Os
desafios da (des) ordem mundial
A crise da economia do
mercado
O
sistema econômico mundial está em crise, por causa da
dependência de países ricos e pobres da economia
norte-americana que dá sinais inconfundíveis de estar num
beco sem saída. Nos últimos anos, os EUA se transformaram
no maior devedor do mundo, com um déficit crescente de sua
balança comercial e, mais recentemente, também em sua
balança de contas correntes.
O
que mantém a confiança dos investidores privados e de
governos (Japão, Taiwan, Coréia do Sul) para que continuem
a financiar os gastos militares e de consumo dos
norte-americanos? Apesar de uma taxa de juros básica de 1%,
a mais baixa em meio século, as remessas financeiras do
mundo continuam a fluir para os EUA, permitindo-lhes a
incorrer em déficit nos balanços comercial e de contas
correntes. Os países do Extremo Oriente resistem às pressões
de valorizar as suas moedas, para que possam manter o
elevado nível de exportações para a União Européia e os
EUA.
A
situação evoca o espectro de uma nova onda protecionista,
dirigida particularmente contra a China que também se
recusa a valorizar sua moeda, o yuan, para não interromper
o ciclo de crescimento impressionante, a razão de 7 – 8%
ao ano, de seu PIB. O Japão, a segunda potência econômica
mundial, com um PIB de US$ 4,5 trilhões, vive há mais de
dez anos numa recessão com sinais de deflação, o que
obriga esse país a manter o valor do yen baixo para
sustentar suas exportações e não agravar a crise interna
marcada por uma elevação significativa do nível de
desemprego.
A
situação lembra a crise dos anos trinta, com desemprego em
massa em conseqüência da retração dos negócios, o
abandono do padrão ouro e o enfraquecimento das moedas
nacionais, criando-se um clima generalizado de protecionismo
comercial, e sentimentos de nacionalismo xenófobo, cujo
desfecho foi a proliferação de regimes autoritários e
totalitários.
Existe,
contudo, uma diferença significativa com relação à situação
atual, constantemente agravada pela mobilidade praticamente
ilimitada do capital financeiro internacional, capaz de
derrubar moedas e economias nacionais em operações
especulativas realizadas via redes eletrônicas. Nos países
emergentes como, por exemplo, o Brasil, onde o déficit de
contas internas e externas leva os banqueiros e instituições
financeiras internacionais a exigir altas taxas de juros que
consomem parcelas crescentes do PIB, os investidores
privados e as organizações multilaterais (FMI, BM, BID)
recusam se a fornecer recursos para investimentos, exigindo
que se cortem os gastos sociais, a fim de garantir a
remuneração do capital.
Os
Estados Unidos conseguem conviver com o duplo déficit, da
balança comercial e das contas correntes, porque o dólar,
além de moeda nacional, é também moeda de reserva
internacional. Em conseqüência, as poupanças do mundo
inteiro fluem para os EUA, buscando refúgio contra as
incertezas que assolam a maioria das economias. Apesar de um
déficit em contas correntes de quase 6% do PIB, os EUA
pagam juros relativamente baixos e recebem quantias
superiores como resultado de seus investimentos nos países
emergentes, devido a taxas de juros elevados e a sobretaxa
de risco-país. Os bancos centrais que costumam adquirir bonds
e certificados do Tesouro norte-americano, reduzem suas
compras diante a queda do valor do dólar e procuram
alternativas, inexistentes por causa da fraqueza do yen e do
euro. Se, em conseqüência de movimentos especulativos do
capital financeiro internacional, o dólar enfraquecer mais
ainda, enquanto as importações e o déficit dos EUA
continuem a crescer, é bem provável seu recurso a
barreiras protecionistas, proclamando-se a necessidade de
comprar preferencialmente produtos “made in USA”, para
estancar a destruição de empregos norte-americanos.
Em
que pesem as pressões dos EUA sobre o Japão e a União
Européia para que deixem flutuar suas moedas a fim de
facilitar as exportações norte-americanas, é questionável
o alcance de uma eventual intervenção cambial nesses países
que têm seus próprios problemas que impedem sua transformação
em motores da economia mundial. Afinal, qual seria a eficácia
de uma alteração no valor cambial pelos governos, quando
diariamente circulam livremente, pelo espaço virtual, mais
de um trilhão de dólares?
A
política dos bancos centrais dos países asiáticos (China,
Taiwan, Japão, Coréia do Sul) é de adquirir dólares ou
papéis do Tesouro norte-americano para engrossar suas
reservas cambiais e manter relativamente baixo o valor de
suas moedas, permitindo manter elevado o nível de exportações,
o que, ao mesmo tempo, aumenta o déficit dos EUA. Parece até
o renascimento de práticas mercantilistas dos séculos XVI
e XVII, quando se procurou exportar para acumular reservas
em metais preciosos. Os países do Extremo Oriente,
respondem por 25% do comércio mundial e todos os países têm
medo da China que, mantendo fixo o valor de sua moeda,
consegue incrementar suas exportações. Ao mesmo tempo sua
economia continua a crescer a taxas maiores que as do resto
do mundo (7–8% ao ano), e constitui o destino privilegiado
da maior parcela de investimentos estrangeiros (cerca de
50%) mundiais. O governo chinês consegue manter um controle
severo sobre o movimento de capitais, tanto das empresas
quanto de pessoas físicas, que não podem depositar ou
movimentar recursos no exterior, mas devem entregar os
mesmos ao sistema bancário nacional.
O
protecionismo oficializado e generalizado seria o golpe de
misericórdia na OMC, enfraquecida pelo fracasso das conferências
de Cancun e de Doha e pelo estancamento das negociações
sobre a ALCA.Por outro lado, a polarização surgida com a
criação do G-20+ e, também, do G-70 sob a liderança da
Índia e da Malásia, prenuncia o acirramento das contradições
em futuras negociações internacionais. As posições são
aparentemente irredutíveis: os países emergentes exigem a
abertura dos mercados para seus produtos agrícolas e o fim
dos subsídios diretos e indiretos praticados pela UE e os
EUA, enquanto estes pressionam para a inclusão na futura
agenda da Rodada Doha, da pauta de Cingapura que se refere
especialmente aos investimentos, compras governamentais,
propriedade intelectual e políticas de concorrência, todos
de interesse do grande capital transnacional. Este, em sua
forma mais pura de capital especulativo, flui leve e solto,
sem controles e realiza lucros fabulosos, enquanto os
trabalhadores, em busca de empregos e oportunidades de
construir sua existência em bases mais sólidas, são
barrados nas fronteiras.
O
dilema para os governos dos países orientais é grave:
mexer com cambio levaria ao aumento do desemprego, eventuais
pressões deflacionárias e uma crise do sistema bancário
nacional. Mas, a imobilidade da política cambial leva
inevitavelmente a pressões protecionistas nos EUA,
particularmente neste período que precede às eleições
presidenciais de 2004. O agravamento do protecionismo
norte-americano terá efeitos desastrosos sobre o comércio
mundial. Mas, só nos últimos 30 meses, a economia
norte-americana perdeu 2,7 milhões de empregos e, a cada
dia, ressoam mais fortes os gritos para sustar a
“desindustrialização” do país.
Tal
como nos anos de 1980, quando o “bode expiatório” foi o
Japão, assim hoje, a ameaça vem da China cuja economia
continua a crescer e avançar rapidamente para uma posição
hegemônica no cenário mundial, baseada no seu imenso
território, seus recursos naturais e humanos, e uma
infraestrutura de energia, comunicações e transportes em rápida
expansão, acompanhada por realizações marcantes nas áreas
de educação, ciência e tecnologia.Enquanto o resto do
mundo, inclusive os países ricos, afundou nas últimas duas
décadas no desemprego, na estagnação econômica, na violência
e exclusão social, a China conseguiu resgatar da pobreza
entre 350 – 400 milhões de seus habitantes.
Tarifas
de retaliação, tais como autorizadas pelo Acordo
Multifibras nos EUA e os requisitos regulatórios na UE,
para proteger seus consumidores e o meio ambiente, contra
OGMs e produtos químicos tóxicos, complicam ainda mais os
cenários das relações comerciais e as negociações em
andamento. O colapso da Rodada Doha na reunião de Cancun e
a formação do bloco dos 20+ países emergentes acenam com
problemas e dificuldades crescentes na organização do comércio
internacional tal como preconizada pela OMC.
Em
uma estratégia defensiva, os EUA partiram para acordos
bilaterais com o Chile, Cingapura, Marrocos, Austrália,
etc, celebrados para exercer pressões e para acelerar as
negociações da ALCA que deveria garantir um mercado cativo
para os produtos e serviços norte-americanos, em todo o
hemisfério das Américas.
Além
das críticas formuladas nos próprios EUA, afirmando que os
acordos bilaterais não substituem o sistema de comércio
global e minam a OMC, crescem também as opiniões que
exigem a saída dos EUA da OMC. O impacto dessa medida,
combinado com o procedimento unilateral na conduta da guerra
e reconstrução do Iraque significaria o golpe de misericórdia,
também, na Organização das Nações Unidas. Repetiria a
política norte-americana de isolamento do resto do mundo,
tal como fizeram após a Primeira Guerra Mundial, com a Liga
das Nações.
Os
desequilíbrios gerados na economia mundial aumentam os
perigos de conflitos armados e repercutem na elevação dos
gastos com armamentos. Estes são estimados em US$ 850 bilhões
em 2003, dos quais 50% nos Estados Unidos cujo governo
promete “modernizar” suas forças armadas.
Inevitavelmente, outros países seguirão neste caminho, com
conseqüências desastrosas para os esforços de transferir
recursos para o desenvolvimento.
Assim,
após o fim da Guerra Fria, ressurgem conflitos regionais,
étnicos ou religiosos, causando destruições e o
desenraizamento de dezenas de milhões de pessoas, somadas
às populações do antigamente chamado Terceiro Mundo, que
desesperadas das promessas não cumpridas do
desenvolvimento, marginalizadas dos bens materiais da
civilização industrial e privadas de acesso a informações
e oportunidades de emprego, acabam engrossando as fileiras
do fundamentalismo religioso e dos fanáticos terroristas.
Do descalabro político
às aventuras militares
A
guerra do Iraque foi um divisor de águas na história
mundial, por ter liquidado com a função das Nações
Unidas como árbitro dos conflitos internacionais. Sem uma
instância superior para mediar e dirimir conflitos, a ordem
mundial torna-se um espaço aberto para a imposição de políticas
que atendam aos interesses do grande capital e, sobretudo,
da potência hegemônica apoiada no maior arsenal bélico na
história da humanidade.
Baseados nesta força militar que substitui a
legitimidade das ações políticas à luz do Direito
Internacional, o ataque dos EUA ao Iraque configura um ato
de transgressão das normas preconizadas pelas Nações
Unidas e se transforma em fator de instabilidade e insegurança
do sistema global. Quais seriam os objetivos da ação bélica
dos Estados Unidos? Seria a alegada democratização do
Iraque ou o controle de seus poços de petróleo? Seria a
eliminação das armas de destruição em massa -
supostamente possuídas por Saddam Hussein e sua insinuada,
mas nunca comprovada, ligação com a Al Quaeda - ou a
demonstração brutal da força militar da potência hegemônica?
A decisão unilateral, apesar da resistência das Nações
Unidas e de seu Conselho de Segurança, longe de confirmar a
superioridade dos EUA, revela ao observador e analista a
aguda fraqueza da economia norte-americana, carente de
capitais e de fontes de energia próprios, além de seu
endividamento crescente, comentado no capítulo anterior.
Apesar
do poderoso exército e da superioridade de sua força aérea
e marinha, os Estados Unidos não poderão manter suas posições
estratégicas no mundo, e nem no Oriente Médio por um período
prolongado e, muito menos ainda, ocupar outros países que
se oponham a sua liderança. A postura norte-americana como
paladino da liberdade e democracia foi fragilizada
moralmente, no cenário interno (a eleição duvidosa de
Bush; a legislação “anti-terror” após setembro de
2001) e externo (o desprezo pelo Protocolo de Kyoto; do
Tratado Anti-Minas Terrestres; do Tribunal Penal
Internacional), sem falar do regime infernal imposto aos
prisioneiros retidos na base de Guantámano. Sem causa
virtuosa e sem justiça e legalidade, o exercício da força
bruta fere os princípios ainda tênues do Direito
Internacional e acena com perspectivas sombrias para a
humanidade.
Os
procedimentos da política norte-americana, às margens da
lei e da legalidade internacionais, serão imitados pelos
interessados na extensão do domínio autoritário para
outras arenas de embate no mundo. Por isso, cumpre defender
e consolidar as regras, universalmente aceitas, para regular
as relações internacionais, a favor do diálogo e
radicalmente contra o uso ilegal e injusto da força.
A
História ensina sobre o fracasso e a queda dos impérios
que tentaram estruturar sua hegemonia sobre a força das
armas. A França sucumbiu com suas aspirações imperiais de
curta duração, após a derrota de seus exércitos nas
guerras napoleônicas, em 1814. O império britânico
estendeu sua dominação por mais de um século, perdendo
sua hegemonia na Primeira Guerra Mundial. O Reich de mil
anos proclamado pelos nazistas teve existência efêmera de
12 anos, mas deixou em seu rastro dezenas de milhões de
mortos, mutilados e refugiados. Outro caso, digno de ser
analisado, é o do império soviético, de 1917 até o início
da década de 1990. Construído sob a bandeira de um
paradigma alternativo de organização social – o
“socialismo real” – este degenerou em um regime burocrático,
policial e opressor, solapado por contradições
internas e externas.
A ascensão e expansão do império norte-americano,
após as vitórias nas duas guerras mundiais e a contenção
das tropas comunistas na península da Coréia, sofreu seu
primeiro abalo na derrota e posterior retirada da guerra do
Vietnam. Tanto a resistência ferrenha dos camponeses descalços
dos exércitos vietnamitas quanto a resistência interna da
população norte-americana à continuação da guerra,
assinalaram a primeira grande derrota da potência hegemônica,
no século XX. A invasão do Afeganistão e a guerra contra
o Iraque de Saddam Hussein parecem augurar os limites de ações
bélicas em larga escala.
O
Iraque, após a guerra relâmpago, foi concebido como uma
nova base para as operações econômicas e militares dos
EUA no Oriente Médio e na região do Golfo. Mas, a
anunciada retirada das tropas norte-americanas estacionadas
na Arábia Saudita e as dificuldades de ocupação e
reconstrução do Iraque face à resistência armada de
guerrilhas e dos protestos diários da população
“libertada” inviabilizam a exploração em grande escala
das riquezas petrolíferas tão cobiçadas, do país.
Acrescenta-se o custo imenso da manutenção das tropas e as
perdas diárias em vidas humanas para evocar o dilema e
apontar os “pés de argila” do colosso norte-americano.
Os
objetivos estratégicos e globais dos EUA, nesta nova fase
da política internacional, podem ser resumidos da seguinte
maneira:
·
Recuperar a dinâmica de crescimento de sua economia;
·
Reafirmar e consolidar, se necessário, por ações
militares, sua hegemonia militar;
·
Reforçar e radicalizar as pressões visando a integração,
particularmente no hemisfério ocidental, pela entrada em
vigor da ALCA;
·
Vencer as resistências internas, criminalizando as oposições
sob o rótulo de “terroristas”.
A
administração Bush, inicialmente voltada para o
isolacionismo e o fechamento sobre si mesmo, cujo projeto símbolo
seria o escudo interbalístico de proteção dos EUA contra
os ataques por foguetes intercontinentais (a famigerada
“guerra nas estrelas” de Ronald Reagan) passou a
preconizar e a executar uma política imperial, baseada numa
nova doutrina que preconiza como objetivos prioritários,
ataques preventivos para eliminar os focos de terrorismo,
invadindo e ameaçando países que supostamente lhes dessem
cobertura e possuíssem armas de destruição em massa, químicas
e biológicas. Ao mesmo tempo em que aumentaram brutalmente
suas encomendas à indústria bélica, os dirigentes
norte-americanos proclamaram sua “guerra sem fim pela
liberdade” contra os países do “eixo do mal”. A nova
doutrina serviu de elemento galvanizador das forças mais
conservadoras que passaram a ocupar posições chave no
governo norte-americano, com profundos reflexos na política
interna e externa.
Internamente,
ocorreu um nítido retrocesso nos direitos civis, pelos
poderes praticamente ilimitados concedidos aos órgãos de
segurança, o que afeta sobretudo os milhões de imigrantes,
tanto os legais quanto os ilegais.Na política externa,
parece que voltamos para um século atrás, para ao big
stick do então presidente dos EUA, Theodore Roosevelt.
A superioridade militar absoluta, reforçada pela hegemonia
econômica e financeira, permite aos Estados Unidos travar
duas guerras simultaneamente, em locais distantes,
arregimentando em seu apoio tropas dos países aliados da
OTAN – Organização do Tratado do Atlântico do Norte.
Ademais, dispõem de forças tarefas “especiais” capazes
de uma intervenção militar quase imediata, em qualquer
parte do planeta.
Um
dos primeiros atos da nova política externa da administração
Bush, foi o aumento em 75% dos subsídios domésticos,
consubstanciado na Lei Agrícola, o que atingiu em cheio as
exportações agrícolas dos países emergentes, inclusive o
Brasil.
Entretanto,
argumentaremos que uma nova constelação de forças políticas
nacionais e internacionais está se articulando, em que
caberiam todos os membros da sociedade civil, unidos em
organizações de bairros, comunitárias, profissionais,
sindicais, religiosas e políticas, mobilizando-se para
construir a motivação, em defesa dos Direitos Humanos e da
justiça social, com poder capaz de se opor à influência
do “complexo militar-industrial” que ameaça a
humanidade.
Em busca de alternativas
A
crise analisada acima não se restringe à potência hegemônica
e aos países dominantes na economia mundial. Seus efeitos
desestruturantes são perceptíveis sobretudo nos países
periféricos e “emergentes”. Se, nos países
desenvolvidos predominam os problemas da “desindustrialização”
e do desemprego crônico, os países pobres afundam na miséria
e desigualdade que constituem, paradoxalmente, o maior obstáculo
a um processo de desenvolvimento sustentado. Mesmo durante
os curtos e intermitentes períodos de crescimento da
economia, a tendência à polarização e exclusão de
amplos contingentes da população parece uma dinâmica
inevitável. A natureza concentradora do capitalismo
oligopolista reduz e elimina as possibilidades de negócios
para pequenas empresas e, por extensão, ameaça a sobrevivência
da classe dos trabalhadores, premida entre a tendência ao
desemprego tecnológico e estrutural, e as políticas
neoliberais de reengenharia, flexibilização e terceirização
das relações de emprego formal.
O
capitalismo esgotou o potencial de crescimento de sua base
econômica pelos efeitos de assimetria social e política,
produto de um processo de acumulação selvagem e sem
distribuição eqüitativa do produto dos esforços
coletivos de geração de riquezas.
Na
décima conferência da UNCTAD – a Conferência das Nações
Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento – foram
apresentados, entre outros, dois estudos dos renomados
pesquisadores Francês Stewart, de Oxford, e Anthony
Atkinson, da Columbia University, que fornecem evidências
empíricas sobre as vantagens indiscutíveis de uma
distribuição mais eqüitativa da renda. Segundo esses
autores, a maior igualdade facilita o acesso aos fatores de
produção o que, por sua vez, resulta em elevação da
produtividade e da renda, redução da pobreza e melhores níveis
de educação e saúde. As formas cooperativas e solidárias
da organização da produção social geram mais empregos,
estimulam a demanda e oferta de bens e serviços, induzindo
um ciclo virtuoso de desenvolvimento.
Mas,
nos países pobres – a maioria das nações membros das
ONU – a acumulação “perversa” se realiza através da
apropriação da maior parcela do produto nacional, pelas
classes de proprietários e da tecnocracia. O próprio Banco
Mundial, em seu relatório recém publicado
(“Desigualdades na América Latina: Rompendo com a História”,
em Folha de S. Paulo, 8/10/03, pág. B 10) aponta para as
disparidades na distribuição de renda e de oportunidades
na América Latina, praticamente inalterada ao longo das últimas
décadas. Segundo esse relatório, os 10% mais ricos da região
detêm hoje 48% da renda total, enquanto na outra ponta, os
10% mais pobres recebem apenas 1,6% do produto nacional.
Conforme destaca o próprio Banco Mundial, a diferença de
padrões entre ricos e pobres constitui um obstáculo
praticamente intransponível no caminho para o
desenvolvimento sustentável.
As elites, detentoras do capital, não costumam
investir seus lucros no país, e seguem os padrões do
capital financeiro internacional que procura os paraísos
fiscais onde encontra oportunidades de aplicação de seus
recursos, com relativa segurança do retorno, sem cair nas
malhas da Receita Federal. Por isso, também a exortação
aos empresários para que elevem sua produção via
investimentos em P&D (pesquisa e desenvolvimento) tem
encontrado pouca receptividade no meio empresarial. Mesmo
quando acatada, os eventuais ganhos não resultam
necessariamente em benefício do crescimento da economia.
Auferindo maiores lucros em conseqüência de inovações
tecnológicas e aumentos da produtividade, a maioria das
empresas não costuma aumentar proporcionalmente os ganhos
ou a remuneração de sua força de trabalho. Tampouco,
estará disposta a baixar os preços, contribuindo assim
para a elevação do poder aquisitivo da população. A
terceira alternativa, no prisma da racionalidade econômica,
seria canalizar os excedentes para novos investimentos que
iriam gerar mais empregos. Entretanto, a opção mais freqüente
é pelo entesouramento, sob forma de depósitos em moeda
estrangeira (em geral, o dólar); a aquisição de imóveis,
jóias e bens de consumo de ostentação e luxo.
Indubitavelmente, tem havido crescimento da produtividade
com correspondente aumento da produção. Mas, este aumento
não veio acompanhado por elevação do nível de emprego e
uma melhor distribuição da renda.
A
revista The Economist (27/9/03) informa que o volume
de produção dos EUA cresceu mais de 100% no período de
1970 a 2002. No
período de prosperidade, de 1992 a 2002, a produção
medida pelo PIB cresceu em mais de 50%. Entretanto, o volume
da força de trabalho empregada não parou de cair. Na década
de 1940, a força de trabalho empregada na indústria
correspondia a 40% do total. Em 2002, sua participação foi
reduzida a 12%! Onde foram parar os lucros? Tanto nos EUA
quanto no Japão, a estratégia das grandes empresas e dos
conglomerados transnacionais é investir nos mercados de
maior poder aquisitivo e de dinamismo de expansão.(a China
e alguns países emergentes), para exportar de lá para seus
próprios mercados nacionais, auferindo lucros fabulosos.
Para investir em seu próprio país, exigem subsídios e
incentivos fiscais, transferindo assim os riscos e o ônus
de seus empreendimentos para a população que paga seus
impostos. A política de transferir investimentos em
empresas ou cadeias produtivas para o exterior (vide, por
exemplo, as montadoras da indústria automobilística) tem
contribuído para a desindustrialização das grandes potências,
sem que tenha induzido um processo de integração mais orgânica
das indústrias nos países emergentes, onde o poder público
viu bastante reduzida sua capacidade de planejar, orientar e
fiscalizar as atividades econômicas.
As
funções dos respectivos governos têm se restringido a
socorrer empresas e bancos falidos ou em dificuldades
decorrentes de más práticas administrativas. Assim, nos
EUA, sobretudo após 11 de setembro de 2001 com o estouro da
“bolha especulativa”, falências fraudulentas e quebra
de empresas (Enron, MCI etc) disputaram o noticiário com
informações sobre remunerações fabulosas e pacotes de
benefícios outorgados aos executivos, mesmo após sua
aposentadoria ou afastamento da direção das empresas (GE,
Bolsa de Nova Iorque etc). Na França, o governo tentou, há
alguns anos, salvar a Bull e hoje, em 2003, pretende
desembolsar entre 600 e 800 milhões de euros, para salvar a
Alstom e manter no país seus 100.000 empregos.
A
possibilidade de se pautar por diretrizes alternativas é
ilustrada ao se analisar o caso do Canadá. Embora com uma
renda per cápita inferior em 1/3 a dos EUA e do Japão, o
Canadá se situa sistematicamente entre os primeiros países
na classificação do IDH (Índice de Desenvolvimento
Humano) do PNUD, e de qualidade de vida de seus habitantes.
As estatísticas apontam para avanços nos serviços de saúde
pública, de política de proteção e conservação do meio
ambiente e de níveis relativamente baixos de delinqüência
e criminalidade. Uma distribuição mais eqüitativa da
renda e um sistema de tributação progressiva concorrem
para evitar a polarização e a emergência de relações
assimétricas nas comunidades, que estaria na origem da
exclusão e da marginalidade.
Outro
exemplo digno de estudos e análises é a trajetória da
China, em meio século de esforços, às vezes erráticos,
de desenvolvimento. Com uma população que hoje alcança
1,3 bilhões, um imenso território de 10 milhões de quilômetros
quadrados e grandes recursos naturais, a China desponta como
nova potência hegemônica no conturbado cenário do século
XXI.
Apesar
de iniciar seu desenvolvimento em condições extremamente
desfavoráveis, de um país rachado e retalhado pelos
generais – os senhores da guerra - uma economia
basicamente rural em estado de decomposição e sofrendo os
impactos causados nos anos da Revolução Cultural, a China
conseguiu resgatar, nos últimos vinte anos, quatrocentos
milhões de seus habitantes do estado de pobreza, e
incorpora-los como membros produtivos à comunidade
nacional.
Abstraindo
de seu regime político, a China conquistou o respeito
internacional, por seus resultados econômicos e os avanços
significativos nas áreas de educação, ciência e
tecnologia. Uma população rural de 800 milhões representa
um desafio enorme, pelas pressões que exerce nos movimentos
migratórios do campo para as cidades. São tarefas
gigantescas de prover infraestrutura de habitação,
transportes, saneamento e os serviços básicos de educação
e saúde, para as massas que se deslocam das áreas rurais,
em busca de oportunidades de emprego e de melhor qualidade
de vida. As políticas de controle da natalidade e de proibição
da venda de terras não foram suficientes para impedir o
surgimento de bolsões de miséria e favelas, ao redor dos
centros urbano – industriais mais dinâmicos. Não se pode
ignorar o dinamismo e a diversificação da economia chinesa
que produz e exporta uma vasta gama de produtos, inclusive
militares.
Considerado o tempo relativamente curto de seu
processo de desenvolvimento industrial e tecnológico, a
China alcançou um nível de competência tecnológica invejável,
comprovado pelo sucesso de suas indústrias microeletrônica,
metal-mecânica e aero-espacial. Segundo informações
recentes (outubro de 2003) a China preparou e lançou uma
nave espacial tripulada, com pleno sucesso. Extrapolando da
base atual (2003) com taxas de crescimento da economia de 7
– 8% ao ano, é possível vaticinar a ascensão da China a
uma posição de liderança no concerto das nações,
ultrapassando seu PIB o do Japão, por volta de 2015 e,
aproximando-se dos EUA, em 2025. Mais significativo ainda,
é o fato do governo chinês ter conseguido construir um
imenso capital social: uma nação coesa, consciente de sua
identidade cultural e de seu legado histórico, e confiante
em seu destino comum.
Voltando
à análise da (des)ordem mundial, mesmo os críticos do
sistema capitalista e de sua dinâmica concentradora e
excludente, não conseguem apontar alternativas de
rompimento com essa tendência fatal para a governabilidade
e a sobrevivência das sociedades, centrais e periféricas.
Partindo de uma premissa a-histórica sobre a imutabilidade
do sistema capitalista, que poderia ser corrigido e aperfeiçoado,
mas não substituído, transformam-se em intelectuais orgânicos
da sociedade capitalista, legitimando sua existência e
todas as barbaridades cometidas em nome do “mercado”.
Incidem, embora involuntariamente, no diagnóstico míope de
F. Fukuyama sobre “o fim da História” e, por
privilegiar em seus estudos os aspectos econômicos,
abstraem da dinâmica social e política e não enxergam os
germes da revolta popular e a conscientização crescente
dos diversos atores sociais.
Entretanto,
é fundamental apontar para as tentativas históricas de
reordenamento das relações sociais, com base na cooperação
e solidariedade, apesar do fracasso da primeira experiência
socialista na ex-União Soviética. Sem cair no ufanismo, é
preciso reconhecer o sucesso, ainda que parcial e
incompleto, do regime chinês, na luta pela eliminação da
pobreza e da exclusão social.
Mesmo
no mundo ocidental e, particularmente, na América Latina,
estão surgindo as sementes de uma nova ordem mundial, do
embate entre os diferentes atores sociais.
Trata-se
de um novo padrão de integração política – a
democracia participativa. Iniciada em nível local, se
estende progressivamente pela sociedade, mediante
“redes” que convergem em direção à constituição de
um novo sistema, complexo dinâmico, baseado na auto-gestão,
autonomia cultural e política e interdependência, próprias
de uma sociedade democrática, em nível nacional e
internacional.
As
tarefas ultrapassam o âmbito estreito de programas de
caridade e de assistencialismo filantrópico, tais como
desenvolvidos por muitas ONGs e os próprios governos.
Em
retrospectiva das últimas duas décadas, percebemos o avanço
paulatino da sociedade civil, nas confrontações sobre as
esferas de decisão, inclusive a alocação de recursos orçamentários.
Assim, é possível se prever um longo período de “poder
dual” em que autoridades e instituições tradicionais
procurem manter o status quo na defesa dos interesses
das classes proprietárias e da tecnocracia a elas aliada.
Por outro lado, as múltiplas organizações da sociedade
civil vêm adquirindo saber e experiência na gestão e na
defesa das causas públicas, conquistando maior autonomia e
confiança em sua capacidade de gerir seus destinos, no
processo de transformação social e política.
Diante
a complexidade dos desafios e a multiplicidade dos atores
intervenientes, seria temerário propor um caminho único e
milagroso. O processo de construção de uma sociedade
democrática e universal, apesar dos avanços
indubitavelmente realizados, será longo e árduo.
Entretanto, estamos vivendo uma fase de transição, de uma
sociedade insustentável de espoliação, exclusão e opressão,
para uma sociedade de homens livres, numa nova ordem planetária.