BLAISE DUPUIS

Mestre em Letras e Ciências Humanas, assistente de ensino e doutorando no Instituto de Geografia da Universidade de Neuchâtel

 

TRADUÇÃO

CELUY ROBERTA HUNDZINSKI

DEA em Filosofia pela Universidade Paris X - Nanterre; Master II na Sorbonne; Tradutora e Assistente de Educação

 

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Resenha:

FRIEDMAN, Yona. Utopies réalisables. Paris-Tel-Aviv, Éditions de l’éclat, 2008.

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De uma teoria das utopias a um panfleto futurista

Blaise Dupuis*

Tradução do francês por Celuy Roberta Hundzinski

 

Uma teoria axiomática: insatisfação, remédio e consentimento

Yona Friedman parte do princípio que um sobrevôo histórico das utopias antigas e modernas seria um erro, pois estas “são, somente, tentativas de utopias, ou seja, somente utopias literárias” (FRIEDMAN, Utopies réalisables. 2008, p.14), e prefere, então, abordar o que chama de utopias realizáveis por uma teoria baseada em axiomas a priori, e verificar, em seguida, pelos fatos, se esta última pode explicar as organizações sociais.

Assim, uma utopia realizável pode ser definida segundo os três axiomas seguintes:

“As utopias nascem de uma insatisfação coletiva. Elas só podem nascer com a condição que exista um remédio conhecido (uma técnica ou uma mudança de conduta), suscetível de pôr fim a esta insatisfação. Uma utopia só pode ser realizável se obtiver um consentimento coletivo.” (idem, p. 18)

Pelo consentimento coletivo, a utopia propriamente dita (ou a literária, associada a um só indivíduo) é distinguida da realizável que é uma “obra lentamente tecida e assimilada por uma cadeia de indivíduos acordantes” (ibidem, p. 21). É introduzida, entretanto, uma restrição ao segundo axioma, o que lhe permite de dissociar as utopias científicas e sociais modernas das religiosas e morais. De fato, a técnica aplicável, o remédio, pode ser ou “uma técnica que elimina a fonte da situação insatisfatória” (utopia positiva), ou “uma técnica que permitirá o apreço desta situação, e levará a estimá-la desejável e satisfatória, em vez de considerá-la como insatisfatória” (utopia negativa).

Quando o “técnico-autor-do-projeto” não pertence à coletividade implicada, propõe-se falar de utopia paternalista, que necessita de propaganda para ter o consentimento dos “paternalizados”; inversamente, uma utopia é não-paternalista quando o precursor do projeto se encontra no interior da coletividade. O escritor explica, deste modo, que ignoramos estas utopias, porque elas não deixaram traços literários, pois “o autor-do-projeto é, ao mesmo tempo, o que está insatisfeito”, e “não há necessidade de uma propaganda para ganhar o consentimento referente ao seu próprio assunto” (ibidem, p. 27).

“Uma sociedade é uma utopia realizada”, porém, universalista e impossível: o grupo crítico e o problema do acesso.

Para Friedman (ibidem, p. 50), “uma sociedade é um conjunto de pessoas humanas e de objetos, religados por um sistema de influência”. Com a ajuda de ilustrações, de gráficos e algumas operações matemáticas (“uma linguagem simples” que permite ao não-expert compreender e aplicar seu método, p. 37), são diferenciadas esquematicamente, segundo o sistema de influência, duas estruturas sociais: a sociedade igualitária e a hierárquica. Para explicar que uma utopia universalista é impossível, em outras palavras, que uma sociedade-mundo possa existir, invoca dois conceitos chaves da obra: o grupo crítico e o problema do acesso.

O grupo crítico

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“Somente as pequenas comunidades podem resolver seus problemas de sobrevida e o papel dos governos e das mídias deveria ser de encorajar essa atitude.” (ibidem, p. 11).

Tal grupo é “o maior conjunto de elementos (homens, objetos e laços) com o qual o bom funcionamento de uma organização, tendo uma estrutura definida, pode, ainda, estar segura” (ibidem, p. 59). Sua grandeza pode variar em função da sua estrutura, da valência específica da espécie humana (ou seja, o número de centros de interesses sobre os quais um homem pode concentrar sua atenção consciente), da capacidade de canal específica à espécie humana (a capacidade de transmitir uma informação sem que esta seja degradada), da velocidade da reação imposta por um contexto, e da velocidade característica da linguagem utilizada pelo grupo. Desta maneira, um grupo crítico permite, para o arquiteto, explicar a evolução das estruturas sociais: logo que uma sociedade ultrapassa a grandeza desse grupo, ela não pode mais funcionar corretamente e deve, então, ou mudar sua estrutura social (uma revolução), ou cindir-se em vários grupos (uma secessão) ou, ainda, diminuir sua velocidade de reação (uma esclerose).

A propagação da influência em uma sociedade está ligada ao problema do acesso às informações que é função da duração global da qual dispõe o operador, sua valência e o número de elementos de um sistema informacional ao qual se depara; os dois primeiros fatores do problema sendo constantes biológicas. Este lhe permite de enunciar “o ato de acusação” fundamental da obra: “as profissões de fé dos governantes (chegar a uma planificação benéfica para as grandes massas) e as das mídias (chegar a uma comunicação e uma informação globais) são irrealizáveis” (Friedman, 2008, p. 10). As primeiras por causa do grupo crítico, as segundas por causa do problema de acesso, assim “nenhuma reorganização, nenhuma ideologia pode mudar esta situação, característica das organizações sociais que ultrapassam certas dimensões” (Friedman, 2008, p. 10).

“A cidade representa a utopia por excelência”: a cidade global e os vilarejos urbanos

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“A cidade global é composta de vilarejos urbanos” (ibidem, p. 196).

 

A obra propõe a autoplanificação social e a organização de pequenos grupos como via de sobrevida ao “Estado máfia” e à “Máfia das mídias”. A cidade, definida como “um território habitado por um conjunto de seres humanos organizados” (ibidem, p. 169), é uma utopia realizada constituída de uma rede material e imaterial. Redes que cobrem, em tal caso, todo o planeta que conduz à “cidade global”, título do último capítulo e ideal-tipo do desenvolvimento das sociedades, pois “a cidade global não é nada além do que uma rede, com fraca comunicação, de vilarejos urbanos igualitários” (ibidem, p. 196), regulada por uma migração que responde aos limites admitidos pelo grupo crítico.

Os limites de uma teorização: qualidades visionárias e ingenuidade pseudo-científica

Yona Friedman pode ser considerado como um arquiteto visionário. Nascido em 1923, em Budapeste, diplomou-se em arquitetura pela Universidade de Haifa, em Israel. Após ter exposto suas concepções futuristas no décimo congresso de Arquitetura Moderna, em Dubrovnick, fundou o Grupo de Estudo para a Arquitetura Móvel, em 1958, cujo manifesto é seu livro: “L’architecture móbile” (A Arquitetura Móvel) (1958). São expostos, aí, os princípios de um habitat ao serviço de uma população cada vez mais móvel.

O conceito de “cidade espacial” é uma das aplicações mais importantes desse manifesto. Constituídas de células de habitat móvel, poderiam, com a ajuda de pilotis e de uma infra-estrutura baseadas em diferentes níveis, se estabelecer sobre extensões de água (Friedman propõe uma cidade que atravesse a Mancha) ou sobre uma cidade existente. Desta forma, a porção de solo ocupada seria mínima, e o habitat poderia ser modulável ao lazer segundo os desejos da população. O arquiteto tornar-se-ia, conseqüentemente, um conselheiro ao serviço dos usuários, concentrando-se nos aspectos sistêmicos das construções propostas.

Esta concepção de arquitetura móvel teve sucesso internacional nos anos sessenta com o projeto Plug in City do grupo Archigram, ou com o desenvolvimento da arquitetura metabólica no Japão. Ultimamente, varias exposições testemunham a retomada do interesse em torno de seus trabalhos: tais quais «Ville spatiale» na Trienal de Yokohama (2001), «Utopia Station» na Bienal de Veneza (2003) ou « Yona Friedman » no Museu de Arte Contemporânea em Lyon (2007).

Suas qualidades visionárias contribuíram, enormemente, para seu sucesso e para o desenvolvimento de debates sobre a profissão de arquiteto, a concepção arquitetural e a ecologia social. O conceito de cidade urbana conheceu aplicações diversas: na Inglaterra, em seguimento aos trabalhos do arquiteto Léon Krier (Franklin et Tait, 2002), em seguida, na constituição do movimento para o New Urbanism (Novo Urbanismo), nos Estados Unidos (Thompson-Fawcett, 2003) ou, ainda, nos debates da cidade durável (Urbia, 2007). Do mesmo modo, o ideal-tipo de cidade global prefigura as problemáticas mais pertinentes de Friedman (2002), Taylor (2004) ou Sassen (1991) quanto à mundialização urbana.

Contudo, o escritor permanece a um nível de elucubrações futuristas desconectadas da realidade. Primeiramente, desenvolve uma teoria ex nihilo sem referência aos autores precedentes (entretanto, numerosos, como o demonstra Paquot, 2007) e tal qual um messias, propõe “um urbanismo curador” que supõe resolver todos os males dos quais sofrem a cidade e seus habitantes (Lussault, 1998). O próprio exercício do panfleto, ao qual expõe contra o Estado e as mídias (os únicos responsáveis, de acordo com ele, pela falência democrática e pelo insucesso da comunicação de massa), impede toda a distância crítica frente às problemáticas que mereceriam um exame mais aprofundado.

Querendo ser acessível ao maior número, através do uso de ilustrações ou esquemas matemáticos, o autor, infelizmente, afunda-se em uma ingenuidade pseudo-científica que prejudica seu projeto: obedecendo a análise pedida pelo exercício de uma teorização social, subtrai a candura de uma extrema esquematização de processo, no entanto, tão complexos quanto as relações sociais, econômicas ou políticas.

Finalmente, a idéia malthusiana de “grupo crítico” pode ser interessante em teoria, mas não resiste à prova dos fatos no início do século XXI: o problema sendo mais uma questão de redistribuição dos recursos do que do tamanho da população mundial.

Assim, Yona Friedman, define-se como um utopista voltado para o futuro e o progresso técnico-científico, mais que um pragmático centrado no presente e nos processos sociais e econômicos. “A utopia é um ‘afora’ para ser realizado presentemente e não um ‘futuro’ por vir”, como lembra, admiravelmente, Thierry Paquot (2007, p. 16).

 

Fonte

FRIEDMAN, Yona. Utopies réalisables. Paris-Tel-Aviv, Éditions de l’éclat, [1974, 2000] 2008.

Bibliografia:

FRANKLIN, Bridget et TAIT, Malcolm. Constructing an Image: The Urban Village Concept in the U, Planning Theory. 1, 3, 2002, pp. 250-272.

FRIEDMAN, Yona. Utopies réalisables. Paris-Tel-Aviv, Éditions de l’éclat, 2008.

__________. L’architecture mobile : vers une cité conçue par ses habitants. Tournai, Casterman, 1970.

FRIEDMANN, John. The prospect of cities. Minneapolis, University of Minnesota Press, 2002.

LUSSAULT, Michel, “Un monde parfait : des dimensions utopiques du projet urbanistique contemporain”, in Emmanuel Eveno (éd.). Utopies urbaines. Toulouse, Presses Universitaires du Mirail, 1998.

Urbia (ouvrage collectif), Éco-quartiers et urbanisme durable, n°4, Lausanne, Observatoire Universitaire de la Ville et du Développement Durable, 2007.

PAQUOT, Thierry. Utopies et utopistes. Paris, La Découverte, 2007.

SASSEN, Saskia. The Global City. New York, London, Tokyo. Princeton, Princeton University Press, 1991.

TAYLOR, Peter J. World city network: a global urban analysis. London, Routledge, 2004.

THOMPSON-FAWCETT, Michelle. À New Urbanist Diffusion Network. The Americano-European Connection. Built Environment. 29, 3, 2003, pp. 253-270.

Blog de Yona Friedman: http://yonafriedman.blogspot.com/

 

* Blaise Dupuis é mestre em Letras e Ciências Humanas, assistente de ensino e doutorando no Instituto de Geografia da Universidade de Neuchâtel.

 

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