em seus meandros. Devemos começar a partir da
identificação das atividades e redes dos atores sociais, ou seja,
devemos mapear as conexões entre as atividades, trocas, relações
e fatores materiais. Agindo assim, não cairemos no erro de
prejulgar quais são os parâmetros, padrões e focos importantes
nesses sistemas desordenados e sobrepostos. Além disso, devemos
definir o “contexto”, ou seja, as circunstâncias e processos
históricos particulares que atuaram nas formas e padrões de um
grupo específico caótico e desordenado. Em suma, devemos estar
atentos ao grau de ordem nas interações e relações sociais, o
grau de compartilhamento da cultura e a maior ou menor adequação
das interpretações mútuas sobre a realidade. Contudo, percebendo
que mesmo que o pertencimento comum e duradouro a um grupo
interdependente e cooperativo crie efeitos sobre o compartilhamento
de conhecimentos e valores, devemos estudá-las como efeitos dessas
condições sobre o grupo e não como um paradigma da vida social
(BARTH, 2000: 184).
Na
verdade, se conseguimos “observar” os indivíduos como
pertencentes a grupos e redes sobrepostas com fronteiras fluidas,
com relações sociais mais ou menos instáveis, fazendo uso de status
(obrigações, diretos e limites) diferentes em cada situação
específica, que lançam mão a todo o momento de diferentes
esquemas interpretativos, construindo mundos diferentes mesmo
vivendo juntos, teremos acesso a um social muito mais amplo e
significativo para a pesquisa empírica.
A
partir de tudo o que já foi dito, temos nesse autor um plano de
pesquisa muito útil para qualquer trabalho que tenha como objetivo
a análise de grupos sociais: 1) examinar as escolhas realizadas
pelos atores sociais; 2) relacioná-las às configurações
particulares nas quais os atores estão inseridos; 3) perceber os
recursos e obrigações disponíveis aos agentes. Agindo assim,
acessaremos os valores, ou seja, os pensamentos que terão sido
levados em conta nas decisões individuais. Contudo esse esquema
deve ser levado a cabo sempre tendo em mente a geração de todo o
processo que provoca a forma observada; explicando os comportamentos
diversos a partir desse mesmo processo, em outras palavras, uma única
gama de cadeias causais deve servir para explicar e entender o
conjunto de fenômenos em questão. Até mesmo os casos vistos como
excepcionais devem fazer parte da gama dos possíveis pois isso
ajudará a definir os pólos que podem percorrer as formas
estudadas.
Tais
concepções abordadas por Barth são muito úteis para a análise
que propomos da justiça e da criminalidade. Os Códigos Penais e
Criminais são capazes de revelar quais são as definições dos
crimes e os papéis determinados para cada uma das partes
envolvidas. Contudo, é no conflito e na interação entre os atores
que conseguimos perceber como a justiça relativa a esses crimes
funcionava num contexto específico. É a ação dos atores que
redefine o que é permitido ou legal na prática jurídica – o que
é vivido acaba redefinindo o que está escrito. Isso nos leva a
enxergar o processo que gerou tal sistema. Assim,
é de suma importância perceber quem são os indivíduos em interação,
seus direitos, seus limites, suas obrigações e os recursos que os
mesmos tinham disponíveis e que acabavam influenciando no resultado
final de um processo criminal, bem como acabavam modificando e
revelando o real funcionamento da justiça. Os privilégios e
recursos são sempre revelados na interação entre atores e,
a partir daí, o processo em questão ficará compreensível para o
pesquisador.
Isso
somente é possível porque em momentos de conflito as pessoas se
apresentam, ou seja, revelam os elos e as redes nas quais estão
inseridas. Só que o resultado nem sempre é previsível de se
conhecer antecipadamente pois depende da interação de atores específicos,
com recursos específicos – daí paira a incerteza, o que nos leva
a analisar caso por caso qualitativamente. Ninguém é naturalmente
trabalhador, escravo, bom vizinho, honesto, honrado, etc., tudo
depende de quem está em interação e com quem. Ninguém pode ser
entendido isoladamente. Temos que levar em conta a “definição de
situação”, ou seja, é o processo de interação que vai definir
e redefinir o status pertinente
a cada ator, visto que cada ator está sempre posicionado com outro
ator com status, recursos
e posições diferentes. O importante é a percepção da rede em
que o ator está inserido, pois a partir disso conseguimos perceber,
mesmo que parcialmente, suas trajetórias e suas interações.
Desta
maneira, percebe-se que as penas atribuídas aos acusados de
cometerem os mais variados tipos de variavam de acordo com elementos
externos ao próprio processo. A
relação entre o acusado e a vítima e, sobretudo o status e os recursos do acusado, eram elementos que pesavam
intensamente na atribuição da pena pelo Juiz. Em outras palavras,
as decisões jurídicas consideravam as representações sociais das
vítimas e dos acusados envolvidos nesses processos como elementos
determinantes no resultado do mesmo, levando-nos a crer que a prática
social dos funcionários jurídicos policiais era discriminatória e
parcial.
Não
podemos nos esquecer que de certa forma, os processos criminais são
uma construção específica dos funcionários jurídico-burocráticos,
que revelam crenças e valores vigentes na sociedade. Seria
justamente no curso da elaboração destes processos que estes
funcionários lançariam mão de idéias e valores vigentes na
sociedade, atribuindo significado às “histórias” que serão
julgadas nos tribunais. Uma vez
aceitos como versões verídicas da realidade, os valores e idéias
que os compõe passam a ser reificados publicamente
(RIBEIRO, 1995: 23). Além disso, pode-se dizer que o direito
tem um certo poder de estabelecer “verdades” sobre o mundo
social, atuando como um dos formadores desta sociedade,
possibilitando a perpetuação de determinadas crenças e valores
(THOMPSON, 1987: 328). Neste sentido, o direito não apenas
“refletiria” as normas e valores vigentes na sociedade, mas também
normatizaria e contribuiria para a formação de novos valores e
representações sociais
(RIBEIRO, 1995: 23).
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