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JULIANO
FELLINI
Professor de Ética do Departamento
de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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O anel de Giges: virtude e visibilidade
Juliano Fellini
“Como é que alguém
pode provar quem é na realidade?
Será que eu mesmo
sei quem sou?
Não tenho linguagem
para minha realidade!”
(Max Frisch)
Quando
Sócrates lançou o desafio do “conhece-te a ti mesmo” talvez não
imaginasse que, nos mais de dois mil anos de história que se
seguiram a ele, tantas respostas seriam dadas e tantas interrogações
acerca do ser humano ainda permaneceriam em aberto, não obstante os
empreendimentos dedicados ao auto-conhecimento e à antropologia sob
suas diferentes perspectivas. O objeto deste breve ensaio é apenas
um dos tantos aspectos relativos a esse fenômeno, a saber, a conduta
humana e suas motivações. Muitos são os tratados éticos que se
ocupam desse tema e que, como tarefa prelimiar, precisam desenvolver
uma concepção do humano a partir daquilo que há de mais permanente
nesse fenômeno. Assim, começa a busca por um princípio de unidade
para o múltiplo que caracteriza o ser humano, o que, em outras
palavras, pode ser tratado como o desenvolvimento metafísico do
sujeito. Uma vez conhecida a “essência humana”, bastaria estabelecer
as regras de conduta mais adequadas a ela e nisso também estaria
dado o próprio conceito de virtude. A ética, entendida como o
empreendimento filosófico dos fundamentos e das justificativas para
a ação, busca eleger os conceitos em torno dos quais uma teoria da
ação possa gravitar. A idéia do bem, a busca da felicidade ou do
bem-estar, a razão, por exemplo, são alguns desses conceitos que
fornecem critérios para ordenar a conduta humana. Eis, portanto, um
pressuposto fundamental de toda ética que se descortina a partir
disso: a ação humana necessita de regras.
Pela mais simples observação, podemos
concluir que, se o ser humano ficar entregue aos seus próprios
instintos naturais, muito provavelmente a tendência ao egoísmo, à
desmedida e à destruição se afirmarão como os critérios da ação. Até
podemos encontrar algumas disposições naturais para a moralidade,
mas isso aconteceria de modo difuso se não houvesse um princípio
seguro para determinar suficientemente a vontade. A tradição
filosófica encontrou esse princípio na faculdade racional,
estabelecida como marca distintiva do ser humano. Daí o esforço em
aproximar a natureza humana da característica fundamental que é a
racionalidade, o que significa controlar e harmonizar tais
instintos. Para Platão (PLATÃO, 1989, p. 56), no mito do carro
alado, a razão deve guiar as partes não-racionais da alma, a
concupiscível e a irascível. Em Aristóteles (ARISTÓTELES, 2001, p.
42), os impulsos, as paixões e os sentimentos tendem ao excesso ou à
falta e, por isso, a razão vem impor a justa medida. Aos poucos,
essas concepções vão se sedimentando na cultura ocidental e a
recepção cristã, ao aprofundar tal “cisão”, torna o dualismo uma
marca fundamental das abordagens morais subseqüentes, não obstante
as mudanças substanciais na maneira de compreender o ser humano
propiciadas pela filosofia e pela ciência modernas que, à sua
maneira, apresentarão um projeto ético calcado na noção de obrigação
moral.
Assim, - se pudermos estabelecer um
termo comparativo – enquanto a filosofia grega vincula a ética às
idéias da felicidade e do soberano bem, que podem ser resumidas num
bem viver ao alcance de todo homem racional, a moral moderna, como
ciência da conduta que nasce da cisão entre o que se “é” e o que se
“deve ser”, encontra nas noções de dever, obrigação e obediência sua
característica principal. Com essa ruptura, “a moral passa a ter uma
importância quase convencional” (NOVAES, 2007, p. 09). A virtude,
entendida como uma qualidade natural para os clássicos, passa a ser
concebida pelos modernos como uma qualidade técnica, na qual a
eficácia é o cumprimento do dever. O cultivo de si como caminho para
alcançar a “excelência moral” (aretê) é substituído pela
obediência às leis da razão à custa de nossa natureza sensível.
Nesse sentido, Kant apresenta-se como o exemplo mais emblemático da
ética moderna, em que a razão é a única fonte legítima de preceitos
morais e determina suficientemente a vontade a segui-los, isto é, a
moralidade não se reduz a uma questão epistemológica. Também para os
filósofos gregos, que identificavam uma relação estreita entre
conhecimento e virtude, a ética não se restringia a uma operação
lógica: “a moralidade não está apenas na ordem do logos, mas
também no páthos (paixão) e no éthos (costumes)”
(NOVAES apud AUBENQUE, 2007, p.11). Por conseguinte, o saber sem uma
determinação adequada dos aspectos volitivos é ainda pouco decisivo
para a realização da virtude.
Um exemplo disso, de que a associação
entre conhecimento e virtude não ocorre de modo tão necessário como,
a princípio, poderia parecer, nos é apresentado por Platão. Em A
República, ele narra a lenda do pastor Giges que encontra, no
fundo de um abismo, um anel que lhe permite ser invisível a um
simples movimento deste. Ao desfrutar da invisibilidade, o pastor
passa a agir sem escrúpulos e, movido pelo desejo de poder, seduz,
rouba e mata. A conclusão da narrativa é que, mesmo uma pessoa
virtuosa e justa, se tivesse em mãos o anel de Giges, agiria
contrariamente à virtude e à justiça (PLATÃO, 2000, p. 43s). A
despeito de nossas capacidades para o agir moral, essa lenda expõe a
fragilidade de nossa disposição para a moralidade, não de nosso
conhecimento dela, o que nos leva a supor que o exercício da
virtude, enquanto o comportamento adequado à visibilidade, conviria
mais para o “aparentar-ser” da etiqueta do que para o “dever-ser” da
ética. Nesse contexto, parece ser realmente oportuno o
questionamento de Montaigne: “Será verdade que, para sermos
completamente bons, tenhamos de o ser por disposição natural e
inconsciente, independentemente de leis, raciocínios e exemplos?”
(MONTAIGNE, 2000, p. 364)
De fato, a unidade da ação humana sob
determinados princípios pode, por vezes, revelar-se pouco efetiva.
Apesar das capacidades e das disposições para a bondade, isso não
ocorre necessariamente, de modo que, sem um controle externo e
visível das ações, permanece incerta a realização espontânea das
determinações morais. Por esse motivo, as sociedades se organizam a
partir de um conjunto de leis que consiste na positivação de valores
para os quais até temos inclinações, mas que não são suficientes
para determinar sua plena execução. A frágil propensão humana à
virtude é de tal maneira que não pode dispensar leis, raciocínios e
exemplos. Sua efetiva realização depende de recursos que tornem a
ação visível, pois na invisibilidade a vontade tende a renunciar aos
princípios do bem agir. O desejo de transparência nos processos
políticos de uma sociedade, por exemplo, repousa na convicção de
que, à parte da publicidade (leia-se visibilidade), as ações podem
se assemelhar às de Giges. Desse modo, a virtude poderia não passar
de uma simples convenção que, se não adotada como comportamento
público, poderia causar reprovação da parte dos outros. Entretanto,
de um ponto de vista filosófico, o ser virtuoso deve ser mais do que
a mera aparência do agir virtuosamente.
Diante das tantas contribuições das
ciências para a compreensão do ser humano, torna-se um tanto difícil
elaborar uma antropologia filosófica fundamental, a fim de buscar
bases para o debate moral, sem incorrer em reducionismos e
arbitrariedades. No contexto de uma fundamentação pós-metafísica e
com os avanços das pesquisas científicas, a ética poderia ser
analisada a partir de seus fundamentos naturais, ou seja, a partir
das disposições primárias do organismo vivo que, numa última
instância, encontra nas convenções sociais e éticas estratégias
complexas de sobrevivência (DAMÁSIO, 1993, p. 126). Todas essas são
possibilidades de compreensão da ação humana e de sua
regulamentação. No entanto e sob essa perspectiva dos fundamentos
naturais para a ética, também poderíamos ser conduzidos a conceber a
virtude como meio de sobrevivência mais do que como exercício do
cultivo de si. Desse modo, a dissimulação de determinados valores
significaria a garantia dos interesses que convergem para a
preservação do próprio ser. A ética, entendida como acordo ou
contrato, passaria a ser uma convenção social engendrada com o fim
de manter uma ordem na qual a possibilidade da morte violenta
estaria afastada, para citar Hobbes (HOBBES, 1979, p. 76).
Se essas afirmações são, pelo menos em
parte, procedentes, a dúvida se instauraria sobre a genuína
aspiração por uma vida ética, uma vez que o mais importante é
“parecer bom” aos olhos de um Grande Irmão, pois longe do controle
externo estaríamos entregues aos instintos naturais ou aos
interesses puramente pessoais. Apostar numa concepção de ser humano
como essa significaria legitimar um controle totalitário das ações
humanas. Entretanto, se desde os antigos estão em debate tais
problemas relativos à motivação para o bem e para a justiça, ao
mesmo tempo eles também podem fornecer algumas soluções para tais
questões. Aristóteles afirma que as leis devem nos habituar para o
bem e que o hábito cria uma natureza.(ARISTÓTELES, 2001, p. 36) Isso
significa que, se não possuímos de pronto uma natureza inclinada
para a vida ética, é possível pensar o ser humano como um ser aberto
a uma nova natureza que o predisponha para o bem de modo genuíno, e
não apenas por força das convenções. Se a invisibilidade, muitas
vezes, desfaz a aparência do ser humano virtuoso, em outras ocasiões
ela prova o contrário, a saber, que mesmo longe do controle da lei
externa, quando se poderia abrir uma exceção para si mesmo, muitas
pessoas seguem princípios morais e justos, o que demonstra que estes
já se encontram devidamente internalizados como uma nova natureza.
Independentemente de onde possamos
situar o fundamento da moralidade, permanece o fato de que a ação
humana precisa ser pautada por modelos que forneçam princípos gerais
para a conduta. No entanto, os aspectos específicos das
circunstâncias que exigem decisões nem sempre podem ser cobertos por
esses modelos, dada a complexidade das situações a que estamos
sujeitos. Nesse momento é que emergem os paradoxos da natureza
humana muito consciente de seus deveres, mas pouco inclinada a
segui-los, porque o sujeito moralmente esclarecido não é ainda o
sujeito virtuoso enquanto, pela sua vontade, não tornar efetivos
tais princípios. O conhecimento somente se torna virtude através da
ação, quando aquilo que conhecemos como bom é efetivamente posto em
prática. A consciência moral ou a capacidade de discernir os
aspectos moralmente relevantes das situações deve se completar com
as disposições que tornem as ações coerentes com tal consciência.
Dado que a virtude envolve muito mais do
que raciocínios morais, a sugestão de Aristóteles, de criar uma nova
natureza pelo hábito, pode remeter à educação como um recurso
amplamente aceito para o processo de formação de pessoas virtuosas.
Aqui é oportuna a palavra “pessoa” que tem origem no termo latino e
remete a uma máscara usada pelos atores no teatro clássico, o que
dava a entender que estavam representando um papel. Com o tempo,
“pessoa” passou a designar quem desempenha um papel na vida, quem é
um agente (SINGER, 2002, p. 97). Nesse sentido, a educação pode nos
levar da mera representação da virtude para uma atuação genuinamente
virtuosa em nossas vidas, ainda que, como afirma Kant, jamais
teremos como saber realmente a intenção pela qual alguém age (KANT,
2000, p. 40). Isso, no entanto, não deve nos lançar ao ceticismo,
mas deve ser compreendido como a instância mais íntima da nossa
liberdade e a partir da qual se desenvolve o filosofar prático:
“podiam desnudar, nos mínimos detalhes, tudo quanto houvesse feito,
dito ou pensado; mas o âmago do coração, cujo funcionamento é um
mistério para o próprio indivíduo, continuava inexpugnável”.
(ORWELL, 2004, p. 161) É a partir dessa realidade, para a qual não
temos linguagem, que a filosofia, paradoxalmente, desenvolve todo
seu discurso e sobre a qual se apóia a nossa crença prática na
bondade.
Referências
ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Trad. Mário da Gama Kury. 4ª
ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
DAMÁSIO, A. R. “Compreender os fundamentos naturais das
convenções sociais e da ética, dados neuronais.” In: CHANGEUX,
J. P. Fundamentos Naturais da Ética. Lisboa: Instituto Piaget, 1993,
p. 113-129.
HOBBES, T. Leviatã. Trad. João Paulo Monteiro e Maria Beatriz
Nizza da Silva. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
KANT, I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Trad.
Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2000.
MONTAIGNE, M. de. Ensaios. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo:
Editora Nova Cultural, 2000.
NOVAES, A. “Cenários”. In: NOVAES, A.(org.). Ética. São
Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 08-20.
ORWELL, G. 1984. Trad. Wilson Velloso. 29ª ed. São Paulo:
Companhia Editora Nacional, 2004.
PLATÃO. A República. Trad. Enrico Corvisieri. São Paulo:
Editora Nova Cultural, 2000.
__________. Fedro. Trad. Pinharanda Gomes. 3ª ed. Lisboa:
Guimarães Editores, 1989.
SINGER, P. Ética Prática. Trad. Jefferson Luiz Camargo. 3ª
ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
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