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Por ANGELO PRIORI
Professor do Departamento de História da UEM
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A
Doutrina de Segurança Nacional e o Manto dos Atos Institucionais
durante a Ditadura Militar Brasileira
No
Brasil, o fim das liberdades democráticas, a repressão e o terror
como política de Estado, foram formuladas através de uma bem
arquitetada estrutura legislativa, que dava sustentação ao regime
militar. Devemos enfatizar que a ditadura militar não foi resultado
do acaso, de um acidente. Pelo contrário, ela foi sendo estruturada
conforme a democracia e a participação política da população
iam se ampliando. Não podemos negar que no início dos anos 60
estava sendo configurada uma nova forma de ação, através da
organização popular, que questionava o arbítrio interno e a
dependência externa e exigia mudanças nas estruturas econômicas e
sociais, visando uma maior inclusão social da população pobre e
trabalhadora.
O
grupo militar que tomou o poder em 1964 vinha de uma tradição
militar mais antiga, que remonta à participação do Brasil na II
Guerra. A participação do Brasil ao lado dos países aliados,
acabou sedimentando uma estreita vinculação dos oficiais
norte-americanos e militares brasileiros, como os generais Humberto
de Castelo Branco e Golbery Couto e Silva.
Terminada
a guerra, toda uma geração de militares brasileiros passaram a
freqüentar cursos militares norte-americanos. Quando esses oficiais
retornavam dos EUA, já estavam profundamente influenciados por uma
concepção de “defesa nacional”. Tanto que alguns anos mais
tarde vão criar a Escola Superior de Guerra (ESG), vinculada ao
Estado Maior das Forças Armadas. Essa escola foi estruturada
conforme sua similar norte-americana National
War College.
Nos
dez anos que vão de 1954 a 1964, a ESG desenvolveu uma teoria de
direita para intervenção no processo político nacional. A partir
de 1964, a ESG funcionaria também como formadora de quadros para
ocupar funções superiores nos sucessivos governos (Brasil: Nunca
Mais, 1985, p. 70).
Foi
dentro da ESG que se formulou os princípios da Doutrina de Segurança
Nacional e alguns dos seus subprodutos, como por exemplo, o Serviço
Nacional de Informações (SNI). Essa doutrina, que vai virar lei em
1968, com a publicação do decreto-lei no. 314/68, tinha como
objetivo principal identificar e eliminar os “inimigos
internos”, ou seja, todos aqueles que questionavam e criticavam o
regime estabelecido. E é bom que se diga que “inimigo interno”
era antes de tudo, comunista.
Essa
nova estrutura de poder e de controle social se materializa com a
publicação do Ato Institucional No. 1, que subvertia a ordem jurídica
até então estabelecida. No preâmbulo do AI-1, instituído em 09
de abril de 1964, os militares já enfatizavam essa nova realidade:
O
ato institucional que é hoje editado se destina a assegurar ao novo
governo a ser instituído os meios indispensáveis à ordem de
reconstrução econômica, financeira, política e moral do Brasil,
de maneira a poder enfrentar de modo direto e imediato os graves e
urgentes problemas de que dependem a restauração da ordem interna
e o prestígio internacional de nossa pátria.
Com
esse ato os militares não só ditavam novas regras constitucionais,
como impunha profundas remodelações no sistema de segurança do
Estado. Através do AI-1, foi institucionalizado o sistema de eleição
indireta para Presidente da República, bem como dado poderes ao
presidente para ditar nova constituição, fechar o congresso,
decretar estado de sítio, impor investigação sumária aos funcionários
públicos contratados ou eleitos, abrir inquéritos e processos para
apurar responsabilidades pela prática de crime contra o Estado ou
contra a ordem política e social, suspender direitos políticos de
cidadãos pelo prazo de dez anos e cassar mandatos legislativos de
deputados federais, estaduais ou mesmo de vereadores.
Durante
a ditadura militar foram editados 17 atos institucionais. Mas entre
eles, o mais polêmico e violento foi o de Número 5. O AI-5,
editado em 13 de dezembro de 1968, reedita os princípios do AI-1,
suspende o princípio do habeas
corpus e institui de forma clara e objetiva a tortura e a violência
física contra os opositores do regime.
Na
verdade o AI-5 simbolizou um forte ciclo de repressão com amplos
expurgos em órgãos políticos representativos, universidades,
redes de informação e no aparato burocrático do Estado,
acompanhados de manobras militares em larga escala, com
indiscriminado emprego da violência contra todas as classes.
Em
tal contexto político, além de tudo, o Congresso Nacional teve
suas atividades suspensas por quase um ano, fazendo companhia às
assembléias estaduais e municipais que também foram fechadas. Com
as bases do Congresso enfraquecidas, a facilidade encontrada para
efetivar a publicação de atos institucionais e de decretos-leis
foi grande. Os decretos-lei, em sua maioria, iniciaram um processo
de regulamentação da economia brasileira, procurando, em larga
medida, torná-la atrativa para os investidores estrangeiros através
da concessão de incentivos fiscais que facilitassem o
desenvolvimento econômico da nação.
O
manto dos atos institucionais e a autoridade absoluta dos militares
serviriam como proteção e salvaguarda do trabalho das forças
repressivas, fossem quais fossem seus métodos de ação. Só para
ter uma idéia, durante o regime militar foram criados vários órgãos
de repressão, como o SNI, os DOI-CODIs, o CIEX, o CENIMAR, a CISA,
além do fortalecimento dos DOPS em todos os Estados. Foram criados
ainda os Inquéritos Policiais Militares (IPMs), cujo objetivo era
processar e criminalizar militantes e políticos que lutavam contra
o regime militar. Somente o projeto Brasil: Nunca Mais (BNM)
conseguiu reunir cópias de 717 IPMs, onde foram processados mais de
20 mil pessoas. Muitos dos processos não vieram à tona e estão
ainda por ser verificados.
O
aparato repressivo estatal se constituía de elementos que agiam de
forma integrada: uma rede eficiente de informação, representada
essencialmente pelo SNI (Serviço Nacional de Informação) criado
pelo General Golbery do Couto e Silva e em funcionamento desde 1964,
responsabilizando-se por direcionar todas as informações recebidas
para o Poder Executivo; organizações que encabeçavam as ações
repressivas em nível local, como a DM (Divisão Municipal de Polícia),
coordenada pela DOPS que, por sua vez, se encontrava sob a jurisdição
da SESP (Secretaria Estadual de Segurança Pública); e por instâncias
das Forças Armadas como o CIEX (Centro de Informação do Exército),
CENIMAR (Centro de Informação da Marinha) e CISA (Centro de
Informação da Aeronáutica). Estes setores contavam com a
liberdade e autonomia para realizarem suas atividades. Em São
Paulo, no ano de 1969, criou-se a Operação Bandeirantes (OBAN) que
obtinha recursos financeiros do empresariado.
Não
era formalmente vinculada ao II Exército, mas era composta com
efetivos do Exército, Marinha, Aeronáutica, Polícia Política
Estadual, Departamento de Polícia Federal, Polícia Civil, Força Pública
e Guarda Civil (Brasil: Nunca Mais, 1985, p. 73).
Servindo
como molde e, sobretudo como um teste que, segundo os militares deu
certo na luta contra a subversão, a OBAN gerou as condições,
agora dentro de parâmetros formais, para a implantação, em escala
nacional, do Departamento de Operações Internas - Centro de Operações
de Defesa Interna (DOI-CODI). Surgiu em janeiro de 1970 e tinha o
poder de usufruir, na área em que estivesse instalado, dos efetivos
das Forças Armadas ou das polícias estaduais ou federal. No âmbito
estadual, a Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS), também
atuava em todos os níveis de repressão: investigando, prendendo,
interrogando, torturando e matando.
Uma
das reflexões possíveis que tange a especificidade do governo
militar brasileiro, refere-se a forma como o regime autoritário foi
arquitetado no país. O regime foi articulado por uma notável ambigüidade,
pois mesmo no exercício de um regime de exceção e essencialmente
enfatizado por uma indelével "lógica da suspeição", os
dirigentes procuravam legitimá-lo e caracterizá-lo como sendo um
sistema de governo democrático. Do primeiro general-presidente
(Humberto de Alencar Castello Branco) até o último (João Baptista
de Oliveira Figueiredo) foi salientado, principalmente, nos
discursos de posse dirigidos ao povo brasileiro, a adoção de ações
e comportamentos em nome da defesa da democracia no país.
Por
outro lado, constatou-se, ao longo de vinte e um anos de permanência
dos militares no poder, que a existência de uma administração
democrática foi apenas fictícia, haja vista o contundente papel
repressor desempenhado pelos órgãos policiais e jurídicos a fim
de suplantar possíveis distúrbios sociais que afetassem o
andamento das atividades do Poder Executivo.
O
governo de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) representou o período
de maior repressão, de arbitrariedade e de prepotência de todo o
ciclo militar. Por outro lado, o "milagre econômico", que
se processou entre os anos de 1968 e 1973, estigmatizado,
principalmente pelos grandiosos projetos públicos e pelo acelerado
crescimento econômico, diminuíram o impacto causado pelas medidas
de segurança utilizadas pelo governo. Além do que, pela ação de
um marketing eficiente e uma censura forte, criou-se um clima de
ufanismo em toda a nação, contribuindo, em grande medida, para o
fortalecimento da imagem do presidente que angariou boa margem de
prestígio, principalmente nas camadas populares.
Foi
no governo de Médici e, com menor ênfase no governo do General
Ernesto Geisel (1974-1979), que os grupos identificados com as
guerrilhas urbana e rural foram sendo progressivamente eliminados. A
repressão desencadeada na época atingiu centenas, talvez milhares
de pessoas envolvidas com a luta armada.
No
Brasil os números da ditadura não são exatos. Depois de vinte
anos do fim do governo militar, os acessos aos arquivos secretos
ainda são proibidos. Os organismos de segurança, como o SNI ainda
mantém seus arquivos fechados. Os únicos disponíveis para
pesquisa, somente em alguns Estados brasileiros, são os arquivos do
DOPS e os arquivos do projeto Brasil
Nunca Mais (BNM).
Aliás,
essa é uma dívida que o Estado brasileiro tem com os seus cidadãos.
Abrir e tornar público todos os arquivos da repressão da ditadura
militar. A sociedade brasileira estabeleceu uma memória densamente
acrítica com relação à ditadura: exemplo disso foi a anistia
unilateral, tanto para os presos e torturados como para os
torturadores (mas isso é um tema vencido no Brasil). O que mais
deixa indignado a comunidade de pesquisadores e os familiares das vítimas
é que tanto o governo FHC, como o atual governo Lula não
resolveram essa questão dos arquivos. Pelo contrário, FHC fez
publicar e Lula confirmar um decreto colocando mais dificuldades de
acesso aos documentos chamados sigilosos e confidenciais do período
em tela.
Para
finalizar, é importante frisar que a memória desse período, de
extrema repressão, onde as Forças Armadas tiveram a sua
auto-imagem de defensora da pátria abalada, é ainda incômoda e
imprecisa. É incômoda porque as novas descobertas sobre o período
(depoimentos de ex-militares, trabalhos das comissões de direitos
humanos, das comissões de familiares, dos grupos Tortura Nunca
Mais, além de descobertas de arquivos, como o “arquivo do
terror”, no Paraguai) desvenda com mais nitidez o terror que se
abateu sobre os dissidentes do regime.
Isso
faz com que, tanto a direita, como as classes dominantes, procurem
se imiscuir dessa herança, através de discursos sobre a
excepcionalidade do período e dos atos praticados. Elas estão imbuídas
de apagar o passado e promover o esquecimento como a melhor forma da
recuperação da harmonia nacional. Apagar da memória os crimes
cometidos pelas ditaduras é apagar da memória as lutas
desenvolvidas contra elas. Apagar da memória esse passado traumático,
indesejado, é querer impedir que a sociedade conheça o arbítrio e
a violência política instaurada pelas ditaduras. Em contrapartida,
os grupos de esquerda, os familiares e os ativistas de direitos
humanos tem desenvolvido uma importante ação no sentido de
construir uma memória que se contraponha à memória oficial.
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