A
Pós-graduação nas Ciências Humanas e o paradigma da medicina
na era da especialização
As palavras que se seguem
poderão soar conservantismo, serem até reacionárias, pois
se trata de uma reflexão que nada contra a correnteza do que
se pratica hoje nas universidades brasileiras. Assumo o risco
de ser conservador neste momento, pois o contexto atual de
formação dos mestres e doutores, atuais e futuros professores
de nossas faculdades e universidades, é revelador de uma tendência
que coloca em xeque a própria essência do termo universidade.
A palavra de ordem hoje parece ser: especializar cada vez
mais e mais cedo para se produzir um saber cada vez mais específico
e competente.
Carlo Ginzburg, o autor
de O Queijo e os Vermes, no texto intitulado Sinais:
raízes de um paradigma indiciário, ao analisar
o método mais conseqüente para o historiador, afirma: “Nas
discussões sobre a ‘incerteza’ da medicina, já estavam formulados
os futuros nós epistemológicos das ciências humanas”.
Como não é intenção nesse momento discutir o posicionamento
de Ginzburg, até porque o autor faz referência a outro teórico,
só faço tomar emprestado essa relação entre ciências humanas
e medicina para auxiliar na reflexão sobre a dicotomia, sempre
permanente na academia, entre especialização e formação geral.
Salta aos olhos, hoje em
dia, o grau de especialização que a medicina alcançou nos
últimos tempos. Na área de traumatologia, por exemplo, dificilmente
encontramos, em clínicas mais sofisticadas, um ortopedista
que atenda pacientes que reclamam de dores em várias partes
do corpo. Com certeza, há médicos especializados em pés, outros
em joelhos, outros em dores lombares e assim por diante. Não
está distante o dia em que encontraremos especialistas de
joelho diferenciados, um para ligamentos, outro para menisco,
outro para tendão etc. Sem dúvida, a crescente especialização
nas várias áreas médicas traz inúmeros benefícios, pois um
determinado problema tem como assistente um profissional que
é profundo conhecedor daquele problema. Inclusive hoje
já é bastante comum as pessoas em geral desconfiarem de profissionais
das áreas médicas que ainda não se especializaram o
suficiente.
No entanto, em nível mundial,
existe, atualmente, uma discussão de fundo ético, sobre a
validade dessa crescente especialização. Como exemplo desta
verdadeira polêmica – infelizmente de primeiro mundo somente
– temos o último livro da trilogia de Noah Gordon, intitulado
Doutora Cole. Os dois primeiros livros de Gordon –
O Físico e Xamã – são uma espécie de história
da medicina nos séculos XII e XVIII, sob a forma de romance
em que os personagens principais são membros de uma família
de médicos que tinham o dom especial de prever a morte. Em
Doutora Cole, ambientado nos anos noventa do nosso
século, a primeira médica da história da família discute exatamente
a polêmica acerca da especialização na medicina, polêmica
traduzida pela sua opção em deixar sua especialidade e, com
isso, abrir mão de um ótimo ganho anual, para ser médica de
família numa cidade do interior dos Estados Unidos. A opção
feita pelo autor entre as duas possibilidades do exercício
da medicina torna-se clara quando a personagem principal do
livro não se arrepende da decisão tomada a partir do momento
que descobre que as doenças, em geral, que as pessoas apresentavam
estavam sempre ligadas a um histórico familiar que não envolvia
somente aspectos biológicos. Talvez a “incerteza” da medicina
resida exatamente aí: na não certeza absoluta que quanto mais
especializado for o profissional, melhor médico será. O que
se passa hoje em nossas faculdades e universidade brasileiras
não parece ser muito diferente dessa “incerteza” da medicina.
Assistimos nos últimos anos
um crescente aumento dos cursos de mestrado e doutorado nas
ciências humanas. Antes, praticamente só havia cursos de pós-graduação
no eixo Rio-São Paulo; hoje o Brasil todo tem seus mestrados
e doutorados, resultado natural da qualificação de professores
durante as décadas de oitenta e noventa que, ao retornarem
para suas universidades, passaram a vislumbrar a possibilidade
de criar novos programas. Nos últimos anos, com a criação
e a organização das agências nacionais de fomento e avaliação
– Capes e CNPq – e o grande número de pós-graduações no Brasil,
verificou-se a diminuição do tempo para os alunos integralizarem
seus cursos. Com o recente aumento na oferta de cursos de
doutorado, os prazos para a conclusão do curso de mestrado
diminuíram praticamente na mesma proporção. Já se fala oficiosamente
em diminuir também os prazos para o doutorado em virtude das
pós-graduações se caracterizarem como programas conjuntos,
onde é comum o aluno fazer os dois cursos no mesmo lugar.
Outro fator determinante para o encurtamento da duração das
dissertações e teses é a cobrança sistemática que as agências
oficiais de fomento e avaliação fazem aos próprios programas
de pós-graduação. Professores e alunos devem ter, segundo
parâmetros pré-estabelecidos, uma gama de atividades que,
somadas, indicam o grau de produtividade do programa e o habilita
ou não a continuar existindo e recebendo financiamentos, bolsas,
incentivos etc.
Nas universidades, até independente
dos programas de pós-graduação, os professores estão submetidos
a uma contínua avaliação de suas atividades, cuja produtividade
o habilita a subir alguns degraus na carreira – como nas universidades
estaduais do Paraná -, ou a ter um acréscimo ao seu salário
– como nas universidades federais -. Sem pretender fazer uma
análise profunda dessa realidade, o fato é que às vezes tem-se
a impressão de que os professores têm que disputar, ano a
ano – ou bienal, trienal, dependendo da universidade -, uma
espécie de ATP tour,
ou seja, têm que defender seus “pontos” de anos anteriores
para não cair no ranking e ser penalizado. A palavra de ordem
nas nossas universidades hoje em dia parece ser “corrida pela
quantidade”; quantidade de artigos, bancas, eventos, cargos.
Paralelamente a esses novos
instrumentos de quantificação e avaliação do desempenho docente,
mas fazendo parte do mesmo contexto, encontra-se uma lógica
de motivação pragmática da formação dos futuros cientistas
e professores universitários. Os programas de Iniciação Científica,
os grupos PET, os inúmeros projetos de pesquisa, ensino e
extensão que são desenvolvidos em nossas universidades estão
contribuindo positivamente para a inserção no mundo da ciência
de milhares de estudantes que, desde cedo, tomam gosto pela
carreira acadêmica e, quando chegam nos cursos de pós-graduação,
encontram-se realmente bem preparados para fazer suas pesquisas.
Como conseqüência deste fato, a média de idade dos novos mestres
e doutores tem caído muito nos últimos anos. Hoje, em departamentos
de universidades que há quinze anos atrás contavam com dois
ou três doutores, a grande maioria já atingiu ou está na iminência
de atingir esse grau acadêmico. Praticamente não há intervalos
entre o final da graduação e o doutorado.
Pois bem! Apesar de comungar
com a idéia de que é necessário que as nossas universidades
e agências de fomento continuem investindo maciçamente na
qualificação docente, resultando num incremento cada vez maior
no número de mestres e doutores, gostaria de chamar a atenção
para algo que me parece passar um tanto despercebido nesse
processo. A “corrida” pela pós-graduação gera necessariamente,
por parte do pós-graduando, uma opção por determinado tema,
linha de pesquisa ou autor, que comumente se torna objeto
de pesquisa tanto no mestrado como no doutorado. Com certeza,
o resultado dessa formação é bastante satisfatório tendo em
vista aquela especialidade escolhida. Com certeza também,
os produtos excedentes da pesquisa – eventos, artigos, futuros
projetos – serão da mais alta qualidade e merecedores de mais
investimento. Essa especialização continua firme depois da
pós, pois o recém mestre ou doutor, ao entrar ou retornar
para uma universidade, vai continuar desenvolvendo suas atividades
científicas no âmbito da especialidade, criando ou alargando
grupos de pesquisa, orientando alunos da graduação etc.
No entanto, o resultado
dessa especialização para o exercício da docência, principalmente
na graduação, é que me preocupa. O aumento da especialização
das ciências humanas acontece na proporção da desvalorização
– consciente ou não – do professor que tem uma formação mais
ampla, geral, universal.
Todos os professores, até por dever de ofício enquanto pesquisadores,
acabam se tornando especialistas em algum tema e, a partir
de dado momento, dedicam sua vida acadêmica ao desenvolvimento
de estudos relativos àquele tema. No entanto, a grande maioria
dos professores que tiveram sua qualificação em décadas passadas,
são aqueles que têm uma formação mais geral e universal o
que compreende um domínio competente do vasto campo de atuação.
Pensemos, por exemplo, o
curso de Pedagogia e, mais especificamente, a área de Fundamentos
da Educação. As disciplinas que compreendem essa área devem
fornecer ao aluno uma visão histórica, filosófica, sociológica
e psicológica da educação, comumente desde a antiguidade clássica
até os dias atuais. Ora, deste vasto universo, os professores
elegem, naturalmente, um tema para ser pesquisado com profundidade
e por longos anos. No entanto, os professores que têm uma
formação mais geral conseguem transmitir o conteúdo específico
de uma dada disciplina sem perder a didática e a competência,
pois, entendem que até para conseguir dar conta de um tema
específico de pesquisa devem possuir uma visão de conjunto,
uma visão universal. Um tema de pesquisa geralmente compreende
uma pequena parte de uma disciplina, sendo que o restante
dela obriga que o professor se preocupe com uma formação mais
genérica para o pleno exercício de sua profissão.
O fato preocupante no atual
contexto consiste em que a formação genérica dos nossos professores
acaba sendo deixada de lado em prol da precoce e contínua
especialização dos atuais e futuros professores das “safras”
mais recentes. A conseqüência para a docência, principalmente
nas salas de graduação, é a dificuldade em se trabalhar com
tranqüilidade e competência toda uma gama de conteúdos que
vai além daquilo em que se especializou. Não sou idealista
a ponto de achar que todos os professores teriam que ter uma
formação universal apurada, como a que encontramos em autores
clássicos. Não posso, porém, me contentar com uma realidade
que, em nome da produção em série de jovens cientistas em
universidades, desloque para um segundo plano a formação ideal
para o exercício da docência. Sempre nos colocamos como críticos
do ensino fundamental que esfacela o conteúdo das disciplinas
como se fossem gavetinhas separadas e que não proporcionam
ao aluno uma visão inter e multidisciplinar. Raramente somos
críticos de nós mesmos: ao não refletirmos sobre a especialização
precoce e contínua de nossos professores universitários, corremos
o risco de também criarmos tantas gavetinhas quanto nossas
pesquisas permitirem.
A especialização na medicina
já encontra resistência em algumas partes do mundo. Ninguém,
em sã consciência, nega os efeitos altamente benéficos das
pesquisas médicas resultantes das especialidades. No entanto,
o que se critica é a lógica que está por detrás, ou seja,
o enxergar o homem não como um conjunto orgânico, biológico,
psicológico e social, mas como uma somatória de partes que
podem ser tratadas separadamente. Essa lógica é a do capital.
Essa lógica permite que os médicos, quanto mais especialistas
forem, quanto mais competentes se mostrarem, mais ricos se
tornam, mais status adquirem e mais se distanciam da
grande maioria das pessoas que não possuem recursos para um
tratamento tão sofisticado.
A lógica pragmática da produção
precoce e contínua dos cientistas especialistas com certeza
trará ótimos resultados para a ciência no Brasil, mas isto
impede a preocupação com o reverso da medalha, pois há que
se preocupar também com a formação dos nossos professores.
O profissional da educação, cada vez mais especializado, está
se tornando também um bom professor? Creio que a resposta
a essa pergunta pode revelar uma situação no mínimo preocupante.
A resposta, porém, a essa pergunta pode sugerir, também, que
esse tema receba uma atenção maior por parte da comunidade
universitária.