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ADRIANA DANTAS REIS
Professora de História da
Universidade Estadual de Feira de Santana/BA

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As lágrimas de Voltaire e Rousseau e as “nossas”
Adriana
Dantas Reis*
Durante o evento
Fronteiras do Pensamento
(Porto Alegre, março de 2007), assisti à conferência: Voltaire,
Rousseau e nós, proferida pelo célebre historiador Robert
Darnton. Atravessando o pensamento pós-moderno, ele foi ao encontro
dos iluministas no século XVIII para trazer importantes reflexões
sobre história, sentimentos, atitudes. O mais surpreendente é que
realizou essa façanha através das lágrimas derramadas por dois dos
mais importantes pensadores da história moderna, Voltaire e
Rousseau. Inimigos declarados, as inúmeras divergências filosóficas
e políticas, no entanto, não os privaram de compartilharem
sentimentos triviais e absolutamente corriqueiros, comuns a todos
nós. Pasmem! Voltaire e Rousseau verteram lágrimas.
Voltaire sofreu pela morte da atriz
Adrianne, por quem estava apaixonado. Ela
que havia interpretado sua peça Édipo,
morreu antes de receber a extrema unção, pois na época, para receber
o sacramento os artistas deveriam renunciar à profissão. Por
isso, a bela Adrianne, teve seu corpo jogado em vala comum com
direito apenas a algumas porções de cal para apressar a
decomposição. Essa experiência sentimental vivenciada por Voltaire o
fez chorar e pensar sobre sua própria humanidade, sobre os costumes,
e as instituições. Segundo Darnton, “essa situação obcecou Voltaire
com o assunto da própria morte. Ele temia ter o mesmo fim de sua
amante”.
Em seu livro Cândido, Voltaire coloca seu personagem
principal diante dessa cena de morte, o qual teve uma surpreendente
reação: “ele simplesmente diz que foi algo realmente descortês”.
Penso que essa parece ter sido a alternativa encontrada por Voltaire
para criticar, de certa forma, o domínio da Igreja Católica sobre os
comportamentos adequados para a obtenção do direito a uma boa morte.
Além disso, muito antes de Norbert Elias, em seu livro O século
de Luis XIV, Voltaire inaugurou a idéia de cultura, como
sinônimo de poder, descrevendo a relação entre encenação e exercício
de poder numa “sociedade de corte” (ELIAS, 2001). E defendendo a
sociedade polida e a civilidade como progresso, também compartilhou
do que Norbert Elias chamou de “processo civilizador” (ELIAS, 1994).
Segundo a descrição feita por Darnton a
emoção de Rousseau veio quando ele foi visitar o amigo Diderot na
prisão. No caminho, ao passar pelo orfanato onde havia deixado seus
cinco filhos ilegítimos, uma mistura de remorso e tristeza fez o
“filósofo de Genebra” chorar, e refletir sobre sua existência. Os
efeitos desse sofrimento o levaram a escrever O discurso sobre a
Restauração das Ciências e das Artes (1750). O historiador
Robert Darnton afirma que Rousseau pensava que havia se corrompido
por respeitar a série de valores culturais impostos para adequação
social, e ao perceber o poder inserido nos costumes Rousseau criou a
Antropologia. O historiador americano nos oferece aqui a chave para
entender as contradições do Rousseau. Acredito que ao se emocionar
com uma situação absolutamente comum na época, estava também, de
certa forma, refletindo sobre uma das instituições mais importantes
para a Igreja Católica: o sacramento do matrimônio, sua
indissolubilidade e a legitimidade da família. Posteriormente ele se
tornaria um defensor do amor materno, da responsabilidade paterna e
do amor romântico
Para Darnton as subjetividades não são
privilégios dos pós-modernos, ele discorda daqueles pensadores que
convencionaram ver o iluminismo como sinônimo de racionalismo.
Rousseau e Voltaire refletiram sobre temas que ainda nos inspira, e
inauguraram novas formas de pensar sob o efeito das lágrimas, do
espanto e do sofrimento. Uma atitude experimentada por Freud lembrou
Darnton, que semelhante a Rousseau, foi autobiográfico e
revolucionou o pensamento e as sentimentalidades no século XX.
Poderíamos lembrar outros, como o mergulho de Nietzsche na “loucura”
que resultou na lucidez de seu pensamento; Foucault e suas obras
viscerais sobre poder, punição e sexualidade. E o próprio Darnton
que segundo seu depoimento, decidiu mudar da profissão de jornalista
para historiador por motivos sentimentais: a lembrança de seu pai,
um jornalista do The New York Times, morto durante a II
Guerra Mundial. Ver a placa feita em sua homenagem estampada no
mesmo Jornal onde trabalhou nos anos 1960 trazia muito sofrimento e
muitas reflexões.
Darnton parece nos dizer que as
fronteiras entre o pensamento moderno e o pós-moderno são como as
fronteiras culturais de Fredrik Barth (BARTH, 2000), elas só
serão mantidas através do contato. Não existe uma evolução do
pensamento no sentido de que o de hoje supera o de ontem, e a
percepção das fronteiras só é possível através de diálogos e
influencias. Ou seja, as fronteiras são miragens, móveis e fluidas.
E o que verdadeiramente interessa ao historiador Robert Darnton não
são apenas as contribuições político-filosóficas das obras de
Rousseau e Voltaire para o pensamento moderno. Através do recurso
antropológico procurou entender a revolução iluminista na cultura
ocidental, atingindo os sentimentos que inspiraram esses homens a
pensarem e a experimentarem novas atitudes diante da morte, da
família, do amor, do casamento, dos costumes. Afinal, o que eles
sentiram na própria carne que os tornaram ferrenhos críticos da
Igreja Católica e do Antigo Regime? Como sentimentos triviais
levaram esses homens a elaborações tão sofisticadas sobre política,
sociedade e cultura? Darnton não está interessado nas influências
fora das pessoas, com o contexto em que uma obra está inserida, ou
com a estrutura que determina o que os pensadores escrevem. Seu foco
está na cultura, na humanidade, nos sentimentos individuais e
coletivos e nos efeitos que eles causam.
Através de uma linguagem fluente e
sofisticada, mas ao mesmo tempo acessível Darnton falou de que forma
as comoções coletivas que aparecem em momentos trágicos da História,
como o “11 de setembro” e a “Revolução Francesa”, ou sentimentos
pessoais como a morte da atriz de Voltaire, o abandono dos filhos de
Rousseau, ou a lembrança do seu pai, puderam e podem levar a
atitudes e reflexões que mudam vidas, reconstroem trajetórias,
inauguram alternativas, transformam valores e o curso da própria
História. No entanto, para ele o passado não traz lições ao
presente, apenas oferece possibilidades e perspectivas. Mas, quando
chama atenção para a necessidade de uma revolução cultural a partir
da transformação de valores e atitudes, parece também advertir sobre
as lágrimas.
As lágrimas são materializações de uma
avalanche de sentimentos que começa com um aperto no peito e desaba
em “aguinhas salgadas” saindo pelos olhos... Que alívio! Parece
mágica! O choro pode ser expresso de várias formas, mas o fato é que
não temos derramado tantas lágrimas assim. A convivência cotidiana
com catástrofes, violência, pobreza, parece que nos tornou imune a
sentimentalismos. Alguns podem também argumentar que as influências
do racionalismo/iluminista e do capitalismo/materialista não nos têm
deixado alternativas, a não ser “o salve-se quem puder”. Talvez
precisemos rever Voltaire e Rousseau fora do foco do racionalismo,
mas a partir da importância que ambos deram à cultura, seus
aprisionamentos e as possibilidades de quebrar regras. Talvez
precisemos também nos emocionar, e acima de tudo transformar os
sofrimentos pessoais ou coletivos em algo mais do que espetáculos
para se assistir em programas sensacionalistas de televisão. Essa
parece ser a grande diferença entre as lágrimas vertidas por
Voltaire, Rousseau e as “nossas”: os efeitos que elas causam nos
nossos corações e nas nossas mentes e as atitudes que tomamos a
partir delas.
Quem esteve no Salão de Atos da UFRGS na
noite do dia 27 de março de 2007, pôde presenciar o olhar
apaixonado, a sorriso sincero, a voz aconchegante, e a vibração de
um historiador fantástico. Darnton trouxe lições importantes sobre
sensibilidade e transformação. Mas não apenas como um tema político
ou uma discussão teórica, mas como uma atitude. E não apenas sobre o
passado, mas sobre ele, nós e eles. Só mesmo um historiador sensível
seria capaz de buscar nos cadáveres de mortos há mais de duzentos
anos a humanidade e os sentimentos. Essas coisas triviais que nos
movem nos fazem pensar e decidir... É uma chamada para irmos além do
micro ou do cotidiano. Ele nos convida para um mergulho nas
circunstâncias individuais, nos sentimentos e decisões.
Referências
Barth, Fredrik. O guru, o iniciador e outras variações
antropológicas, Rio de Janeiro, Contra Capa, 2000.
Elias, Norbert. Sociedade de Corte. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2001.
_________. O Processo Civilizador, 2 vols. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1994.
*Professora de
História da Universidade Estadual de Feira de Santana/BA
Agradeço aos organizadores do evento pela calorosa recepção,
em especial a Michelle Mastalir Salgueiro pelo convite e
amizade, e por ter me proporcionado momentos inesquecíveis.
Sou grata ainda a Marília Barcellos por ter lido o texto e
feito sugestões.
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