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MÁRIO
MAESTRI
Historiador e professor do Curso de
História e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS

HELEN ORTIZ
Mestre em História pelo PPGH da UPF,
RS

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Por mais terras que eu percorra ...
Vida, luta e martírio do sargento Manoel
Raimundo Soares
[Parte 2]
Mário Maestri
e Helen Ortiz
Cartas do Cárcere
Elizabeth, esposa de Manoel Raimundo,
vivera com ele por algum tempo em Porto Alegre, abandonando a seguir
a capital rio-grandense, para retornar a Osvaldo Cruz, no Rio de
Janeiro.
Logo que pôde, Manoel Raimundo arranjou-se para retomar contato com
ela através de correspondência. Em 15 de abril de 1966, em carta que
chegou às mãos de sua esposa, relatava que fora preso para
“averiguações”.
“Finalmente acabei sendo preso. Caí em
uma cilada de um 'dedo-duro' chamado Edu e vim parar nessa
ilha-presídio. Fui preso às 16.50 hs. do dia 11 de março,
sexta-feira, em frente ao Auditório Araújo Viana. Fui levado para o
quartel da P.E. [Polícia do Exército], onde fui 'interrogado'
durante duas horas e depois fui levado para o DOPS. Estou bem. Nesta
ilha [do Presídio] me recuperei do 'tratamento' policial. Até o dia
em que fui preso estava dormindo em hotéis e pensões variadas.”
Manoel Raimundo seguia: “Não sei como
vou me arranjar no dia em que eu for solto pois o Leo [possivelmente
o já citado sargento Leony Lopes] único amigo que eu tinha em Porto
Alegre, perdi o contato com ele e eu não sei o endereço. Espero que
você esteja bem e que se mantenha em calma. Isto passa. Nos dias
seguintes ao que eu for solto, teremos uma nova lua de mel em uma
cidade bonita qualquer.”[3]
No inverno, sem sapatos
Manoel Raimundo pedia à esposa que
enviasse, se pudesse, “algum dinheiro” através da agência de Porto
Alegre do Banco Nacional de Minas Gerais, onde tinha conta, pois
precisava de coisas como “aparelho de barba, um sapato 38, escova de
dentes, roupa de frio e coisas de comer”. O prisioneiro lembrava ter
deixado “na gaveta da mesa de cabeceira do Hotel onde dormi a última
noite antes da prisão, todo o dinheiro que” tinha.[4]
O fato de ser filho de família humilde, sem relações no Sul,
dificultava a já difícil situação do prisioneiro, preocupado
igualmente com a sorte de sua esposa.
Na mesma carta, Manoel Raimundo
avançava sugestão para a esposa: “Você NÃO precisa vir aqui. Isto
não ajudará NADA e você não conseguirá ver-me. Não permitirão.”
Possivelmente temia envolvimento da esposa com a repressão. Pedia
também para que ela mantivesse a “calma”, “pois, nestas horas só a
calma ajuda”. Sobretudo, instruía a esposa a procurar o “o Dr.
Sobral Pinto, à rua Debret nº. 39”, no Rio de Janeiro, para
providenciar “pedido de habeas no Superior Tribunal Militar”.
Em 5 de maio de 1966, em um momento em
que o verão já se despedia do Sul, fazendo a temperatura cair
rapidamente, Manoel Raimundo escreveu a quinta carta à esposa, a
segunda que ela recebia. Na correspondência, refere-se as suas
condições de aprisionamento e às torturas que recebera. “Em meu
corpo ficaram gravadas algumas das medalhas com o que me agraciaram.
Aqui estou sem sapatos, sem roupas de frio, sem cobertas, usando
unicamente uma camisa de Nylon e uma calça de lã preta. [...] Não
sei bem, mas creio que estou preso à disposição do III Exército. Por
isto, só um 'habeas-corpus' do Superior Tribunal Militar
poderá libertar-me.”
Sentimento e esperança
A carta era igualmente momento de tentar
estreitar sentimentos pela esposa fortalecidos pelo sofrimento:
“Como vês o papel está acabando, por isto aproveito para lembrar-te
que meu pensamento é só para ti; durante todas as horas destes
últimos dias não sais do meu pensamento. O banquinho da cozinha, os
beijos nos olhos, tudo aquilo que liga meu corpo a tua alma (ou
espírito que é mais certo). Recebe mil beijos e um caminhão de
abraços do teu Manoel."
[7]
Manoel Raimundo permaneceu durante cinco
meses na ilha do Presídio, incomunicável, privado de notícias da
família e do mundo, passou fome e, certamente, muito frio, ao qual
estaria pouco habituado. Nas suas primeiras cartas conhecidas, dos
primeiros meses de cárcere, registra sua calma e esperanças. Pensava
no futuro, fazia planos de viagem com a mulher amada.
Intensificando-se o martírio e a solidão, tentou fortalecer-se
centrando-se também no sentimento que nutria pela esposa.
O ex-sargento acreditava que seria posto
em liberdade em pouco tempo. Na época, a instituição do habeas
corpus ainda vigia. Não sabia que dois pedidos de
libertação impetrados junto ao Superior Tribunal Militar
(STM) haviam sido negados, já que, em falsas declarações, as
autoridades militares e policiais afirmavam que não estava preso.
Mais tarde, o Exército tentaria negar sua responsabilidade na prisão
ilegal e assassinato de Manoel Raimundo afirmando que respondera ao
STM que não tinha Manoel em seu poder, sem informar,
logicamente, que ele fora entregue pela Polícia do Exército à DOPS.
Quando o terceiro habeas corpus estava para ser julgado, os
torturadores já haviam dado fim a sua vida.
“Ainda estou vivo”
As duas últimas cartas que Elisabeth
recebeu do marido foram escritas em 10 de julho de 1966. Na
primeira, afirmava: “Ainda estou vivo. Espero de todo o coração que
você tenha recebido as cartas que remeti anteriormente. Esta é a
oitava. Nunca pensei que o sentimento que me une a você chegasse aos
limites de uma necessidade. Nestes últimos dias, tenho sido
torturado pela idéia de que estou impedido de ver teu rosto ou de
beijar teus lábios. Todas as torturas físicas a que fui submetido na
PE e no DOPS não me abateram. No entanto, como verdadeiras
punhaladas, tortura-me, machuca, amarga, este impedimento ilegal de
receber uma carta, da mulher, que hoje, mais do que nunca, é a única
razão de minha vida.”[8]
Manoel Raimundo contava: “[...] já tenho
escova de dente, sabonete e até roupas e sapatos, fizeram chegar até
aqui. Mas, nada disso pode aliviar a dor que me causa o fato de não
poder receber cartas de minha Beta. Acredito que minha situação
ainda não mudou muito. Até hoje (amanhã completam-se quatro meses),
não fui ouvido em I.P.Ms. [Inquéritos Policial-Militares] e desde
que mandaram-me para esta ilha não mais saí.”[9]
Portanto, após os duros primeiros tempos de tortura na Polícia do
Exército e no DOPS, o prisioneiro conhecera tranqüilidade
relativa na Ilha.
Mais adiante, insistia com a esposa na
necessidade do pedido de habeas corpus perante o Superior
Tribunal Militar para libertá-lo e desabafava: “Apesar do sofrimento
espiritual a que estou submetido, ainda assim recomendo que você
mantenha a calma. [...] Acredito que agora, você já poderia tentar
visitar-me aqui em Porto Alegre. O que você acha disto? Espero que
você não tenha estado em dificuldades em matéria de dinheiro. Isto
seria para mim pior do que a pior coisa que pudesse me acontecer.
Não podendo abraçá-la com a força do bem que te desejo, deixa que em
forma espiritual, te beije ardentemente, este que é até morrer, o
teu Manoel.”
[10]
Última carta
A segunda das duas cartas escritas por
Manoel Raimundo, em 10 de julho, foi a quarta e última que a esposa
recebeu. Ele iniciou com a mesma afirmação, que à leitora deveria
causar alívio e esperança, mas que parece registrar a consciência do
prisioneiro da ameaça sob a qual vivia: “Ainda estou vivo”. Em
seguida, relatava: “A saúde que havia chegado ao meu corpo, partiu,
deixando a normalidade que você tão bem conhece. Fígado, intestinos
e estômago.
Espero de todo o coração que você tenha recebido as cartas
anteriores. Esta é a de número nove. Penso que a estas horas você
deve estar chorando. Não quero isso. A jovem senhora, valente, das
respostas desconcertantes, deve agora, substituir a moça ingênua e
humilde com quem tive a felicidade de casar.”[12]
Manoel Raimundo seguiu falando de seu
amor: “Nestes últimos dias tenho sido torturado pela realidade de
estar impedido de ver o rosto da mulher que amo. Eu trocaria se
possível fosse, a comida de oito dias, por oito minutos junto ao meu
amor, ainda que fosse só para ver. Tenho uma fé inabalável de que,
os adversários não conseguirão destruir nosso amor. Sei hoje, que
você tinha razão, em muitas de nossas discussões sobre nosso tipo de
vida.”
Manoel Raimundo retomava temas passados,
em seu dilacerante diálogo com a esposa distante: “Você ganhou.
[...] Tudo passará. A política, a cadeia, os amigos; só uma coisa
irá durar até a morte: o amor que tenho por essa mulherzinha que é
hoje, a única razão de querer viver, deste presidiário. [...] Só
agora avalio o que é estar junto da mulher amada. Com a
tranqüilidade da certeza de que apesar de tudo ainda mereço o teu
amor remeto um caminhão de beijos, com o calor dos dias mais felizes
de nossa vida. Do sempre teu Manoel.”[13]
Novo interrogatório
Em 13 de agosto de 1966, pouco mais de
um mês depois de escrever a última carta recebida pela esposa,
Manoel Raimundo foi retirado da ilha do Presídio para ser levado
outra vez à DOPS, para novo interrogatório e tortura, agora sob as
ordens dos tenentes coronéis Átila Rochester e Luiz Carlos Menna
Barreto, chefe do DOPS. Não sabemos as razões precisas para o novo e
violento inquisitório de Manoel Raimundo, após longos meses na
prisão. Em depoimentos concedidos recentemente, seus companheiros de
luta relatam que ele teria escrito clandestinamente também para o
Superior Tribunal Militar sobre sua detenção e torturas em Porto
Alegre e, com a concessão de habeas corpus, fora subtraído da
prisão para revelar, sob tortura, os carcereiros que eventualmente
teriam facilitado a correspondência clandestina.
Em agosto de 1966, prosseguiam
febrilmente os preparativos do MNR para implantar colunas
combatentes em Goiás-Maranhão, no Mato Grosso, e em Caparaó, entre o
Espírito Santo e Minas Gerais. Um quarto foco armado deveria nascer
no norte do RS e sudoeste de Santa Catarina. Nos fatos, tratava-se
de ambiciosa articulação anti-ditatorial, envolvendo argentinos,
paraguaios e bolivianos. Quando a pequena coluna do MNR instalou-se
no alto da serra de Caparaó, em fins de 1966, Che Guevara e seus
companheiros organizavam-se também na selva da Bolívia. Manoel
Raimundo participara ativamente da preparação desses movimentos,
após o fracasso do segundo levante em Porto Alegre. Teria escrito
até mesmo um “decálogo do guerrilheiro” para as operações.
Há alguma divergência sobre as razões do
abandono da frente armada no Brasil meridional. Flávio Tavares
propõe que a desistência deveu-se à prisão, “no inverno de 1965”, do
“seu subcomandante, o ex-sargento Manuel Raimundo Soares”.
Segundo a informação confirmada por Jelsi Rodrigues
Correa, envolvido diretamente na iniciativa, apesar da
notícia da queda, continuaram os planos para o estabelecimento do
núcleo armado na serra do Mar, em Santa Catarina, inclusive com a
compra de propriedade e transporte de armas. A desconfiança de
camponeses com a perambulação de estranhos na região e a prisão de
dois militantes, sob suspeita de assalto a banco, teriam levado ao
abandono da proposta.
Dos quatro núcleos guerrilheiros
planejados pelo MNR, em associação com outras organizações
clandestinas nacionais e internacionais, prosperou apenas o de
Caparaó, instalado em outubro de 1966 e desbaratado em inícios de
1967, ensejando com esse tropeço o abandono de Leonel Brizola do
projeto de resistência militar à ditadura, insurrecional ou
guerrilheira. A seguir, o MNR dividiria-se, confluindo seus
militantes em outras organizações armadas, como a Vanguarda Popular
Revolucionária [VPR], a VAR-Parmares, etc., nas quais os
ex-suboficiais desempenharam papel fundamental.
Mãos amarradas
Talvez a vontade de arrancar rapidamente
informações de Manoel Raimundo sobre apoios na ilha do Presídio ou
sobre os atos em cursos de seus companheiros tenha levado seus
torturadores a transportá-lo, na mesma noite de 13 de agosto, em um
jipe do Exército, até ao rio Jacuí, para ser submetido a falsos
afogamentos. Essa é uma tortura sobremaneira aterrorizadora,
sobretudo quando praticada em um rio isolado, de águas revoltas e
geladas, sob a ameaça de afogamento definitivo. Nos últimos anos,
tal forma de tortura conheceu destaque na imprensa mundial ao ser
legalizada pelas autoridades estadunidenses como recurso a ser usado
pela CIA nos interrogatórios de prisioneiros políticos.
Possivelmente jamais saberemos se Manoel
Raimundo escapou inadvertidamente das mãos dos seus torcionários ou
foi abandonado propositadamente às águas do Jacuí para morrer. Era
habitual militares e policiais torturarem alcoolizados e drogados
prisioneiros políticos. Até agora, o que sabemos de certo é que,
onze dias mais tarde, Manoel Raimundo foi encontrado, morto, boiando
no rio, com os pés atados e as mãos atadas.
O corpo de Manoel Raimundo Soares foi
descoberto, por volta das 17 horas do dia 24 de agosto de 1966,
boiando entre algumas taquareiras, por dois moradores da ilha das
Flores, próxima a Porto Alegre, que informaram rapidamente as
autoridades policiais. À noite, um guarda civil compareceu ao local
para recuperar o cadáver, que foi amarrado, por uma corda, e
rebocado até a ilha da Pintada.
Morte por afogamento
O policial responsável pela operação de
resgate declararia que o cadáver tinha “as mãos amarradas às costas
pela própria camisa que vestia, sendo que as ataduras cobertas por
um suéter banlon que a vítima trajava; os bolsos laterais das
calças completamente repuxados para fora [...]; calças de cor
escura; um pé calçado com um sapato marrom e outro descalço.”[20]
Na madrugada do dia 25, peritos do
Instituto de Criminalística analisaram o corpo, determinando que a
morte se dera por afogamento, devido à “ausência de lesões
traumáticas” “aliada à conclusão do exame histopatológico, acusando
a presença de elementos característicos do plâncton mineral no
interior dos bronquíolos e raros elementos isilados nos alvéolos
pulmonares”, o que permitia “afirmar que a vítima respirou dentro da
água e que, portanto, a causa imediata da morte foi afogamento”.[21]
Apesar da situação do cadáver, os
peritos concluíram que a vítima estaria embriagada. Destaque-se que
Manoel Raimundo era abstêmio, entre outras razões, por problemas com
o fígado. Entretanto, mesmo que ele se encontrasse embriagado,
quando de sua morte, não significa que se houvesse embriagado. Anos
após o homicídio, em processo movido pela viúva, os defensores da
União alegaram o estado de embriaguez do ex-sargento. Defesa
rejeitada pelo juiz, que, irônico, lembrou que “seria realmente uma
façanha de Manoel Raimundo Soares: amarrar as mãos às costas, e
então embriagar-se. Ou então embriagar-se e amarrar suas mãos às
costas”.[22]
Acidente de trabalho
Após acompanhar as investigações sobre o
homicídio, o promotor Paulo Cláudio Tovo propôs uma provável
seqüência para os fatos: “[...] a vítima teria sido passível de
‘banho’ ou ‘caldo’, por parte dos agentes do DOPS [...], processo
despótico que consiste em mergulhar o paciente nas águas do rio,
quase até a asfixia, para dele extorquir a confissão [...]. Nesse
‘trabalho’ [...] realizado dentro de uma lancha – pois na época
fazia frio – com a vítima segura pelos pés e o restante do corpo
mergulhado na água, seus torturadores teriam-na deixado escapar, por
[...] ‘acidente de trabalho’ não conseguindo mais encontrá-la
[...].”
[23]
Não é de se afastar igualmente a
hipótese de uma execução do prisioneiro, devido a sua negativa em
fornecer as informações exigidas, para aterrorizar seus
companheiros, ou por qualquer outra razão desconhecida. É também
possível que Manoel Raimundo tenha morrido afogado
inadvertidamente durante a tortura, sendo após lançado ao rio. O
fato que os responsáveis pelos atos não tenham jamais sido levados a
julgamento impede a possível elucidação da seqüência precisa do
assassinato.
Não há sequer informação precisa sobre o
dia da morte de Manoel Raimundo, ocorrida entre os dias 13 e 20 de
agosto. Em data de 19 daquele mês, telegrama do STM, encaminhado
primeiramente ao diretor da ilha do Presídio e, no dia seguinte, ao
DOPS, pedia informações urgentes sobre Manoel Raimundo para fins de
habeas corpus. Enquanto o DOPS permanecia em silêncio, em 20
de agosto, com outros dois indivíduos, o delegado e diretor da
Divisão de Segurança Política e Social, José Morsch, entrou no
necrotério do Instituto Médico Legal, à procura de cadáver de
identidade ignorada.[24]
Mascarando os fatos
Foi em vão a tentativa do delegado José
Morsch de localizar o corpo de Manoel Raimundo pois, como referido,
só seria encontrado no dia 24, por moradores da ilha das Flores.
Entretanto, o ato registrou o conhecimento anterior ao achado, pelas
autoridades, da morte do prisioneiro político. Mesmo após o corpo
ser encontrado e identificado como sendo de Manoel Raimundo, os
agentes do DOPS seguiram teimando que nada sabiam sobre os
acontecimentos.
Na época, havia ainda liberdade de
informação relativa. Nas páginas de Zero Hora, de 2 de setembro de
1966, o jornalista e humorista Carlos Nobre comentava irônico e
indignado: “O troféu bolha da semana é para o DOPS porque, segundo o
delegado Delmar Kuhn, os agentes levaram o sargento Manoel Raimundo
Soares para a Ilha do Presídio, dias depois ele aparece morto,
boiando no rio Jacuí com as mãos atadas e o DOPS diz ignorar
qualquer violência na vítima [...]”.
[25]
Os assassinos de Manoel Raimundo
tentaram mascarar os fatos, com a ajuda de alguns jornalistas de
grandes meios de comunicação. Foi longamente divulgado que a morte
do sargento faria parte de “trama subversiva diabólica” “para fins
de propaganda anti-revolucionária”, ou seja, contra o governo
ditatorial. A versão oficial dizia que ele fora posto em liberdade
em 13 de agosto, apoiada em documento de soltura pretensamente
assinado pelo sargento. No livro de registros de presos da Ilha,
constava que Manoel Raimundo fora retirado de lá naquele dia. No
livro de ocorrências do DOPS, podia-se ler: “Às 13:30 horas foi
liberado por este DOPS, o detido MANOEL RAIMUNDO SOARES.” A seguir,
o documento discriminava os poucos bens pessoais devolvidos ao
libertado.[26]
Acidente ou execução?
Na época, a proposta de libertação, em
13 de agosto, de Manoel Raimundo, foi defendida para negar a
responsabilidade do Exército e da Polícia. O que sugere que a
assinatura tenha sido forjada pelas autoridades,
preventivamente, após o "acidente de trabalho" no rio Jacuí, talvez
sob a injunção dos pedidos prementes de informação determinados
pelos habeas corpus impetrados em favor do prisioneiro.
Entretanto, a assinatura foi autenticada
pela perícia. Caso ela realmente pertencesse ao prisioneiro, se
fortalece a hipótese de execução através de afogamento, realizada
talvez após o ministro forçado de bebida alcoólica. Araken Galvão,
ex-sargento e seu companheiros de luta, subscreve a tese do
assassinato. “Aplicaram-lhe injeções de álcool nas veias para
embriagá-lo – ele que nunca colocara na boca uma taça de vinho
sequer – quando viram que ele não delataria ninguém [...] jogaram,
depois de uma terrível sessão de torturas, ainda vivo no Rio Guaíba
[...].”
Nesse caso, o único acidente teria sido o lançamento de
Manoel Raimundo com os pés e as mãos amarrados, o que tirava
credibilidade à tese de suicídio ou acidente devido à embriaguez. O
registro da libertação teria sido medida preparatória à execução.
Manoel Raimundo não foi positivamente
libertado às 13:30 horas. Em depoimento de 3 de novembro de 1966, o
guarda civil Gabriel Medeiros de Albuquerque Filho afirmou que viu o
ex-sargento em uma das celas do DOPS, na noite de 13 de agosto,
quando prestava serviço naquele local.[28]
Esta informação foi também confirmada pelo então estudante Luis
Renato Pires de Almeida, detido à mesma época naquela prisão.[29]
Um último encontro
Araken Vaz Galvão relata sobre a viagem
de Elizabeth a Porto Alegre, onde chegou em 30 de agosto de
1966: “Quando a
notícia de sua morte chegou ao Rio [de Janeiro] eu recebia de Amadeu
Felipe a missão de acompanhar Betinha até Porto Alegre e, durante a
viagem, já ir preparando o seu espírito para amortecer o impacto da
tragédia. Foi a mais ingrata tarefa que recebi na minha vida. Não
sei, acho que só me saí bem em parte, pois a deixei, já informada,
em mãos segura na capital gaúcha.”
No necrotério, Elizabeth fez o
reconhecimento do cadáver. De pequena estatura, acabrunhada pela
morte, a jovem mostrou grande decisão e coragem na defesa da memória
de seu esposo e na exigência do castigo dos culpados. Em entrevista
à jornalista Tânia Faillace, em 2 de setembro de 1966, falou do
companheiro desaparecido, da vida simples e feliz que conheceram
após o rápido namoro e casamento. Ao registrar a ida quase diária ao
cinema, lembrou como haviam gostado do filme italiano “Os
companheiros”, de Mario Monicelli. Recordou o apreço de Manoel
Raimundo pela música clássica, com destaque para Mozart e Bach.
Araken Galvão relata que, anos antes do golpe, procurando-o
introduzir no gosto pela música clássica, Manoel Raimundo
convidara-o “a
sua casa” para que ouvisse o Bolero de Ravel, “o que ele chamou de
‘uma peça bastante simples” que o amigo compreenderia
“perfeitamente”.
Em 2 de setembro, o enterro de Manoel
Raimundo foi acompanhado por pequena multidão. Por onde passava o
cortejo triste, as lojas fechavam-se em sinal de homenagem ao
combatente caído. Trabalhadores da Carris tomaram o caixão pela alça
e carregaram-no até a Pira da Pátria, no Parque Farroupilha, onde
foi exposto, por alguns momentos, ao lado da bandeira nacional,
símbolo do país poderoso, justo e solidário com que o sargento
sonhava. Já no cemitério, um estudante gritou para policial que
vigiava à paisana o ato fúnebre: “– Assassinos!” O cadáver de
Raimundo Soares foi depositado, finalmente, no Cemitério São Miguel
e Almas.[33]
Presente à última despedida, a jovem
Elizabeth Challup Soares não teve forças para acompanhar a longa
marcha fúnebre, pois a “três dias não comia e quase não dormia”.[34]
Uma semana depois, também não compareceu à missa de sétimo dia de
falecimento. Por outra razão, desta vez. Em ato de vilania
inusitada, após vitimarem o jovem suboficial, os esbirros da
ditadura voltavam-se agora contra sua esposa, golpeada pela perda
irreparável. Elisabeth fora convocada para depor na Secretaria de
Segurança naquela data, sendo interrogara por cinco horas pelo
comissário Vargas.[35]
Total impunidade
A Procuradoria Geral do Estado designou
o promotor Paulo Cláudio Tovo para acompanhar as investigações sobre
o crime. Mesmo pressionado pelo Secretário de Segurança, ele
concluiu relatório em inícios de 1967, produzindo provas
fundamentais. A Assembléia Legislativa do RS instaurou também
comissão parlamentar de inquérito para averiguar as circunstâncias
da morte e a forma como eram tratados os presos políticos, que
resultou em valioso relatório publicado no Diário da Assembléia, em
junho de 1967.
Divulgado por dias amplamente pelos
meios de comunicação, o homicídio de Manoel Raimundo chocou
profundamente a sociedade sulina e brasileira da época. A
ilegalidade do ato, as torturas praticadas, a violência com que fora
tratado anunciavam porém as práticas e as armas que o governo
militar empregaria nos anos seguintes contra seus opositores, agora
sob a proteção do amordaçamento absoluto da imprensa.
Até hoje, não houve elucidação precisa
da execução de Manoel Raimundo Soares. Os responsáveis denunciados
jamais foram punidos, seguindo suas carreiras encobertados e
protegidos pelas autoridades civis e militares superiores, sob as
ordens das quais cometeram aquelas e tantas outras violências.
Sequer após a redemocratização do país, em 1985, seriam levados à
Justiça.
Impunidade
Em agosto de 1973, a viúva Elizabeth
Chalupp Soares ajuizou ação indenizatória pelo assassinato de seu
esposo contra a União, o estado do RS e alguns militares do Exército
Brasileiro. Transferido da Justiça estadual para a federal, o
processo tramitou por mais de trinta anos! Quando, em dezembro de
2000, a autora conseguiu sentença favorável, a União recorreu da
decisão. Somente em setembro de 2005, a ação foi julgada procedente
pelo Tribunal Federal Regional da 4ª Região.
A Elizabeth foi garantido pela Justiça o
direito à pensão mensal vitalícia (retroativa a 13 de agosto de
1966, relativa à remuneração integral de segundo-sargento) e
ressarcimento por gastos à época com viagem, hospedagem,
alimentação, funeral e luto de família. Foi-lhe determinado
pagamento de indenização por dano moral. Porém, o processo criminal
ajuizado foi arquivado por caducidade, garantindo a impunidade dos
torcionários e executores de Manoel Raimundo.
Na obra Segurança Nacional, ao
enumerar medidas necessárias para reduzir o poderio e privilégio dos
militares na Nova República, Roberto Martins alerta para que “sejam
desvendados os crimes contra os direitos humanos. Se a impunidade
for mantida, muito fácil será no futuro repetir os mesmos crimes.
Sem justiça, será falsa qualquer democracia implantada”.[36]
Cf. Bush veta lei que proibia simulação de afogamento pela
CIA. O Globo Online, 08.02.2008.
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