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Por
ROBINSON DOS
SANTOS
Doutorando em
Filosofia na Universidade de Kassel – Alemanha. Bolsista do
Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) |
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A educação moral segundo Kant
O filósofo Immanuel
Kant (1724-1804) foi um dos grandes pensadores do Iluminismo, em
especial do Idealismo alemão. Em suas reflexões, sobretudo no âmbito
da filosofia prática, encontra-se o tema da educação ora menos, ora
mais explícito. Além disso, há um texto em que suas reflexões sobre
a pedagogia se encontram expressas de modo sintético. Até hoje
persistem controvérsias no âmbito acadêmico acerca da originalidade
de tal texto. Tal fato se deve à possibilidade de tal texto não ter
sido escrito pelo próprio Kant e sim seria fruto das anotações e
registros de seu discípulo e amigo Friedrich Theodor Rink, que viria
a publicá-lo com a autorização de Kant um ano antes da morte deste,
a saber em 1803. O referido texto, também traduzido para a língua
portuguesa, intitula-se Sobre a Pedagogia. Comparado aos
outros escritos de Kant, este texto é breve e sintético. Entretanto,
podemos afirmar que, deixando a controvérsia sobre a autoria ou não
de Kant de lado, tal texto se avaliado em seu conteúdo segue as
linhas fundamentais da filosofia prática kantiana e permanece em
seus traços básicos fiel ao seu projeto. Assim, se levado a sério e
em conexão com os demais escritos de filosofia prática de Kant, a
saber, a Crítica da Razão Prática, a Fundamentação da
Metafísica dos Costumes, a Metafísica dos Costumes, em
especial sua segunda parte, a Doutrina da Virtude, assim como a
primeira parte de A Religião nos limites da simples Razão e
Idéia de uma história universal com um propósito
cosmopolita, além de outros, este texto demonstra um potencial
teórico surpreendente para adentrarmos na reflexão e no universo
pedagógico de Kant. Se a educação não foi tema de sua reflexão
sistemática, isso de modo algum significa que para ele este tema não
tinha importância. Não admira que o próprio Kant (2002, p. 20)
admitia que “a educação é o maior e mais árduo problema que pode ser
proposto aos homens”.
Nosso objetivo com o
presente texto é apresentar e comentar em suas linhas mais básicas o
conteúdo deste escrito no intuito de oferecer ao leitor
não-especialista em Kant um conhecimento introdutório e, ao mesmo
tempo, convidar à leitura do texto do próprio Kant, na medida em que
aqui não ofereceremos uma análise exaustiva das diversas
possibilidades e caminhos a que o texto aponta. Assim, desde já o
leitor pode sentir-se convidado a dar continuidade às reflexões que
aqui apresentamos.
Na introdução, a
primeira sentença anuncia: “O homem é a única criatura que precisa
ser educada” (2002, p. 11). Kant recorre à comparação do ser humano
em relação aos demais animais e constata que estes precisam
basicamente de nutrição, mas não maiores cuidados, uma vez que seu
instinto os capacita desde cedo à sobrevivência. A educação
compreende fundamentalmente dois momentos, a saber, a disciplina
(parte negativa) e a instrução (parte positiva). Diferente dos
demais animais, cuja finalidade da existência está pré-estabelecida
pela natureza, o homem deve estabelecer por si mesmo o projeto de
sua existência. Para isso ele não pode abrir mão da racionalidade.
Como ele não consegue fazer isso por conta própria e de modo
imediato, torna-se necessária a presença do outro. Deste modo, uma
geração educa a outra no intuito de desenvolver as disposições
naturais existentes no ser humano (ainda sem a marca da moral), em
direção ao bem. Estas disposições, entretanto, só podem ser
desenvolvidas em seu pleno sentido no conjunto da espécie humana,
jamais no indivíduo.
Para o filósofo de
Königsberg a educação pode ser entendida sob duas perspectivas
fundamentais: física, ou seja, aquela em que as questões mais
importantes são: a formação de hábitos de higiene, cuidados com a
saúde e conservação do corpo; ou prática, isto é, aquela em
que a preocupação fundamental é a formação do caráter. Esta última é
também designada como educação moral.
Ainda na introdução
Kant enfatiza: “Tornar-se melhor, educar-se e, se se é mau, produzir
em si a moralidade: eis o dever do homem” (2002, p. 19-20). A
educação, além disso, deve ser pensada e estabelecida de um modo
cosmopolita de tal forma que o homem seja: a) disciplinado; b)
torne-se culto; c) torne-se prudente ou que adquira civilidade;
e d) moralize-se. Podemos perceber que a aspiração à universalidade,
tão afeta a Kant, se faz presente também em sua concepção de
educação, de modo especial quando se refere à perspectiva
cosmopolita.
À educação prática,
cabe a tarefa de realizar no ser humano a perspectiva de formação
descrita acima. De acordo com a leitura que fazemos, nota-se que o
aspecto mais importante na filosofia da educação kantiana é a
moralidade e que, por conta disso, está pressuposta nesta concepção
a ensinabilidade da virtude. A virtude não só pode, como deve ser
ensinada.
Concepção de
educação prática
O conceito de
educação prática é exposto em cerca de vinte páginas, tomando-se por
referência o texto traduzido para o português por Fontanella em
1996. Kant concebe a educação prática como sinônimo ou equivalente à
educação moral. O elemento central em torno do qual Kant articula a
reflexão é a formação do caráter. Se na educação física o processo
consiste em cuidados com o corpo, com a saúde, com nossa vida
material ou em formar hábitos saudáveis, na educação prática, formar
o caráter envolve fundamentalmente o desenvolvimento da virtude,
isto é, a capacidade que o indivíduo desenvolve em si de agir
conforme o dever que, por meio da razão, ele estabelece para si
mesmo. Em A Metafísica dos Costumes Kant define virtude como
“(...) a força moral da vontade de um ser humano no cumprir
seu dever, um constrangimento moral através de sua própria
razão legisladora, na medida em que esta constitui ela mesma uma
autoridade executando a lei” (2003, p. 248, grifos do autor).
Vê-se, pois, que o
elemento central é a ação. Segue-se daí a definição de educação
prática. Prático, afirma Kant em outra passagem, é tudo que diz
respeito à liberdade.
Na educação moral a
virtude é concretizada em dois tipos de deveres que as crianças
desenvolverão: deveres para consigo mesmas e deveres para
com os demais. Neste ponto já está suposto, como afirmamos
anteriormente, que a virtude, de acordo com Kant pode e deve ser
ensinada, assim como cultivada.
Deveres
para consigo mesmas
Nesta perspectiva
podemos destacar o que Kant escreve n’A Metafísica dos Costumes.
Os deveres para consigo mesmo podem ser classificados em
limitativos (deveres negativos) ou ampliativos (deveres
positivos). Os primeiros consistem na proibição de um ser humano
agir contrariamente ao fim de sua natureza, ou seja, consistem na
sua auto-preservação moral. Os deveres ampliativos consistem
fundamentalmente no aperfeiçoamento de si mesmo.
Em ambos os casos
trata-se de preservar o que se designa como a dignidade da
humanidade em si mesmo. Para isso é mister afastar-se de todos os
vícios como, por exemplo, os que se referem ao suicídio, à
concupiscência e aos excessos na comida e na bebida no primeiro caso
e à mentira, à avareza e ao servilismo ou falsa humildade, no
segundo caso.
No ser humano
existem, conforme Kant, certas disposições naturais, em alguns
momentos designadas como faculdades, que devem ser desenvolvidas
para que ele conquiste todos os tipos de fins. Entre estas
disposições ou faculdades Kant menciona três: do espírito, da alma e
do corpo. As faculdades do espírito são aquelas que se cultivam
através do uso da razão, independentes da experiência e orientadas
por princípios a priori. Exemplos destes princípios são
encontrados na lógica, na filosofia especulativa e na matemática. As
faculdades da alma são aquelas que se dispõem ao entendimento e à
regra que ele estabelece para o uso de tal conhecimento, o qual
deriva da experiência. Neste caso podemos citar memória e imaginação
comumente incluídos, por exemplo, no aprendizado. As faculdades do
corpo referem-se ao desenvolvimento físico (material) do animal
humano com vistas à consecução dos fins que ele estabeleceu para si
mesmo.
Este conceito de
dever para consigo mesmo, como é possível perceber, envolve tanto a
dimensão corpórea ou material do ser humano, como a dimensão
intelectual ou imaterial. Entretanto o aprendizado desta primeira
perspectiva da educação prática é pressuposto para o aprendizado da
segunda perspectiva, a qual comentaremos no item que segue.
Deveres
para com os demais
O aprendizado dos
deveres para com os demais é inseparável do aprendizado dos deveres
para consigo mesmo por uma questão fundamental: em ambos a questão
da dignidade humana é resguardada. Isto fica explícito numa das
formulações do imperativo categórico, na Fundamentação da
Metafísica dos Costumes: “age de tal maneira que uses a
humanidade, tanto na tua pessoa, quanto na pessoa de qualquer outro,
sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio”
(1986, p. 69). Podemos citar, como exemplo de dever para com os
demais, a beneficência, a gratidão e a solidariedade, além de outras
virtudes como a amizade, a sociabilidade e a cortesia.
Percebe-se que a
humanidade é concebida como um atributo que confere dignidade à
pessoa. Logo, o dever é cultivá-la e preservá-la. O dever para
consigo mesmo caracteriza e fundamenta o dever para com os demais.
Nas duas perspectivas estão implícitas a questão do aprendizado e a
referência à humanidade.
Mas afinal,
pergunta-se Kant (2002, p. 95), o homem é bom ou mau por natureza?
Não é bom nem mau por natureza pois não é um ser moral por natureza.
O homem “torna-se moral quando eleva sua razão até os conceitos do
dever e da lei”.
Como é possível
desenvolver o conhecimento sobre o dever (ou a prática da virtude) e
sobre a lei moral? Esta, conforme comentamos, é uma questão que
implica o ensino ou o aprendizado, pois tal conhecimento não
acontece de modo imediato. Deste modo, a relação educativa tem uma
importância fundamental neste processo.
Para finalizar
nossa breve reflexão faz-se pertinente lembrar que na educação,
acima de tudo, como afirma
Kant (2002, p. 106): “Deve-se orientar o jovem à humanidade no trato
com os outros, aos sentimentos cosmopolitas. Em nossa alma há
qualquer coisa que chamamos de interesse: 1. por nós próprios; 2.
por aqueles que conosco cresceram; e, por fim, 3. pelo bem
universal. É preciso fazer que os jovens conheçam este interesse e
possam por ele se animar”. |
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