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Por MARIO CARLOS BENI
Doutor
e livre docente em turismo. Professor titular do curso de turismo
da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo,
onde é responsável pelas disciplinas Análise Estrutural do
Turismo, no curso de graduação, e Sistemas de Turismo, na pós
graduação
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Como
Certificar o Turismo Sustentável?
Palavras-chave:
turismo sustentável, eco-sustentabilidade do turismo, certificação
do turismo sustentável.
As
complexas e muitas vezes conflitantes interrelações do homem com o
meio ambiente assumem a partir do século passado feições várias
de interesse planetário, eis que os países desenvolvidos
despertaram para o trato metodológico desse binômio atividade
humana x preservação do meio ambiente.
As
ações antrópicas em seus impactos negativos nos ecossistemas
dominaram o panorama e hoje não mais atingem limites geofísicos e
socioculturais, mas toda a humanidade praticamente.
Das
discussões sobre ecologia, que abriram o terreno para o exame
dessas interrelações, o que se tem atualmente em maior destaque e
relevância é o turismo sustentável, expressão esta que abriga
infindos posicionamentos políticos e geoestratégicos até
interesses imediatos para navegar na onda de um tema tão sério e
complexo quanto fluido em seus aspectos prático.
Turismo
vem se firmando como ciência humana e social. Porém seus efeitos
econômicos são os que habitualmente mais se destacam, merecendo não
só a atenção maior de pesquisadores e empreendedores, como também
maior e melhor tratamento estatístico.
O
objeto de estudo do Turismo é próprio e nele se congregam também
variáveis e métodos de análise de outras ciências mais
tradicionais e consolidadas. Essa conexão além de conferir-lhe
interdisciplinaridade, possibilitou, ao longo do processo de seu
desenvolvimento, que o Turismo atingisse mais amplitude e
modernidade, podendo ser hoje definido como ciência da expressão
do homem no mundo global, competitivo, e que quer se transcender
rumo a uma nova visão de valores universalistas.
Ainda
gostaríamos de lembrar que turismo começa a superar o
qualificativo de setor estanque, exclusivo, pois em virtude do
processo de globalização, em que foi instrumento de destacada
contribuição, está sempre presente como fundamento na formulação
elaboração e execução de muitas políticas econômicas,
regionais sociais e culturais de vários países.
O
equilíbrio pretendido entre a atividade humana e o desenvolvimento
e a proteção do ambiente exige uma repartição de
responsabilidades eqüitativas e claramente definidas com relação
ao consumo e ao comportamento face aos recursos naturais. Isto
implica a integração de considerações ambientais na formulação
e implementação das políticas econômicas e setoriais, nas decisões
das autoridades públicas, na operação e desenvolvimento dos
processos de produção e nos comportamentos e escolhas individuais.
Implica igualmente a existência de um diálogo real e a pactuação
de ações de parceiros que podem ter prioridades de curto prazo
diferentes; tal diálogo terá de ser apoiado por informação
objetiva e crível.
Assim,
a palavra sustentabilidade pretende refletir uma política
e estratégia de desenvolvimento econômico e social contínuo, sem
prejuízo do ambiente e dos recursos naturais, de cuja qualidade
depende a continuidade da atividade humana e do desenvolvimento.
Temos
acompanhado com vivo interesse e, ao mesmo tempo, com preocupação
crescente, a questão da sustentabilidade das atividades turísticas,
louvando sempre o destaque e a importância que esse tema vem
ganhando em pesquisas, seminários e publicações.
Uma
questão conceitual, porém, continua trazendo-me inquietações,
que tenho compartilhado freqüentemente com colegas da AIEST, que
também se manifestam com semelhantes preocupações.
Pelas
nossas observações e leituras constatamos que todos os
pesquisadores e autores que se dedicam ao estudo do tema são unânimes
em afirmar que sustentabilidade é um conceito que envolve o longo
prazo, que gera valor agregado por meio de lei de otimização e não
da maximização da renda, assegurando a inclusão e a coesão
social e política num processo de desenvolvimento integrado e
integral.
Aqui
devemos lembrar em linhas gerais o histórico da problemática
ambiental e sua evolução até as tentativas atuais para construir
o conceito de turismo e desenvolvimento sustentável:
-
1972
– Conferência da ONU sobre Meio Ambiente Humano em Estocolmo:
primeira iniciativa do gênero para examinar a questão de
maneira global e coordenada na busca de soluções aos problemas
existentes e definir linhas de ação para a problemática
ambiental.
-
1974
– Ignacy Sachs e sua equipe interdisciplinar, sediada no CIRED
– Centre International de Recherche sur l’Environnment et le
Dévéloppement, reelaboram a questão do ecodesenvolvimento,
criada em Estocolmo em 1972, ampliando e diversificando seus
horizontes.
-
1974/1975
– Com a Declaração de Cocoyoc de 1974, e o Relatório Que
Faire apresentado no final de 1975 pela Fundação Dag
Hammarskjold, por ocasião da 7ª Conferência Extraordinária
das Nações Unidas, reutilizaram as idéias de Sachs e sua
equipe, sem utilizar, contudo o termo ecodesenvolvimento de
forma explícita, mas as expressões um outro desenvolvimento e
desenvolvimento sustentado.
-
1982
– Em Nairóbi, Quênia, sede do Programa das Nações Unidas
para o Meio Ambiente – PNUMA, realizaram-se reunião
comemorativa do 10º aniversário da Conferência de Estocolmo,
quando se procedeu à avaliação dos resultados até então
obtidos e a um exame da mudança de percepção da problemática
ambiental.
-
1983
– Em resposta a uma decisão da Assembléia Geral da ONU, foi
estabelecida a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, presidida pela norueguesa Gro Brundtland. O
objetivo amplo foi reexaminar a questão ambiental,
interrelacionando-a com a questão do desenvolvimento, e propor
programas de ação. Quatro anos depois se elaborou o relatório
final da comissão, intitulado Nosso Futuro Comum, conhecido
também como Relatório Brundtland. Desse relatório surge com
mais força a expressão desenvolvimento sustentável, com intenção
de despertar a conscientização pública e evidenciar a
necessidade de um melhor gerenciamento do meio ambiente para
sustentar o planeta Terra.
-
1992
– Muitas da idéias e percepções do Relatório Brundtland
foram discutidas na Rio-92. Entre as principais destacam-se: a
Carta da Terra, uma declaração de princípios básicos a serem
seguidos por todos os povos com respeito ao meio ambiente e ao
desenvolvimento; e a Agenda 21, um plano de ação com as metas
aceitas universalmente para o período pós - 1992 e entrando
pelo século 21.
-
Em
abril de 1995, por iniciativa da ONU, realiza-se a Primeira
Conferência sobre Turismo Sustentável, em Lanzarote, nas Ilhas
Canárias. Foi co-patrocinada pelo Programa Ambiental dessa
mesma organização, e pelo Programa sobre o Homem e a Biosfera
da UNESCO e pela OMT.
Uma
das principais preocupações do Encontro foi a observação, que
expressou a maioria dos participantes, de que a iniciativa privada,
à época, pouco se sensibilizava com os programas e ações de
preservação ambiental.
De
Estocolmo até a Rio-92 destacou-se a polarização
desenvolvimentista, formada pela riqueza dos países desenvolvidos
ou industrializados do Norte e pela pobreza dos países em
desenvolvimento ou do terceiro mundo do Sul. Observou-se nesse
evento a introdução de novos conceitos, como certificação
ambiental, atuação responsável e gestão ambiental, que buscavam
mudar a postura reativa que marcava até então o relacionamento
entre as empresas, de um lado, e os órgãos governamentais, de
ordenamento, normalização, legislação e fiscalização e as
instituições ambientais, notadamente as Ongs, de outro.
Intenta-se,
pois uma nova atitude baseada na responsabilidade solidária, que
relega ao um segundo plano as preocupações com multas e autoações,
que vão sendo substituídas por um maior cuidado pela imagem das
empresas, com conseqüente valorização e reconhecimento de seus
programas ambientais.
Nesse
mesmo ano, assiste também à entrada em vigor das normas britânicas
(BS 7750) Especification for Environmental Manageman Systems que
serviram de base para a elaboração de um sistema de normas
ambientais em nível mundial. A entrada em vigor dessas normas
internacionais de gestão ambiental, denominadas de série ISO 14000
e sua já anunciada integração futura com as normas de gestão de
qualidade (ISO 9000), constituíram o coroamento de uma longa
caminhada em direção da conservação do meio ambiente e do
desenvolvimento em base sustentável.
Em
1997, já haviam sido emitidos 4.433 certificados ISO 14001 em 55 países.
Em 1998, esse número passou para 7.887 certificados em 72 países,
estando 6.786 dessas empresas situadas na Europa, Extremo Oriente e
Sudeste Asiático. Até fins de 2000, 22.897 empresas no mundo,
distribuídas por 98 países, estavam com sistemas de gestão
ambiental certificados pela Norma ISO 14001.
A
visão interdisciplinar de Ignacy Sachs sobre desenvolvimento
sustentável
Sachs
reelabora o conceito de desenvolvimento sustentável, também
chamado de ecodesenvolvimento, como um estilo de desenvolvimento
aplicável a projetos não só rurais, mas também urbanos oposto à
diretriz mimético-dependente tradicionalmente adotada nos países
pobres, orientado pela busca de autonomia ou self-reliance, e
pela satisfação prioritária de necessidades básicas das populações
envolvidas. A integração da dimensão do meio ambiente é pensada
não apenas como uma espécie de coação suplementar, mas também
na qualidade de um amplo potencial de recursos, utilizando-se de
critérios de prudência ecológica.
Sachs
articula quatro postulados, reunindo idéias essenciais do enfoque
do desenvolvimento sustentável. O primeiro deles é a prioridade ao
alcance de finalidades sociais, redirecionando o processo de
crescimento econômico, visando ao alcance de objetivos sociais
prioritários, traduzidos pelas suas necessidades materiais e
psicossociais, como autodeterminação, participação política e
auto-realização; o segundo é a valorização da autonomia ou self-reliance,
buscando um maior grau de controle dos aspectos cruciais do processo
de desenvolvimento, mediante a ação da sociedade civil organizada,
no âmbito local, microrregional ou regional, canalizando e
maximizando os seus recursos disponíveis, num horizonte de respeito
às suas tradições culturais e sem incorrer com isso em
auto-suficiência ou isolacionismo; o terceiro é a busca de uma
relação de simbiose com a natureza, abandonando o padrão
arrogante de relacionamento com o meio ambiente biofísico
instaurado pela modernidade à luz do processo modernizador; e o
quarto é a eficácia econômica, situando a eficiência econômica
como uma alternativa à racionalidade microeconômica dominante, no
sentido de uma internacionalização efetiva da problemática dos
custos sócio-ambientais do processo de desenvolvimento.
Pode-se,
também, reagrupar estes postulados do desenvolvimento sustentável,
de maneira a conceituar mais adequadamente em termos de estratégias
de um desenvolvimento socialmente mais justo, ecologicamente
prudente e economicamente eficaz.
Planejamento
para o desenvolvimento sustentável
Sachs
aponta que o desenvolvimento sustentável deve ser implementado por
uma metodologia de planejamento, como sendo um espaço de
aprendizado social, eqüidistante tanto da tradição tecnicista
quando da assembleísta, e se materializando sobre uma síntese
pedagógica.
É
nesta ótica que o planejamento oferece um novo modelo para políticas
governamentais, com estratégias concretas de intervenção
corretivas, baseadas nos postulados interdependentes de eficiência
econômica, equidade social e prudência ecológica, e um novo critério
de racionalidade social baseado na crítica ao efeito de externalização
de custos sócio-ambientais, exercido pelo modelo puramente econômico,
sobretudo quando este planejamento é participativo, com atores
sociais, agentes e reagentes, com uma visão contratual com o meio
ambiente.
O
planejamento participativo recupera a participação social da
sociedade, de modo que o cidadão contribua na elaboração das
ecoestrategias, desde a informação até a execução da ação
proposta, transformando a sociedade civil num terceiro sistema, à
medida que toma consciência de si mesma e começa a interpelar-se e
a conhecer-se.
Na
elaboração das ecoestratégias do desenvolvimento, o planejamento
trata de algumas dimensões de sustentabilidade, conforme as idéias
de Sachs no seu trabalho mais recente:
-
Sustentabilidade
Social – é a criação de um processo de desenvolvimento
civilizatório baseado no ser e que seja sustentado por
uma maior eqüidade na distribuição do ter, nos
direitos e nas condições das amplas massas da população, e
achatar a distância entre os padrões de vida dos mais ricos e
mais pobres.
-
Sustentabilidade
Econômica -
possibilita uma melhor alocação e gestão mais eficiente dos
recursos e por um fluxo regular do investimento público e
privado. Esta eficiência é macrossocial, reduzindo os custos
sociais e ambientais, bem diferente da lógica economicista.
-
Sustentabilidade
Ecológica – incrementa o aumento da capacidade de recursos
naturais, limitando os recursos não-renováveis ou
ambientalmente prejudiciais, reduzindo o volume de poluição,
autolimitando o consumo material pelas camadas sociais mais
privilegiadas, intensificando a pesquisa de tecnologias limpas e
definindo regras para uma adequada proteção ambiental.
-
Sustentabilidade
Espacial – é aquela voltada a uma configuração rural-urbana
mais equilibrada com ênfase nas seguintes questões: concentração
excessiva nas áreas urbanas, processos de colonização
descontrolados, promoção de projetos modernos de agricultura
regenerativa e agroflorestamento, industrialização
centralizada, criação de empregos rurais não agrícolas, e o
estabelecimento de uma rede de reservas naturais e de biosfera
para proteger a biodiversidade.
-
Sustentabilidade
Cultural – engloba as raízes endógenas dos modelos de
modernização e dos sistemas rurais integrados de produção,
respeitando a continuidade das tradições culturais, e até
mesmo a pluralidade das soluções particulares.
-
Sustentabilidade
Política – privilegia a negociação da diversidade de
interesses envolvidos em questões fundamentais desde o âmbito
local ao global.
Observa-se
que, paralelamente aos eventos já relatados no histórico da
problemática ambiental, surgiram nesse mesmo período instituições
internacionais de defesa, preservação ecológica e certificação
ecológica, tais como World Wildlife Foundation, Green Globe,
Forest Stewardship Council, Greenpeace, International Hotel in
Environmental Iniciative, Rainforest Alliance, International
Ecotourism Society, CST – Certificación para la Sostenibilidad
Turística, CSD – Centro de Estúdios de Ecoturismo para lo
Desarollo Sostenido, FUNBIO, ECOBRASIL, S.O.S. Mata Atlântica,
dentre outras. No Acordo de Mohonk, EUA, foi sugerido o estudo de um
processo unificado de certificação mundial.
É
importante destacar que, até então, todas essas organizações
trabalhavam e ainda hoje trabalham exclusivamente com metodologia e
parâmetros de qualidade, preservação e sustentabilidade
ambiental, sem se aprofundarem em estudos e pesquisas econômicos e
político-sociais, sempre resistindo à inclusão do Turismo na
ocupação dos espaços naturais e áreas protegidas, limitando-se
ao estudo de seus impactos nesses locais.
Destaca-se,
portanto, ao se utilizar agora o conceito de turismo sustentável,
cogitando-se até de sua certificação, a necessidade de maior
reflexão sobre a abrangência do que até então vinha se
entendendo por sustentabilidade ambiental ou eco-sustentabilidade,
econômica e social, o que já evidencia a complexidade e a
amplitude do universo a ser certificado.
Não
podemos, a essa altura, confundir Sustentabilidade Ecológica do
Turismo com Turismo Sustentável – a sustentabilidade ecológica
(“licenciamento ambiental”), (“qualidade ambiental”),
(“gestão ambiental”), (“desenvolvimento ambiental sustentável”)
é apenas um dos cenários da sustentabilidade do Turismo.
Gostaria
de lembrar que muitos pesquisadores e autores, dentre os quais me
incluo, vêm chamando a atenção para a controvérsia gerada pela
expressão “desenvolvimento sustentável” e que alguns vão
ainda ao extremo de designar desenvolvimento sustentado; o
que na realidade se depreende é que a literatura sobre o tema
aponta que inexiste consenso em torno da definição de
desenvolvimento sustentável, e que sua interpretação depende
muito da ótica de quem dela se utiliza. As ambigüidades do
conceito de sustentabilidade, hoje rótulo aplicado
indiscriminadamente, servem a muitos propósitos. Como definir o que
é uma sociedade sustentável e TURISMO SUSTENTÁVEL, como, por
exemplo, o Programa de Certificação em Turismo Sustentável,
iniciativa brasileira que está sendo implementada numa ampla
parceria com as empresas do setor de turismo, governo federal,
instituições organizadas da sociedade civil, municípios e
comunidades sob a liderança do Instituto de Hospitalidade por
intermédio do referido Programa (www.pcts.org.br)
e em conjunto com o Conselho Brasileiro de Turismo Sustentável CBTS
(www.cbts.org.br).
Partindo
dessa questão, devo lembrar que o desenvolvimento sustentável é
um conceito útil à medida que aponta para a necessidade de reflexões
ao estabelecimento de uma visão da estrutura da organização da
economia, da sociedade e de suas relações de troca com o meio
ambiente.
Pela
complexidade e abrangência desses pressupostos da sustentabilidade,
como se referir e assegurar uma certificação em turismo sustentável?
A certificação ambiental vem se revelando um importante
instrumento de política ambiental, auxiliando o consumidor na
escolha de produtos e serviços menos nocivos ao meio ambiente, e
servindo de instrumento de marketing para as empresas que
diferenciam seus produtos no mercado, atribuindo-lhes um plus
em sua qualidade. A ecocompatibilidade dos produtos passa a ser, então,
além do preço, uma referência na oferta de consumo.
As
práticas ambientais por uma empresa resultam de, pelo menos três
grupos de fatores: a regulamentação pública; as pressões
exercidas pela sociedade, principalmente por meio dos segmentos
organizados que atuam no meio ambiente; de defesa do consumidor e
dos direitos humanos e as pressões exercidas pelas relações entre
empresas e entre estas e consumidores.
A
crescente responsabilidade das empresas com os problemas ambientais,
as auditorias ambientais voluntárias, os eco-selos que endossam a
compatibilidade ecológica dos produtos, a expansão do ecobusiness,
podem induzir, por si só, uma qualidade ambiental.
É
possível falar sim em turismo sustentável, ao discutir suas normas
para os meios de hospedagem, quando estivermos nos referindo à
inserção de aspectos ambientais na política de gerenciamento
desses empreendimentos, isto é, gestão ambiental dos meios de
hospedagem. Então, a partir daí, poder-se-á pensar em certificação
e selo de qualidade, como o já praticado desde 1978 na Alemanha
quando surgiu o primeiro selo ecológico, o Anjo Azul, destinado a
rotular hotéis ambientalmente corretos.
As
políticas públicas de Turismo precisam ser repensadas em função
da própria dinâmica da atividade, da necessária reflexão e da
reformulação das estratégias de desenvolvimento sustentável, ora
voltada à regionalização, precisando superar as principais
dificuldades e obstáculos à ação integrada e intersetorial que
se impõe aos sistemas institucionais oficiais públicos de turismo.
A proposição de um sistema integrador ágil e instrumentalizado
devem ser capazes de conciliares diversidades territoriais e
rivalidades intermunicipais numa mesma região para obtenção de
maior equilíbrio e competitividade nesse espaço, e para assegurar
a correta aplicação dos investimentos públicos para a promoção
do desenvolvimento sustentável ambiental, econômico e político-social,
juntamente com a conseqüente e necessária orientação aos
empreendimentos da iniciativa privada.
É
fundamental destacar que estamos vivendo tempos de transformação,
isto é, passando de um modelo burocrático, prestador e concessionário
de serviços, para um modelo empreendedor, de co-responsabilição
social solidária, a que o Estado deve prestar decisiva colaboração
em conjunto com as empresas privadas e as organizações sociais.
Tal ação interativa certamente representará um esforço ponderável
na construção de um modelo de desenvolvimento integral, integrado
e sustentável, possibilitando superar paulatinamente a reprodução
da pobreza e da exclusão social provocadas pelo aumento das
desigualdades, da internacionalização da economia, da incontrolada
competitividade e do esgotamento das verbas públicas. Nesse
processo integrado, ou novo planejamento, a ênfase recai na observação
rigorosa de possíveis conseqüências das políticas alternativas
ambientais, econômicas e político-sociais para, somente então, após
avaliá-las em profundidade, optar pelas medidas recomendadas e os
processos adequados.
Uma
ordenação sustentável do território, que parece estar sendo
interpretada e focalizada apenas e tão-somente na dimensão
ambiental quando se refere ao turismo sustentável, conforme
entendo, é a que alia o ótimo idealizado para o homem com a
apropriada preservação da natureza por meio de relações harmônicas.
Sem
dúvida, isso exige solução a um reiterante desafio aos
planejadores do desenvolvimento sustentável e aos empresários que
investem sem estruturarem seus empreendimentos na essencialidade
desses conceitos, na viabilidade das projeções de mercado, pois
historicamente a seletividade na ocupação e na organização do
espaço, ou ordenação do território, foi e continua sendo
determinada predominantemente pelos interesses econômicos de curto
prazo, deixando de lado as questões de preservação ambiental e de
inclusão social.
Hoje
existe um consenso mundial de que o turismo tem de firmar-se em
quatro pilares:
-
a
ambiental principal fonte de matéria prima dos atrativos;
-
o
social, e aí se entende em sua abrangência, a comunidade
receptora, o patrimônio histórico-cultural e a interação com
os visitantes, ao mesmo tempo em que eleva o padrão de vida e a
auto-estima dessa comunidade;
-
o
econômico, com todos os interrelacionamentos e interdependências
da cadeia produtiva, permitindo sua articulação com a
identificação correta de suas unidades de produção e de negócios
para estabelecer uma rede de empresas a fim de atuar de forma
integrada, proativa e interativa, obtendo níveis de
comparatividade e produtividade para o alcance de
competitividade;
-
o
político, que se instrumentaliza mediante estratégias de gestão
que possibilitem coordenar as iniciativas locais na criação de
um entorno emulativo de produção, favorecendo o
desenvolvimento sustentável.
Enfim,
o Turismo Sustentável, portanto, em sua vasta e complexa abrangência,
envolve: compreensão dos impactos turísticos; distribuição justa
de custos e benefícios; geração de empregos locais diretos e
indiretos; fomento de negócios lucrativos; injeção de capital com
conseqüente diversificação da economia local; interação com
todos os setores e segmentos da sociedade; desenvolvimento estratégico
e logístico de modais de transporte; encorajamento ao uso produtivo
de terras tidas como marginais (turismo no espaço rural); subvenções
para os custos de conservação ambiental.
Consideradas
a importância, a amplitude e a envergadura desses pressupostos básicos
do Turismo Sustentável, comparecemos, levando nossa contribuição
e reflexões, à Conferência Regional das Américas promovida pela
OMT em conjunto com o Instituto de Hospitalidade, realizada na Costa
do Sauípe, BA, de 29 a 30 de setembro de 2003, e com o tema central
Certificação da Sustentabilidade das Atividades Turísticas. E
conjeturamos: talvez o único lugar das Américas que não deveria
sediar um Encontro sobre esse tema foi justamente o complexo turístico
eleito que não é, diga-se de passagem, um exemplo de
turismo sustentável.
Com
mais de vinte países do continente representados, o que assistimos,
mais uma vez, foi à predominância de ambientalistas ligados a órgãos
governamentais e instituições voltadas à preservação do meio
ambiente. Outros segmentos do setor de turismo pouco se fizeram
representar, como também se verificou a ausência da iniciativa
privada.
Participamos
dos grupos de trabalho que envolveu temas como sustentabilidade do
turismo e sua metodologia de certificação, análise da certificação
com ênfase na América Latina, principais questões e desafios da
certificação, sistemas de certificação de sustentabilidade
existentes nas Américas, papel do governo na certificação, a ação
das instituições internacionais, sistemas de certificação e
consumidores, a participação e a visão das empresas de turismo,
estratégias de sustentabilidade para micro e pequenas empresas, a
acreditação de certificadores, lançamento de rede
latino-americana de certificação de turismo sustentável,
indicadores de sustentabilidade e sua utilização em certificados e
eco-selos, E constatamos que, em todos eles, havia a coordenação e
moderação de duas organizações internacionais de preservação
ambiental: a Rainforest Alliance e a International Ecotourism
Society, designadas oficialmente pela OMT.
Aqui,
de novo, causou-nos surpresa o equivocado conceito de turismo
sustentável que a própria OMT acolhe, confundindo-o com
ecossustentabilidade do turismo. Se, ao menos, esse conceito se
referisse à “ecologia profunda”, o mais recente, amplo e
abrangente conceito de sustentabilidade apresentado e defendido por
vários estudiosos, ainda poderíamos entender! O que percebemos, em
todas as discussões, foi a ausência da sustentabilidade social,
econômica, cultural e política.
Também
estranhamos ao lado dos exemplos e modelos a nós apresentados, a
inexplicável não apresentação do modelo SEBRAE de
desenvolvimento sustentável de turismo, como o que está em
desenvolvimento na Serra Gaúcha, que, entendemos, é o mais próximo
do conceito de sustentabilidade do turismo.
Conseguimos
introduzir como recomendações uma maior aproximação com as
universidades e centros de pesquisa para aprofundar terminologia e
conceitos hoje equivocados e adotados indiscriminadamente, bem como
questionamento das atuais metodologias e critérios de certificação,
sugerindo um debate mais amplo com conceitos mundialmente uniformes
e aceitos, os quais deverão fundamentar os métodos e as técnicas
adotados para uma eventual certificação setorial do ecoturismo,
conforme já realizado e executado nos certificados de qualidade
ambiental e de desempenho empresarial nas séries ISO 9000 e ISO
14000, assim como a certificação de destino no caso do turismo
sustentável.
Nossa
proposta insistiu na certificação de destino, enquanto a maioria
dos modelos recomenda a certificação de empresas.
Houve
muitos debates e verificamos resistências em razão da questão: a
quem certificar? A resposta a esta pergunta estaria no âmago do
modelo de gestão que, sequer, foi debatido, lembrando que a Espanha
tem no modelo de Barcelona um dos mais aperfeiçoados paradigmas de
desenvolvimento sustentável do turismo; igualmente, o México,
presente no evento, nem se lembrou de Cancun, o caso mais famoso de
sustentabilidade do turismo.
Não
nos causam mais estranheza, após todas estas observações, ponderações
e registros, que Walter Leu tenha escrito que “Sustentabilidade
tornou-se, para mim, uma provocação negativa, o rótulo para uma
cultura de desonestidade, a representação máxima da adulação.
Todos os discursos, todos os artigos, todos os pronunciamentos de
políticos ou de profissionais de turismo repetem essa palavra de
forma incansável – embora, infelizmente, em desacordo com o seu
significado e conteúdo reais”, conforme citado in A.
Lockwood e S. Medlik, Turismo e Hospitalidade no Século XXI, p.279,
editora Manole, Barueri – SP, 2003.
De
pouco vale o conhecimento técnico e científico sem o compromisso
do conhecimento ético. Despertar para a ética é acudir a todas as
demais necessidades do homem no espaço e suas interrelações com o
meio ambiente, mesmo porque as melhorias necessárias na ética do
turismo produzirão inevitavelmente uma acirrada competição de idéias
neste século. O conceito será muito mais importante do que o próprio
produto, imagina muitos pesquisadores, pensadores e autores de
turismo.
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