|
Meio
ambiente e desenvolvimento sustentável: o
mundo na encruzilhada da História
“Se
um Estado é governado pelos princípios da razão,
a pobreza e a miséria são motivos de vergonha; se um Estado não é governado
por esses princípios, a riqueza e
as honras é que são motivos de vergonha”.
(Confúcio, apud Henry D. Thoreau – Walden
ou a vida nos bosques)
De
Estocolmo a Johannesburgo
Decorridos trinta anos desde a primeira Conferência das Nações
Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada
em Estocolmo e dez anos após a CNUMAD – Conferência
das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e
Desenvolvimento (Rio 92), ocorre uma nova
mobilização em escala mundial, convocando
para a terceira Conferência das Nações Unidas
sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio+10)
que será realizada em agosto/setembro de 2002,
em Johannesburgo, África do Sul. Será uma
nova oportunidade para passar em revista os
principais problemas ambientais e humanos
que afligem as populações de nosso globo.
Mas, a Conferência servirá também de palco
para expor e discutir os obstáculos e resistências
encontrados na implantação da Agenda 21, em
níveis local, nacional e internacional. Apesar
dos esforços despendidos nos dez anos passados,
com inúmeras reuniões e debates travados,
sobre propostas e resoluções, metas e indicadores,
o balanço geral não é animador. Comparado
com a urgência dos problemas, os avanços reais
no cumprimento das metas da Agenda 21 foram
insignificantes e as perspectivas de uma mudança
nas atitudes políticas por parte dos governos
não autorizam uma visão mais otimista do futuro.
Entretanto, uma enxurrada de propostas de
políticas ambientais e sua respectiva legislação
estão circulando nos gabinetes dos Legislativos
e Executivos, aguardando decisões e regulamentação.
As resistências às normas ambientais mais
rígidas manifestam-se também nas organizações
internacionais, onde os representantes dos
governos dos países mais ricos, sobretudo
os EUA, protelam ou recusam a assinatura de
tratados e protocolos, alegando prejuízos
para suas respectivas economias nacionais.
Esta polarização de posições entre Norte e Sul, os países ricos
e o Terceiro Mundo, perpassou também as reuniões
preparatórias de Bali (maio de 2002) e do
Rio (junho de 2002). Acusando os países ricos
de tentar retroceder em tópicos já definidos
na CNUMAD da Rio 92, os porta-vozes dos países
pobres chamaram a atenção para os impactos
da ordem global responsável pelo alastramento
da pobreza e exclusão social e, também, da
degradação ambiental. O encontro do Rio de
Janeiro, com a presença de vários chefes de
Estado, não conseguiu avançar na definição
da pauta da Segunda Conferência das Nações
Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável
que acontecerá de 26 de agosto a 04 de setembro,
em Johanesburgo. Espera-se que consiga pelo
menos uma avaliação objetiva dos resultados
pouco alentadores da implementação da Agenda
21 e assim, contribua para a conscientização
e mobilização da sociedade civil em âmbito
mundial, clamando e caminhando em direção
a um novo sistema de governança.
Mas, enquanto perduram os duelos retóricos transferidos de
uma Conferência para outra, crescem a pobreza
e a marginalidade de uma imensa maioria da
população mundial, sem que diminuam o consumo
de desperdício e a devastação dos recursos
naturais.
O
estado do meio ambiente do planeta
O relatório recém publicado do PNUMA – Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente – conhecido como
GEO-3 (Panorama Ambiental Global), foi preparado
para facilitar o balanço da saúde ambiental
do planeta e estimular os debates sobre os
rumos da política ambiental nos próximos anos,
visando evitar desastres ambientais e seus
severos impactos sobre as populações indefesas.
O Relatório aponta para os principais problemas que estão afligindo
a humanidade:
§
a
concentração de gás carbônico na atmosfera é um dos fatores que
provoca o efeito estufa
- o aquecimento global terrestre. Apesar
de amplamente documentado e reconhecido na
Convenção das Nações Unidas sobre Mudança
Climática, e, posteriormente, reforçado pelo
Protocolo de Kyoto, sua implementação continua
suspensa devido à recusa dos EUA em assumir
suas responsabilidades, desde 1997. Com o
aumento do “aquecimento global terrestre”
devido ao consumo crescente de combustíveis
fósseis, a produção de cimento e a combustão
de biomassas, nos últimos anos, causou a extensão
dos danos à camada de ozônio que alcançou
um nível alarmante, estimando-se o “buraco”
no ano 2000, de 28 milhões de km2 somente
na região antártica;
§
a
crescente escassez de água potável: com uma demanda crescente em conseqüência do aumento da população,
o desenvolvimento industrial e a expansão
da agricultura irrigada verifica-se uma oferta
limitada de água potável distribuída de forma
muito desigual. O Relatório do PNUMA estima
que 40% da população mundial sofre de escassez
de água, já a partir da década dos 90. Falta
de acesso ao abastecimento seguro e ao saneamento
tem resultado em centenas de milhões de casos
de doença, provocando mais de cinco milhões
de mortes anualmente;
§
a
degradação dos solos
por erosão, salinização e o avanço contínuo
da agricultura irrigada em grande escala e
os desmatamentos, remoção da vegetação natural,
uso de máquinas pesadas, monoculturas e sistemas
de irrigação inadequados, além de regimes
de propriedade arcaicos, contribuem para a
escassez de terras e ameaçam a segurança alimentar
da população mundial;
§
a
poluição dos rios, lagos, zonas costeiras
e baías
tem causado degradação ambiental contínua
por despejo de volumes crescentes de depósitos
de resíduos e dejetos industriais e orgânicos.
O lançamento de esgotos não tratados aumentou
dramaticamente nas últimas décadas, com impactos
eutróficos severos sobre a fauna, flora e
os próprios seres humanos.
§
desmatamentos
contínuos – o Relatório do PNUMA estima uma
perda total de florestas, durante os anos
90, de 94.000km2, ou seja, uma média de 15.000km2
anualmente, já abatendo as áreas reflorestadas.
Emblemático a respeito é a devastação da Mata
Atlântica da qual sobraram somente 7%, segundo
levantamento patrocinado pela SOS Mata Atlântica.
Uma das conseqüências do desmatamento é a destruição da
biodiversidade, particularmente nas
áreas tropicais. Mudanças climáticas, extração
predatória de recursos naturais e minerais,
transformações no uso de solos estão dizimando
a fauna e a flora em diversas regiões do mundo.
O crescimento da população acompanhado de novos padrões de
consumo e produção resulta em quantidades
de resíduos e substâncias tóxicas poluentes
com efeitos desastrosos na biodiversidade.
Embora não existam dados precisos sobre espécies
extintas nas últimas três décadas, o Relatório
do PNUMA estima que 24% (1.183) das espécies
de mamíferos e 12% (1.130) de pássaros estariam
ameaçadas de extinção.
A situação se afigura particularmente dramática nas áreas urbanas
e metropolitanas nas quais vive quase metade
da população mundial, a maioria
em condições de alimentação, habitação,
saneamento, e acesso a facilidades de lazer
cada vez mais precárias. A concentração ininterrupta
de desempregados, miseráveis e excluídos nos
espaços urbanos e metropolitanos caracterizados
por desigualdades extremas produz fenômenos
de anomia social – marginalidade, delinqüência
e narcotráfico que enfraquecem ainda mais
a precária governabilidade. O Relatório das
Nações Unidas estima 800 milhões da população
urbana vegetando abaixo da linha de pobreza
e extremamente vulnerável a desastres naturais
e mudanças ambientais. Essas condições desfavoráveis
são diretamente responsáveis pela saúde deteriorada
e a baixa qualidade de vida, sendo a falta
de saneamento básico e a poluição do ar responsáveis
pela maior parte das doenças e mortes.
A ineficácia das reuniões internacionais ficou demonstrada
também na Conferência recente da FAO – a Organização
das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura,
realizada na primeira quinzena de junho de
2002, em Roma, Itália. Apesar de relatos assustadores
sobre a fome e desnutrição que assolam centenas
de milhões de seres humanos, a Conferência
fracassou por mostrar-se incapaz de definir
medidas concretas que garantissem os direitos
à alimentação e qualidade de vida para os
pobres do mundo. Os chefes de Estado dos países
ricos, com exceção do anfitrião, o primeiro
ministro italiano Sílvio Berlusconi, não compareceram,
alegando alguns que...”não esperavam que a
Conferência fosse bem sucedida”...
A resistência dos países ricos a comprometer-se com resoluções,
protocolos e tratados internacionais (vide
Kyoto!) é evidenciada também pelo não cumprimento
da resolução das Nações Unidas sobre o destino
anual de 0,7% do PIB de cada país rico, como
ajuda ao desenvolvimento dos países pobres.
Quatro “décadas de desenvolvimento” não conseguiram
melhorar a situação das populações carentes
do terceiro mundo. Os governos dos países
pobres certamente não estão isentos de culpa,
responsáveis que são por políticas macroeconômicas
inadequadas, retrógradas, má administração
de recursos e corrupção. Para explicar os
fracassos sucessivos e o estado de calamidade
em que se encontram praticamente todos os
países que não fazem parte do clube seleto
da OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento
Econômico – não basta apontar a incompetência
ou a “falta de vontade política” dos governantes,
tanto nos países ricos quanto nos pobres.
É mister denunciar a ideologia da competição
como suposta mola mestra do progresso para
todos. A
dinâmica da competição que permeia todas as
esferas da vida social leva à marginalização
dos mais fracos e assim, a futuras catástrofes
sociais e políticas. Embora atenda aos interesses
das elites, mostra-se incapaz de resolver
os problemas de um mundo que está cada vez
mais próximo do que foi caracterizado no Relatório
Brundtland, como “Nosso Futuro Comum”.
Ciência,
Tecnologia e Meio Ambiente
Ao contrário do discurso oficial sustentado pela maioria dos
cientistas, não há uma correlação positiva
entre os avanços nas pesquisas científicas
e tecnológicas e a posição de um dado país
em termos de indicadores sociais e ambientais.
Apesar de razoável infraestrutura científica
(universidades e institutos de pesquisa),
em termos de indicadores de desenvolvimento
humano, o Brasil permanece bem atrás de vários
países com inferior desenvolvimento em ciência
e tecnologia enquanto os Estados Unidos, com
o maior potencial de P & D, adotam posições
retrógradas com relação à preservação do meio
ambiente.
A questão do papel da ciência e tecnologia em sociedades afligidas
por tremendos problemas sociais tem sido sistematicamente
evitada pelas elites do sistema, incluindo
cientistas e políticos. Durante as últimas
décadas, a opinião pública tem sido alimentada
com o mito do “efeito de filtração” (trickle-down
effect), de quanto mais pesquisa e desenvolvimento,
melhor para a prosperidade econômica e o bem-estar
social. Entretanto, como prova a dura realidade,
a natureza dos nossos problemas sociais e
ambientais não requer sofisticadas soluções
de alta tecnologia, e sim, o uso mais racional
de tecnologias “apropriadas” existentes e
de políticas empenhadas na redução do desperdício
e do consumo conspícuo.
Outro importante fator para o desenvolvimento
humano seria o aumento do nível de educação
e dos conhecimentos do conjunto da população
assegurando a incorporação de milhões de crianças
ainda excluídas de um adequado sistema escolar.
Como pode uma sociedade progredir sem a inclusão
de toda a sua população?
Da discussão precedente pode-se inferir que ciência e tecnologia
não são politicamente neutras. Ao contrário,
equipamentos e processos de trabalho bem como
a organização e o manuseio dos mesmos estão
inextricavelmente ligados às relações sociais
produtivas.
Em cada contexto histórico, espacial
e socialmente determinado, as formas materiais
de tecnologia representam uma combinação de
diferentes níveis de poder econômico e político
centralizado, enfrentando as aspirações contrabalanceadoras
dos produtores por mais autonomia e auto-gestão.
Por isso, práticas tecnológicas refletem
as contradições políticas entre as dinâmicas
da economia, tendendo a concentração e centralização
do capital e as tendências opostas do sistema
político, em direção à democracia e auto-gestão.
Essa tensão dialética estabelece os limites
da ciência e tecnologia como instrumentos
de mudança social. Pesquisas tecnológicas
e seu desenvolvimento, as inovações e sua
incorporação no sistema produtivo obedecem
primeiramente a critérios econômicos e políticos.
Proclamar a crença nas possíveis mudanças
das relações de poder no sentido de mais eqüidade
e justiça social derivadas de políticas convencionais
de ciência e tecnologia, soa ingênuo ou deliberada
mistificação. Em última instância o desenvolvimento
social e econômico, incluindo ciência e tecnologia,
não depende somente do volume de recursos
disponíveis, mas de quem os controla e os
usa, com que objetivos, planos e valores.
Uma demonstração inequívoca do modo enviesado adotado nos discursos
oficiais sobre o papel da ciência é revelado
por uma análise das discussões dos problemas
ambientais nas reuniões e conferências internacionais
sobre mudança de clima e fenômenos correlatos.
Para evitar a redução de emissões em casa,
os representantes dos países ricos, baseando-se
nas evidências de resultados científicos dúbios,
propõem vias e mecanismos mais complexos para
escapar da obrigação de adotar uma política
de clima limpa e racional, a partir de um
quadro de referências sistêmico e interdisciplinar.
Quando alertados pelos seus cientistas, os
governantes consideram a política climática
apenas como redução e controle das emissões.
No entanto, há uma necessidade urgente de
redesenhar os setores de energia e transportes,
assim como a produção industrial para combater
a poluição do ar e o congestionamento do tráfego.
Em vez de uma política climática baseada
numa postura negativa de emissão e redução,
necessitamos avançar com propostas positivas
de transformação industrial, abandonando
o enfoque estreito e fragmentado, para ser
substituído por uma visão sistêmica de mudança
global.
Uma diferente abordagem é exigida quando discutimos os fundamentos
sociais, éticos e comportamentais do bem-estar
humano considerados como tema prioritário.
É importante admitir a extrema relevância
da distribuição intra e intergerações, adotando
uma posição ética em vez da neutralidade científica.
As teses defendidas por economistas e biólogos
baseadas nas informações das ciências naturais
e da econometria parecem muito limitadas.
A acumulação de gases produzindo o efeito estufa é apenas um
dos vários sintomas de irracionalidade no
nosso altamente ineqüitativo mundo, onde 20%
da população consomem 80% dos recursos naturais,
incluindo energia.
Outras manifestações negativas são
a destruição da camada de ozônio, a poluição
dos rios e oceanos, o sempre crescente número
de substâncias químicas perigosas e os resíduos
nucleares depositados que impactam negativamente
a natureza e o ambiente humano. Esses problemas
não podem ser tratados e reparados somente
por meio de soluções tecnológicas.
A distribuição desigual de renda e dos ativos produtivos impõe
pesadas restrições às políticas de desenvolvimento
dos países pobres. Os grãos a serem cultivados,
as fontes de energia exploráveis, o uso da
terra etc, não são mais decididos pelas autoridades
nacionais, mas por forças financeiras externas.
Lidando com o problema das emissões
de gás carbônico os países ricos estão menos
preocupados do que no caso do dióxido de enxofre
(SO2). Mas, o aumento da temperatura
global devido a mudança de clima afetará os
países pobres no hemisfério sul.
Meio metro a mais do nível do mar deslocará
dezenas de milhões de pessoas e submergerá
faixas de terra em todo o mundo, enquanto
a construção de muros para proteger zonas
vulneráveis próximas ao mar certamente envolverá
custos insuportáveis aos países pobres.
Até agora, as negociações sobre mudança de clima têm produzido
poucos resultados, por estar sendo realizadas
entre parceiros desiguais.
Os representantes dos países pobres
são inferiores em números nas conferências
e geralmente lhes falta o acesso a informações
relevantes e as habilidades de negociação.
Por isso, é difícil alcançar acordos sobre
a concentração dos níveis de dióxido de carbono
(CO2), que representam maiores
riscos para a saúde das populações. As fórmulas
atuais enfatizam a minimização dos custos
para os ricos mas não a minimização dos riscos
para os pobres. Ao pressionar os países pobres
a venderem seus “direitos” de poluir, quanto
estará disponível para eles sustentar suas
políticas de industrialização? No futuro as
intermináveis negociações arrastadas de uma
conferência para outra representam objetivamente
um sério atraso na tomada de medidas adequadas
e eficazes, com isso piorando a situação de
ineqüidade, até um ponto sem retorno.
Ao incluir sumidouros nos MDL (mecanismos de desenvolvimento
limpo), os países ricos estão provavelmente
impondo a pior maneira possível de negociar
responsavelmente com suas obrigações para
reduzir as emissões.
Há várias razões para não incluir sumidouros
nos MDL, quando uma abordagem sistêmica for
adotada. Persistem ainda as controversas questões
de preservação da biodiversidade relacionadas
com os organismos geneticamente modificados
e, os direitos das terras dos povos indígenas
nos países pobres, vivendo em áreas cobiçadas
por megaprojetos de desenvolvimento (por exemplo,
a hidrovia Paraná-Paraguai que atravessa a
região do Pantanal).
Assim, as incertezas sobre a capacidade de armazenagem do carbono
por regiões ecológicas e, mais que tudo, o
eventual seqüestro do carbono à luz dos imprevisíveis
e incontroláveis fatores do comportamento
humano e natural induzindo as mudanças climáticas,
continuam presentes no cenário atual.
A adoção do princípio de precaução e um rigoroso acordo para
institucionalizar a cooperação regional e
internacional seriam os primeiros passos em
direção a um meio ambiente mais limpo e seguro.
Independentemente dos resultados das negociações, na Conferência
de Joanesburgo, cada país deveria responsabilizar-se
por suas próprias emissões a serem verificadas
e avaliadas por um comitê internacional independente.
O comércio de cotas – eufemisticamente chamado
MDL “mecanismos de desenvolvimento limpo”
talvez permita melhorar a lucratividade de
negócios, mas certamente não a equidade dentre
e entre nações. MDL propõem mobilizar investimentos
privados para países pobres estarem capazes
de prover um desenvolvimento mais limpo, baseado
nos fluxos de capital e de tecnologia. Mas
as negociações geralmente são realizadas em
bases bilaterais entre parceiros desiguais
não garantindo que um “bom” preço fosse obtido
pelos países pobres. Finalmente, sem transferência
concomitante de tecnologia, qualquer acordo
envolvendo a concessão de direitos de poluição
certamente será oneroso para os parceiros
mais fracos.
A
armadilha da competição
A dinâmica selvagem da competição produz ganhadores e perdedores
e esses últimos, cada vez mais numerosos,
ingressam nos exércitos dos pobres e excluídos.
Face à crise ambiental e as economias nacionais
desarticuladas que provocam conflitos sociais
e políticos que sacodem permanentemente nosso
planeta, o mercado competitivo poderia responder
ao desafio de justiça social?
O processo de polarização e a disseminação
da pobreza constitui-se em maior obstáculo
a um desenvolvimento sustentável para todos
e o indicador convencional de crescimento
do PIB per capita, advogado pelos políticos,
governos e acadêmicos não passa de mais um
engodo.
A preocupação predominante com o crescimento econômico torna-se
também um empecilho para o avanço nas práticas
de proteção e preservação ambiental.
O meio ambiente não deve ser encarado em suas dimensões ecológicas
e econômicas apenas. As percepções humanas
e as formas de utilização do meio ambiente
e seus recursos são socialmente construídos
e essas construções envolvem interesses, valores,
expectativas e instituições que influenciam
as interações humanas com o ambiente biofísico
e social. Uma das formas da construção social
do meio ambiente é manifesta nos direitos
de propriedade, individual e coletiva. As
estruturas sociais e os processos políticos
asseguram sistemas específicos de propriedade
que são mantidos e reproduzidos pelas relações
sociais e os regimes políticos que os legitimam,
bem como sua apropriação ou exclusão. Em conseqüência,
o meio ambiente não pode ser tratado isoladamente
mas deve ser inserido no contexto dos processos
sociais, econômicos e políticos. Neste sentido,
um regime de governo democrático constitui
fator crucial para uma gestão e proteção ambiental
mais racional e sustentável que funcione no
atendimento dos interesses coletivos. De outra
forma, os interesses econômicos particulares
de curto prazo prevalecem sobre as preocupações
ambientais e sociais de longo prazo.
Os porta-vozes do mercado ou as empresas insistem em afirmar
que as condições econômicas e sociais precárias
seriam inevitáveis para manter a lucratividade
dos negócios, apesar de danos permanentes
causados ao meio ambiente e às populações
carentes e indefesas.
Seria possível conciliar os interesses
conflitantes do “big business”, da tecnocracia
e do mundo das finanças com aqueles das populações
pobres nas áreas rurais e urbanas?
Os governos e as grandes empresas procuram escapar de sua responsabilidade
de enfrentar os perigos à sobrevivência da
humanidade reclamando por “mais evidências
científicas”. O argumento é falacioso porque
existem suficientes conhecimentos e fatos
concretos que podem sustentar a tomada de
decisões, aqui e agora. Entretanto, os representantes
do grande capital e os tecnocratas, alegando
defender os interesses da economia, rejeitam
a adoção de medidas elementares tais como
o PPP – princípio poluidor pagador e o da
precaução.
O PIB reflete somente uma parcela da realidade, distorcida
pelos economistas – a parte envolvida em transações
monetárias. Funções econômicas desenvolvidas
nos lares e de voluntários acabam sendo ignoradas
e excluídas da contabilidade. Em conseqüência,
a taxa do PIB não somente oculta a crise da
estrutura social, mas também a destruição
do habitat natural – base da economia e da
própria vida humana. Paradoxalmente, efeitos
desastrosos são contabilizados como ganhos
econômicos. Crescimento pode conter em seu
bojo sintomas de anomia social.
A onda de crimes nas áreas metropolitanas impulsiona uma próspera
indústria de proteção e segurança, que fatura
bilhões. Seqüestros e assaltos a bancos atuam
como poderosos estimulantes dos negócios das
companhias de seguro, aumentando o PIB.
Algo semelhante ocorre com o ecossistema natural. Quanto mais
degradados são os recursos naturais, maior
o crescimento do PIB, contrariando princípios
básicos da contabilidade social, ao considerar
o produto de depredação como renda corrente.
O caso da poluição ilustra ainda melhor essa contradição, aparecendo
duas vezes como ganho: primeiro, quando produzida
pelas siderúrgicas ou petroquímicas e, novamente,
quando se gasta fortunas para limpar os dejetos
tóxicos. Outros custos da degradação ambiental,
como gastos com médicos e medicamentos, também
aparecem como crescimento do PIB.
A contabilidade do PIB ignora a distribuição da renda, ao apresentar
os lucros enormes auferidos no topo da pirâmide
social como ganhos coletivos. Tempo de lazer
e de convívio com a família são considerados
como a água e o ar, sem valor monetário. O
excesso de consumo de alimentos e os tratamentos
por dietas, cirurgias plásticas, cardiovasculares
etc. são outros exemplos da contabilidade,
no mínimo bizarra, sem falar dos bilhões gastos
com tranqüilizantes e tratamentos psicológicos.
A onda crescente de desemprego, que se alastra nos países latino-americanos,
além dos efeitos psicológicos e sociais devastadores
na vida dos indivíduos, seus familiares e
comunidades, repercute também negativamente
nas respectivas economias nacionais. Somando
os efeitos de políticas macroeconômicas perversas
com os da política salarial e trabalhista,
sob forma de flexibilização e precarização
dos contratos de trabalho, ocorre uma transferência
de parcelas crescentes da renda nacional para
o capital, com as proporcionais perdas na
renda do trabalho. A compressão dos salários
e rendimentos do trabalho associada à alta
taxa de juros e a remessa ao exterior a título
de juros, dividendos e royalties, têm
um poderoso efeito recessionista. Reduzindo
a renda disponível nas mãos da população,
cai a demanda, a produção, a arrecadação de
impostos, numa espécie de círculo vicioso,
arrastando nessa tendência recessiva também
a poupança e os investimentos.
A
ascenção da sociedade civil
Os regimes políticos atuais, baseados na lógica do mercado
e orientados para a exacerbação do consumo
material, sem preocupação com o uso racional
dos recursos naturais e a preservação do meio
ambiente, parecem incapazes de conceber e
implantar políticas condutivas à sustentabilidade.
A ascensão das ONGs, apesar de avanços e retrocessos
temporários, tem exercido papel fundamental,
além de sua participação crescente e irrecusável
nas conferências internacionais convocadas
pelas Nações Unidas, na concretização lenta,
mas segura, em direção à humanização das relações
entre governos e governados, em praticamente
todas as sociedades.
São significativas as conquistas da humanidade, graças a presença
e ao empenho das ONGs, nos cenários nacional
e internacional, durante os últimos anos.
O banimento das minas-terrestres, a criação
da Corte de Justiça de Roma; a aprovação do
protocolo de Kyoto; a resistência ao AMI –
(Acordo Multilateral sobre Investimentos)
e o fortalecimento do combate à violação dos
Direitos Humanos, em praticamente todos os
países, devem ser motivos de orgulho e de
confiança no futuro da sociedade democrática
mundial. Colocando a tecnologia de ponta a
serviço da intercomunicação e constituição
de redes, com vastas ramificações internacionais,
a participação democrática constitui um desafio
inédito às políticas e à postura autoritária
e centralizadora do Estado que se tornou agente
da globalização imposta pelas forças econômicas-financeiras
e da mídia, cuja atuação reduz os cidadãos
comuns a meros objetos descartáveis e manipuláveis,
tanto no sistema de produção quanto nas manifestações
da cultura de massa, de consumo e de lazer.
A emergência de iniciativas locais ou mesmo internacionais
organizadas por grupos de voluntários protestando
ou resistindo, desde à construção de centrais
nucleares até a repressão de liberdades democráticas
e, mais recentemente, contestando as reuniões
das organizações multilaterais, constituem
um fenômeno inédito no cenário político internacional.
A nova ordem mundial está sendo construída por esses diferentes
atores sociais, na transição de um mundo de
estados territoriais e soberanos, para uma
sociedade planetária.
Não podemos perder de vista o objetivo estratégico de longo
prazo – a construção de uma sociedade sustentável
amparada em um sistema de governança global.
Reafirmamos, todavia, nossa premissa que percebe a realidade
como construção social, e acreditamos que,
como nunca antes na História da Humanidade,
os povos do mundo têm seu destino e o das
gerações futuras em suas próprias mãos.
Texto elaborado como contribuição
à discussão preparatória da Conferência
das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável, agendada para
agosto – setembro de 2002, em Johannesburgo,
África do Sul. São Paulo, junho de 2002.
|