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RAIMUNDO
LIMA DOS SANTOS
Mestrando
pela Universidade Federal do Goiás – UFG e Bolsista pelo Fundo
de Apoio à Pesquisa do Estado do Maranhão – FAPEMA

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A trajetória de
um certo Mané: Manoel Conceição Santos
Raimundo Lima dos Santos
O
gênero biográfico surge no século XVIII, na perspectiva de
evidenciar o indivíduo como agente importante diante das forças
sociais. Na abordagem positivista esses indivíduos passaram a
ser percebidos como figuras centrais na história, de forma a
negar a importância dos demais na construção dos eventos
sociais. Com a supervalorização desse personagem “único”, o
conjunto perdeu força e a história ficou centrada em poucos
nomes. Rompendo com essa tradição, o marxismo atribuiu aos
grupos ou classes o papel de mover a história, mas suprimindo
completamente a importância da pessoa enquanto agente fora da
estrutura.
Novas técnicas e métodos da
história, como os empregados pela história oral (SCHIMIDT,
1997, p. 117) têm sido de grande importância para esse retorno,
uma vez que ampliou o horizonte das fontes históricas: memórias,
diários pessoais, fotografias, correspondências, dentre outros
recursos.
A
biografia ressurge como explicativa social por meio de parte do
todo. O indivíduo representa parte do conjunto social e entender
o “percurso” dos indivíduos pode ser bastante esclarecedor para
determinados eventos sociais. “É por isso mesmo que se pode
conhecer o social partindo da especificidade irredutível de uma
prática individual” (SCHIMIDT, 1997, p. 121). Nesse prisma
pretendemos localizar nosso personagem, como alguém capaz de
expressar parte de uma realidade sociopolítica sem deixar de
considerar o papel dos outros indivíduos e da estrutura.
Outro elemento a ser considerado é a
clareza de que a biografia não apresenta a totalidade do
indivíduo, ela apenas escolhe aspectos que se expressam com mais
força, dando uma idéia de totalidade, sem jamais sê-lo. Bourdieu
afirma que tentar compreender a vida dessa forma linear é
absurdo (BOURDIEU, 1996, p. 74-75), por isso ele usa o termo
ilusão biográfica para designar esse percurso claro e retilíneo.
Tendo isso em vista, traçamos um roteiro político para Manoel da
Conceição a partir de uma parte de suas ações políticas.
Este
texto retrata parte da história de um camponês maranhense
chamado Manoel Conceição Santos, um dos maiores articuladores da
luta camponesa em resistência ao Regime Militar. O percurso da
sua história retratado neste texto abarca um período de setenta
anos, meados dos anos 1930, ano em que nasceu até meados dos
anos 2000, ano em que o camponês se candidatou a presidente do
Partido dos Trabalhadores – PT. Reconstruímos parte da sua
história com base em jornais, revistas, documentos “oficiais” e
uma longa entrevista com o protagonista dessa história. O
objetivo é mostrar, por meio de um militante, a própria história
do movimento de esquerda no estado do Maranhão e no país.
Manoel
Conceição começou organizando
o sindicato de trabalhadores
rurais no vale do Pindaré-Mirim, no Maranhão, posteriormente
contribuiu na organização de entidades importantes no cenário
nacional como a Central Única dos Trabalhadores - CUT, o Partido
dos Trabalhadores – PT e o Centro de Educação e Cultura do
Trabalhador Rural - CENTRU. Por suas ações foi perseguido, preso
e torturado na ditadura militar, no exílio em Genebra, se
engajou, juntamente com outros exilados, na luta contra governos
repressivos. Após três anos fora do Brasil, retornou e deu
continuidade, até os dias atuais, a luta em favor de uma
sociedade mais justa. Trabalha com associações e cooperativas,
desenvolvendo atividades que visam o aperfeiçoamento dessas
organizações e o bem-estar dos trabalhadores.
Manoel
nasceu em 1935 na região de Pedra Grande, no Estado do Maranhão.
Sua vida foi marcada pela pobreza, fruto da exclusão
político-econômica, nos tempos semelhantes ao do coronelismo, em
que o “compadre” da comunidade faz os “favores”, em troca do
detrimento da maior parte das terras locais. Além disso,
controla o poder de mandar, de escolher, de excluir,
cristalizando relações sociais marcadas pelas enormes
diferenças.
A
família, conseqüentemente o próprio camponês, conheceu essa
situação por mais de uma vez. Entre uma expulsão e outra, sua
família chegou à cidade de Pindaré-Mirim no Maranhão em 1962.
Mais ou menos nessa época, começou a participar de um curso,
visando à formação sindical e cooperativa através do Movimento
de Educação de Base (MEB). Com isso, ele se afastou da Igreja,
na qual chegou a ser professor na escola dominical e auxiliar de
pastor. Com isso, seu envolvimento tornou-se cada vez mais
intenso nas lutas sindicais, especialmente na esfera da luta
camponesa.
Não por
coincidência, Manoel da Conceição, como ficou conhecido até
hoje, encontrou um grupo de trabalhadores dispostos a fazer a
luta por um “mundo melhor”, em defesa dos interesses dos
trabalhadores pobres. Por conta disso, fundaram o primeiro
sindicato de trabalhadores rurais de Pindaré-Mirim, no qual
Manoel foi o primeiro presidente. Nessa região, o sindicato
chegou a aglutinar 100 mil trabalhadores rurais, sendo grande
parte deles, atuantes em entidades classistas.
Quando se
instaurou o golpe militar em 1964, só no sindicato de Pindaré
“havia quatro mil camponeses que incomodavam bastante os
fazendeiros da região” (SANTOS, 2005, p. 5), pois não se
conformavam com a concentração das terras e suas conseqüências.
Um dos problemas mais comuns entre trabalhadores rurais e
fazendeiros na cidade de Pindaré, se dava com o gado invadindo
as roças dos camponeses, comendo o arroz, o feijão, o milho,
dentre outros plantios. Cansados desse ocorrido os trabalhadores
se juntaram e decidiram denunciar ao prefeito da cidade.
Conseguiram, através de pressões, uma lei municipal que coibisse
essa prática, bastasse os trabalhadores avisarem quando o gado
invadisse suas terras
que a prefeitura tomaria
providências. Assim os camponeses fizeram por um bom tempo sem
perspectiva de resolução prática do problema. (REQUERIMENTO,
2001, p. 3).
Foi nesse
momento que os trabalhadores rurais resolveram tomar suas
próprias atitudes, matando o gado que destruía as roças, a carne
era dividida entre as famílias. Com essa atitude “o sindicato
passou a chamar a atenção das autoridades”. Logo após o Golpe
Militar, o Governo mandou fechar a entidade, colocando-a na
clandestinidade, sabendo da resistência, o governador utiliza
vários recursos para tentar intimidar os trabalhadores,
principalmente a violência física como as comuns prisões e
espancamentos ocorridos.
Mané,
como gosta de ser chamado, foi uma das mais perseguidas vítimas
do Regime Militar em Pindaré e no Brasil. Como presidente do
sindicato, já pela segunda vez, trouxe um médico para sua
cidade, objetivando dirimir algumas doenças, principalmente a
malária. Logo no primeiro dia de consulta de João Bosco, médico
de São Luís, a polícia chegou invadindo o local e atirando,
chamaram o presidente do sindicato, que
irritado
com a situação, chegou a se agarrar com um sargento da polícia,
derrubando-o no chão, de repente outro policial chegou atirando,
foram três tiros de revolver no pé esquerdo e dois tiros de
fuzil no pé direito, seu membro ficou tão mutilado que não foi
possível recuperá-lo (FIUZA, 2005, p. 53).
Isso foi
um dos principais motivos para sua viagem à capital, essa
transferência foi feita de avião, pois o Governador do estado
visava o mais rápido possível amenizar a situação, o policial
que havia atirado no pé de Mané, com medo de retaliação dos
camponeses afirmou que tinha sido o prefeito e o governador,
José Sarney, que o mandaram fazer tal atitude.
Além do
tratamento médico, segundo o camponês, Sarney ofereceu cargos
políticos e dinheiro em troca de apoio, mas a proposta foi
rejeitada. Amputada a perna e feito um melhor tratamento, depois
de alguns meses fora resolveu voltar para a sua cidade, junto
aos trabalhadores rurais. Os que pensaram que uma perna a menos
seria motivo para intimidação, não contaram que isso serviu como
um motivo a mais para intensificar a luta em defesa dos
trabalhadores. “Minha classe é minha perna”, esse foi o lema de
Mané, que ficou internacionalmente conhecido.
No ano
seguinte sua perna ainda não estava completamente recuperada,
então os trabalhadores fizeram uma arrecadação para um melhor
tratamento na cidade de São Paulo. Na mesma época, por meio de
entidades de esquerda em nível nacional, Manoel realiza uma
viagem em alguns países da Europa, Oriente Médio e China. Nessa
viagem passou nove meses, na qual fez um curso de guerrilha na
China. Visitou o país observando sua experiência política,
chegou à ocasião de ser recebido por Mao Tsé-Tung, um dos
principais líderes da revolução comunista chinesa ocorrida em
1949.
Sua
viagem à China, para o regime militar significou uma possível
proliferação das idéias socialistas no país, principalmente para
as zonas mais castigadas pela concentração de riquezas e de
privilégios no país. De fato significou, e os meios de
comunicação ligados à ditadura sabiam bem disso. Uma tentativa
de destruição da imagem perante a opinião pública fazia parte de
um projeto de desaparecimento não só da imagem, mas do próprio
corpo, como de fato aconteceu com milhares de lideranças em todo
o país.
Ao
levantar a bandeira de acabar com as desigualdades sociais,
econômicas e políticas, por levantar a bandeira de uma sociedade
mais justa, ninguém poderia escapar a antipatia daqueles que
fariam qualquer coisa para manter a situação de privilégios para
as minorias. O objetivo era conseguir sufocar lentamente, até o
completo fim dos grupos oposicionistas. De forma compassada,
pretendiam ludibriar a opinião pública internacional.
O governo
estava disposto a deixar Manoel da Conceição fora de cena, mesmo
não tendo nada comprovado contra a pessoa do líder sindical,
insistiam na proposição de que ele era subversivo e perigoso.
Baseados nessa premissa o prenderam numa cidadezinha de Pindaré,
chamada Tufilândia, em janeiro de 1972. O ponto mais agravante,
mais forte contra sua pessoa foi que “em seu poder
foram encontrados materiais subversivos como livros editados em
Pequim (capital da China) em língua portuguesa, de autoria de
Mao Tse Tung”
Foi
detido em junho de 1972, ficaria na capital São Luís,
entretanto, imediatamente, o levaram para o Rio de Janeiro, um
local de tortura clandestino do governo, nesse local passou
alguns meses, nos quais sofreu as piores torturas possíveis. A
primeira ação dos torturadores foi tirar a perna mecânica a fim
de limitá-lo em movimentos simples. Em seguida, vários tipos de
tortura: choques, espancamento e pressões psicológicas.
Cenas
como essas
e muitas outras piores, se repetiram
várias vezes, quando a vítima se encontrava próximo de não
agüentar mais, eles o levavam ao hospital, lhe davam banho de
gelo para espalhar o sangue roxo provocado pelas pancadas. Uma
vez o colocaram com outro preso político e Manoel pediu a ele
que espalhasse a notícia de que estava nas mãos do governo. Até
então ninguém sabia ao certo seu paradeiro, não sabiam se
realmente estava vivo ou morto. Foi realizada uma intensa
campanha em favor de sua liberdade (e de outros presos) em todo
o país e por algumas partes do mundo.
A
campanha em defesa de Manoel da Conceição chegou a várias partes
do mundo, formaram-se vários comitês, especificamente 18 nos
Estados Unidos pelas Igrejas Evangélicas, da mesma forma, a
Igreja Católica em países da Europa: Inglaterra, Itália, Suíça,
França e Alemanha. De todas essas localidades, enviavam-se
cartas ao governo Médici, clamando pela liberdade de presos como
Manoel da Conceição. Em uma dessas centenas de cartas que o
governo recebeu, estava um telegrama enviado pelo Papa Paulo VI
conclamando pela vida e pela liberdade do camponês maranhense.
Em 1975 o
líder camponês saiu da cadeia, logo após ter sido condenado a
três anos de prisão pela auditoria militar, além dos direitos
políticos suspensos por uma década. Os direitos políticos não
eram tão interessantes para Manoel naquele tempo, pois nem mesmo
tinha documento para votar, enquanto aos três anos de
condenação, já estava a mais de três anos preso, o que restou
foi sua soltura. Depois disso, sua advogada recorreu ao Superior
Tribunal Militar e lá não encontraram nenhuma prova das
acusações que fizeram contra ele, ironicamente foi absorvido.
Logo após a liberdade, foi para São Paulo fazer um tratamento
médico, pois os espancamentos, bem como outras formas de
torturas, marcaram somática e psiquicamente a pessoa de Manoel
da Conceição.
Ao sair
do hospital, foi morar na casa de alguns religiosos católicos,
sob responsabilidade do presidente da Confederação Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB). Em Osasco, Manoel imaginou que dali por
diante teria um pouco mais de paz e tranqüilidade. Infelizmente,
mais uma vez foi surpreendido, em um dia qualquer,
inesperadamente, a casa dos padres foi invadida por dois homens
desconhecidos. Foi levado direto para a Delegacia Especializada
de Ordem Pública e Social - DEOPS e foi colocado em uma cela,
que mal cabia uma pessoa. Chegando lá foi, mais uma vez,
barbaramente torturado. Apesar de ter sido menos intensa que
outras vezes, sofreu bastante, recebeu socos no rosto, no
estômago, choques elétricos por todo o corpo. Toda essa
sistemática forma de mutilação do corpo era acompanhada de
muitas pressões psicológicas, repetindo-se por um período de 45
dias ininterruptos.
Ao sair
do DEOPS Manoel ficou sob proteção das Igrejas católica e
presbiteriana, além da proteção da Anistia Internacional. Essas
entidades prepararam todas as condições necessárias à partida de
Manoel ao exterior. Genebra, capital da Suíça foi o local
propício para o exílio, como de fato aconteceu em março de 1976.
Ao chegar
à Suíça,
Manoel se engajou nas lutas de acordo com as condições
disponíveis. Entre 1976 e 1978 trabalha para aglutinar os
sindicalistas que estavam na mesma situação de refugiados em
vários países europeus. Nesse meio tempo apesar da pouca
educação formal, realiza palestras sobre regimes ditatoriais
como o brasileiro, e sobre
direitos do homem. Essas
discussões foram feitas com o apoio da Anistia Internacional na
França, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e na Argélia, país
Africano.
Durante
três anos de exílio, o líder sindical não deixou de denunciar
para o mundo, a situação que o povo brasileiro passava nas mãos
dos governos militares: nossos trabalhadores, estudantes,
professores, artistas, líderes políticos foram duramente
reprimidos por se oporem ao governo. A “manutenção da ordem” era
mais importante que a manutenção do bem estar da sociedade
brasileira.
Em 1979,
os exilados puderam voltar à sua terra, entre os favorecidos,
alguns preferiram ficar por mais tempo. Muitas vezes, foi uma
forma de recuperar melhor o trauma da perseguição. Manoel na sua
primeira oportunidade retorna. Na chegada é esperado por
milhares de pessoas no aeroporto, assim como outros exilados.
Seu retorno de forma alguma significou a inércia de suas
atividades na luta por um país melhor, a pouca abertura política
concedida, sob pressão nacional e internacional, foi apenas mais
uma oportunidade de luta.
Juntou-se
a vários outros militantes da mesma causa para a organização de
uma entidade que tivesse força para brigar, dentro dos
princípios legais burgueses, em favor dos trabalhadores. Esse
grupo formou a Central Única dos Trabalhadores (CUT), que hoje
apesar de seus enormes problemas, é uma das maiores entidades do
Brasil, criada por trabalhadores. No mesmo ano, já em Pernambuco
sente a necessidade de organizar uma entidade específica para
trabalhadores rurais, encontrando outros companheiros com o
mesmo propósito, juntou-se na fundação do CENTRU, a lógica dessa
entidade era o melhoramento da vida dos trabalhadores rurais, a
partir de sua auto-organização.
O CENTRU
começou com três categorias de contribuintes: primeiro a dos
Trabalhadores Rurais que deveriam identificar os problemas e
necessidades dos trabalhadores e deveriam vislumbrar seus
horizontes; a outra categoria era a dos trabalhadores na
instância prático-intelectual, o objetivo era contribuir com os
trabalhadores, na realização de projetos, sua missão não é
apontar o que os trabalhadores devem fazer, mais devem se pautar
em ajudar a definir e realizar determinados objetivos; a
terceira categoria era composta daqueles participantes de honra
com uma função basicamente teórica. Entre esses contribuintes
passaram algumas pessoas de renome nacional e internacional como
Paulo Freire, Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente, à época,
da CNBB, e vários intelectuais. Para Manoel da Conceição uma
entidade como essa é de fundamental importância porque “O
trabalho empírico por si só vai encontrar dificuldades para
vislumbrar seus horizontes; o trabalho intelectual sem o mínimo
de concretude se perde no irrealismo”
(SANTOS, 2005, p. 3).
No ano
seguinte, Manoel participou de uma equipe na qual acreditava que
a luta institucional no campo partidário poderia contribuir
bastante para o objetivo de uma sociedade justa, socialista,
pois a conquista dos espaços burocráticos, a conquista das
instâncias de poder em escalas pequenas pode significar uma
gradual conquista do poder em escala macro. Na visão de Mané a
luta armada que foi um elemento decisivo em outros países, que
fizeram uma revolução em favor dos trabalhadores, a exemplo da
Rússia em 1917, China em 1949 e em Cuba em 1959 que fizeram o
levante pelas armas, não daria certo no Brasil.
A criação
de um partido político criado e dirigido por trabalhadores
deveria ser uma alternativa recomendável, foi o que fizeram os
primeiros fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), dentre
eles, Manoel da Conceição, terceiro filiado do partido, e muitos
outros pelo Brasil afora. Manoel acompanhou especialmente a
fundação do PT no nordeste que começou pelos Estados de
Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba. Sua atuação,
especialmente, se intensificou mais nessa Região, foi o primeiro
presidente em Pernambuco em 1982, antes, foi o segundo
vice-presidente no estado de São Paulo. No mesmo ano em que foi
presidente do partido em Pernambuco se colocou a disposição para
ser candidato a governador do estado. Um conjunto de fatores
impediu Manoel da Conceição chegar a uma vitória nessa eleição.
Entretanto, não cabe aqui
fazer uma análise dos motivos da não vitória, pois o mais
importante é compreender os fins, mais que os meios.
Dois anos
depois, já na cidade de Imperatriz no Maranhão, ele se reúne e
discute com outras pessoas uma ramificação do CENTRU no
Maranhão. Graças a essa entidade foram criadas e organizadas
associações e cooperativas pelo Maranhão, com a ajuda de
recursos provindos de ONGS, órgãos governamentais brasileiros e
estrangeiros. A partir do CENTRU foi possível a criação da
escola sindical Padre Josimo,
que desenvolveu uma proposta de capacitação em cooperativas e a
implantação de culturas permanentes em oitos municípios do
Maranhão.
No início
da década de noventa, o líder camponês é um dos articuladores
para a criação do Centro Nacional de Apoio as Populações
Tradicionais (CNPT). Paralela a criação desta entidade, se
coloca como um dos defensores e articuladores na criação da
primeira reserva extrativista da Região Tocantina, a reserva do
Ciriaco. O CNPT, desde a fundação acompanha a reserva na
elaboração de projetos, bem como em outros fatores relacionados
à organização política e econômica da reserva. Além disso, o
este órgão acompanha outros grupos de populações tradicionais
pela região e defende a criação da nova reserva extrativista, a
da Mata Grande (em processo de realização) nas proximidades de
Imperatriz.
No mesmo
ano participou da articulação da Rede Frutos do Cerrado em dez
municípios, sendo apenas um no Tocantins. Esse projeto visa o
desenvolvimento da cultura dos produtos nativos dessa região,
visando, além do cultivo, a preservação e a defesa contra os
devastadores que visam mais o lucro imediato que a preservação
das riquezas vegetal e animal.
Em 1994,
lança-se a candidato a senador pelo PT, no Maranhão, sem perder
os princípios políticos que sempre defendeu sua vida inteira,
apesar de não ter sido eleito, teve a simpatia de 111 mil
eleitores que votaram no projeto defendido por ele. Três anos
depois, torna-se coordenador nacional do CENTRU, além da
coordenação maranhense, fez parte ainda do Conselho Nacional dos
Seringueiros.
Depois
dessa campanha política, praticamente não esteve envolvido com o
partido na esfera burocrática. Seus trabalhos, desde então, têm
se dado mais no âmbito social, não partidário, pelo menos de
forma direta. Manoel tem se dedicado bastante às atividades de
organizar cooperativas no Maranhão, desde 1992 vem tentando
consolidar um projeto de criação de pequenos animais acompanhado
de implantação de culturas permanentes, na ótica do
cooperativismo. Para fortalecer essa proposta, ele vem
trabalhando com outras lideranças, os Grupos de Produção de Base
(GPB’s), com esse tipo de organização as pessoas começam se
organizando em quantidades pequenas para discutirem o que é
melhor para a comunidade. Isso faz parte de uma prática que
Manoel aprendeu em seus vários anos de convivência com
movimentos e entidades classistas. A organização começa
abrangendo poucas pessoas, depois associações, cooperativas e
daí por diante.
Manoel
participou diretamente da criação de oito cooperativas, que na
sua forma de ver, é um instrumento imprescindível para o
desenvolvimento de uma sociedade, de forma mais harmoniosa.
Foram criadas as cooperativas de Imperatriz, João Lisboa,
Amarante, Montes Altos, Estreito, Riachão, São Raimundo das
Mangabeiras, Loreto e Balsas. Sem contar com a atuação indireta
da criação das cooperativas de Viana e Caxias. Todas no sul do
Maranhão.
Na sua
ótica as entidades que lutam pelos trabalhadores rurais, devem
aproximar-se mais das cooperativas, assim ele acredita que há
mais chances de fortalecer essas cooperativas e oferecer maiores
vantagens aos trabalhadores. Sem a aproximação de entidades e
grupos afins, ele não acredita que possa algum trabalho social
se desenvolver de forma eficiente, sempre correrá mais risco de
fracassar.
No ano de
2002, Manoel participou da criação da Central de Cooperativas do
Maranhão, com o intuito de fortalecer os laços do cooperativismo
no estado, conseqüentemente, consolidar valores solidários entre
os agricultores. Ao lado da participação na esfera da
cooperativa, procurou se engajar em atividades com a mesma
bandeira como a Rede Frutos do Cerrado que busca o
desenvolvimento e preservação das frutas nativas com objetivo de
proporcionar bem estar aos trabalhadores do Sul do Maranhão.
Também se engajou na luta em favor da “economia solidária”
(movimento de cunho internacional), intimamente relacionada à
sua prática, fazendo parte do Conselho Nacional e da Comissão
Gestora do Estado. A intenção é concretizar um modelo
alternativo de sobrevivência material e cultural para as
sociedades marginalizadas economicamente.
Enquanto a
participação partidária, desde a fundação do PT Manoel participa de
suas atividades, concorrendo a mais uma eleição para presidente
estadual do Partido em 2005 na qual perdeu, com suas propostas de
reestruturação do partido. Após isso, tem-se dedicado mais em
atividades do CENTRU e da CCAMA (Central de Cooperativas
Agro-extrativistas do Maranhão). Ele vê um enorme problema a
respeito de grande parte dos envolvidos no partido, é o fato de se
afastarem dos movimentos sociais, da mesma forma as pessoas ligadas
aos movimentos. (Santos, 2005, p. 7) Uma das causas atribuídas é que
a prática do Partido dos Trabalhadores não está, de acordo com seus
princípios, propostos em sua origem.
Para muitas
pessoas falar de uma sociedade justa é sinônimo de arcaísmo, é algo
ultrapassado e que não há mais possibilidades de dar certo, é mais
fácil viver o individual e pregar o fracasso das tentativas. Para
Mané as pessoas perderam a capacidade de sonhar. Ele vive e acredita
nessa sociedade, não apenas observando, mas contribuindo ativamente
para esse projeto de melhorar o mundo.
Referências
BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas,
SP: Papirus, 1996.
JORNAL. Caruaru Debate. 28.08 a 03.09. 1982.
JORNAL. Diário de Pernambuco. 21 de setembro de 1972.
JORNAL. Le Monde. 24.04.1976.
JORNAL. O Diário Internacional. 26 de março de 1976.
LEAL,
Vitor Nunes.
Coronelismo Enxada e Voto. 5 ed. São Paulo: Editora Alfa-Ômega,
1975.
LUNA, Regina Celi Miranda Reis. A Terra era Liberta. São Luís: UFMA/Séc.
Educação, 1984.
MARTINS, José de Sousa. Expropriação e Violência: a questão do
campo. 2 ed. São Paulo: Hucitec, 1982.
REVISTA. FIUZA, Alex. Teoria e Debate. Revista Bimestral da Fundação
Perseu Abramo – Ano 18, n. 6. fev/mar 2005.
REQUERIMENTO. de Manoel Conceição Santos à Comissão Especial da Lei
Estadual. 10.726/2001.
SANTOS, Manoel Conceição. Entrevista em 06.07.05 a Raimundo Lima dos
Santos no CENTRU, Imperatriz.
SANTOS, Raimundo Lima dos. A (não) Reforma - Agrária de FHC:
problemas e desafios no Assentamento Alegria. Imperatriz: Ética,
2007.
SCHIMIDT, Beniço Bisso. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro,
v. 10, n. 19. 1997.
Essa informação foi
extraída de um documento da Casa Militar, subsecretaria de
inteligência, cedida em 1998 a pedido de Manoel. Em outros
documentos não foi encontrado nada consistente, apenas
suposições e a alegação é sempre no sentido de colocá-lo
como um homem perigoso que juntou bandos armados para fazer
a destruição em vários níveis.
Padre Josimo foi um padre que morreu na região do bico do
papagaio assassinado por fazendeiros, insatisfeitos com a
luta do padre em favor dos da reforma agrária.
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