Para compreendermos o sentido da
sociologia como disciplina na grade curricular do Ensino Médio
deveremos, antes de tudo, compreender os objetivos que por
meio dela se pretende atingir. Esses objetivos podem ser divididos
em duas classes: os que são específicos para a disciplina
e os que não se restringem a ela, indo ao encontro dos que
foram traçados para o Ensino Médio a partir da Lei n.º. 9.394,
de 1996.
Entretanto,
antes de se estabelecer os objetivos para a disciplina, deveremos
dimensionar a importância da sociologia enquanto disciplina
do nível médio de ensino, o que significa perguntar sobre
seu sentido, buscar compreender o que ela tem de específico
que não encontramos nas disciplinas de história, geografia
ou filosofia; enfim, perguntar qual sua especificidade em
relação às demais disciplinas de humanidades. Essa pergunta
não é de fácil resposta e todo pesquisador da área de ciências
humanas sabe que as fronteiras entre as suas diversas áreas
são bastante tênues. E acrescenta-se a isso o fato de que
transformar os saberes científicos em saberes escolares implica
em um grau de diferenciação e criação de identidades entre
as diversas disciplinas. A história e a geografia, provavelmente
devido à longa tradição no meio escolar, estão bem estabelecidas,
possuem um discurso construído sobre a realidade já aceito
e amplamente disponível para todos os professores. A sociologia
conta com este agravante, qual seja, construir um saber organizado
de modo a ser viável sua introdução no nível médio de ensino.
É importante ressaltar que as ciências possuem fronteiras
dadas, antes de tudo, por divisões políticas internas e, em
se tratando de ensino médio, é preciso criar essas diferenças
e afirmar uma identidade para a sociologia se desejamos sua
re-introdução neste segmento de ensino.
Mas isto
não responde à questão proposta: o que marca a especificidade
da sociologia e torna importante sua introdução nos meios
escolares? Algumas tentativas de resposta têm sido formuladas.
O filósofo
e sociólogo Gilson Teixeira Leite (Jornal A Gazeta
em 11/12/00) afirmou que “se é imprescindível dominar a informática
e todas as novas tecnologias para uma colocação qualificada
no mercado de trabalho, também se faz necessário, no universo
educacional, problematizar a vida do próprio aluno, sua existência
real num mundo real, com suas implicações nos diversos campos
da vida: ético-moral, sociopolítico, religioso, cultural e
econômico”. E conclui que “a volta das disciplinas humanísticas
– filosofia, sociologia, antropologia, psicologia, entre outras
– tem muito a contribuir com a formação do jovem naquilo que
lhe é mais peculiar: o questionamento. Desmistificando ideologias
e apurando o pensamento crítico das novas gerações, poderemos
continuar sonhando, e construindo, um país, não de iguais,
mas justo para mulheres e homens que apenas querem viver”.
Isto
nos remete à contribuição que a sociologia pode dar para o
desenvolvimento do pensamento crítico, não porque teria um
conteúdo imprescindível – não devemos pensar de modo messiânico
na sociologia. Nem o pensamento crítico se desenvolve devido
à aprendizagem de algum tipo especial de conteúdo. Como Gilson
bem expressou, a sociologia tem a contribuir para o desenvolvimento
do pensamento crítico, ao lado de outras disciplinas, pois
promove o contato do aluno com sua realidade, e podemos acrescentar,
bem como o confronto com realidades distantes e culturalmente
diferentes. É justamente nesse movimento de distanciamento
do olhar sobre nossa própria realidade e de aproximação sobre
realidades outras que desenvolvemos uma compreensão de outro
nível e crítica.
A cientista
política Marta Zorzal e Silva (Gazeta Mercantil, 11/12/00),
numa interessante reflexão sobre as mudanças no mundo contemporâneo
– no campo das tecnologias, nas relações de trabalho e nas
relações culturais – afirma que a informação tornou-se elemento
estratégico para o mundo globalizado devido “aos impactos
dos processos que têm sido denominados de globalização”.
A autora
ainda observa que “a informação em si é um dado bruto (...)
o ato de transformar a informação em conhecimento não é uma
tarefa simples. Exige capacidade de processamento da mesma.
Significa (...) saber o que pode ser feito com os “tijolos
de saberes” que o sistema de ensino fornece (...) isto implica
em capacidade de raciocínio, de questionamento, do confronto
de outras fontes e experiências, enfim, habilidades que se
adquire ao ser treinado a ver os mesmos panoramas a partir
de diferentes perspectivas. Essa é a habilidade que se adquire
por excelência com o estudo das ciências humanas e, em especial,
com a filosofia e a sociologia. É da essência destes campos
de conhecimento a tarefa de desenvolver o pensamento, sem
nenhuma utilidade ou objetivo prático. A preocupação maior
está em educar o olhar e processar tanto informações como
saberes já produzidos”.
Diante
do desafio de nosso tempo ela questiona a nossa capacidade
de desenvolvermos o gerenciamento da informação para que possamos
ter competitividade no mercado global. Mas lembra que a maioria
dos países do Leste Asiático superou suas condições e tornaram-se
competitivos. Entre os vários fatores que permitiram esse
avanço, Marta Zorzal afirma que se destaca a educação: “todos
construíram sólidos alicerces fundados na boa educação pública
estendida a maioria da população”. Mas a educação deve conter
esse aspecto de permitir o confronto de diferentes perspectivas
e que é por excelência o que faz a sociologia.
O conhecimento sociológico certamente
beneficiará nosso educando na medida em que lhe permitirá
uma análise mais acurada da realidade que o cerca e na qual
está inserido. Mais que isto, a sociologia constitui contribuição
decisiva para a formação da pessoa humana, já que nega o individualismo
e demonstra claramente nossa dependência em relação ao todo,
isto é, à sociedade na qual estamos inseridos. Segundo a socióloga
Cristina Costa “o conhecimento sociológico é mais profundo
e amplo do que a simples formação técnica – representa uma
tomada de consciência de aspectos importantes da ação humana
e da realidade na qual se manifesta. Adquirir uma visão sociológica
do mundo ultrapassa a simples profissionalização, pois, nos
mais diversos campos do comportamento humano, o conhecimento
sociológico pode levar a um maior comprometimento e responsabilidade
para com a sociedade em que se vive” (Sociologia
– introdução à ciência da sociedade, Cristina Costa, Editora
Moderna, 1997).
Os Parâmetros Curriculares Nacionais e a Sociologia
As mudanças propostas pela LDB
de 1996 e pelos PCNs implicam um profundo reordenamento político-pedagógico.
O que significa a construção e implantação de um projeto pedagógico
(organização curricular, orientação metodológica, organização
administrativa, recursos etc.) que se paute efetivamente pelos
seguintes princípios: Flexibilidade, Autonomia, Identidade,
Diversidade, Interdisciplinaridade e Contextualização. Fundamentado
nestes princípios, o objetivo do Ensino Médio está expresso
no vínculo dessa etapa da educação escolar “com o mundo do
trabalho e a prática social”. A orientação é para dirigirmos
nossos programas, atividades, projetos e currículos para a
“preparação básica para o trabalho” e para o “exercício da
cidadania”, que seriam os dois grandes eixos norteadores que
definem o novo sentido para o antigo 2º grau. Essas orientações
estariam norteadas pelos quatro pilares da educação como propõe
a UNESCO: o aprender a conhecer, o aprender a fazer, o aprender
a conviver e o aprender a ser.
A reforma educacional brasileira,
conforme está escrito nos PCNs, reinterpreta esses princípios
afirmando a estética da sensibilidade, a política da igualdade
e a ética da identidade. “A estética da sensibilidade, que
supera a padronização e estimula a criatividade e o espírito
inventivo, está presente no aprender a conhecer e no aprender
a fazer, como dois momentos da mesma experiência humana, superando-se
a falsa divisão entre teoria e prática. A política da igualdade,
que consagra o Estado de Direito e a democracia, está corporificada
no aprender a conviver, na construção de uma sociedade solidária
através da ação cooperativa e não-individualista. A ética
da identidade, exigida pelo desafio de uma educação voltada
para a constituição de identidades responsáveis e solidárias,
comprometidas com a inserção em seu tempo e em seu espaço,
pressupõe o aprender a ser, objetivo máximo da ação que educa”
(PCN para o E. Médio, volume 4).
Ora,
é evidente a contribuição da sociologia no que tange à “compreensão
das práticas sociais”, à “preparação básica para o trabalho”
e ao “exercício da cidadania” ou, ainda, para o desenvolvimento
de uma estética da sensibilidade, uma política da igualdade
e uma ética da identidade. Exatamente devido a essa compreensão,
a LDB, em seu artigo 36, estabelece que “ao final do ensino
médio o educando demonstre (...) domínio dos conhecimentos
de filosofia e sociologia necessários ao exercício da cidadania”;
também a resolução nº 3/98, em seu artigo 10, inciso i, parágrafo
2º, diz que “as propostas pedagógicas das escolas deverão
assegurar tratamento interdisciplinar e contextualizado para
(...) conhecimentos de filosofia e sociologia necessários
ao exercício da cidadania”; por fim, podemos acrescentar,
os PCNs (Ensino Médio, volume 4, na página 11) orientam que
“o objetivo foi afirmar que conhecimentos dessas (...) disciplinas
são indispensáveis à formação básica do cidadão, seja no que
diz respeito aos principais conceitos e métodos com que operam,
seja no que diz respeito a situações concretas do cotidiano
social”.
As orientações
dos Parâmetros Curriculares Nacionais e da LDB de 1996 são,
sem dúvida alguma, fonte de importantes reflexões. E definem
de modo claro a possível contribuição da sociologia enquanto
disiciplina do nível médio, bem como fornecem um programa
de estudos completo por meio de palavras chaves constituídas
de conceitos das ciências sociais mesmo que, até por falta
de tradição das ciências sociais nos meios escolares, os PCNs
não dêem muita importância à discussão metodológica e pouco
orientem para uma didática apropriada ao ensino dessas disciplinas.
No entanto, concordo com Gilson T. Leite que, mais que uma
questão legal, a implantação da sociologia e a re-implantação
da filosofia no ensino médio significa um salto de qualidade
nos projetos pedagógicos de nossas escolas. Que fique claro:
não creio que a disciplina Sociologia seja imprescindível
para a preparação básica para o trabalho e para o desenvolvimento
da cidadania ou do pensamento crítico, porém ela pode contribuir
para esses objetivos estabelecidos para esta etapa da Educação
Básica.
Aqui
é necessário abrir-se um espaço para a discussão sobre o retorno
da Sociologia no Ensino Médio, fruto, em grande medida, de
confusões acerca da própria legislação. Conforme frase do
educador Rui Canário durante explanação de um projeto de intervenção
que coordenou em escolas rurais de Portugal: “Os efeitos valem
mais que as intenções”. Aqui no Brasil, parece-me correto
afirmar que as intenções é que valem mais. A depender dos
Parâmetros Curriculares Nacionais, nossa educação seria uma
das melhores do mundo, em fina sintonia com os ideais e propostas
da Unesco. Mas porque tantas confusões no que tange à interpretação
da LDB e dos PCNs?
No Espírito
Santo, por exemplo, a coordenação da reforma do ensino médio
insistia – até o início do ano de 2001, quando foi derrubado
o veto do governador José Ignácio Ferreira ao projeto de lei
estadual que estabelece obrigatoriedade do ensino de
sociologia e filosofia no ensino médio, Lei nº 6.649, de 11
de abril de 2001 – que conteúdos das disciplinas de ciências
sociais e filosofia deveriam ser trabalhados por outras disciplinas.
A proposta era a seguinte: ou se organizariam módulos de ensino,
ou se diluiriam os conteúdos específicos dessas disciplinas
no programa curricular de história e geografia. Os argumentos
eram os mais absurdos: desde a falta de professores em número
suficiente – ainda que não se disponha de dados nesse sentido
– até o aumento de despesa com pessoal.
A mais
absurda de todas as justificativas levantadas para vetar a
inclusão das disciplinas, no entanto, é o fato da Lei de Diretrizes
e Bases da Educação e dos Parâmetros Curriculares Nacionais
não “determinarem” o ensino da sociologia e da filosofia por
meio de disciplinas. De fato, a Lei 9.394/96, em seu Artigo
36, Parágrafo 1º, item III, reza que ao final do Ensino Médio
o educando deverá demonstrar “domínio dos
conhecimentos de filosofia e de sociologia necessários para
o exercício da cidadania”, mas não estabelece
que seu ensino seja incluído entre as disciplinas do núcleo
básico, aquelas consideradas obrigatórias. Os PCNs
para o Ensino Médio, volume 4, na página 11, após referir-se
aos conhecimentos da história, geografia, sociologia, filosofia,
antropologia, direito, política, economia e psicologia, estabelecem
que “tais indicações não visam a propor à escola que explicite
denominação e carga horária para esses conteúdos na forma
de disciplinas”. E mais adiante, na página 22, afirma
que esses conteúdos “agrupados e reagrupados, a critério da
escola, em disciplinas específicas ou em projetos, programas
e atividades que superem a fragmentação disciplinar (...)”.
Ora, a LDB, que tem força de lei, não orienta sobre o modo
de introdução desses conhecimentos. Já os PCNs deixam em aberto,
mas não descartam a possibilidade de organização de disciplinas,
que ficaria a critério da escola. É interessante observarmos,
ainda, que tratam num mesmo nível de importância a história,
a geografia, a sociologia ou a filosofia. Portanto, afirmar
que não devemos estabelecer as disciplinas nos currículos
escolares por coerência à lei é distorcer as orientações contidas
nesses documentos que em nenhum momento proíbem sua implantação.
E se lançarmos mão desse argumento ele terá que servir também
para a história e geografia, o que nos leva ao ponto inicial.
A questão a ser levantada aqui
é se é possível uma aprendizagem significativa da percepção
sociológica na forma proposta. Creio que não. E me valho de
um argumento do professor Howard Gardner, autor de “O Verdadeiro,
O Belo e O Bom”, para o qual a aprendizagem de formas de
pensamento somente são efetivas se os alunos têm contato
direto com especialistas da área em questão. O papel do especialista
torna-se muito importante neste caso, a não ser que o objetivo
seja a transmissão pura e simples de conteúdos conceituais,
o que contraria de modo gritante a orientação dos PCNs. E
a experiência tem demonstrado que o trabalho com a sociologia
no nível médio de ensino causa grande “impacto” na mente dos
educandos, o que faz com que a matéria precise de tempo para
ser bem trabalhada e “digerida”. Então, cabe-nos algumas perguntas
– que deveriam ser feitas pelos gestores da educação pública:
a proposta de diluição de conteúdos é coerente com que princípio,
projeto pedagógico ou objetivo pensado para a sociologia?
O currículo deve atender meramente a uma exigência legal?
Será que os alunos terão domínio de conteúdos de sociologia
e filosofia ao fim do ensino médio com seu estudo diluído
ou feito por “módulos”?
O sentido e a especificidade do ensino
sociológico: desenvolver uma nova atitude cognitiva
A discussão
iniciada nos itens anteriores abre-nos um campo interessante
de reflexão que merece ser explorado; as respostas sobre a
importância e especificidade da sociologia referem-se tanto
a uma abordagem especial – que nenhuma outra disciplina promoveria
–, quanto aos conteúdos de nossa ciência – seu quadro teórico-conceitual.
Estaria
o sentido do ensino de sociologia na construção de um plano
curricular? É tecendo um elenco de conceitos ou temáticas
que estaremos delimitando o campo da disciplina nos currículos
do ensino médio? Temos dado muita ênfase ao velho debate acerca
do ensino conceitual ou temático que não fazem mais que tornar
o professor de sociologia um arquiteto de planos de curso,
empobrecendo a possibilidade da sociologia na escola na mesma
medida em que a aproxima dos conhecimentos já instituídos,
que fornecem retratos de um mundo estático e a falsa identidade
do saber com a noção corrente de verdade.
Creio
ser interessante nos voltarmos exclusivamente, neste momento,
para a abordagem específica da sociologia ou das ciências
sociais sobre a realidade humana como meio de tornarmos ainda
mais precisa sua distinção em relação às demais disciplinas
do nível médio e, a partir disto, explicitarmos sua importância
e sua identidade. Para isto, quero começar dando um exemplo
tirado de outra área.
A professora
Ana Cláudia Nahas, Professora de Produção de Texto e Coordenadora
da área de Educação Musical do Centro Educacional Leonardo
Da Vinci, fez essa mesma reflexão em certo momento: qual a
especificidade da Educação Musical, que lhe garante significado
enquanto disciplina escolar em meio a outras disciplinas estéticas?
A que conclusão ela chegou? Que a música não tem sua importância
por desenvolver, dizendo de um modo geral, a sensibilidade
estética dos alunos. Ora, desenvolver a sensibilidade é algo
que pode ser feito pelas Artes Plásticas, pela Dança e pela
Literatura. A sensibilidade para o Belo é desenvolvida, em
graus diferentes, por diversas disciplinas, inclusive por
outras não ligadas diretamente às artes. Mas a Música guarda
uma especificidade que está relacionada ao desenvolvimento
da sensibilidade auditiva. E nisso ela se difere de qualquer
outra. Este exemplo é interessante porque nos serve de analogia.
A história e a geografia também produzem conhecimentos sobre
o mundo social. E dizer que seus olhares são distintos do
olhar sociológico já virou lugar comum. Que é que tem o olhar
sociológico que é diferente do olhar dessas outras disciplinas?
Uma pista
para respondermos a isto está numa importante reflexão do
antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira em uma aula inaugural
para o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP,
de 1994, e intitulada “O trabalho do antropólogo: olhar, ouvir,
escrever”. Ele discorreu sobre o olhar, o ouvir e o escrever
como atos cognitivos, mas que se revestem de um caráter especial
enquanto constitutivos do conhecimento antropológico e sociológico.
O autor nos lembra que o olhar e o ouvir são disciplinados
pela teoria e possuem uma intencionalidade, isto é, são dirigidos
pela nossa formação em ciências sociais e, portanto, são seletivos.
Nas palavras do autor, “esse esquema conceitual [nossa teoria
social] – disciplinadamente aprendido durante o nosso itinerário
acadêmico, daí o termo disiciplina para as matérias que estudamos
–, funciona como um prisma por meio do qual a realidade observada
sofre um processo de refração”.
Ora,
se ocorre esta domesticação do nosso olhar, do nosso ouvir
e do nosso escrever pela formação disciplinada em ciências
sociais, podemos afirmar que o contato dos jovens educandos
com essas teorias, ainda que formatadas pela didática necessária
ao nível médio de ensino, irá produzir neles uma percepção,
uma compreensão e um modo de raciocínio que nenhuma outra
disciplina poderá produzir. É exatamente essa compreensão
ou essa percepção específica que indica a identidade da sociologia
e que fornece seu sentido enquanto disciplina do ensino médio,
não os seus conteúdos em si mesmos.
Outro
antropólogo, Louis Dumont (Homo Hierarchicus
– o sistema das castas e suas implicações, Louis Dumont,
Edusp, 1997) relata
um acontecimento que ele acredita demonstrar a importância
desse tipo de conhecimento. Diz o antropólogo,
“Permitam-me
aqui uma anedota que apresenta um exemplo surpreendente de
apercepção sociológica. Mais ou menos no final da preparação
para o Certificado de etnologia, um condiscípulo que não se
destinava à etnologia contou-me que lhe sucedera uma coisa
estranha. Ele me disse mais ou menos o seguinte: outro dia,
num ônibus, percebi de repente que não olhava para os meus
companheiros de viagem como de costume; alguma coisa havia
mudado em minha relação com eles, em minha maneira de me situar
com relação a eles. Não havia mais “eu e os outros”; eu era
um deles. Durante um longo momento me perguntei pela razão
dessa transformação curiosa e repentina. De repente ela me
surgiu: era o ensinamento de Mauss”. Conclui Dumont: “O indivíduo
de ontem sentia-se social, percebera sua personalidade como
ligada à linguagem, às atitudes, aos gestos, cuja imagem era
devolvida pelos vizinhos. Eis o aspecto humano essencial de
um ensino de etnologia”.
Podemos
acrescentar: eis o sentido do ensino de sociologia. Mais que
desvelar os chamados “problemas sociais” ou de ensinar um
elenco sem fim de conceitos, o desenvolvimento da apercepção
sociológica a que se refere Dumont é de fundamental importância.
Para este autor, a sociologia atua contra a mentalidade
individualista do homem moderno. Foi com o advento da modernidade
e a formação das sociedades capitalistas que a ideologia individualista
se constituiu em ideologia hegemônica, fornecendo a base para
as representações ainda vigentes sobre o indivíduo, as relações
ou interações humanas ou a política. Somente com o devido
distanciamento de nossa própria sociedade e por meio de um
olhar comparativo podemos perceber que nossa visão de mundo
é mais uma entre tantas outras igualmente legítimas, resultantes
do fato de que outros homens, de distintos lugares e tempos,
organizam-se e vivem de maneiras diferentes da nossa. Tanto
quanto essa apercepção nos permite, num duplo movimento, compreender
nossa própria realidade pela descoberta inusitada de aspectos
e relações antes insuspeitas. E assim chegamos à compreensão
do quanto há de dependência onde vemos liberdade, do quanto
há de diferença onde pensamos homogeneidade e do quanto há
de hierarquia quando insistimos em ver igualdade. Talvez aí
esteja a grandeza do estudo e ensino da sociologia: rasgar
os véus das representações sociais e compreendê-las sob uma
nova ótica, elas próprias como produtos sociais.
A apercepção
sociológica de que trata Dumont não é fruto tão somente do
conhecimento cognitivo de teorias sociais, pois se dá por
meio do olhar e do ouvir como bem descreveu Roberto Cardoso
de Oliveira, mas não de um olhar e um ouvir quaisquer, porém
educados de um modo todo especial, como nos lembra Marta Zorzal.
Um olhar e um ouvir disciplinados pelo quadro teórico-conceitual
e pela experiência em campo. No entanto, não podemos esperar
muita “experiência de campo” no Ensino Médio, nem é nosso
objetivo formar sociólogos ao fim dessa etapa do ensino escolar.
Aqui, trata-se de promover o contato cognitivo do aluno com
o pensar sociológico ainda que, na medida do possível, por
meio da organização de algumas possibilidades de experiência
com pesquisa.
A questão
metodológica fundamental é: seja qual for o conteúdo, ele
será sempre um meio para se atingir o fim: o desenvolvimento
da perspectiva sociológica. Mais que discorrer sobre uma série
de conceitos, a disciplina pode contribuir para a formação
humana na medida em que proporcione a problematização da realidade
próxima dos educandos a partir de diferentes perspectivas,
bem como pelo confronto com realidades culturalmente distantes.
Trata-se de uma apropriação, por parte dos educandos, de um
modo de pensar distinto sobre a realidade humana, não
pela aprendizagem de uma teoria, mas pelo contato com diversas
teorias e com a pesquisa sociológica, seus métodos e seus
resultados. Nesse sentido, o objetivo do ensino de sociologia
como, aliás, deveria ser o de qualquer ciência, é proporcionar
a aprendizagem do modo próprio de pensar de uma área do saber
aliada à compreensão de sua historicidade e do caráter provisório
do conhecimento – expressões da dinâmica e complexidade da
vida.
No caso
da sociologia, isso pode ser conseguido por meio de uma tomada
de consciência sobre como a nossa personalidade está relacionada
à linguagem, aos gestos, às atitudes, aos valores, à nossa
posição na estrutura social – nas palavras de Dumont: para
que o indivíduo de ontem torne-se social, não mais ele
e os outros, mas ele em meio aos outros. E isso
por meio da aproximação da metodologia de pesquisa à metodologia
de ensino, bem como por ações pedagógicas que busquem desvelar
e discutir narrativas sociais, sejam elas científicas, literárias
e outras – suas implicações, seus dilemas, o que falam da
heterogeneidade cultural e da estrutura social. Ensinar sociologia
é, antes de tudo, desenvolver uma nova postura cognitiva no
indivíduo.
Pode-se
mesmo argumentar que tais competências também podem ser desenvolvidas
pelas disciplinas de história e geografia, mas este é um argumento
que não se sustenta. Senão vejamos, a história e a geografia
podem tratar as questões referentes à crítica social e à diversidade
cultural, mas de um modo secundário ou periférico; outras
vezes numa perspectiva descritiva. Não se trata de objetivos
principais de suas propostas. Além do que, tradicionalmente
essas disciplinas têm-se voltado para “conteúdos” exigidos
principalmente pela instituição do vestibular. Por fim, existe
uma distância muito grande entre as discussões temáticas –
reforma agrária, exclusão social, mudança social, sexualidade,
democracia, consumismo, representação política, família, direitos
humanos, sindicato, gênero, violência etc – e o desenvolvimento
de modos de pensar.
Seria impossível, no entanto, codificar
as reações de espanto e curiosidade ou as mudanças sutis de
percepção e linguagem produzidas nos jovens que já tiveram
o privilégio do contato com a ciência social. Menos no trato
com as teorias sociais e mais na postura dos alunos diante
da vida em sociedade; menos no discurso informado por conceitos
sociológicos – às vezes bem complexos –, mais nos olhares
de quem se encontra em face de um enigma é que se pode aferir
quão importante se torna para os alunos a descoberta sobre
como nossa vida é perpassada por forças nem sempre visíveis
– por nossa simples pertença a um grupo social. E não a um
grupo social qualquer, mas a esse grupo, com sua identidade,
posição na estrutura social, símbolos e recursos de poder.
Quando o aluno compreende que os cheiros, os gestos, as gírias,
as tensões e conflitos, as lágrimas e alegrias, enfim, o drama
concreto dos seus pares, é em grande medida resultante de
uma configuração específica de seu mundo, então a sociologia
cumpriu sua finalidade pedagógica. No fim das contas, é a
cidadania e a democracia de nosso país que saem ganhando.
Espero, com esses pensamentos,
contribuir para a construção de um sentido para a nossa disciplina
no ensino médio. Num esforço de esquematização podemos afirmar
que precisamente os três objetivos gerais analisados nos itens
anteriores – (1) construção da cidadania por meio da formação
dos cidadãos; (2) preparação básica para o trabalho por meio
do entendimento das novas formas de organização do trabalho
e da produção em tempos de globalização; (3) promoção de uma
compreensão sociológica da realidade na qual estamos inseridos
especialmente pelo desenvolvimento de seu modo específico
de pensar – constituem a preocupação fundamental que deve
nortear o ensino da sociologia e justificar a sua inclusão
na grade curricular do Ensino Médio.