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ALEXANDER MARTINS VIANNA
Mestre em História Social e Doutor pelo PPGHIS -UFRJ

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Mundialização da consciência: o complexo cognitivo-afetivo
de Palomar
Alexander Martins Vianna
Configuração cultural dos dilemas
sociais pós-fordistas
Na década de 1960, foi se configurando
uma situação mundial de incertezas com relação aos rumos do
progresso material da humanidade, particularmente ligadas ao receio
de um holocausto nuclear, que alimentou a desilusão com a noção
iluminista de progresso da razão. Além disso, com o processo
afro-asiático de descolonização, a configuração de uma identidade
“terceiro-mundista” e, depois, a condução autoritária e socialmente
excludente de seus diversos processos locais de modernização
industrial desenhariam uma atmosfera intelectual de sonho perdido e
de receio de desastre ambiental, particularmente intensificada sob
os efeitos da crise mundial econômica das décadas de 1970 e 1980.
Nos centros do capitalismo mundial, as
instituições políticas democráticas e os partidos políticos de
esquerda, ainda enraizados em uma forma de identidade
político-sindical, pareciam insensíveis às novas formas de
identidades políticas e projetos de reformas sociais, jurídicas,
culturais e curriculares atentas às questões relativas a gênero,
sexualidade, etnicidade, religião, identidade cultural, meio
ambiente, tolerância, formas alternativas de lazer, direitos das
minorias, direitos da mulher, etc., que buscavam espaços próprios de
representatividade política e arenas de debate.
Neste mesmo contexto, no meio acadêmico,
particularmente na área de ciências humanas, a crença nas grandes
sínteses explicativas foi aos poucos solapada por uma leitura mais
antropologizante da realidade social, ocupando aos poucos o
espaço dos estruturalismos sociológico, demográfico e economicista
de explicação da vida social. Portanto, a fragmentação das
abordagens nas ciências sociais e uma certa descrença na
possibilidade de explicar a vida social, ou o processo histórico, a
partir de grandes sínteses teleológicas, coincidiram com o fim dos
“trinta anos gloriosos”, que convidou muitos intelectuais a revisar
as abordagens centradas em “séries homogêneas” ou “lineares” e em
“constantes estruturais”.
Toda esta posição de descrença no
potencial explicativo das grandes sínteses globais vem no bojo da
crítica cultural à noção iluminista de sujeito de razão,
entendida, então, como opressivamente niveladora das diversidades
culturais, insensível às diferenças de gênero e suscitadora de uma
noção de progresso perigosa e destrutiva para o meio ambiente e a
vida social. No entanto, poderíamos afirmar, utilizando as
delimitações sugeridas por Krishan Kumar, que o projeto de
sujeito de razão que entrou em crise foi justamente aquele cujas
tentativas filosóficas buscavam um consenso sobre a razão e
uma história dedutiva da modernidade. (KUMAR, 1997: 181-192)
Em vez disso, poder-se-ia buscar um
projeto moderno mais baconiano, ou seja, aberto à experimentação,
justamente porque mantém a tensão interpretativa entre sujeito e
mundo – uma tensão necessária para o próprio progresso do pensamento
racional e do bom senso, como pensava Voltaire.(VIANNA, 2004) Aliás,
desde a década de 1960, Lucien Goldmann já havia demonstrado tal
possibilidade com o estudo do trágico, da noção de aposta em Pascal
e suas relações, segundo o seu entendimento, com a dialética de
Marx. Deste modo, abria-se a possibilidade de pensar o real
como uma hipótese filosófica simultaneamente intra e extra
sujeito.(GOLDMANN, 1994)
Hoje, vivemos o processo da globalização
no mesmo instante que observamos o declínio da vitalidade da vida
pública. Nos grandes centros e periferias do capitalismo mundial,
podemos observar que a população, particularmente aquela parcela em
situação de risco social, tendeu a confiar mais em redes informais
de famílias, vizinhos e amigos do que em arranjos institucionais
impessoais, assim como, tendeu a dar ênfase aos direitos individuais
de efeitos práticos imediatos, em vez dos coletivos, como meios de
proteção e de segurança mais confiáveis. Assim, observamos a
hegemonia comportamental da lógica do mercado e do individualismo
irrestrito, em que a metáfora competitiva do jogo progressivamente
invade o vocabulário e o modo de ser dos relacionamentos pessoais,
afetivos e profissionais.(BAUMAN, 1998)
Deste modo, consolida-se o hábito de
encarar o ambiente social imediato como necessariamente ameaçador e
incontrolável: sair de casa tornou-se o ato de encontrar um mundo
crescentemente incômodo, sujo e perigoso. E se você é
suficientemente abastado para efetuar compras na internet de casa,
morar em condomínios luxuosos fechados ou freqüentar o circuito
arquitetônico dos grandes shopping centers, você poderá,
então, evitar tal incômodo contato humano e, ilusoriamente, ter a
sensação de que determinados problemas sociais não atingem a sua
classe social – pelo menos, até o próximo “174” acontecer bem
perto de você...
Quando o presente não parece mais
apontar para esperanças de futuro, pode-se viver o “presente eterno”
de consumo, temporariamente consolador, nos shopping centers,
ou – quem sabe? – criar idílios de passado no presente, tal como no
filme “A Vila” (2004), com todas as suas
justificativas centradas em traumas fundadores, medos de aniquilação
e/ou em mitos próprios de ameaça e identidade que conservem,
artificialmente, a fronteira da pureza comunal. No fundo, trata-se
do testemunho de um individualismo escapista dos “economicamente
viáveis” que abriram mão de participar de processos decisórios e de
projetos coletivos de bem-estar social.
O paradoxo de nossa situação é evidente:
numa época em que as pessoas mais podem, em princípio, contar com
maiores recursos para multiplicar os seus potenciais é a mesma que
conduz a uma sensação de impotência, pois as causas do desconforto
parecem remotas e impessoais. No entanto, o paradoxo dessa
existência é característico das sociedades de massa e,
portanto, soluções ou dispositivos “familistas”, “comunitaristas” ou
“individualistas” para resolver os seus problemas são ineficazes, ou
meros paliativos que permitem determinados setores sociais lidarem
com eles como se fossem doenças crônicas mantidas a uma distância
segura. Ora, mas se usarmos a coerência conceitual de Marx em seu “Manifesto
Comunista”, poderíamos afirmar que buscar tais dispositivos é
reacionário ou anacrônico em relação às configurações
sociais e políticas do mundo hodierno.
Crime, desemprego, misteriosos perigos
para a saúde, cidades violentas e belos lugares deteriorados parecem
todos resistentes a qualquer medida prática que se possa tomar
quando o paradigma de ação é reacionário, pois, na prática,
não afeta as anônimas operações das empresas transnacionais e do
mercado financeiro que lucram, não paradoxalmente, com a localização
dos interesses econômicos e financeiros dos Estados. Daí, tal como
Marx constatara há mais de 150 anos, a burguesia transnacionaliza o
capital justamente porque conta com dispositivos
jurídico-institucionais e repressivos que localizam, seletivamente,
o trabalhador. (HARVEY, 1995)
Os problemas relativos à
sustentabilidade ecológica e aos riscos de um desastre global
ambiental deveriam convidar todos a uma mundialização da
consciência e à valorização de projetos coletivos de bem-estar
social e de preservação ambiental. Para tanto, tais projetos
deveriam operar fora da lógica que valoriza os procedimentos do
mercado de ações e que celebra a descoberta de novas reservas de
petróleo como um ganho para o progresso econômico. Afinal, é a
própria matriz energética do mundo atual que deve ser revisada, para
que ocorra efetivamente a redução na emissão de carbono em nossa
atmosfera.
O engodo das clausuras contemporâneas
Num mundo de ameaças globais, qualquer
solução “familista”, “comunitarista” ou “individualista”, tal como
no filme “A Vila”, para problemas que se configuram em
espaços mais abstratos, coletivos e massivos, é ilusória, pois,
querendo ou não, o espaço comprimido pela globalização econômica e
financeira invade o lugar e evidencia, para quem quiser entender,
que não se localiza soluções eficazes e seguras quando o
problema advém de uma escala mundial de interdependência
sócio-econômica. Portanto, o jogo da anônima destruição coletiva
não é alterado através de identidades grupais que localizam
alternativas de segurança na forma de representações coletivas de
pequena escala que, na prática, funcionam como modos de evasão da
esfera pública.
No entanto, nem tudo cabe dentro de uma
visão tão apocalíptica: a globalização também cria a possibilidade
de um novo cosmopolitismo, de uma consciência mundial decorrente de
um novo hábito cognitivo, que entenda o mundo como um processo
inacabado e que crescentemente liga os indivíduos através de
direitos e responsabilidades pelo bem-estar e sustentabilidade
planetários. Assim, poder-se-ia reagir contra a tradição do
universalismo nivelador e arrogante oitocentista sem cair numa
ilusão relativista insuladora ou escapista.(SANTOS, 2000)
Para tanto, deveríamos questionar a noção de globalização
(que, na verdade, ratifica a hegemonia neoliberal desde o Consenso
de Washington em 1989) e afirmar a noção de mundialização.
Ora, isso demanda promover o
cosmopolitismo no seguinte sentido: levantar-se contra todo
etnocentrismo, que privilegia uma única história ou um único
segmento geográfico do globo, assim como as demais formas de
exclusividade comunitarista, para que as identidades possam emergir
do choque de idéias e valores, sem o risco de insular-se;
pois, onde há insulação identitária ou cultural, não há diálogo e
erosão de paradigmas, que são fundamentais para que o mundo
permaneça um processo aberto, inacabado e renovador
de experimentos que coloquem efetivamente a dignidade humana acima
de qualquer espécie de dogmatismo (religioso, sócio-econômico,
cultural, político, etc).(HALL, 1999)
É importante lembrar isso porque,
particularmente com o fim da Guerra Fria, quando se fala em
globalização, há algo não-dito: significa menos a
mundialização da consciência ou a percepção de que o destino das
pessoas está coletivamente deslocalizado no mundo atual, do
que a elevação de um local histórico (branco, anglo-saxão e
capitalista) à categoria de meta ou paradigma universal para
os demais países. Ora, não se supera tal lógica sem a perspectiva
crítica que se cria com o conhecimento histórico, sociológico e
antropológico de outros processos culturais ou civilizacionais. No
entanto, também não se combate a lógica da relação de força que
eleva um lugar à paradigma universal com insulações
culturais ou identitárias.(JAMESON, 1996; BAUMAN, 1998; HALL, 1999)
Portanto, a mundialização
pressupõe diálogo, descentramento e corrosão de paradigmas das
culturas locais, mas não a meta do nivelamento ou da uniformização
civilizacional; caso contrário, o potencial de revisão crítica
perder-se-ia no próprio processo de diálogo. Nesse sentido, não se
mundializa as consciências com arrogância cultural ou,
reativamente a esta, com insulação cultural. Daí, todas as
formas de sociedade devem ser entendidas historicamente: não são
manifestações de essências de raça, etnia, religião ou cultura, como
pretendem alguns neoconservadores norte-americanos da cepa de Samuel
Huntington, pois são o resultado de trocas, acertos e erros entre
povos que se perdem no tempo e, portanto, são processos abertos, sem
ponto final ou causa primeira.(VIANNA, 2004)
Daí, justificativas metafísicas para
paradigmas universais ou para localismos culturais devem
ser vistas sempre com desconfiança pelo cientista social de qualquer
parte do mundo. A identidade do lugar, e das pessoas a ele ligadas,
não é fixa no tempo e, menos ainda, deve tornar-se prescritiva ou
essencializada; pelo contrário, é uma variável que depende de uma
combinação específica de fatores locais e de circunstâncias
não-locais que, no mundo atual, não são pessoalmente controláveis.
Por isso mesmo, o cientista social deve olhar criticamente para
qualquer projeto local de idílio de proteção comunal ou familiar,
assim como, para os engodos de proteção oferecidos por lideranças
carismáticas e inescrupulosas.
A crítica à modernidade deve saber
distinguir a valorização do princípio da autonomia subjetiva,
que filosoficamente a caracteriza, dos seus riscos de prescrições
autoritárias de metas ou paradigmas universais de progresso. Afinal,
o ser humano não
deve viver em função de um ideal de progresso (heteronomia), mas sim
o progresso deve existir em função das necessidades humanas
(autonomia) e com sustentabilidade
ambiental. (BERMAN, 2000: 84)
Nesse sentido, o delineamento dos
limites ou paradoxos da modernidade deveria levar os intelectuais a
compreenderem que seu papel não é mais de estabelecer regras e
modelos universais de verdade e razão, mas sim serem intérpretes ou
intermediários de costumes e lógicas culturais diferentes,
utilizando as suas habilidades para ajudar comunidades a se
entenderem reciprocamente e corrosivamente. Com isso,
devolve-se aos indivíduos a plenitude da opção moral e da
responsabilidade sobre metas ou projetos coletivos, que devem,
portanto, ser encarados como flexíveis e sujeitos à revisão crítica
periódica.
No entanto, deve-se considerar que o
sentimento de sermos responsáveis por tudo aquilo que nos cerca
(imediatamente ou não) é uma lição obliterada pela própria
configuração massiva e anônima da sociedade hodierna: o avanço
tecnológico e a alta especialização na divisão social e espacial do
trabalho criaram um efeito de intensa integração dos destinos
humanos que, paradoxalmente, tornaram mais abstratos, invisíveis e
incontroláveis, ao nível do indivíduo, os muitos processos
decisórios que afetam a vida planetária.(GIDDENS, 1991)
Ora, em face a uma forma de vida social
massiva, marcada por “sistemas-perito” e pelo anonimato, devemos
exigir de nós mesmos uma vigília mais intensa a partir de
dispositivos sociais, afetivos, cognitivo e institucionais adequados
à sua singularidade histórica e estrutural. Evadir-se desta
responsabilidade através de soluções individualistas, familistas ou
comunitaristas é tão somente lidar com os problemas do mundo atual
como se fossem uma doença crônica. As soluções para o mundo atual
exigem de nós um outro complexo cognitivo-afetivo, para que o
relativismo cultural seja resultado de um cosmopolitismo dialógico,
auto-reflexivo e não-arrogante, de forma a suscitar um novo
engajamento em projetos de bem-estar de escala mundial. Vejamos,
agora, como tal complexo cognitivo-afetivo é apresentado por Italo
Calvino em sua obra “Palomar”.
A ética mundializante de Palomar
Explorando os termos limítrofes do
pensamento e da ficção, o personagem Palomar se concentra nos
mínimos detalhes das coisas para captar o seu sentido com precisão,
elevando tudo que o cerca à dignidade de ser objeto de pensamento.
No entanto, o ponto seguro de suas especulações sempre lhe escapa: o
que antes parecia preciso torna-se múltiplo, como se cada uma das
unidades da realidade contivesse o infinito do conjunto. Cada novo
ponto descoberto revela outros possíveis, não há como relaxar, posto
que a fronteira do conhecimento é móvel, convida sempre a olhar de
novo, a sentir-se responsável pelo antes e pelo depois:
...o senhor Palomar não perde o ânimo e a cada momento acredita
haver conseguido observar tudo o que poderia ver de seu ponto de
observação, mas sempre ocorre alguma coisa que não tinha levado
em conta. Se não fosse pela impaciência de chegar a um resultado
completo e definitivo de sua operação visiva, a observação das
ondas seria para ele um exercício muito repousante e poderia
salvá-lo da neurastenia, do infarto e da úlcera gástrica. E
talvez pudesse ser a chave para a padronização da complexidade
do mundo, reduzindo-a a mecanismos mais simples... Prestar
atenção em um aspecto faz com que este salte para o primeiro
plano, invadindo o quadro, como em certos desenhos diante dos
quais basta fecharmos os olhos e ao reabri-los a perspectiva já
mudou...
Será que o verdadeiro resultado a
que o senhor Palomar está prestes a chegar é o de fazer com que
as ondas corram em sentido oposto, de recuar o tempo, de
discernir a verdadeira substância do mundo para além dos hábitos
sensoriais e mentais? Não, ele chega até a experimentar um leve
sentido de reviravolta, mas é tudo. A obstinação que impulsiona
as ondas em direção à costa já ganhou a parada: elas aumentaram
bastante. O vento estaria mudando? É pena que a imagem que o
senhor Palomar havia conseguido organizar com tanta minúcia
agora se desfigure, se fragmente e se perca. Só conseguindo
manter presentes todos os aspectos juntos, ele poderia iniciar a
segunda fase de sua operação: estender esse conhecimento a todo
o universo. Bastaria não perder a paciência, coisa que não tarda
a acontecer. O senhor Palomar afasta-se ao longo da praia, com
os nervos tensos como havia chegado e ainda mais inseguro de
tudo. (CALVINO, 1994: 9-11)
A estrutura narrativa dada a “Palomar”
não obedece a marcos temporais; pelo contrário, ela é eminentemente
espacial e todas as suas partes estão unificadas pelo
personagem-título, que aposta sempre na possibilidade de poder
explicar aquilo que observa, de se integrar nele de tal forma que
não pode deixar de estar num jardim, numa praia, ou na sala de seu
apartamento de forma confortável, segura, ou curtir um fragmento de
realidade sem pensar nas suas conexões com os outros. Palomar não
aceita a condição reconfortante de que todo ambiente (frustrante ou
assustador) possa ser ignorado quando fecha a porta de seu
apartamento ou pretende relaxar na praia. Ele está vivo e, como tal,
pode acrescentar algo à vida. Ser indiferente ao mundo, ou não
querer mergulhar em sua diversidade para descobrir, mesmo por pouco
tempo, as suas semelhanças estruturais, equivaleria a morrer.
Palomar não consegue se ver como
indivíduo radicalmente autônomo ou soberano. Ele é uma aresta onde
infinitas semi-retas se cruzam e compõem novos ângulos sobre a
realidade. Se, por vezes, a diversidade não cabe em seus esquemas
padronizadores que objetivam uma fácil manipulação do real, o
desespero não o leva à resignação; pelo contrário, parece tirar dele
uma dose de tempero que o impulsiona a continuar por novos meios.
Daí, a sua percepção global da realidade, sua ética mundializante,
transcende o espaço e restabelece um nexo explicativo com o tempo.
Isto pode ser percebido quando, em uma viagem ao Oriente, compra um
par de pantufas desiguais, mas só percebe a distração quando volta à
Itália. Em função disso, começa a especular sobre as conseqüências
de sua ação:
“Talvez agora”, pensa senhor Palomar, “um outro homem esteja
caminhando em algum país com duas pantufas desparelhadas”. E vê
uma débil sombra claudicante percorrendo o deserto, com um
calçado que lhe escapole do pé a cada passo, ou talvez mais
apertado que lhe aprisiona o pé torcido. “Talvez ele nesse
momento pense em mim, espera encontrar-me para fazer a troca. O
vínculo que nos une é mais concreto e claro do que a maior parte
das relações que se estabelecem entre os seres humanos. Contudo,
jamais nos encontraremos”. Decide continuar a usar estas
pantufas desparelhadas em solidariedade com seu companheiro de
desventura ignoto, para manter viva esta complementaridade tão
rara, esse espelhamento de passos claudicantes de um continente
a outro.
Demora-se na evocação dessas imagens, mas sabe que não
correspondem à realidade. Uma avalanche de pantufas costuradas
em série vem periodicamente reabastecer o montão do velho
mercador daquele bazar. No fundo do montão restam sempre duas
que não se casam...Cada processo de desagregação da ordem do
mundo é irreversível, mas os efeitos são escondidos e retardados
pelas miríades de grandes números que contêm possibilidades
praticamente ilimitadas de novas simetrias, combinações,
acoplamentos...Mas e se o seu erro tivesse apenas cancelado um
erro precedente? Se sua distração fosse portadora não de
desordem mas de ordem? “Talvez o mercador soubesse bem o que
fazia”, pensa o senhor Palomar, “dando-me aquela pantufa
desparelhada reparou uma disparidade que havia séculos se
escondia naquele montão de pantufas, transmitida de geração a
geração naquele bazar”. Talvez o companheiro ignoto claudicasse
em outra época: a simetria de seus passos ecoa não só de um
continente a outro, mas à distância de séculos. Nem por isso o
senhor Palomar se sente menos solidário com ele. Continua a
manquejar penosamente para dar alívio à sua sombra. (CALVINO,
1994: 93-94)
O fato de Palomar não estar mais
localizado em um tempo ou espaço absoluto, nem desfrutando de um
ponto de observação fixo do qual possa racionalmente calcular suas
opções, em outras palavras, o fato de seu corpo não ser mais o
limite eficaz da posição do sujeito, abre a possibilidade para a
mundialização de sua consciência, que está implicada com um tipo
de cosmopolitismo que entende a especificidade dos Outros,
mas não os encerra em nichos espaço-temporais estáticos para
visitação indiferente e irresponsável de turistas ocasionais. Nesse
sentido, Palomar restaura um elo de engajamento com o Outro
individual e ambiental e, portanto, nada em sua ação seria redutível
ao fortuito e ao conforto da alienação sobre as conseqüências
de seus atos e escolhas.
Permanecer engajado e auto-reflexivo:
O desafio dos vivos
A diversidade e o infinito no mundo das
experiências deveriam ser encarados como convites sempre abertos de
aprendizagem, em vez de suscitarem o pessimismo metafísico quando é
frustrada a ingênua expectativa cartesiana de conhecer a substância
(última ou primeira) da matéria do mundo. Se a aprendizagem for
encarada como um processo ao mesmo tempo contínuo, aberto, inacabado
e com efeitos potencialmente disruptivos, o “mundo externo” ao
sujeito do conhecimento torna-se o marco regulatório que o desafia a
olhar sempre de novo o que está estabelecido como modelo ou
paradigma, consciente de que há relações de poder que o conformam.
Afinal, para explicar algo de forma regular e transparente, o modelo
necessariamente deixa algo de fora:
A
construção de um modelo era...para ele[Palomar] um milagre de
equilíbrio entre os princípios (deixados à sombra) e a
experiência (inapreensível), mas o resultado deveria possuir uma
consistência muito mais sólida...O modelo é, por definição,
aquele em que não há nada a modificar, aquele que funciona com
perfeição; ao passo que a realidade, vemos bem que ela não
funciona e que se esfrangalha por todos os lados; portanto,
resta apenas obrigá-la a adquirir a forma do modelo, por bem ou
por mal... Na verdade, o grau de ductibilidade da natureza
humana não é ilimitado como a princípio se pensava; e, em
compensação, até mesmo o modelo mais rígido pode dar provas de
uma elasticidade insuspeitada.
Em suma, se o
modelo não consegue transformar a realidade, a realidade deveria
conseguir transformar o modelo...
Mas não que Palomar elaborasse ele
mesmo modelos ou se aplicasse em empregar modelos já elaborados:
limitava-se a imaginar um uso correto dos modelos corretos para
preencher o abismo que via escancarar-se cada vez mais entre a
realidade e os princípios...; aquilo que os modelos procuram
modelar é um sistema de poder; mas se a eficácia do sistema se
mede por sua invulnerabilidade e capacidade de durar, o modelo
se torna uma espécie de fortaleza cujas muralhas espessas
ocultam aquilo que está fora. Palomar, que sempre espera o pior
dos poderes e contrapoderes, acabou por convencer-se de que o
que conta na verdade é aquilo que ocorre não obstante
eles: a forma que a sociedade vai adquirindo lentamente,
silenciosamente, anonimamente, nos hábitos, no modo de pensar e
de fazer, na escala de valores. Analisando assim as coisas, o
modelo dos modelos almejado por Palomar deverá servir para obter
modelos transparentes, diáfanos, sutis como teia de aranha;
talvez até mesmo para dissolver os modelos, ou até mesmo para
dissolver-se a si próprio. (CALVINO, 1994: 98-99)
Portanto, como o modelo necessariamente
pressupõe recorte, exclusão, hierarquia de preferências e criação
artificial de regularidade, quem o formula ou usa deve ter uma
sensibilidade baconiana para a experimentação, ou seja, deve ter em
mente que o modelo deve ser testado, em vez de dedutivamente
confirmado, livrando-se de qualquer pretensão metafísica ou
arrogante de chegar “ao fundo da matéria do mundo”:
Segue-se uma segunda fase em que está convencido de que as
coisas que deve observar são apenas algumas e não todas, e é à
procura dessas que deve andar; para tanto, precisa enfrentar, a
cada instante, problemas de escolha, exclusões, hierarquias de
preferências; logo se dá conta de que está arruinando tudo, como
acontece toda vez que mete no meio seu próprio eu e todos os
problemas que tem com o próprio eu. Mas como é possível observar
alguma coisa deixando à parte o eu?
De quem são os
olhos que olham? Em geral se pensa que o eu é algo que nos está
saliente dos olhos como o balcão de uma janela e contempla o
mundo que se estende em toda a sua vastidão diante dele.
...Logo, não basta que Palomar
observe as coisas por fora e não por dentro: daqui por diante
irá observá-las com um olhar que vem do exterior, não de dentro
de si mesmo. Procura logo fazer a experiência: agora não é ele
que está olhando, mas é o mundo exterior que olha para fora.
Isto estabelecido, gira o olhar em torno à espera de uma
transfiguração geral. Mas qual! É a costumeira mesmice cotidiana
que o circunda. Precisa reestudar tudo desde o princípio. Não
basta que seja o exterior que esteja observando o exterior: é da
coisa observada que deve partir a trajetória que a associa à
coisa que observa... As ocasiões deste gênero não são decerto
freqüentes, mas cedo ou tarde devem apresentar-se: basta esperar
que se verifique uma daquelas afortunadas coincidências em que o
mundo quer observar e ser observado ao mesmo tempo e o senhor
Palomar se encontre passando por ali. Ou seja, o senhor Palomar
tampouco deve esperar, porque essas coisas acontecem quando
menos se espera. (CALVINO, 1994: 101-103)
Com isso, Palomar/Calvino parece nos
sugerir que as sociedades modernas chegaram a um ponto em que são
obrigadas a refletir sobre si mesmas e que, ao mesmo tempo, teriam
desenvolvido a capacidade de refletir retrospectivamente sobre si
mesmas. Elas deveriam, portanto, fazer um inventário de si mesmas e
tornar-se autoconscientes das suas possibilidades de futuro. Neste
contexto, a concepção de um sujeito monádico não poderá subsistir,
mas sim aquele concebido como o nexo dialético entre local e global,
individual e coletivo, privado e público:
A
vida de uma pessoa consiste num conjunto de acontecimentos em
que o último poderia até mesmo mudar o sentido de todo o
conjunto, não porque conte mais do que os precedentes, mas
porque, desde que se incluam numa vida, os acontecimentos se
dispõem numa ordem que não é cronológica mas responde a uma
arquitetura interna. Por exemplo, uma pessoa lê na idade madura
um livro importante para ela, que a leva a dizer: “Como pude
viver sem ter lido isto?”, ou ainda: “Que pena que não o li
quando era jovem!”. Pois bem, essas afirmações não têm muito
sentido, principalmente a segunda, porque a partir do momento em
que leu aquele livro sua vida se torna a vida de alguém que leu
aquele livro, e pouco importa que o tenha lido cedo ou tarde,
porque até mesmo a vida precedente àquela leitura assume agora
uma forma designada por aquela leitura.
Este é o passo mais difícil para
quem quer aprender a estar morto: convencer-se de que a própria
vida é um conjunto fechado, todo no passado, ao qual já nada
mais se pode acrescentar; tampouco se podem introduzir
modificações de perspectiva entre seus vários elementos.
Certamente, os que continuam a viver podem, com base nas
modificações por eles vividas, introduzir modificações até na
vida dos mortos, dando forma ao que não a tinha ou que parecia
ter uma forma diversa: reconhecendo, por exemplo, um justo
rebelde naquele que era vituperado por seus atos contra as leis,
celebrando um poeta ou um profeta naquele que estaria condenado
à neurose ou ao delírio. Mas são modificações que contam,
sobretudo, para os vivos. Para os mortos, seria difícil tirar
algum proveito delas. Cada um é feito daquilo que viveu, e isso
ninguém lhe pode arrancar. Quem viveu sofrendo, permanece feito
de seu sofrimento; se pretende subtrair-se a ele, já não será
mais o mesmo. (CALVINO, 1994: 110-111)
Assim, Italo Calvino restabelece a rede
espaço-temporal que complexifica as relações sociais, diluindo
qualquer hierarquia que isole, exclua ou torne impotentes os
indivíduos da modernidade. Todos são responsáveis pelo ambiente
sócio-natural com o qual interagem; não há paixão sem guia ou ação
irresponsável com a qual se possa lidar de forma repousada,
indiferente ou desengajada. Afinal, as pessoas são feitas do que
viveram e da forma como o viveram, tendo em si a capacidade
demiúrgica de refazer periodicamente o significado teórico e prático
da relação entre passado, presente e futuro.
Enfim, seguindo a perspectiva ética de
Italo Calvino, um indivíduo que considerasse ser possível descrever
um tempo que deve acabar (i.e., prescrever alguma
forma de suspensão apocalíptica do tempo) e, portanto, congelar seus
instantes de forma a contê-los em modelos reificados de salvação ou
condenação, não perceberia, alienado, a sua condição já moribunda.
Tal pretensão mata, na verdade, o elemento basilar do sujeito da
modernidade: a valorização do mundo da experiência e do horizonte
aberto de expectativas, o que significa um exercício cognitivo
periódico de auto-reflexão corrosiva dos paradigmas ou modelos que
dão sentido ou organização ao mundo. Nesse sentido, o seu
compromisso com a vida se delineia no presente, entre o passado
(herança sempre revisável) e o futuro (a aposta em construir um
mundo mais justo, sustentável, múltiplo e desessencializado).
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