A mestiçagem é
sinônimo de democracia racial?
Em memória de Clóvis Moura
O
Brasil é reconhecido internacionalmente, desde meados do século
XIX, como o país da mistura de raças. Desde então, visitantes
estrangeiros como o argentino José Ingenieros,
Louis Agassiz, Louis
Couty, o conde André de
Gobineau (amigo de D. Pedro II e
embaixador da França no Brasil), deixaram
relatos sobre a mestiçagem que aqui testemunharam, sempre
acompanhadas do ponto de vista pessimista de que a mistura
de europeus, índios e negros seria o principal fator do atraso do
Brasil. Era um consenso partilhado pela imensa maioria da elite
intelectual brasileira; as escassas exceções eram formadas por
aqueles que valorizavam o índio. Exemplo isolado de resistência a
essas idéias foi o historiador sergipano Manoel Bomfim que, em
1903, denunciou o racismo como instrumento da dominação
imperialista. Também cabe lembrar o caso de outro sergipano,
Silvio Romero que, apesar de sua posição ambígua a respeito da
hierarquia entre as "raças", foi pioneiro na valorização da
mestiçagem.
Mistura de seres humanos de origem
diversa – indígenas, europeus e africanos – a miscigenação teve
valorização que variou através dos tempos. E o problema que
consumiu as energias da elite intelectual, principalmente da
década de 1870 até a década de 1930, foi a
alegada impossibilidade de construção de uma nação civilizada a
partir de uma população fartamente mestiça, com presença
preponderante do negro em sua composição. Questão que fundamentava
o verdadeiro complexo de inferioridade daqueles pensadores para
quem o Brasil não tinha ainda uma composição racial adequada para
alcançar níveis superiores de desenvolvimento. Um deles foi Nina
Rodrigues, pioneiro dos estudos do negro e expoente do racismo
científico brasileiro que, em Os africanos no Brasil, de
1906, dizia que a raça negra “há de constituir sempre um dos
fatores de nossa inferioridade como povo”. O negro “quase não se
civiliza” e sua supremacia é “nociva à nossa nacionalidade”,
escreveu.
A situação começou a mudar quando, em
1933, surgiu Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, que
marcou uma verdadeira revolução ao valorizar – e enaltecer – de
forma sistemática o mestiço e a civilização própria e nova criada
a partir da mistura de "raças".
A obra de Gilberto Freyre, um clássico
de nossa historiografia moderna, foi uma atualização do pensamento
conservador e, na verdade, fez o elogio do papel da oligarquia
dominante na construção desta civilização nova. No prefácio à
primeira edição de Casa Grande e Senzala ele escreveu que
“a miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a
distância social que doutro modo se
teria conservado entre a casa-grande e a mata tropical; entre a
casa grande e a senzala”. Para ele, “a índia e a negra-mina, a
princípio, depois a mulata, a cabrocha, a quadrarona, a
oitavona, tornando-se caseiras,
concubinas e até esposas legítimas dos senhores brancos, agiram
poderosamente no sentido de democratização social no Brasil”.
Thales de Azevedo, outro conservador,
seguiu essa linha e, em um artigo publicado no Jornal do Brasil
(10 e 11 de novembro de 1968), assegurou que a maior contribuição
brasileira ao mundo é precisamente a "nossa ‘Democracia Racial’.”
Estes são autores que fundamentam a
valorização positiva da mestiçagem, encarada – acentuadamente no
campo conservador – como prova e fator do caráter benévolo da
escravidão e da amenização das relações sociais antagônicas no
Brasil, fundamentando a visão conservadora do Brasil como nação
sem luta de classes e onde os antagonismos são resolvidos de forma
conciliadora e harmoniosa. A nossa seria uma sociedade cujo
vértice é ocupado por uma classe dominante
patriarcal, que dirige o país, dirime seus conflitos
internos e zela pelos interesses de todos.
No pólo oposto, setores do pensamento
radical – principalmente aquele ligado à luta contra o racismo –
encaram a mestiçagem de forma profundamente negativa. Um expoente
dessa forma de pensar é o escritor, dramaturgo e ex-senador Abdias
Nascimento, um dos mais antigos militantes do movimento
anti-racista brasileiro. Ele condena a miscigenação de forma
peremptória: “O uso da mulher africana para satisfazer o senhor
escravocrata português na ausência de sua esposa branca e
portuguesa nada mais foi do que violação e estupro; uma
brutalidade que nada tinha a ver com 'humanizar' a instituição, ou
qualquer 'respeito' aos seres humanos que ele vitimava”, escreveu
em 1980. Ele vê a mestiçagem como ameaça para a raça negra,
significando, na prática, o princípio de sua liquidação pelo
embranquecimento da população. Daí
para a consideração de que existem, no Brasil, dois povos
contrapostos e antagônicos, os brancos e o povo negro, é um passo,
que foi dado por Abdias Nascimento e pela corrente do movimento
negro inspirada por suas idéias.
Entretanto, estas são formas
idealistas e fortemente moralistas de encarar a história cujo
estudo, ao contrário, é necessário para esclarecer a trajetória
que, ao longo do tempo, nos levou à situação em que vivemos hoje,
com suas contradições, conflitos e potencialidades.
Assim, a mestiçagem deve ser vista
como um fato histórico a que não cabe condenar ou elogiar pois é o
resultado das condições concretas do convívio humano através dos
séculos em nosso país, levando em conta as relações sociais e
raciais; a escassez de mulheres brancas; finalmente, o domínio
patriarcal e a subordinação das mulheres.
O suporte
material, objetivo, das relações sociais (e raciais), são
os homens e mulheres reais, concretos, que existem em cada
sociedade e em cada época. No Brasil colonial, uma forte
característica dessa população foi a
escassez de mulheres brancas. Quem migrava de Portugal para a
colônia eram principalmente homens, solteiros ou não, que vinham
sem suas famílias. Da África, a mesma coisa: o principal
contingente de africanos exportados para o trabalho forçado na
colônia era formado por homens; segundo Darcy Ribeiro, a relação
entre homens e mulheres no tráfico escravo teria sido de 4 para 1.
Apenas no contingente populacional indígena, originário da terra,
existia uma situação de equilíbrio na distribuição dos sexos e que
levou, desde o início da colonização até meados do século XVII, ao
cruzamento generalizado entre colonizadores e mulheres indígenas.
Para as autoridades metropolitanas e
coloniais, o problema não era apenas a falta de mulheres brancas
com as quais os colonos pudessem se casar, mas principalmente a
falta de homens em quantidade suficiente para ocupar e defender o
território. Foi isso que abriu a brecha para a promoção de
mestiços a ocupações dentro do sistema colonial e escravista já
que Portugal tinha uma população exígua para ocupar a imensa
extensão de seu império que incluía, além do Brasil, territórios
na África e na Ásia – em 1500, a metrópole tinha cerca de 1,5
milhões habitantes, chegando a 2,4 milhões em 1732. E o Brasil,
em 1600, teria cerca de 100 mil habitantes (dos quais uns 30 mil
seriam de origem européia); em 1700, alcançaria 300 000 (e o
número daqueles de origem européia dificilmente chegaria a 100
mil).
Foi a escassez de mulheres brancas na
população colonial que levou à mestiçagem, e não qualquer alegada
pré-disposição portuguesa para contatos inter-raciais, como alegam
os defensores conservadores da miscigenação. Em todas as
sociedades escravistas, mesmo nas América, houve relacionamentos
amorosos entre pessoas livres e escravas – daí a existência de
legislação, em todas elas, dificultando-os ou mesmo proibindo-os.
Um traço forte desses relacionamentos,
no Brasil escravista, e que se refletiu na mestiçagem, foi o
patriarcalismo dominante. Em Portugal,
o progresso da liberdade individual foi lento, mesmo para os
homens. A manifestação desse atraso, no Brasil colonial, foi o
domínio do patriarca, senhor absoluto de seus domínios e da vida e
morte de todos os seus dependentes – mulheres,
filhos, agregados... e escravos. Autoritarismo patriarcal
partilhado, em maior ou menor medida, por todos os homens brancos
(ou mestiços de pele clara que passavam por brancos), e que
mantinham as mulheres sob completa subordinação. Em conseqüência,
as relações eram assimétricas, não voluntárias, mais voltadas para
o interesse do que para o afeto ou a vontade livre. A disposição
do colonizador para unir-se a mulheres de cor não se traduziu (a
não ser em alguns poucos casos, principalmente nos primeiros
tempos da colonização) na formalização desses vínculos. Ao
contrário, o sentido desses contatos foi expresso com crueza no
ditado popular que diz “branca para casar, negra para trabalhar,
mulata para fornicar”.
A discriminação social e política dos
mestiços, semelhante à dos negros livres, ilustra o desprezo
senhorial e escravista em relação a essas relações que, mesmo
generalizadas, ocorriam à margem da formalidade do matrimônio,
mesmo porque a lei proibia casamentos
inter-étnicos e exigia pureza de sangue para cargos no
aparelho de Estado. Foi somente em abril de 1755 que uma lei, de
iniciativa do Marques de Pombal, declarou que os brancos que se
casassem com índias – mas não com negras – ficavam
livres de infâmia, lei que encontrou forte
resistência entre os colonos.
O romantismo da visão conservadora não
corresponde ao processo histórico aqui ocorrido, principalmente
porque oculta (ou minimiza) a forte hierarquização e violência
entre o senhor branco e a negra, mulata, índia ou outra mulher
subalterna, visão rósea que apregoa um suposto caráter
democratizante dessas relações.
A visão radical padece de limitação
semelhante ao absolutizar
a condenação da miscigenação. Apesar de
acertar na descrição de suas mazelas, deixa de compreender que seu
resultado é o povo brasileiro atual,
contemporâneo, com suas contradições e potencialidades.
Parte de uma visão idealizada que não reconhece que a história,
como ensinou Hegel, “não é o terreno da felicidade”, mas da luta
pela construção da liberdade e do progresso.
Nossa história não é diferente, e o
caminho para a liberdade e o progresso traz as idênticas marcas de
contradições e violência. Embora a miscigenação não seja, como
querem os conservadores, prova de democracia racial, seu resultado
concreto e inovador foi a formação
deste povo novo, o povo brasileiro. E que tem enormes problemas a
resolver na busca da liberdade e do progresso. Entretanto, só uma
visão idealizada pode cobrar do passado a
solução de problemas que, embora herdados das gerações anteriores,
são contemporâneos e exigem soluções contemporâneas.