Maringá é enaltecida pela qualidade
de vida que oferece. Os parques florestais são fontes de saúde
e lazer e até mesmo os seus pequenos habitantes extasiam crianças
e adultos admirados com o espetáculo da natureza. As árvores
embelezam a paisagem urbana e enlevam os espíritos amantes
da natureza, tornando o simples caminhar um deleite.
Maringá é acolhedora em sua essência
e origens. Migrantes e imigrantes construíram-na e fincaram
raízes nutridas pelo trabalho de gerações. Maringá tem vocação
para prosperar econômica e socialmente. Cidade universitária,
concentra uma população jovem, ávida de progredir e fator
irrigador do comércio pujante local.
Maringá possui uma estrutura de
serviços invejável para cidades do mesmo porte. Destacam-se
áreas como a da saúde, cujas especialidades são tão múltiplas
quanto as necessidades do corpo. Também é notável a quantidade
de farmácias, o que pode gerar a falsa impressão de que vivemos
num habitat enfermo.
Maringá tem inúmeras qualidades
que a credenciam como uma cidade do presente e do futuro,
uma das melhores para se viver. Mas, há outra Maringá que
não convém apologizar. É a Maringá dos ausentes dos bancos
universitários; dos que não podem consumir os serviços dos
hospitais privados e especialistas da área da saúde; dos que
vivem em bairros sem acesso à saúde pública de qualidade,
às melhores escolas, sem oportunidades de emprego.
Há uma Maringá opulenta, bela e
sedutora, que oculta outra cidade onde campeia a desigualdade
social, a inexistência de infra-estrutura à altura das necessidades
sociais e cujos trabalhadores ganham salários tão baixos que
outras categorias profissionais mais aquinhoadas são vistas
como elite. Há uma Maringá rica e acessível à classe média
alta e remediada e inacessível para boa parcela da população.
Há uma Maringá harmoniosa que, à maneira de Admirável Mundo
Novo de Aldous Huxley, esconde uma Maringá prenhe de contradições
e selvagem.
Mas há também esperança. A condução
de um governo de esquerda ao poder municipal expressou não
apenas a rejeição à velha forma de fazer política e aos vícios
e corruptos, mas também a perspectiva de acesso a bens e serviços
que melhorem a qualidade de vida como um direito universal.
A administração atual herdou uma
massa falida, fruto da extorsão e da avidez privada que assaltou
os cofres públicos. O governo municipal, em que pese as dificuldades
financeiras, tem a complacência da maioria da população, a
qual compreende a gravidade da situação e pacientemente espera.
Este governo teve ainda a seu favor uma atitude benevolente
por parte do legislativo.
Tudo parece harmonioso. Porém,
a longa lua-de-mel parece findar-se e as exigências políticas
e sociais se intensificam. As expectativas eleitorais dos
partidos e forças políticas locais estão em consonância com
as exigências estaduais e nacionais Os interesses econômicos
e políticos tendem a se explicitar e a acirrar as contradições..
A administração tem mantido o apoio
majoritário e tomado iniciativas – em especial, o orçamento
participativo – que merece elogios. Está no caminho certo.
Mas seu raio de ação é limitado pela inexistência de recursos
para investimentos. Porém, os problemas sociais exigem soluções,
criatividade e opções políticas. Chega a hora de definições:
qual das duas ‘Maringás’ deverá ter a prioridade da
ação governamental? É possível governar para todos os interesses?
Afinal, para que serve um governo
de esquerda senão para alavancar as condições de vida dos
que não possuem recursos privados para ter acesso aos bens
básicos. O que diferencia um governo de esquerda? A transparência
administrativa? O discurso pela ética e pela moralização da
política? O apelo à cidadania e à democracia? As louváveis
intenções de salvaguardar o aspecto social? Mais do que a
invocação da moral e o uso da retórica, uma administração
de esquerda se diferencia sobretudo pelo projeto político,
econômico e social e pela prática concernente à sua execução.
Ainda temos tempo...
ANTONIO
OZAÍ DA SILVA