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Por ANTONIO OZAÍ
DA SILVA
Docente
na UEM e doutorando na Faculdade de Educação da Universidade de
S. Paulo
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RESENHA
Palavras
e origens: considerações etimológicas
Gabriel PERISSÉ
São
Paulo, Ed. Mandruvá, 2002, 95 p
Contato: perisse@uol.com.br
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A
função política da linguagem
Heródoto lia sua
história aos povos da Grécia reunidos ao ar
livre e tudo ressoava com aplausos. Hoje o acadêmico
que, num dia de assembléia pública, lê uma memória,
é ouvido com dificuldade no fundo da sala.
(ROUSSEAU: 1978, p. 199)
As palavras se transformam conforme
mudam as necessidades humanas. As sociedades
evoluem, surgem novas necessidades e criam-se
novas palavras para expressá-las. Muitas vezes,
perde-seu sentido original e cai-se no esquecimento.
Nada mais perigoso do ponto de
vista político do que o uso das palavras.
Já os sofistas na Grécia Antiga perceberam
a importância da linguagem, especializando-se
na retórica. “Nos tempos antigos”, observou
Rousseau, “quando a persuasão constituía uma
força pública, impunha-se a eloqüência. De
que serviria hoje, quando a força pública
substitui a persuasão?”. (Id., p. 198) A propósito,
sofista (do grego, sophistés) originalmente
significava sábio; posteriormente adquiriu
o sentido de impostor (derivado do
latim sophista).
Rousseau não poderia imaginar o
alcance dos meios modernos de persuasão, nem
como os Estados totalitários os usariam para
dominar os povos. A obra de George Orwell
mostra a estreita conexão entre liberdade
e linguagem. Não é por acaso que, em geral,
políticos e burocratas autoritários tendem
a metamorfosear as palavras, mascarando-as
ou destituindo-as do seu significado real.
O burocrata patológico faz questão de dominar
os códigos, os segredos inseridos nas entrelinhas
e especializar-se, a ponto das pessoas temerem-no.
Já o político populista-autoritário, usa frases
pomposas e abusa da balofice. “A linguagem
política”, escreveu Orwell, “destina-se a
fazer com que a mentira soe como verdade e
o crime se torne respeitável, bem como a imprimir
ao vento uma aparência de solidez”.
A corrupção da linguagem é essencial
para a manutenção da dominação política. Um
ótimo exemplo disto pode ser observado no
clássico A Revolução dos Bichos. Em
outro livro, 1984, a linguagem, como
forma de opressão política, ocupa um lugar
central. Na noivlíngua (newspeak),
as palavras servem como engodo e falsificação
da verdade. O indefensável ganha a áurea de
sagrado e indiscutível. A mais simples dúvida
constitui uma crimidéia, impossível
de ocultar.
Assim, o Ministério da Verdade
(Miniver, em novilíngua), tinha como
função distorcer e forjar novas verdades,
ou seja manipular. No Ministério do Amor,
mantinha a lei e a ordem impondo a dor e a
tortura. (“O grande Irmão zela por ti!”).
No Ministério da Paz, tramava-se a
guerra. E, no Ministério da Fartura, tratava-se
de fabricar falsas estatísticas sobre os dados
econômicos, ou seja, encobrir a escassez.
“Quem controla o passado”, dizia
o lema do Partido, “controla o futuro; quem
controla o presente, controla o passado”.
(1998: 36) Trata-se na Novilíngua,
do duplipensar: a realidade histórica
é e não é conforme os interesses do
partido. Conforme a vontade do Estado, os
registros históricos são suprimidos; mata-se
o indivíduo pela simples remoção dos registros,
eliminado-se qualquer referência ao mesmo.
Sua existência é negada e depois esquecida.
Aliás, eis um excelente exemplo
de como as palavras caem no esquecimento e/ou
adquirem novo sentido: George Orwell não poderia
imaginar que o Big Brother se tornaria
personagem de TV, com grande índice de audiência.
A crítica à vigilância permanente, ao controle
do indivíduo pelo Estado, à aniquilação da
liberdade, perde-se no glamour dos artistas
televisivos, eles e seus espectadores presos
às exigências do Ibope. O conceito orwelliano
do Big Brother é propositadamente removido
da história.
A peleja de Orwell contra a manipulação
da linguagem, contra o seu uso enquanto forma
de opressão, nos alerta para a necessidade
de preservar a memória, os registros da história.
A etimologia, o estudo das palavras,
de sua história, e das possíveis mudanças
de seu significado, constitui uma contribuição
fundamental. Saber as origens das palavras,
estudar as suas metamorfoses e seus usos,
conforme os interesses políticos-econômicos
por todas as épocas, é essencial para a luta
permanente contra o esquecimento. Este
só interessa às personalidades e governos
autoritários. Um povo que não conhece o seu
passado, ou o conhece sob a ótica dos que
dominam, é incapaz de mudar o presente e construir
o seu futuro.
E, para além dos objetivos políticos
dos que manipulam as palavras e a história,
temos a tendência natural de esquecer.
Como Jean Lauand escreve na apresentação:
“Nossas
grandes iluminações, nossas grandes intuições,
brilham por um momento na consciência, mas
logo – na rotina do dia-a-dia – começam a
cair no esquecimento (essa expressão é, aliás,
pleonástica: esquecer, etimologicamente, é
começar a cair). Não é que se aniquilem, confundem-se
na massa informe dos cuidados quotidianos
e saem do âmbito da consciência: precisamente
o que se indica com o vocábulo esquecer.”
(PERISSÉ: 2002, p. 11)
Gabriel Perissé, mestre em literatura
brasileira e doutorando na Faculdade de Educação
(USP), nos brinda com uma bem-humorada seleção
de palavras e expressões e nos ajuda a não
esquecer. Além de aprendermos suas origens,
ainda nos deliciamos com um estilo literário
oposto à sisudez própria de muitos textos
acadêmicos que abundam por aí.
A propósito, abundar não
é palavrão. Mas isso me faz lembrar das prazerosas
(sem trocadilho) descrições de personagens
que excitam a imaginação de muita gente por
este Brasil afora (veja o verbete Tiazinha).
E já que estamos em tempos da deusa bola,
outro tema muito prazenteiro, lembremos que
a melhor defesa é o ataque. Como nos
explica o autor,
Defender (e daí defesa) provém da composição de (contra)
+ fendere (chocar-se, bater). Defender
é chocar-se contra algo ou alguém, tentando
repelir um ataque.
Que me perdoe Perissé, mas imagino
que nossos defensores da seleção canarinho
não leram seu livro. Ainda bem. Se eles levam
esta explicação ao pé da letra, perderemos
de goleada tantos serão os pênaltis cometidos.
Mas bem que poderiam aprender com o ditado
popular.
E já que tratamos das palavras,
sempre é bom fazê-lo com carinho. Costumo
brincar com a minha filha menor contando-lhe
uma história (que não lembro a procedência;
olha o esquecimento!) de um mensageiro que
morreu por causa de uma vírgula mal colocada:
“Não, mate-o”. E assim fez-se. O autor
de Palavras e origens: considerações etimológicas,
criador da Escola de Escritores, sabe
muito bem das armadilhas que armamos contra
nós mesmos quando nos aventuramos a esgrimir
as palavras como armas inerentes à defesa
das idéias. Escrever é se expor à crítica
– justa ou injusta, pouco importa; escrever
é correr o risco de ser (mal) usado, manipulado,
mal-interpretado e incompreendido. Escrevemos
e corremos o risco de fazermos inimigos e
perdemos os amigos.
Como a melhor defesa é o ataque,
quando mais dominarmos as palavras, mais chance
teremos de sermos inteligíveis. Afinal, escrevemos
para os outros lerem. Que graça tem posar
de sabichão e postar-se no olimpo, falando
com o próprio umbigo? Como ensina Perissé,
“A palavra umbigo nasceu do latim umbilicu,
procedente, por sua vez de outro termo latino,
umbo, pequena proeminência no centro
dos escudos de guerra convexos. Comparando
a barriga com o escudo, passou-se a chamar
de umbigo a cicatriz que fica no meio do ventre
depois da queda do cordão umbilical.”
Há quem se ache o umbigo do mundo.
O narcisismo parece ser uma doença congênita
a muitos que vivem do ofício de pensar e escrever.
Mas, deixemos este tema complexo, próprio
aos meus amigos psicólogos, de lado. Narcisista
ou não, o importante é que se pense e se escreva
bem. Além de o leitor agradecer por nos fazermos
compreensíveis, diminuímos os riscos que corremos
ao expormos e, sobretudo, aprendemos.
Escrever bem é um desafio constante
e é o primeiro passo para aprendermos a exercitar
o pensamento. O domínio da linguagem nos leva
a aperfeiçoar o pensar e a nos tornarmos mais
críticos. Escrever para a liberdade é facilitar
esse processo, é contribuir para que para
que deixemos de ser presas fáceis dos discursos
ideológicos doutrinadores. É pensar com a
própria cabeça!
Neste sentido, o livro de Perissé,
é uma contribuição importante. ele nos estimula
a pensar as palavras. O autor merece a gratidão
dos que amam as palavras e têm consciência
da importância política do seu uso. Só resta
lamentar que sejam tão poucas páginas!
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George orwell. “Politics
and the English Language”. A Collection
of Essays Nova York, Doubleday,
1954. Citado in: NASH, Paul. Autoridade
e liberdade na educação. Rio de
Janeiro, Edições Bloch, 1968, p. 100.
Bibliografia
ASH, Timothy Garton. A permanência de George Orwell.
In: Folha de S. Paulo, Mais!, 08 de
julho de 2001, pp. 04-09.
NASH, Paul. Autoridade e liberdade na educação. Rio
de Janeiro, Edições Bloch, 1968.
ORWELL, George. 1984. São Paulo, Companhia Editora
Nacional, 1998.
_____________. A Revolução dos Bichos. São Paulo,
Editora Globo, 2000.
PERISSÉ, Gabriel. Palavras e origens: considerações etimológicas.
São Paulo, Editora Mandruvá, 2002.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social; Ensaio
sobre a origem das línguas; Discurso sobre
a origem e os fundamentos da desigualdade
entre os homens; Discurso sobre as ciências
e as artes. São Paulo, Abril Cultural,
1978. (Os Pensadores)
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