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VANDERLEI
ELIAS NERY
Doutorando em Ciências Sociais pela PUC/SP, pesquisador do NEILS.

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Currículo como processo
vivenciado na escola
Vanderlei Elias Nery
Para falar sobre o currículo escolar, devemos perguntar: O que é
currículo? A resposta pode variar muito e até ser antagônica,
dependendo da visão de mundo que se tem. Muitos consideram currículo
apenas a grade curricular, ou seja, a divisão em disciplinas e os
conteúdos trabalhados por elas. Trabalharemos, neste texto, com uma
visão que considera todo o processo vivido na escola como componente
do currículo.
A partir da resposta acima devemos situar o papel da escola em uma
sociedade dividida em classes sociais. Althusser
(1983) foi um dos primeiros
autores a chamar a atenção para o papel da escola
a partir deste viés. Este
autor situa a escola como Aparelho Ideológico de Estado (AIE). O que
isso quer dizer? Para Althusser, a escola é um instrumento da classe
economicamente dominante, detentora do poder político, para a
reprodução das relações sociais que favorecem a continuidade desta
classe no poder, e consequentemente mantém as relações de dominação
e submissão existentes.
Qual o instrumento que possibilita esta reprodução na escola? O
currículo. Como? São várias as maneiras. Trabalharemos algumas
delas. No geral, a percepção que nós temos sobre o processo de
reprodução social e inculcação ideológica que acontece na escola se
dá pelos conteúdos transmitidos, principalmente nas disciplinas da
área das humanidades. Não desprezamos aqui este fato, porém
tentaremos demonstrar que, para além desta área, todo o processo
educativo escolar está impregnado pela ideologia dominante. Vejamos.
Nossas escolas, no geral, são organizadas de forma
hierárquica, assim como nossa sociedade. Geralmente, o diretor é a
figura central da escola, é aquele que deve dar a palavra final
sobre todos os assuntos. Na escola, ele aparece como quem elabora e
determina o que os professores, funcionários, alunos e pais devem
fazer. Sabemos que isto é muito mais um mito que realidade, pois o
diretor também está submetido a uma hierarquia rígida, a qual vem
determinada pelos órgãos que gerenciam os sistemas educacionais, em
geral as secretarias de educação (PARO: 1997). Mesmo com esta
ressalva, na escola o diretor aparece como a figura preponderante,
aquele que detém o poder. Ora, essa postura tem consequência na
formação das crianças e jovens, pois para estes o diretor representa
a autoridade máxima da escola, o que vai acostumá-los à hierarquia
que vão encontrar na sociedade, principalmente no mundo do trabalho,
ao qual, mais cedo ou mais tarde, a maioria dos jovens se submeterá
(PARO: 2001).
Mas a reprodução não para por aí. O que ensinamos às crianças e
jovens quando pré-estabelecemos regras, às quais eles devem obedecer
cegamente, sem questionamentos? O que ensinamos quando determinamos
horários? Não quaisquer horários, mas de entrada, de troca de aula,
de saída, com aquele sinal “maravilhoso”, tocando a cada 45 ou 50
minutos? O que ensinamos quando, no primeiro ano do ensino
fundamental, no qual as
crianças agora têm seis anos, as colocamos em fila indiana, mandamos
que cantem o hino nacional, e depois subam em fila, em silêncio, e
que, ao chegar à sala de aula, sentem em suas carteiras, sendo estas
organizadas bem separadas e uma atrás da outra? Muitos exemplos
poderiam ser citados aqui, mas estes já podem dar um quadro razoável
do que queremos demonstrar. Todos esses ensinamentos servem para
moldar as crianças e jovens à vida em uma sociedade hierarquizada,
competitiva, individualista, em que a busca da realização deve se
dar de forma solitária, sobrepujando a tudo e a todos (NIDELCOFF:
1993).
Até aqui falamos da organização da escola. Mas não é só aí que se dá
a reprodução social. Qual o papel das disciplinas e do processo de
ensino-aprendizagem? Para fugirmos dos lugares comuns, começaremos
por aquelas disciplinas que todos julgam
isentas, neutras, que são objetivas, como as da área das
ciências exatas. Consideremos, então, a disciplina de Matemática. O
que se ensina nesta disciplina? Diriam os apressados, aqueles que se
julgam neutros, apolíticos, que o que é ensinado é o cálculo, o
pensamento, o raciocínio lógico etc. De fato esses conteúdos podem
ser ensinados por meio da disciplina de Matemática. Mas será que em
nossas escolas públicas, nas quais estudam as crianças e jovens
trabalhadores, isto está ocorrendo?
Para responder a esta pergunta, devemos verificar como se dá o
processo de ensino-aprendizagem
desta disciplina. Pela nossa experiência como alunos que
fomos no passado, e como professores que somos no presente, podemos
dizer que, na maioria das vezes, a forma de ensino e os conteúdos
trabalhados por esta disciplina não buscam desenvolver o raciocínio
e,portanto, não buscam desenvolver a autonomia nas crianças e
jovens. A forma principal para o ensino da Matemática tem sido fazer
com que os alunos decorem regras, fórmulas e cálculos. Por mais que
haja um discurso progressista, ainda não
encontramos, na imensa maioria de nossas escolas, um ensino
que busque a compreensão do princípio, o conhecimento do porquê das
coisas. Ora, esse processo de ensino-aprendizagem
reforça a ideologia dominante, pois inculca nas crianças
e jovens uma dependência aos “sábios”, àqueles que sabem elaborar e
resolver os problemas da sociedade e, ao fazer isso, reforça na
classe trabalhadora sua dependência e submissão à
classe dominante, pois nesta estão aqueles que são
capazes de pensar e buscar o sentido das coisas e, portanto, aqueles
que devem, inclusive, dirigir a sociedade.
E as disciplinas da área de humanas? O que elas ensinam? Pensemos na
disciplina de História. Qual o papel reservado aos trabalhadores
brasileiros na construção do Brasil? Os primeiros habitantes,
chamados erroneamente de índios, são apresentados como aqueles que
não tinham cultura, como incivilizados. Os negros, como bestas,
verdadeiros animais irracionais, sem alma, e que, portanto, podiam
ser escravizados. E os portugueses? Estes são apresentados como
aqueles portadores de uma cultura superior, que vieram para o “novo
mundo” colonizar, elevar à civilização e
os povos que aqui viviam. Em um país de maioria mestiça
ou negra, qual é a mensagem que este tipo de ensino transmite?
Entendemos que o que é transmitido é a superioridade do branco em
relação às outras etnias, assim estas devem se curvar ao domínio
daqueles que são superiores culturalmente. Será por isso também que,
na língua portuguesa brasileira, omite-se a grande quantidade de
palavras de origem africana ou guarani? Ou, quando são proferidas,
inserem-se, na maioria das vezes, em contextos restritos ao
folclore, às manifestações populares? (NIDELCOFF, 1993)
Várias outras disciplinas e formas de organização da escola promovem
esse processo de reprodução da sociedade capitalista, mas entendemos
que, para os objetivos deste artigo, o acima exposto é suficiente
para demonstrar nossa concepção de currículo e a forma como este
serve aos objetivos da classe dominante.
A partir destas constatações, nos perguntamos, então: aqueles que
buscam um processo de transformação social devem abandonar a escola?
Entendemos que não. Apesar do processo acima demonstrado,
consideramos a escola como um lugar privilegiado para a classe
trabalhadora na busca do conhecimento socialmente produzido.
Então o que fazer? Em primeiro lugar, é preciso discutir com mais
refinamento o papel da escola nas sociedades de classes. Concordamos
com Althusser (1983), quando este define a escola com AIE, porém se
nos fecharmos nesta posição, esqueceremos que a escola é uma
instituição da sociedade, que,
portanto, está mergulhada, também, na luta de classes. Esta visão
nos permite afirmar que a escola é um lugar privilegiado das lutas
sociais e das disputas ideológicas. Não podemos nos esquecer de que
as contradições vividas por professores e alunos, que são
trabalhadores, são levadas para o convívio escolar, e que este fato
nos leva a pensar que as coisas não se dão de uma forma mecânica, o
processo de ensino-aprendizagem é, também, perpassado pelos
conflitos entre as classes sociais, assim sendo, a reprodução social
dentro da escola é marcada por esses conflitos (PARO: 1996).
Como afirma Apple (1989), professores, pais e alunos devem buscar
formas de agudizar estas lutas em favor da classe trabalhadora.
Neste sentido, o que poderia ser feito? Buscar a democratização das
relações escolares. Como? Criando mecanismos e utilizando os já
existentes (Conselho de Escola, por exemplo) que reforcem a
participação da comunidade escolar em todo o processo de
ensino-aprendizagem, promovendo a
participação de professores, funcionários, alunos, pais e
responsáveis na elaboração das propostas escolares e não somente na
execução.
Esse processo é importante, pois como afirma Paro (1997), quem só
executa deixa de ser sujeito, e o ser humano é sujeito por natureza,
portanto, ao ser alijado da elaboração, participando somente da
execução daquilo que alguém “superior” elaborou e determinou, ele
perde sua humanidade.
Esta democratização pode se dar também na elaboração do Projeto
Político Pedagógico da escola, em que todos podem discutir suas
posições, pontos de vistas e propostas. Mas, para isso, é preciso
que a equipe de direção e professores respeitem as posições, pontos
de vistas e propostas de pais e alunos. Isso significa aceitar que
estes têm muito a nos dizer e que, se o processo de
ensino-aprendizagem busca o conhecimento e este deve realizar-se
para os alunos, os interessados diretos devem poder opinar e propor.
Um segundo ponto importante é a mudança na relação professor-aluno.
Para que uma escola seja de fato democrática, esta relação não pode
basear-se em uma relação de mando e obediência. O professor não pode
enxergar o aluno como alguém desprovido de conhecimento, pois o
aluno, ao chegar à escola, traz consigo os conhecimentos vivenciados
na família e na sociedade em geral. Com isso não queremos fazer coro
às propostas neoliberais atuais
que, se apropriando do exposto acima, transformam o
professor em mero observador do aprendizado do aluno. Nós não
compactuamos com esta visão.
O professor tem um papel importantíssimo
no processo de ensino-aprendizagem.
É ele que detém os conhecimentos básicos da disciplina lecionada e
também das técnicas de ensino. O que queremos destacar aqui é que,
para que haja uma real
democratização da escola, o professor deve enxergar o aluno como
sujeito construtor de sua história e do seu conhecimento, sendo
fundamental que o mestre ouça seus alunos e participe com eles do
processo de ensino-aprendizagem.
A fim de que isso se efetive, deveríamos
buscar um processo que partisse do conhecimento dos alunos, para daí
progredir até o máximo de conhecimento possível. Partir do que o
aluno sabe não quer dizer partir do indivíduo e sim do grupo ou da
classe ao qual ele faz parte, e também não quer dizer ficar naquilo
que o grupo já sabe. Como
afirmamos acima, a busca pelo conhecimento cada vez mais elevado
deve ser sempre o objetivo do processo de ensino-aprendizagem
(SAVIANI: 2000).
Entendemos, ainda, que a divisão por
disciplina dificulta a busca da totalidade, pois fragmenta o
conhecimento, porém, enquanto não temos condições de mudar esta
realidade, podemos ter como método de ensino para todas as
disciplinas a descoberta, que pode ser conseguida através da
pesquisa. Isto significa dizer que devemos abandonar os cálculos,
fórmulas e formas prontas, as histórias definitivas.
Como atingir este objetivo? Na
Matemática, por exemplo, o objetivo do processo de
ensino-aprendizagem deveria ser o
entendimento dos cálculos e das fórmulas, sendo estes o resultado de
um longo percurso de pesquisa, em
que professor e alunos trilham um
caminho que os leva ao resultado final, que são os cálculos e as
fórmulas. Nesta nova metodologia,
estes passam a ser produtos de
algo construído por todos, assim o
processo de construção do conhecimento torna-se
o objetivo central e não a fixação de cálculos e fórmulas.
Na disciplina de História, por sua vez,
devemos abandonar os textos e histórias prontas, apresentando aos
alunos as várias visões de mundo ao longo do tempo, utilizando
textos, narrativas, formas de organização da vida, materiais das
diferentes classes sociais, ajudando os alunos a produzirem sua
própria visão de mundo. Desta forma,
o papel do professor será muito mais o de alguém que auxilia o aluno
em seu processo de conhecimento do que aquele que diz o que se deve
e o que não se deve saber .
Esta concepção de currículo e de escola
busca auxiliar nossas crianças e jovens a se tornarem adultos
autônomos e capazes de enfrentar as lutas sociais, objetivando a
construção de uma sociedade justa e fraterna. Isso não significa que
perdemos a noção do papel da escola na sociedade de classes, porém
acreditamos que devemos aproveitar a escola e o currículo como
espaços privilegiados da disputa ideológica.
Referências
ALTHUSSER. L.
Aparelhos Ideológicos de Estado.
Rio de Janeiro: Graal, 1983.
APPLE, M.
Educação e poder.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
NIDELCOFF, M. T. Uma escola para
o povo. São Paulo: Brasiliense, 1993.
PARO, V. H. Administração
escolar: introdução crítica. São Paulo: Cortez, 1996.
__________.
Gestão democrática da escola pública.
São Paulo:
Ática, 1997.
__________. Escritos sobre
educação. São Paulo: Xamã, 2001.
SAVIANI, Dermeval. Pedagogia
histórico-crítica: primeiras aproximações. 7ª ed. Campinas:
Autores Associados, 2000.
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