|
Por
ALONSO BEZERRA DE CARVALHO Doutor em Filosofia da Educação (USP) e Professor do Departamento de
Educação da Unesp-Assis/SP
|
|
Marx
e Weber: um diálogo possível
As
idéias de Max Weber e de Karl Marx nunca perdem a validade. Durante
grande parte do século XX ambos foram colocados em campos opostos,
em que suas reflexões sobre a sociedade moderna eram entendidas
como interpretações antagônicas, sendo uma, a weberiana,
classificada como conservadora e burguesa, e a outra, a marxista,
como sendo progressista e fundamentalmente baseada nos ideais
revolucionários. Esse suposto dilema já não é mais
importante, pois vamos encontrar nesses dois pensadores uma convergência
de análise do capitalismo que se tornaram clássicas no campo das
ciências sociais e da história. Daí decorre a possibilidade de diálogo
entre eles.
Em
longos trechos das obras de Marx e Weber as questões postas são as
mesmas, e ambos têm, como pensadores, muito mais em comum entre
Marx e muitos autores que se dizem seus fiéis seguidores. Um dos
elementos centrais que os aproxima está a preocupação de ambos
sobre o destino do homem dentro da moderna sociedade capitalista.
No
Manifesto Comunista, escrito em parceira com Engels, Marx
identifica a história da modernidade como a história do trabalho
revolucionário da burguesia que “destruiu as relações feudais,
patriarcais e idílicas”, despedaçando “sem piedade (...) os
complexos e variados laços que prendiam o homem feudal a seus
‘superiores naturais’, para deixar subsistir, entre os homens, o
laço do frio interesse”. Além disso, a burguesia “afogou os
fervores sagrados do êxtase religioso, do entusiasmo cavalheiresco,
do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas geladas do cálculo
egoísta”. Fazendo da dignidade pessoal um simples valor de troca,
temos nos tempos modernos uma substituição das numerosas
liberdades, que foram conquistadas com tanto esforço, “pela única
e implacável liberdade de comércio”. Isto significa que no lugar
da “exploração velada por ilusões religiosas e políticas, a
burguesia colocou uma exploração aberta, cínica, direta e
brutal” (MARX, 1984: 11).
Esse
processo revolucionário, despoja de sua auréola todas as
atividades até então reputadas veneráveis e encaradas com um
profundo respeito. O processo histórico em curso, ao levar a
burguesia à condição de classe dominante, segundo a análise de
Marx, “rasgou o véu de sentimentalismo que envolvia as relações
de família e reduziu-as a simples relações monetárias”,
subvertendo a produção, abalando o sistema social e dissolvendo
todas as relações sociais. Como diz Marx: “tudo que era sólido
e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profanado”
(Cf.,1984 : 12).
Todavia,
ao criar o mundo à sua imagem e semelhança, a burguesia promove e
acirra ainda mais o antagonismo social, o que pode levar à sua própria
superação. As armas das quais ela lançou mão para destruir as
relações feudais tendem a voltar contra si. Segundo Marx, a
burguesia não forjou apenas as armas que lhe darão morte, mas também
os homens que manejarão essas armas – o proletariado. “A
burguesia produz seus próprios coveiros. Sua queda e a vitória do
proletariado são igualmente inevitáveis” (1984: 24). Se Marx
analisa a sociedade moderna, procurando entendê-la conceitualmente,
por outro lado, ele vislumbra a possibilidade de transformá-la,
criando as condições para uma nova ordem social. Isto quer dizer
que, se pretende captar a realidade como ela é, ao mesmo
tempo coloca em seu horizonte o como ela deveria ser. A
sociedade verdadeiramente humana deve ser um dia uma sociedade sem
exploração e opressão, e esta possibilidade está dada já agora,
na sociedade presente. É por isso que precisamos compreendê-la o
mais satisfatoriamente possível. A luta de classes, como lei da
história, deve favorecer a construção do futuro desejado, já
contido no presente odioso e iníquo.
A
transformação de uma forma a outra, de um modo de produção a
outro, se dá pelos conflitos abertos por causa da luta entre a
classe dominada e a classe dominante em cada época” (RODRIGUES,
2000: 41).
O
estudo que Marx fez sobre a sociedade burguesa moderna enraíza-se não
no assim chamado desenvolvimento geral do espírito humano, nem a
partir de si mesma, mas nas relações materiais de vida. Desse
modo, ele pôde encontrar um fio condutor que possibilitou a construção
de uma utopia. No prefácio de Para a crítica da economia política,
diz que esse fio condutor corresponde ao seguinte:
na
produção social da própria vida, os homens contraem relações
determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações
de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de
desenvolvimento das suas forças produtivas materiais (...) Em uma
certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais
da sociedade entram em contradição com as relações de produção
existentes (...) Sobrevém então uma época de revolução
social” (1987: 29-30).
Com
isso em mãos, passou a acreditar que o capitalismo, como modo de
produção burguês, pode ser destruído, edificando, assim, em seu
lugar uma sociedade sem classes. Ele punha a maior fé na capacidade
da ciência em formular uma utopia que pudesse dar conta da
sociedade do futuro. Acreditando haver descoberto as leis da história
– o seu fio condutor -, Marx vislumbrou a superação da sociedade
capitalista e a construção de uma nova sociedade, no qual o homem
se reencontraria consigo mesmo, seria um ser autônomo e
autoconsciente, trabalhador manual e intelectual ao mesmo tempo.
Enfim, os homens e as mulheres seriam seres humanos inteiros,
completos.
Portanto,
para Marx, é a partir do caráter conflituoso da sociedade,
sobretudo a moderna, que podemos edificar um novo mundo, um mundo
que será o resultado da abolição da propriedade privada e da
extinção do trabalho assalariado.
O
que queremos é suprimir o caráter miserável desta apropriação
que faz com que o operário só viva para aumentar o capital e só
viva na medida em que o exigem os interesses da classe dominante”
(MARX, 1984: 28).
A
transformação dessa sociedade é resultado de um longo processo
histórico, cabendo ao cientista identificá-lo, o que lhe dá as
condições para construir uma utopia.
Por isso que Marx é categórico sobre essa questão. No prefácio
citado, afirma, cheio de esperança e de otimismo, que
as
relações burguesas de produção constituem a última forma antagônica
do processo social de produção, antagônicas não em um sentido
individual, mas de um antagonismo nascente das condições sociais
de vida dos indivíduos; contudo, as forças produtivas que se
encontram em desenvolvimento no seio da sociedade burguesa criam ao
mesmo tempo as condições materiais para a solução deste
antagonismo. Daí que com esta formação social se encerra a pré-história
da sociedade humana” (MARX, 1987: 30).
A
esperança de Marx por uma nova sociedade não pode ser construída
sem a presença também da ação educativa. No Manifesto,
ele deixa claro que a educação deve ser levada em consideração
no momento de se elaborar qualquer projeto de superação das relações
sociais burguesas. É preciso, segundo ele, arrancar a educação da
influência da classe dominante, do modo burguês de ver o mundo, se
não quisermos que as crianças sejam transformadas “em simples
objetos de comércio, em simples instrumentos de trabalho” (1984:
32). Entre as medidas a serem implementadas para que um novo tipo de
educação seja construído, é preciso praticar uma “educação pública
e gratuita de todas as crianças”. Pensando a educação como
parte de sua utopia revolucionária, Marx identificou nela uma arma
valiosa a ser empregada em favor da emancipação do ser humano, de
sua libertação da exploração e do jugo do capital - a construção
da sociedade comunista.
Os
estudos de Weber sobre a sociedade moderna é tensionada pela análise
feita por Karl Marx, que considera os tempos modernos como também o
tempo do conflito – o tempo da luta de classes. “A história de
todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história
das lutas de classes” (MARX, 1984: 8). Essa é a lei que Marx
descobriu para entender como funciona a história humana. Seja na
Roma antiga, na Idade Média ou na sociedade burguesa moderna,
verifica-se a presença de uma guerra ininterrupta entre opressores
e oprimidos. Contudo, diz Marx, é em nosso tempo que esse
antagonismo aparece de forma mais acirrada, em que a sociedade
divide-se em dois campos diametralmente opostos: a burguesia e o
proletariado.
Embora
não fosse um leitor contumaz das obras de Marx, Weber o
considerava, ao lado de Nietzsche, como um dos baluartes do
pensamento social moderno. As idéias marxistas foram objeto de
dedicação de suas reflexões, embora considerasse o marxismo uma
teoria monocausal, que dificultava reconstruir adequadamente as
conexões sociais e históricas. Sentia que Marx dava a uma
perspectiva parcial - o materialismo histórico - uma importância
exagerada, reduzindo a multiplicidade de fatores causais a um
teorema de fator único. Weber não se opõe diretamente ao
materialismo histórico como totalmente errado - nega-lhe
simplesmente a pretensão de estabelecer uma seqüência causal única
e universal para a realidade histórica.
Na
sua opinião, a suposição de Marx de que o movimento da História
tem uma direção geral era tão ilegítima quanto a filosofia
hegeliana da História, que a originara. Enquanto Weber admitia, com
fortes reservas, a utilização de "estágios de
desenvolvimento" como "instrumentos heurísticos" que
poderiam facilitar a exposição de "esquemas
deterministas" baseados em qualquer tipo de teoria geral do
desenvolvimento histórico. Weber estava convencido de que o
capitalismo não poderia ser efetivamente transcendido num futuro
previsível e que o modo capitalista de produção não estava
levando a uma luta de classes aberta e irresistível entre trabalho
e capital.
No
entanto, partilha com Marx da tentativa de colocar os fenômenos
"ideológicos" nalguma correlação com os interesses
"materiais" das ordens econômica e política. O conceito
de burocracia racional é contraposto ao conceito marxista de luta
de classes. Ocorre com o "materialismo econômico" o mesmo
que acontece com a "luta de classes": Weber não nega as
lutas de classes e sua parte na história, mas não as considera
como a dinâmica central. Nem nega a possibilidade de uma socialização
dos meios de produção. Simplesmente relega essa exigência a um
futuro bem distante e refuta qualquer espera de socialismo em nossa
época (Cf. WEBER, 1997: 275). Não vê nada de atraente no
socialismo. Aos seus olhos, ele simplesmente completaria na ordem
econômica o que já acontecera na esfera dos meios políticos. Os
estamentos feudais haviam sido expropriados de seus meios políticos
e substituídos pelo funcionalismo assalariado do moderno Estado
burocrático. A socialização dos meios de produção simplesmente
sujeitaria uma via econômica ainda relativamente autônoma à
administração burocrática do Estado. Para Weber, a concepção de
socialismo contida no Manifesto Comunista está assentada na
esperança revolucionária da ditadura política do proletariado. Na
sua opinião, um socialismo dessa natureza levaria à maior servidão
– a burocratização "O que - ao menos por enquanto - está
em marcha é a ditadura do funcionário, e não a do
trabalhador" 1997: 268).
|
|

|