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Por MÁRIO MAESTRI
Mário Maestri
(56, gaúcho, historiador)
Autores
de A linguagem escravizada. São Paulo: Expressão Cultural,
2003. |
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13
de Maio
A
Única Revolução Social Vitoriosa no Brasil
Nesse
13 de maio, cumpre-se sem glória mais um natalício do fim da
escravatura no Brasil, uma das primeiras nações americanas a
instituir e a última a abolir a escravidão. Dos 505 anos de história
brasileira, mais de 350 passaram-se sob o látego negreiro. Apesar
da superação do escravismo constituir o mais significativo
acontecimento de passado nacional, o aniversário da Abolição
transcorrerá, outra vez, semi-esquecido.
A
Abolição já foi data nacional magna, festivamente relembrada e
rememorada. Nos últimos anos, profundamente questionada,
organizou-se verdadeira conspiração de silêncio em torno dela.
Paradoxalmente, a operação recebe o apoio do movimento negro
brasileiro que, ao contrário, deveria desdobrar-se na celebração
do 13 de Maio e na discussão de seu significado histórico,
destruindo as interpretações apologéticas sobre ele.
O
caráter cordial, transigente e pacífico do brasileiro já foi um
dos grandes mitos nacionais. A abolição da escravatura foi
apresentada como prova dessa pretensa realidade. No exterior, o fim
da instituição motivara lutas fratricidas. A guerra de Secessão
causou quinhentas mil vítimas nos USA. No Haiti, em 1804, a destruição
da ordem negreira exigiu a mais violentas guerra social do
continente.
No
Brasil, a transição teria se efetuado sem violências devido a
instituições sensíveis ao progresso dos tempos, a líderes
esclarecidos e à humanitária alma popular. Neste cenário de paz e
concórdia, brilharia a figura humana de Isabel – a Redentora.
Apiedada com o sofrimento dos negros e despreocupada com a sorte do
seu trono, ela assinou com caneta de ouro o diploma que pôs fim ao
cativeiro.
Em
13 de maio de 1888, começaria a construção de sociedade fraterna
e desprovida de barreiras sociais ou raciais intransponíveis. As
desigualdades existentes dever-se-iam a deficiências não
essenciais da civilização brasileira, enraizada em uma concórdia
estrutural entre ricos e pobres, brancos e negros. Ao menos, era o
que se dizia.
Pátria
incruenta
Acontecimentos
pátrios de impar importância, a Independência, a República e a
Abolição teriam como denominador comum o caráter essencialmente
pacífico da civilização brasileira. Apresentava-se igualmente a
essência patriarcal da ordem escravista como corolário da natureza
magnânima do homem brasileiro, que quebrantava qualquer confronto
de raça, credo e classe.
Com
a queda da ditadura militar e a redemocratização, em 1985, a
crescente organização popular e o surgimento de entidades negras
combativas criaram as condições para desnudar a triste realidade
subjacente ao discurso da democracia racial e da fraternidade
brasileira. As narrativas laudatórias sobre a Abolição, sobre a
escravidão e sobre o caráter democrático de sociedade nacional
trincavam-se contra a triste realidade contemporânea.
Em
fins dos anos setenta, diante dos olhos mais míopes, desnudava-se
situação onde o povo negro constituía a parcela mais sofrida de
uma população crescentemente explorada. Revelava-se para os que não
se negavam a ver sociedade singularmente violenta onde a pele escura
dificultava a conquista do trabalho e facilitava o acesso à prisão,
se não ao necrotério.
Desde
os anos sessenta, as descrições fantasiosas sobre o passado do
Brasil eram refutadas por cientistas sociais como Florestan
Fernandes, Octávio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, etc. que
empreenderam análises mais objetivas, sobretudo da segunda metade
do século 19. Porém, em geral, esses autores refutavam o
significado histórico do 13 de Maio ao referirem-se à escravidão.
Apontavam a inusitada violência do escravismo brasileiro mas
definiram a sua superação como um “negócio de brancos”, onde
os cativos, principais interessados, não teriam tido papel
significativo ou ganhos substanciais naquela superação.
Em
fins dos anos setenta, o movimento negro retomou acriticamente essa
tese, com o objetivo de melhor denunciar a situação econômica e
social da população afro-descendente. Para desqualificar a Abolição,
ressaltou-se que se efetuara sem a indenização pecuniária ou
fundiária. Que o movimento abolicionista buscava, libertando os
cativos, prover-se de mão-de-obra barata. Que após a Abolição,
as condições de existência das massas negras teriam talvez
piorado, tese defendida, por Gilberto Freyre, sobretudo em Sobrados
e mucambos, de 1936.
Para
melhor criticar os mitos da emancipação do povo negro em 1888 e da
ação magnânima da Regente Imperial, o movimento negro propôs a
abominação do 13 de Maio e a celebração do 20 de Novembro como
dia nacional da consciência negra no Brasil. Naquela data, em 1695,
morria Zumbi, o último chefe da confederação dos quilombos de
Palmares.
Encobrindo
o passado
Apesar
de bem-intencionadas, essas leituras consolidaram as interpretações
caricaturais e paternalistas do 13 de Maio, dos ideólogos das
classes proprietárias, que procuravam escamotear o sentido e a essência
de sucessos nascidos do esforço das massas escravizadas aliadas aos
setores abolicionistas radicalizados. Assentou-se assim a última
pedra na construção do esquecimento do mais importante
acontecimento histórico brasileiro – a revolução abolicionista
de 1887-8.
O
movimento negro organizado esquecia que celebrar a Abolição não
significa reafirmar os mitos da emancipação social do povo
negro em 1888 ou de Isabel como promotora da emancipação. Ignorava
que comemorar o fim da escravidão significa recuperar a importância
da superação do escravismo, através de frente política
pluriclassitas, e do protagonismo dos cativos nesses fatos e no
passado do Brasil.
Em
forma alienada e imperfeita, as comunidades negras sempre intuíram
a importância histórica da libertação, em 1888. Apenas nos últimos
anos essa consciência diluiu-se devido ao proselitismo anti-Abolição,
verdadeira invenção da tradição que resulta em grave perda da
memória histórica das classes trabalhadoras e oprimidas, em geral,
e afro-descendentes, em particular.
Foi
o profundo impacto da Libertação, em 1888, na consciência e na
vida dos cativos e libertos que levou o povo negro a rememorar, com
tanto carinho, por um século, o 13 de Maio, e festejou,
imerecidamente, com devoção, a escravista Isabel de Bragança,
herdeira da casa de Bragança, um dos grandes responsáveis pela
manutenção do cativeiro no Brasil quase até o século 20.
Em
inícios de 1980, Mariano Pereira dos Santos, centenário ex-cativo,
apesar de ter vivido como homem livre na profunda miséria, afirmava
comovido, semanas antes de morrer, que após a “Libertação”, o
povo negro vivera “na glória”. Maria Benedita da Rocha, uma
outra ex-cativa, também centenária, referiu-se, arrebatada ao anúncio
do fim do cativeiro na sua fazenda. Através do Brasil, nas cidades
e campos, em 13 de maio de 1888, os tambores e atabaques ressoaram
poderosos ferindo em derradeira vendeta os tímpanos dos negreiros
derrotados.
O
dia da libertação
A
visão do 13 de Maio, pelo povo negro, como concessão da Redentora,
não pode ser explicada apenas como resultado da propaganda das
classes proprietárias. Constitui a cristalização, alienada e
determinada pela ideologia dominante, na consciência popular, de
acontecimento de profundo sentido histórico para as classes
trabalhadoras escravizadas e toda a nacionalidade brasileira. Ou
seja, operação para diluir a memória do protagonismo dos
trabalhadores escravizados em acontecimento único no nosso passado.
Não
há sentido em antepor Palmares ao 13 de Maio. Apesar de saga
luminar, Palmares teve menor significado histórico que a Abolição.
Por mais heróica que tenha sido, a epopéia palmarina jamais propôs,
e historicamente não poderia ter proposto, a destruição da
instituição servil como um todo. Palmares resistiu por quase um século,
determinou a história do Brasil, mas foi derrotado. A revolução
abolicionista foi vitoriosa e pôs fim ao escravismo, ainda que
tardiamente.
Desconhecer
o sentido revolucionário da Abolição é olvidar a essência
escravista de dois terços de passado brasileiro e o caráter
singular da gênese do Brasil contemporâneo, através da destruição
do modo de produção escravista colonial. Tal desconhecimento
ignora a contradição essencial que regeu por mais de trezentos
anos o passado brasileiro – escravizadores contra trabalhadores
escravizados – e consolida a falsa visão do cativo como categoria
social que jamais alcançou a ser protagonista da história.
Nos
anos 1950, autores como Clóvis Moura e Benjamin Péret produziram
importantes leituras sobre o agir dos trabalhadores escravizados no
Brasil. Nos anos sessenta, Emília Viotti da Costa, Stanley Stein,
etc. avançaram significativamente o conhecimento essencial da
escravidão. Nas duas décadas seguintes, foram produzidos numerosos
trabalhos sobre a sociedade, economia e as formas sui-generis
de resistência do cativo, destacando-se entre eles a apresentação
em O escravismo colonial por Jacob Gorender do escravismo
colonial como modo-de-produção historicamente novo.
Nesses
anos, estudos como o hoje já clássico Os últimos anos da
escravidão no Brasil, de Robert Conrad, apresentaram a Abolição,
em seu tempo conjuntural, como o resultado da insurreição
incruenta dos escravos cafeicultores que, nos últimos meses do
cativeiro, abandonaram maciçamente as fazendas, reivindicando relações
contratuais de trabalho. Tais estudos desvelaram parcialmente a
extrema tensão política e social sob a qual o movimento
abolicionista radicalizado alcançou a vitória, em 1888, em
estreita ligação com a massa escravizada, principal protagonista
dessas jornadas.
Instituição
terminal
Em
13 de maio de 1888, a herdeira imperial nada mais fez do que, após
o projeto abolicionista ter sido aprovado no parlamento pelos
representantes dos grandes proprietários, sancionar a Lei Áurea,
assinando o atestado de óbito de instituição nos estertores
finais devido a sua desorganização pela fuga dos cativos. Durante
todo o Primeiro e o Segundo Reinados, os Braganças haviam defendido
com unhas e dentes a escravidão, conscientes da aliança que os
unia umbilicalmente à classe dos escravistas.
Nos
últimos meses da escravidão, os mais renitentes negreiros
reconheciam já inevitabilidade do fim da instituição. Defendendo
até o último momento o cativeiro, pretendiam apenas criar as
melhores condições para reivindicar indenização pela propriedade
libertada. Foi devido a essa reivindicação que o ministro
republicano Rui Barbosa ordenou a queima dos registros de posse de
cativos, pois, sem prova legal, não havia possibilidade de indenização.
Foi
igualmente a ação estrutural das massas escravizadas, durante os
três séculos de cativeiro, que construiu as condições que
ensejaram, mais tarde, a destruição da servidão. Sobretudo a
rejeição permanente do cativo ao trabalho feitorizado impôs
limites insuperáveis ao desenvolvimento tecnológico da produção
escravista, determinando altos gastos de vigilância e de coerção
ao regime negreiro que abriram espaços para formas e modos de produção
historicamente superiores.
Em
1888, a revolução abolicionista destruiu o modo de produção
escravista colonial que, por mais de trezentos anos, ordenara a
sociedade no Brasil. Negar estas realidades devido às condições
econômicas, passadas ou atuais, da população negra, é
compreender a história com preconceitos simplistas, moralizadores
e, sobretudo, não históricos. Os limites da Abolição eram
objetivos. Nos últimos anos da escravidão, a classe escrava era
categoria social em declínio que lutava sobretudo pela conquista
dos direitos cidadãos mínimos. Foi a reivindicação da liberdade
civil que uniu a luta dos cativos rurais à dos cativos urbanos, então
pouco representativos.
Apenas
a liberdade
Não
procede a proposta que a Abolição não teve conteúdo porque os
escravistas não indenizaram os cativos. A estrutura latifundiária
das plantações escravistas, a pouca difusão de hortas servis e a
liberdade civil como reivindicação central já dificultavam
movimento pela distribuição de terras, que exigiria união de
cativos, caboclos, posseiros, colonos sem terra, etc., praticamente
impossível de ser então concretizado, devido sobretudo ao baixo nível
de consciência e organização e à elevada heterogeneidade e
dispersão geográfica das classes trabalhadoras rurais. Porém, tal
medida foi defendida por setores do movimento abolicionista.
Na
limitação das conquistas obtidas quando da Abolição pesou também
a verdadeira contra-revolução empreendida pelos grandes proprietários,
através do golpe republicano, oligárquico e federalista, imposta
em 15 de novembro de 1889, que pôs fim ao movimento abolicionista
como projeto reformista nacional. Os limites históricos da
Abolição não devem minimizar a importância da conquista dos
direitos políticos e civis mínimos para aproximadamente setecentos
mil homens, mulheres, jovens e crianças ainda registrados como
escravos ou ventre-livres. Com o 13 de Maio, superava-se a distinção
entre trabalhadores livres e escravizados, iniciando-se a história
da classe operária brasileira como a compreendemos hoje.
Nos
anos 90, a derrota histórica do mundo trabalho diante do capital e
a euforia neoliberal que apenas hoje perde ímpeto determinaram os
destinos gerais da historiografia. No
Brasil como alhures, em tempos de Nova História, os
holofotes da mídia, o interesse das editoras, o bon ton
historiográfico passaram a recomendar temas e estudos monográficos,
intimistas, biográficos ou exóticos, tranqüilizadores das consciências
e pacificadores dos espíritos. Da ciência que procurava libertar,
a história evoluiu à arte de entreter.
Nesse
contexto, decaiu o interesse
e os incentivos, diretos ou indiretos, para a pesquisa sobre a história
das classes subalternizadas e para os estudos analíticos sobre o
passado brasileiro. Apequenaram-se os estudos sobre as classes
trabalhadoras urbanas, o movimento camponês, os fenômenos
essenciais da sociedade humana. Diminuíram sensivelmente as
pesquisas sobre a escravidão colonial brasileira que retomaram e
refinaram as teses da escravidão benigna e consensual defendidas
com singular inteligência e cabotinismo e por Gilberto Freyre.
A
história é processo objetivo e complexo, apenas em geral
ascendente, onde as conquistas sociais de ontem, parciais e
contraditórias, possibilitam conquistas mais substanciais no
presente, como podem, igualmente, dar lugar a recuos históricos da
marcha civilizacional, que ensejam, necessariamente, o
obscurecimento da compreensão do presente e do passado.
A
revolução abolicionista foi o primeiro grande movimento de massas
moderno, promovido sobretudo pelos trabalhadores escravizados, em
aliança com libertos, trabalhadores livres, segmentos médios e
alguns poucos proprietários. Até agora, constituiu a única revolução
social vitoriosa do Brasil. Resgatando seu sentido e desvelando sua
história, prosseguiremos mais facilmente no sentido apontado pelos
trabalhadores escravizados que ousaram abandonar as senzalas para pôr
fim à ordem negreira, no não tão longínquo ano de 1888.
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