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Por MARC W. HEROLD
Departamento de Economia - Whittemore School of Business &
Economics - University of New Hampshire
versão
em inglês |
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Entre o Açúcar
e o Petróleo:
Bahia e Salvador, 1920-1960
Tradução de
Cecília T. Teradaira-Williamson
O Estado da
Bahia e a sua capital, Salvador, passaram por um período, que durou
três décadas, onde o crescimento econômico foi muito lento e o
crescimento populacional insignificante. Entre 1920 e 1940, a
população de Salvador cresceu a uma taxa de 0,16% ao ano, enquanto
que o crescimento da Bahia foi de apenas 0,81% (Tabela 1). Na década
de 40, as taxas de crescimento aumentaram para 3,7% e 2,1%,
respectivamente.
Bahia:
|
Ano |
Bahia |
Taxa anual
de crescimento em década |
|
1900 |
2,117,956 |
- |
|
1920 |
3,334,465 |
2.2 %
(1900-1920) |
|
1940 |
3,918,112 |
.81 % |
|
1950 |
4,834,575 |
2.1 % |
|
1960 |
5,920,447 |
2.1% |
|
1970 |
7,493,437 |
2.4 % |
|
1980 |
9,455,392 |
2.4 % |
Salvador:
|
Ano |
Salvador |
Taxa anual
de crescimento em década |
|
1620 |
21,000 |
- |
|
1872 |
129,109 |
- |
|
1890 |
174,412 |
1,6%
(1872-1890) |
|
1900 |
205,813 |
1.7% |
|
1920 |
283,422 |
1.6 % |
|
1940 |
290,443 |
.16 % |
|
1950 |
417,235 |
3.7 % |
|
1960 |
649,453 |
4.5 % |
|
1970 |
1,007,195 |
4.5% |
|
1980 |
1,828,300 |
6.1 % |
O que também
se verifica, significativamente, é que a proporção de baianos
vivendo em Salvador diminuiu nos idos de 1910 até os anos 30. A
fração da população de Salvador na Bahia foi de:
1900………………. 9.6%
1920………………. 8.5
1940………………. 7.4
1950………………. 8.6
1960………………. 11.0
1970………………. 13.4
1980………………. 19.3
Na realidade,
Salvador estagnou durante as primeiras quatro décadas do século XX.
A vibração econômica que existiu foi devida às indústrias de cacau e
de tabaco e ao comércio interno. Em 1890, Salvador ainda era a
segunda maior cidade do Brasil e a quarta cidade no país com sistema
telefônico mas, por volta de 1940, caiu para a quarta posição
(ficando atrás do Rio, São Paulo e Recife).
De fato, a população de Salvador cresceu a uma taxa anual de 1%
durante 50 anos, de 1890 a 1940. Poucas indústrias novas foram
estabelecidas após 1920, porque novas fábricas de produtos em
substituição aos importados foram implantadas no Sudeste e no Sul,
regiões mais prósperas. A cidade permaneceu como um entreposto
comercial para a região, mas poucas atividades econômicas novas se
desenvolveram até a decolagem movida pela Petrobrás nos finais dos
anos 40. Em 1939, uma agência petrolífera do governo descobriu
petróleo dentro dos limites da cidade de Salvador e o poço
petrolífero Lobato começou a produzir petróleo. Por volta de 1941,
quatro poços baianos produziam 230 barris por dia.
Os census de
1940 e 1950 revelam um declínio no numero de pessoas empregadas na
indústria em Salvador: em 1940, havia 10.832 pessoas (3,7%)
trabalhando na indústria e 9.716 pessoas trabalhando no comércio;
por volta de 1950, estes números eram de 13.682 (3,3%) e 14.279
(3,4%). Como a tabela l acima mostra, a população total de Salvador
em 1940 era de 290.443 pessoas, e em 1950 era de 417.235 pessoas.
A cidade quase
não cresceu em tamanho entre 1920-1940. Entre 1940 e 1950, mais de
57% do crescimento da população de Salvador foi devido à imigração
líquida e, na próxima década (1950-60) o número teria saltado para
quase 64% (Tabela 2). A grande maioria dos que migraram para
Salvador vieram de áreas rurais ao redor da cidade.
Tabela 2.
Origem do crescimento da População de Salvador, 1950-1970
|
|
1940 |
1950 |
1960 |
1970 |
|
População
total |
290,443 |
417,235 |
649,453 |
1,007,195 |
|
(1)
Aumento sobre década |
- |
126,502 |
232,218 |
357,742 |
|
(2)
Aumento líquido da migração |
- |
72,227 |
147,804 |
196,516 |
|
(2) / (1)
= |
- |
57.1 % |
63.6 % |
54.9 % |
Fontes: Souza,
Guaraci Adeodato Alves de, “Urbanização e Fluxos Migratórios Para
Salvador”, in Bahia de Todos os Pobres (Petrópolis: Editora Vozes
Ltda. em co-edição com CEBRAP, Caderno CEBRAP no. 34, 1980) :105 and
Faria, Vilmar E., “Divisão Inter-Regional do Trabalho e Pobreza
Urbana: O Caso de Salvador”, in Bahia de Todos os Pobres, op. cit.,
: 23-40.
Entre 1940-60,
a Bahia passou por uma grande emigração em direção aos estados mais
ricos e em crescimento do Sudeste e do Sul. Entre 1940-50, a
emigração excedeu os 100.000, mas ultrapassou a mais de 600.000 (ou
11,4% da população do Estado) entre 1950-60, tendo em vista a
finalização da rodovia BR 116 (Rio-Bahia) em 1949.
Caminhões começaram a carregar nordestinos para trabalhar no
Sudeste, na construção civil em crescimento acelerado. Assim como na
década de 40, a criação de gado começou a ser substituída pela
cana-de-açúcar causando desemprego entre lavradores inexperientes.
O porto e
armazéns permaneceram centros alvoroçados. Os ricos jogavam no
luxuoso Hotel da Bahia (até que o jogo foi proibido em 1946). A
Companhia de Navegação Costeira teve navios circulando entre
Salvador e Rio. Muito do tabaco e cacau do Recôncavo Baiano passou
pelo porto. Algumas fábricas produtoras de cigarro operaram em São
Félix e Mangagipe e a Usina Aliança (construída em 1892) em Santo
Amaro processaram cana-de-açúcar. As antigas casas comerciais
britânicas de Stevenson e Duder operaram em Salvador, ocupadas
principalmente com o comércio de exportação de cacau.
Duder também tinha uma frota de embarcações modernas para caçar
baleias e uma fábrica para refinar óleo de baleia na Bahia.
Duder & Irmão foi estabelecido em 1900, F. Stevenson & Cia. Ltda em
1895 e a firma suíça Hugo Kaufmana & Cia. em 1908, todos envolvidos
com a exportação de cacau.
As grandes empresas locais de cacau de Correa Ribeiro e Barreto de
Araújo prosperaram ao longo deste período. O moinho de farinha
Moinho da Bahia S/A foi estabelecido em Salvador em 1923. Uma
reportagem publicada em 1924 relatou que haviam 24 moinhos de açúcar
operando no Estado da Bahia produzindo um total de 30.000 toneladas
métricas por ano.
Por esta época, a grande Usina Aliança em Santo Amaro também começou
a produzir álcool para fins industriais, encorajados pelos
incentivos federais. A Companhia de Bebidas Leão do Norte começou a
fazer o tradicional vinho de mesa Jurubeba Leão do Norte nos anos
20.
Pierre Verger
relatou que, em 1946, todo transporte era ainda feito por mar,
porque praticamente não havia estradas vindo ou indo ao interior do
país.
A rodovia Feira de Santana não era nada mais do que uma trilha de
terra batida usada pelo gado em sua última viagem, para o matadouro
municipal de Retiro (construído em 1912) nos arredores de Salvador.
Barcos pesqueiros se amontoavam no mar.
Até 1929,
Salvador teve dois sistemas de bonde distintos: as linhas do
Município na Cidade Baixa e a linha circular de Eduardo Guinle na
Cidade Alta. Em maio de 1929, Guinle foi vendida e ambas as linhas
foram unificadas pelo conglomerado americano, Electric Bond & Share
Company, que continuou operando a Companhia Linha Circular [a
“CLC”]. A subsidiária da Electric Bond & Share, American Foreign &
Power, obteve concessão, em 1927, para fornecer energia elétrica a
dez Estados brasileiros, incluindo a Bahia.
Em 1930, o
povo de Salvador fez um protesto contra a qualidade do serviço de
bonde e seus altos preços, colocando fogo em 60 bondes.
As reclamações sobre o serviço de bonde continuaram pelos vinte anos
seguintes. A cidade de Salvador finalmente tomou o sistema de bonde
“CLC” do Electric Bond & Share em 1955, trocando os bondes na Cidade
Baixa por trolebus da Fiat em 1959 e eliminando os bondes das áreas
comerciais em expansão da Cidade Alta em 1960. Os ônibus tornaram-se
o veículo de preferência. Até então, os bondes da Linha Circular
American & Foreign Power cruzavam a cidade e a Western & Bazilian
Telegraph Co. forneceu serviço de fiação.14
Companhias de energia no Brasil foram nacionalizadas [em 1964 com
pagamento] durante o governo Goulart do início dos anos 60,
incluindo as geradoras de eletricidade e fornecedoras de serviços
telefônicos na Bahia.
O Elevador
Lacerda passou por uma reforma, adquirindo sua fachada Art-Deco e
foi expandida. As duas cabines velhas foram substituídas por quatro,
capazes de transportar 27 pessoas cada.
A nova estrutura foi inaugurada no dia de Ano Novo de 1930.
As cabines do elevador do Taboão, semelhante a girafas (1895-1961),
trouxeram trabalhadores para o centro comercial no centro. Surgiram
alguns centros comerciais novos, como o da Baixa dos Sapateiros e o
da Av. Sete de Setembro. Algumas poucas fábricas novas de bens de
consumo perecíveis foram construídas após 1920: Chandler fazendo
chocolates em Monte Serrat, a fábrica de óleo vegetal SANBRA montada
em Lobato nos anos 40, as fábricas Souza Cruz and Leite & Alves
manufaturaram cigarros no distrito de Monte Serrat/Bomfim e a
fábrica do Café América em Pirajá torrou café. Por volta de 1960,
seis empreendimentos industriais estiveram envolvidos no
processamento do cacau – quatro localizados em Salvador (incluindo
um empreendimento chocolateiro estabelecido em 1960, muito
provavelmente a fábrica Chandler em Monte Serrat).
As principais indústrias eram as de processamento de alimento, de
fabricação de móveis, de farinha e bolachas, têxteis, chapéus,
sapatos, cigarros, roupas (costureiras), fósforos, sabão, velas,
destilados e fabricação de metal simples. Algumas lojas de
departamento respeitáveis como Mesbla e Sloper são datadas desta
época. O primeiro supermercado (Paes Mendonça) surgiu em 1958.
O incomparável
Pierre Verger nos dá uma idéia de Salvador nos anos 40:
“as atividades
comerciais como a exportação, importação e setor bancário eram
concentradas entre a Igreja Conceição da Praia e o Prédio da Câmara
de Comércio. As pessoas costumavam discutir os seus negócios nas
ruas tranqüilas onde poucos carros passavam. O ar condicionado ainda
não estava na moda e as ruas eram infinitamente mais bem ventiladas
que os escritórios. Bahia manteve sua característica provinciana e
seu ritmo de vida continuou atrelado aos hábitos estabelecidos no
começo do século. Os telefones funcionavam muito mal e as pessoas
preferiam discutir os seus negócios em certas esquinas escolhidas
por serem mais frescas a certas horas do dia...”
Em 1944 a
Bahia produziu uma pequena quantidade de recursos minerais -
petróleo, manganês, cromo, magnesita, cobre, ouro, diamantes,
carbonados, esmeraldas, asbestos e barita (nas ilhas Camamu).
Pequenas quantidades de cromita retiradas da mina Cascabulhos, perto
de Campo Famoso, Bahia, foram exportadas para a Alemanha, bem como
pequenas quantidades de tungstênio. Por volta de 1910, o
cônsul-geral dos Estados Unidos no Brasil relatou que uma corporação
americana obteve possessão de praticamente todo o território rico em
diamantes numa das melhores regiões brasileiras conhecida como
“região da Diamantina” e dragas foram instaladas ao longo do Rio
Jequitinhonha em Minas Gerais. Entre 1919-29, quase todas as
tentativas das companhias estrangeiras de introduzir métodos em
grande escala de recuperação de diamantes falharam, com o rendimento
vindo principalmente de trabalhos manuais em pequena escala.
Alguns anos antes, uma companhia francesa, a Boa Vista Co., se
estabeleceu em 1899, capitalizada em dois milhões de francos naquela
época, para se empenhar na mineração de diamantes em Boa Vista [BA],
a leste da Cidade de Diamantina [MG], na margem mais norte do Rio
São Francisco acima da Cachoeira de Paulo Afonso. Ela usou modernos
equipamentos de draga elétricos, mas também falhou porque o preço
dos diamantes era muito baixo e o sistema de utilização de água
bombeada do rio em níveis era insalubre.
A São José [Brasil] Diamantes e Carbonados Ltda foi formada em 1903
para adquirir nove concessões do Sindicato Anglo-Brasileiro de
Diamante, nas cercanias do Rio São João [próximo a Lençóis] na Bahia
e arrendar terras em outras partes com custo de meio milhão de
dólares.
Subseqüentemente, duas companhias brasileiras operaram na área com
algum sucesso.
A mina Bonfim [Bahia] produziu 13.500 toneladas métricas de cromita
em 1918.
Uma firma americana operou um campo comprovado de diamantes
industriais [carbonados] e outra firma relatou que minerou cromita
nos anos 30.
De fato, uma firma americana - Bahia Corp. - teve um monopólio
virtual nos campos de diamante negro da Bahia, empregando 1.400
trabalhadores no início dos anos 30 e tendo negociado uma concessão
de 30 anos. A Corporação Bahia foi fundada pela família Bandler em
1927, com emissão de 60.000 ações de $25 cada como companhia
controladora para a Bernard Bandler & Sons Inc. [uma corretora de
Nova Yok de diamantes negros] e a Cia. Brasileira de Exploração
Carbonífera.
A Companhia estava engajada na produção e marketing de diamantes
pretos de carvão usados em brocas. Sua Cia. Brasileira Carbonado foi
organizada no Brasil para ser dona e operar propriedades com minas
no distrito de Piranha na Bahia sob uma concessão de 30 anos
[1927-57]. As minas foram avaliadas em 50 milhões.
Ela controlou a Cia. Exploração Diamantina que possuía 14 1/2 milhas
quadradas de territórios comprovados ao longo do Rio Paraguaçu.
A Bahia forneceu quase todo diamante preto ou industrial do mundo
usado na indústria de moer e cortar.
Durante os
anos 30, como o preço internacional do ouro subiu, a atividade dos
garimpeiros (mineiros artesanais) nas minas de ouro da Serra da
Jacobina cresceu. Durante os anos 50, três novas minas de ouro foram
abertas: Canavieras, João Belo e Serra Branca. Canavieras era a
maior, processando 115.653 toneladas de terra contendo minério e
recuperando, em média, 18,13 gramas de ouro por tonelada. As três
minas foram fechadas nos anos 60.
O famoso
depósito de magnesita de Brumado no distrito baiano de Serra das
Éguas foi explorado pela primeira vez em 1912-13. Uma formação de
ferro em camadas (chamada itabirito) foi extraída e foi fundida
pelos habitantes locais. Esmeraldas também foram descobertas em
seguida no Vale Pirajá e foram extraídas pelos próximos 30 anos
pelos garimpeiros. Nos anos 40, dois cidadãos naturalizados
brasileiros, Pierre Cahen e Georges Minville, começaram a explorar a
área em busca de magnesita. Os dois organizaram uma companhia de
mineração sob o nome de Magnesita S.A. Em 1949, o grupo brasileiro
Moureo Guimarães, começaria a extrair magnesita em Brumado [BA]. Por
décadas, as minas de Brumado - especialmente a fabulosa mina Pedra
Preta – produziriam magnesito de alta qualidade mas também uma
riqueza de metais preciosos.
A companhia de E.J. Lavino & Co., baseada na Filadélfia, investiu na
mineração e exportação de manganês baiano em 1971. Lavino adquiriu
quatro minas na Bahia próximo à ferrovia Central do Brasil, perto de
Nazaré, onde o manganês era produzido há muito tempo.32
A Cia. Minas da Bahia exportava manganês nos anos 40 de sua mina
próximo a Santo Antonio de Jesus [BA].
Uma inovação
industrial interessante foi trazida por um empresário americano
durante a segunda guerra mundial. A Companhia Monsanto abriu uma
fábrica [Monsanto do Brasil Inc.] no sul da Bahia, em 1943, para
extrair teobromina bruta do cacau. A teobromina foi enviada às
operações da Monsanto nos Estados Unidos para manufaturarem cafeína,
usada como um aditivo nos refrigerantes, café e remédios. Monsanto
construiu uma fábrica de um milhão e meio de dólares em St. Louis em
1945 para manufaturar cafeína sintética, mas a inovação não foi
satisfatória.
Mas, no geral,
a cidade permaneceu atolada na pobreza.
As residências da Cidade Alta, com ornamentações opulentas, as
igrejas barrocas cobertas de ouro, a fina aparência de um
cosmopolitanismo europeu, “dissimulou um miasma de condições urbanas
com falta de tratamento sanitário”.
Construções desmoronando, falta de sistema de esgoto, um sistema de
saúde precário, lixo e doenças generalizadas caracterizavam a
cidade. O dia-a-dia cheio de cor e particularidades de então foram
muito bem captados nas novelas de Jorge Amado bem como nas
fotografias de Pierre Verger do final dos anos 40.
Nos anos
20-60, pessoas muito pobres começaram a habitar as casas velhas e
abandonadas da aristocracia do açúcar, no distrito histórico central
do Pelourinho (como Maciel). O distrito histórico se tornou o lar
para os desamparados, vadios e os trabalhadores pobres. Maciel foi o
centro da prostituição e das drogas nos idos de 30. As classes
trabalhadoras viviam na Estrada da Liberdade, Cabula e Retiro,
chegando ao trabalho na Cidade Baixa pela Baixa dos Sapateiros nos
bondes da Linha Circular. O pequeno burguês morava em Brotas, no
Matatu, Santo Antonio Além do Carmo, enquanto que os ricos se
agrupavam na Barra Avenida, distritos de Vitória e Canela na Cidade
Alta, com a vista para o mar.
Milton Santos (1959) escreveu que as ocupações de trabalho mais
comuns em Salvador eram:
“bicheiro,
encanador, lavadeira, cozinheiro, bombeiro, pequeno funcionário,
porteiro, engraxate, encerador, viajante ipógrafo, empregado
doméstico, vendedor ambulante, chofer, condutor de ônibus, camelô,
etc.são pequenos empregados ou pessoas sem uma ocupação permanente
ou bem definida, seu local de trabalho era, de preferência, no
centro da cidade”.
As mudanças na
paisagem da capital, do Recôncavo e da Bahia foram devidas,
primeiro, à atividade crescente da Petrobrás,
aos programas de construção de rodovias e à expansão da
administração estadual nos anos 50 e depois, ao estabelecimento do
centro industrial planejado de Aratu em 1967 (no qual, por volta de
1975, 68 companhias começaram suas operações) promovido pela estatal
SUDENE (criada em 1959) e ao Pólo de Camaçari em 1970 construído nas
redondezas do núcleo da refinaria da Petrobrás em Mataripe. Uma
publicação de 1970 descrevendo o Centro Industrial de Aratu, listou
cerca de 23 firmas com fábricas, empregando no mínimo 4-5.000
trabalhadores.
A Odebrecht criou sua companhia de construção em Salvador em 1945 e
rapidamente se envolveu em grandes projetos de construção na região.
A Universidade Federal da Bahia (UFBA) foi formada em 1946.
Por volta de
1964, em Salvador, a Petrobrás sozinha empregou cerca de 24.000
pessoas, a maioria da nova classe média.
Na Bahia e em Salvador, diferentemente de São Paulo e Rio, ocorreu
pouca imigração de brancos. Devido à esmagadora população negra, a
classe trabalhadora industrial da Bahia era negra, considerando
tanto homens como mulheres. Por exemplo, baianas negras eram a
principal força na indústria do corte de diamante em Diamantina, na
fabricação de cerâmica nas áreas rurais, no trabalho com o tabaco e
o cigarro no Recôncavo, carregando água na cidade de Salvador e nas
indústrias têxteis de Salvador e Valença. Os homens negros operavam
o transporte público (primeiro as cadeiras e depois, os bondes),
trabalhavam nas docas, nas usinas de gás e de eletricidade,
construindo ferrovias e na construção civil.
A proporção de
pessoas ativamente econômicas na população total de Salvador
permaneceu em torno de 40% nos anos 40-50, caindo para 36% em torno
de 1970, visto que a criação de empregos não acompanhou o
crescimento da população:
Tabela 3.
Demografia de Salvador
|
|
1940 |
1950 |
1970 |
1981 |
|
(1)
população economicamente ativa |
118,604 |
171,551 |
367,049 |
695,478 |
|
(2)
população total de Salvador |
290,443 |
417,235 |
1,007,195 |
1,780,855 |
|
Razão de
(1)/(2) = |
40.7 % |
41.0 % |
36.4 % |
39.0 % |
Fontes: dados de 1940-70 para (1) de Faria (1980: 38); dados de 1981
de PNAD 1981, Tabela 3.11.
A população de
Salvador começaria a crescer acima de 4% ao ano nos anos 50 e 60,
quando a cidade atraiu dezenas de milhares de migrantes rurais. Uma
industrialização crescente - entre 1950 e 1970, cerca de 80.000
empregos
na indústria foram criados nos cerca de 50 novos empreendimentos
abertos em Aratu e Camaçari - acompanhada do crescimento nos
empregos no setor de serviços (banco, comércio, construção e
administração estadual)
ocorreu lado-a-lado com a pobreza persistente de Salvador.
Assim, durante
a década de 60, a população de Salvador cresceu (cerca de 4,5% por
ano), o emprego cresceu (especialmente nos ramos da construção e
serviços) e estima-se que a média do produto interno bruto per
capita tenha aumentado de 1.835 cruzeiros para 2.410 em 1970 (que em
dólares significou 350 e 460, respectivamente).
Mas, dados de
distribuição de renda em Salvador, coletados para os anos de 1961/2
e 1970 pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) por meio de uma pesquisa
de amostra de orçamento familiar e depois, em 1971, pelo Centro
Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) e a Universidade
Federal da Bahia, em outra pesquisa, revelaram uma significante
piora na distribuição de renda. A categoria de “muito pobre” - isto
é, aquelas famílias ganhando menos que 170 cruzeiros por mês (ou US$
32) aumentou de 7,0 para 16,1% entre 1961/2 e 1970 (Tabela 4). No
fim do outro espectro, aquelas famílias – as “muito ricas” -
ganhando no mínimo 3.350 cruzeiros (ou US$ 670) por mês cresceram de
apenas 0,7% de famílias para 3,8%. De fato, todo o crescimento da
renda per capita média, durante esta década, foi devido apenas ao
aumento nesta proporção de famílias muito ricas. A renda média
mensal de todas as famílias restantes na realidade caiu de 712
cruzeiros (US$ 135) para 671 cruzeiros (US$ 127) em 1971.
Singer sugere
dois elementos que explicam tal piora na situação: a redução de
empregos para empregadas domésticas que atingiu profundamente
mulheres sem especialização; a política salarial pós 65 do governo
militar com redução do salário mínimo (de 206 cruzeiros em 1961/2
para 170 cruzeiros (US$ 32) por volta de 1971.
Os salários reduzidos também se traduziram em aumento na deficiência
calórica: em 1961/2, 70,4% e em 1971, 71,5% das famílias em Salvador
consumiram menos que a metade da nutrição padrão na época.
Crescimento,
industrialização, fábricas e construções não foram garantia de que
as necessidades mínimas da população de Salvador fossem atendidas
(Tabela 5).
Tabela
4.
Distribuição de Renda em Salvador
1961/2:
renda familiar
(em Cr$) % de famílias nesta faixa %
cumulativa
0 – 170 (US $
0 -32)
7.0% 7.0%
171 -
259
9.5 16.5
260 –
349
24.3 40.8
350 –
529
14.5 55.3
530 –
859
16.1
70.4
860 –
1,379
15.3 85.7
1,380 –
2,059
8.2 93.9
2,060 –
3,549
5.4 99.3
3,550 e mais
0.7
100.0
1971:
renda familiar
(em Cr$) % de famílias nesta faixa %
cumulativa
0
-170 16.1
% 16.1%
171 –
259
13.4
29.5
260 –
349
12.8 42.3
350 –
529 15.9
58.2
530 –
859
13.3 71.5
860 –
1,379
12.2 83.7
1,380 –
2,059
7.2 90.9
2,060 –
3,549
5.3 96.2
Tabela
5.
Um
Perfil da Pobreza na Região Metropolitana de Salvador (RMS), 1970
|
Rendimentos mensais médios de pessoas oficialmente empregadas na
RMS |
Cr
383.00* |
|
% de
pessoas empregadas ganhando menos que dois salários mín. mensais
(salário mín. na época de Cr$ 144,00)** |
~40 % |
|
% de
famílias sem acesso à água |
52 % |
|
% de
famílias sem acesso ao sistema de esgoto |
72 % |
|
% de
famílias sem eletricidade |
20% |
|
Taxa de
mortalidade infantil de crianças com menos de 1 ano de idade
(1973) |
31.1 % |
Fonte: Faria (1980: 24)
*ou US $ 83.39 em 1970 (ou US$ 386.59 em 2002)
**ou US $ 31.35 em 1970 (ou US$ 145.35 em 2002). O número de dois
salários mínimos como constituindo uma linha de pobreza para uma
família de cinco, foi sugerido em G. Pferfferman and R. Webb,
“Pobreza e Distribuição de Renda no Brasil”, Revista Brasileira de
Economia 37,2 (Abril-Junho 1983)
Por volta de
1981, existiam na região metropolitana de Salvador, apenas 178.000
empregos industriais para uma força de trabalho de quase 700.000.
Muitas pessoas trabalhavam como prestadores de serviços. Apenas
metade da população com idade de 10 anos ou mais era “economicamente
ativa”. A outra metade vivia o dia-a-dia no setor informal massivo e
crescente.
Tabela 6.
Estrutura de Emprego na RMS de Salvador RMS, 1981–1997
|
|
1981 |
1985 |
1992 |
1997 |
2002 |
|
agricultura |
9,470 |
16,861 |
32,248 |
22,558 |
28,309 |
|
indústria
de manufatura |
90,083 |
86,656 |
100,230 |
100,374 |
132,847 |
|
outras
indústrias |
87,824 |
105,233 |
119,959 |
110,921 |
128,977 |
|
comércio |
92,018 |
117,424 |
166,815 |
181,705 |
282,642 |
|