ÂNGELO
PRIORI
Professor Associado da Universidade Estadual de Maringá,
Paraná, Programa de Pós-Graduação em História e no Departamento de História;
Doutor em História e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista Júlio de
Mesquita Filho

VANESSA DOMINGOS DE MORAES CANDELORO
Graduada em Ciências Sociais pela UEL e
especialista em História pela UEM

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A utopia de Manoel Bonfim
Ângelo Priori
& Vanessa Domingos de Moraes Candeloro
Palavras
iniciais
O presente artigo
discute algumas idéias do pensamento de Manoel Bomfim. Em livros
como América Latina: males de origem, publicado em 1905 e
O Brasil Nação: Realidade da soberania brasileira, publicado em
1931, Manoel Bomfim formulou princípios norteadores para a
construção das nações latino-americanas, e por conseguinte,
brasileira, sob um modelo progressista, isto é, de uma nação que
superasse o atraso e conseguisse a sua soberania nacional. Segundo
Bomfim, somente um grande esforço educativo poderia levar esses
países à condição de ser, de fato, “senhor dos seus destinos”, só a
educação garantiria a soberania nacional. Mas ele mesmo lembrava:
acho que estamos diante de uma grande utopia.
Pequena bio-bibliografia de Manoel
Bomfim
Manoel Bomfim, intelectual sergipano,
nasceu em 08 de agosto de 1868, na cidade de Aracaju. Aos dezessete
anos, mudou-se para a Bahia, onde iniciou o curso de medicina, mas o
concluiu no Rio de Janeiro em 30 de julho de 1890, onde apresentou a
tese Das Nefrites.
Em 1891 foi nomeado médico da Secretaria de Polícia, tornando-se um
ano mais tarde tenente-cirurgião da Brigada Policial. Casou-se com
Natividade Aurora de Oliveira e se mudou para Mococa, no interior do
Estado de São Paulo com o objetivo de clinicar. Teve dois filhos,
Aníbal e Maria, sendo que esta veio a falecer com um ano e dez
meses. Desiludiu-se com a medicina no ano de 1894, justamente por
não ter conseguido salvar a filha. Depois de abandonar a medicina,
regressou ao Rio de Janeiro e passou a se dedicar aos estudos
sociais e a educação. A princípio, escreveu artigos para jornais,
ministrou aulas particulares (ensinou português, ciências e história
natural) e revisou provas tipográficas.
Em maio de 1896, Manoel Bomfim foi
convidado pelo então prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Francisco
Furquim Werneck de Almeida, para ocupar o cargo de subdiretor do
Pedagogium, cargo que assumiu em 25 de junho daquele ano. Criado
em 16 de agosto de 1890, pelo governo provisório, através do decreto
No. 677, o Pedagogium tinha a função de coordenar e controlar
as atividades pedagógicas do país e de ser um centro impulsionador e
estimulador de reformas e melhorias para o ensino público, em
contraponto à situação sofrível da realidade escolar brasileira.
Pouco tempo depois, em março de 1897, Bomfim torna-se o Diretor
Geral da instituição.
Ao aceitar o cargo de subdiretor e,
posteriormente, de diretor geral do Pedagogium, Bomfim
iniciou sua atuação no magistério. E é neste contexto que se
defrontou com a triste realidade do ensino público no Brasil,
acumulando uma experiência concreta e necessária para investigar as
raízes dos entraves educacionais da época
.
Em 17 de agosto de 1907 tomou posse como
Deputado Federal, pelo Estado de Sergipe, substituindo o então
deputado Oliveira Valladão, que havia renunciado ao cargo de
deputado, para ocupar o de senador da República. Bomfim exerceu o
mandato de Deputado Federal até o dia 31 de dezembro de 1908. Em
fins de 1908, se candidatou à reeleição, mas não obteve êxito.
Deixou a política para se dedicar exclusivamente à produção
intelectual e literária.
Ao dedicar-se ao magistério e aos
estudos sociológicos, Bomfim legou à cultura brasileira uma
importante e ampla obra intelectual. Além dos livros já citados,
escreveu ainda O Brasil na América (1929), O Brasil na
História (1930) e Cultura e educação do povo brasileiro
(1931). A sua produção de cunho historiográfico e sociológico é
considerada pioneira na aplicação do materialismo para a análise do
passado brasileiro. Dedicou-se também aos estudos de psicologia, e
sobre o assunto escreveu, entre outros títulos: O fato psíquico
(1904), Noções de Psicologia (1916), Pensar e dizer:
estudos do símbolo e do pensamento (1923) e Métodos do teste:
com aplicações à linguagem do ensino primário (1928).
Bomfim também teve relevante atuação na
imprensa brasileira. Foi redator e secretário de A República
e da Revista Pedagogium, diretor da Revista Pedagógica
Educação e Ensino e um dos fundadores da revista quinzenal
Universal. Redigiu a revista Leitura para Todos e
escreveu artigos para os jornais: O Correio do Povo,
O Comércio, Ilustração Brasileira, O País,
Notícia e Tribuna.
Devido a sua vasta experiência
pedagógica, produziu diversos livros didáticos destinados ao curso
primário e ao ensino médio. Entre eles podemos citar: Compêndio
de Zoologia geral (1902), Lições e leituras para o primeiro
ano (1922), Lições e leituras: livro do mestre (1922) e
Crianças e homens (1922). Com Olavo Bilac escreveu três obras
didáticas que tiveram forte influência da formação inicial de
gerações e gerações de brasileiros: Livro de composição para o
curso complementar das escolas primárias (1899); Livro de
leitura para o curso complementar das escolas primárias (1901) e
Através do Brasil: livro de leitura para o curso médio (1910).
Bomfim faleceu em 1932, aos 64 anos, no Rio de Janeiro.
Em 1904, em um de seus artigos: O
progresso pela instrução, o autor já constatava a sua ansiedade
frente ao problema que adotou como reflexão por longo tempo:
Pretender a verdade e a pureza de um
regime democrático em nação onde 90% dos indivíduos são
incapazes de vida pública porque são analfabetos, é procurar um
absurdo (BOMFIM, 1904).
E reafirmava esse pensamento três
décadas depois:
Somos uma nação ineducada,
conduzidas por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se
anula; representada num Estado pervertido, a nação se degrada (BOMFIM,
1930).
Diferentemente de seus contemporâneos,
que segundo Darcy Ribeiro, “gastam páginas e páginas para repetir o
que os pensadores metropolitanos dizem sobre nós, com o objetivo de
justificar o colonialismo europeu” (RIBEIRO, 2005, p. 11), Manoel
Bomfim, por sua vez, propunha desvendar as origens dos problemas do
Brasil e da América Latina. Questionava as raízes do atraso, os
empecilhos para a constituição de uma sociedade democrática e
integradora. E para a construção desta sociedade democrática,
defendia a expansão da educação pública para o acesso de todos ao
saber.
Um pensador rebelde: a denúncia do
racismo científico
Na segunda metade do século XIX,
aportaram em terras brasileiras muitas teorias explicativas para o
atraso ou o progresso das nações. Explicações essas que tiveram sua
gênese na Europa, como o positivismo de Comte; o evolucionismo de
Spencer; o transformismo de Darwin e a etnologia de Gobineau, entre
outros. Estas teorias moldaram a construção de um discurso
explicador do Brasil, num contexto político-cultural onde a pauta
principal dos debates entre os intelectuais e políticos era a
possibilidade, ou não, da constituição futura da nação brasileira em
termos mais democráticos e progressistas. Um dos problemas com força
intelectual no fim do século XIX era a idéia de que a composição
multirracial era um obstáculo para a formação da nação. A grande
questão estava colocada: poderá existir uma nação onde a população é
constituída predominantemente por negros, índios e mestiços? Esta
teoria da desigualdade inata das raças, defendidas por Gobineau e
Gustave Le Bon
e adotada por uma parcela considerável dos intelectuais brasileiros,
acabou tendo influência dominante no pensamento social e político do
Brasil, principalmente porque supostamente eivada em dados
científicos.
Neste contexto, pensadores como Oliveira
Martins, Oliveira Viana e Silvio Romero viam na questão racial,
principalmente na mistura de raças, o grande problema da
inferioridade brasileira. Manuel Bomfim, por sua vez, cansado das
análises deterministas, inovava propondo:
Sofremos, neste momento, uma
inferioridade, é verdade, relativamente aos outros povos cultos.
É a ignorância, é a falta de preparo e de educação para o
progresso - eis a inferioridade efetiva; mas ela é curável,
facilmente curável. O remédio está indicado: a necessidade
imprescindível de atender-se à instrução popular (BOMFIM, 1932,
p. 59).
O fato é que, na virada para o século
XX, no Brasil, buscava-se não só a identidade nacional brasileira,
mas também uma identidade específica para o campo intelectual. Nesse
quadro, a produção de Bomfim ganha destaque ao refutar o discurso
eurocêntrico dominante, com novos e autênticos argumentos. Para
Ronaldo Conde Aguiar (2000), Bomfim colocou em cena um
contradiscurso. Este se chocava, frontalmente, com o discurso
dominante e conservador de sua época.
A idéia formulada por Bomfim, em
contraposição ao discurso que atribuía ao fator raça as causas do
subdesenvolvimento, é a tese do parasitismo social, onde ele
enfatizava que a lógica da dominação externa imposta pelo
colonialismo combinada com a dominação interna imposta pelas elites
dirigentes, causava profundos males aos povos latino-americanos.
Segundo o autor, o parasitismo impunha três efeitos malévolos e
predador: o enfraquecimento do parasitado; as violências que se
exercem sobre eles; e a adaptação do parasitado às condições de vida
que lhe são impostas (BOMFIM, 2005).
A história do pensamento social
brasileiro, muitas vezes, excludente e parcial, omite a importância
de alguns autores do passado. Existe uma espécie de estratificação
dentro do campo teórico, relativo ao papel dos intelectuais
interpretadores do Brasil, que pouco altera a ordem de importância
das obras, pois tendem a petrificar julgamentos e valores.
Neste sentido, o pensamento de Bomfim é
inovador, “um pensador rebelde” e humanista. Por sua ousadia
denunciou o chamado racismo científico que entorpecia parte dos
intelectuais e a elite dirigente brasileira.
Ao examinar a influência de cada uma
das raças sobre as novas sociedades, importa pouco o estudo das
qualidades positivas dos selvagens e dos negros; o essencial é
saber qual o valor absoluto dessas raças, em si – a sua
capacidade progressista: se são civilizadas ou não. Tanto vale
discutir logo toda a célebre teoria das raças inferiores.
Que vem a ser esta teoria? A resposta a estas questões nos dirá
que tal teoria não passa de um sofisma abjeto do egoísmo humano,
hipocritamente mascarado de ciência barata, e covardemente
aplicado à exploração dos fracos pelos fortes (BOMFIM, 2005, p.
267-268 – grifo de MB).
Para Manoel Bomfim, a idéia de progresso
estava intrinsecamente ligada à educação e não relacionada com as
questões raciais. A educação básica deveria ser uma prerrogativa
específica e intransferível da União, já que esta, teoricamente,
estaria livre da direta influência política das oligarquias
estaduais e municipais.
A educação como luz para a revolução
O crescente interesse de Manoel Bomfim
pelos assuntos educacionais foi impulsionado pela leitura do
Report of the Commissioner of
Educations
.
Pela primeira vez se deparou com o quadro geral da instrução pública
no Brasil. Bomfim inquietou-se a tomar conhecimento por este estudo,
que entre trinta países americanos, do norte ao sul do continente, o
Brasil ocupava o terceiro pior índice de escolaridade: 2,2% apenas.
E confessou:
Foi tão profunda a impressão que me
causou essa leitura, pela insignificância e pobreza patente dos
nossos recursos, que nunca mais pude furtar ao desejo de
observar e estudar o problema da instrução popular entre nós. De
então para cá só tenho encontrado motivos para maior desconsolo
(BOMFIM, 1932, p. 55).
A partir deste fato, o pensador começa a
construir a tese de que os males do Brasil e da América Latina só
seriam superados com a transformação do quadro educacional
brasileiro, que romperia com a herança colonial e iniciaria um
processo renovado de desenvolvimento. Esta idéia tornou-se para
Bomfim uma espécie de crença que o acompanhou por toda a vida.
Para ele a ignorância (a falta de
instrução) nulificava o povo de tal modo que o tornava incapaz de
distinguir suas necessidades e acreditar num futuro. A democracia
era possível somente com indivíduos capazes de serem livres e
responsáveis. Portanto, mais que ao progresso, a instrução
conduziria o país à verdadeira democracia, nascida da vontade
conjunta de todos.
Não há progresso na ignorância. Na
economia social de nossa época, país de analfabetismo quer
dizer: país de miséria e pobreza, de despotismo e degradação.
Percorra-se a carta do mundo atual, e achar-se-á uma relação
constante e absoluta entre a difusão do ensino e o progresso.
Vereis ainda: que a generalização da instrução, a prática da
ciência, precedem sempre a grandeza e a prosperidade (BOMFIM,
1904, p. 59-60).
Portanto, a proposta que Manoel Bomfim
defendeu por trinta anos tinha como intuito redimir o povo
brasileiro por meio da educação, pois somente esta o conduziria a
viver numa verdadeira democracia. Porém, sua proposta esbarrava em
um problema teórico, segundo Ronaldo Conde Aguiar (2005): como
difundir a instrução popular básica e conscientizadora numa
sociedade excludente, dominada por uma classe dirigente oligárquica
e refratária que se nutria, justamente, do atraso e ignorância do
povo brasileiro? Manoel Bomfim, frente a esse impasse, propôs um
processo que levaria o povo à revolução, a fim de, conseqüentemente,
conseguir melhorar a educação em nossa sociedade. De que maneira
essa revolução seria desencadeada? Explica Bomfim:
Sem dúvida: é indispensável que a
massa da nação brasileira suba a nível – mental e social,
mediante sistemática educação. Mas, tanto só se realizará quando
o povo for senhor dos seus destinos. No mesmo lance em que se
esbocem as novas formas políticas e sociais, com as instituições
de legítima justiça se definirá o ideal de educação, e
criar-se-ão os modelos e processos, em correspondência com o
mesmo ideal. Aqui, não se dará nunca que os dominantes preparem
a massa popular para ser efetiva soberania da nação. Equivaleria
a realizar própria revolução. Mesmo que a prática da democracia
se faça com absoluta sinceridade, o grande número, absorvido
pelo ganha-pão, não terá meios, nem lazeres – para o tirocínio
de preparo geral. Destarte, os dirigentes democratas podem
derrear-se em liberalismo, multiplicar os cuidados em prol da
instrução e da educação, sem que isto venha redimir a maioria –
os trabalhadores da inferioridade em que se encontra e que
reflete os formidáveis privilégios econômicos e financeiros a
que essa maioria tem de servir (BOMFIM, 1996, p. 562).
Embora bebesse nas fontes do marxismo,
Bomfim não era um revolucionário strictu sensu, que dedicava
a vida à luta contra a burguesia. Ele era um democrata. E buscou no
marxismo não um guia de ação revolucionária, mas um “método de
interpretação da realidade social, ao qual acrescentou um profundo e
constante amor pelo Brasil e por sua gente” (AGUIAR, 2000, p. 41).
Na visão de Bomfim, faltava na América
Latina um esforço das classes dirigentes para vencer os vícios do
passado. Carecia um empenho concentrado para aprender com os
erros/acertos da colonização luso-espanhola. Apreender os fatos
históricos era o primeiro passo para a estruturação de algo novo,
diverso e mais justo. Imperioso era buscar as raízes mesmas do
atraso social. Justificar o atraso por meio de citações de teorias
raciais era, para Bomfim, deixar de analisar a realidade
concretamente. E para sair desse estágio nada alvissareiro, Bomfim
propunha a expansão da educação como trajetória necessária para o
desenvolvimento.
Enquanto não derem à massa popular
essa instrução, continuando a pesar sobre as sociedades esta
influência nefasta do passado, as lutas materiais persistirão,
concorrendo para fazer estas nacionalidades cada vez mais
infelizes (BOMFIM, 2005, p. 310).
De acordo com o autor só quando educada
a população poderia alcançar o progresso.
Sofremos, neste momento, uma
inferioridade, é verdade, relativamente aos outros povos cultos.
É a IGNORÂNCIA, é a falta de preparo e de educação para o
progresso – eis a inferioridade efetiva, mas ela é curável,
facilmente curável. O remédio está indicado. Eis a conclusão
última desta longa demonstração: a necessidade imprescindível de
atender-se à instrução popular, se a América Latina se quer
salvar (BOMFIM, 2005, p. 360).
O progresso só chegaria para aqueles que
o compreendem, desejam e buscam. Destarte, o dever supremo dos
dirigentes em um regime democrático e livre seria o de suprimir as
injustiças, defender a liberdade e estabelecer a igualdade.
Impossível conquistar a democracia efetiva num país de analfabetos.
Outro elemento fundamental para uma
sociedade próspera, segundo Bomfim, era a liberdade. Somente o
indivíduo educado, instruído era capaz de conduzir-se por si mesmo
para uma vida social autônoma. “Ser livre é antes de tudo escapar da
escravidão que a ignorância impõe, da escravidão que em nós mesmos
reside, e trazer a inteligência a iluminar os atos e a vida” (BOMFIM,
2005, p. 373).
Portanto, a maior tarefa de um governo
democrático seria o de expandir a educação. Para isso seria
necessário um grande esforço da classe dirigente a fim de superar os
“vícios bragantinos” e atender as necessidades das massas, levando a
pátria a uma situação mais confortável diante do “mundo civilizado”.
O progresso do Brasil estava, segundo Bomfim, intimamente ligado à
expansão da educação.
Em vez de esperar que os
analfabetos, entusiasmados pela ciência, se combinem e se
cotizem, e venham organizar escolas para si e para os filhos, ou
que, desiludidos da própria ignorância, nos venham pedir
instrução, vamos nós oferecer-lhes essa instrução, que eles
desconhecem e que os erguerá. Comecemos pelo principio: difusão
do ensino primário. Forcemos a nota, numa campanha generalizada;
chamemos à atividade quantas inteligências possam acudir ao
nosso apelo (BOMFIM, 2005, p. 379).
Descontente com as classes dirigentes
brasileiras e em dúvida quanto à iniciativa dessas classes em levar
à massa a instrução devida, Bomfim apelava a todos os cidadãos que
estavam descrentes no governo e ansiosos por progresso, para
abraçarem a causa e ajudarem no esforço de educar. Como professor
sabia das dificuldades do caminho, entretanto, como utopista,
acreditava que seu ideal pudesse se tornar realidade. Bomfim
enfatiza, como Anatole France, que “a utopia é o princípio de todos
os progressos e o esboço de um futuro promissor”:
Utopia... Utopia... Repetirá a
sensatez rasteira. Utopia, sim; sejamos utopistas, bem
utopistas; contanto que não esterilizemos o nosso ideal,
esperando a sua realização de qualquer força imanente à própria
utopia; sejamos utopistas, contanto que trabalhemos (BOMFIM,
2005, p. 382).
Liberdade e justiça são dois
ingredientes indispensáveis na democracia, conforme explanava Bomfim.
Os homens livres, diferentemente dos escravos, precisam de liberdade
plena para organizar suas atividades. Assim, a educação é
fundamental nesse processo de liberdade, pois a educação para o
trabalho faz com que o individuo tenha consciência de sua
realização, sentindo prazer na atividade desenvolvida.
Destarte, necessária à boa
organização política e à eficácia da socialização, a liberdade é
a base mesma da disciplina moral. Apliquemos ao Brasil estas
verdades. Continuada do torvo despotismo bragantino, eivada dele
desde sempre, a nossa política ofende e contraria uma coisa e
outra: a disciplina ativa e a solidariedade fecunda. Ontem uma
liberdade de favor, por isso mesmo falha, desmoralizante; hoje,
o tripúdio da irresponsabilidade bestial por sobre tudo que
lembra liberdade e justiça (BOMFIM, 1996, p. 467).
Na visão de Bomfim, na República
brasileira, pouco se fazia para lembrar a democracia, a começar pela
etnologia oficial adotada pelos dirigentes que “antipatrioticamente”
caracterizam a massa da população como inferior. Além disso, pouco
se conhecia sobre o próprio país, pouco se fazia para construir uma
identidade nacional que unificasse os extremos do país e pouco de
concreto ou verdadeiro se fazia pela educação popular.
As elites dominantes não estavam nem um
pouco interessadas em proporcionar uma boa educação pública.
Propositalmente a massa da nação brasileira foi deixada na
ignorância. A instrução primária, para Manoel Bomfim, era a base da
soberania. É preciso ressaltar que naquele contexto histórico a
alfabetização era requisito para o exercício do direito de votar. O
raciocínio era o seguinte: povo sem instrução não pode votar; o
Estado não propicia ao povo educação; o povo é excluído duplamente
da vida do Estado; o povo não se reconhece em seus dirigentes e
vice-versa.
Potentados e privilegiados sobre a
miséria da nação, esses dirigentes não suportariam vozes que
pudessem levá-la à redenção (...) E o remédio são, natural,
ainda é impossível; há que esconder no imo – coração a todos
esses ideais; mas a luz não se anula porque a fechem: a menor
fresta a revela, e o homem irá finalmente, para ela, ainda que
tenha de abrir a talhos o caminho até lá (BOMFIM, 1996, p. 530).
Logo, o único meio de transformar a
realidade brasileira continuava sendo, na opinião de Bomfim, a
educação, a única luz para a vida, para o aprimoramento moral e para
as liberdades que dignificassem os indivíduos. A novidade reside no
fato de que na obra O Brasil Nação tal função só poderia ser
realizada pelo Estado. Mas um novo Estado, tendo como líderes novos
dirigentes. Portanto uma revolução era necessária.
Amemos nossos ideais, e eles nos
levarão, mesmo a preço de vidas, à remissão desta pátria, hoje
possuída pela podridão. Seremos, nós outros, brasileiros, tão
desprovidos, assim de desinteressado amor a esta nacionalidade,
que não consigamos, finalmente, elevar a vida deste povo a um
nível realmente humano? (BOMFIM, 1996, p. 530).
Havia um nítido descompasso entre o povo
e a classe dirigente. O único remédio para o progresso seria a
revolução que remodelasse a própria nação, que a recriasse sob novos
paradigmas. O único Brasil que deveria permanecer era o da alma
popular. Em seu ânimo espontâneo, o brasileiro diante das
dificuldades foi apurando seus afetos pela pátria. Do governo, por
sua vez, nada poderia esperar.
Segundo Bomfim, a República era uma
mentira, a democracia, impossível de se realizar sem que a população
a compreendesse e participasse de sua construção. A educação
política poderia solucionar esse impasse. Mas, a resignação não
ajudaria nesta obra regeneradora, era preciso extrair toda força de
que a população era dotada, todo valor humano. Com esperança em um
futuro melhor e com grandes esforços dos idealistas o Brasil poderia
alcançar a condição de “senhor dos seus destinos”.
Palavras finais
Quando uma nação tem um passado de
grandes conquistas, esse deve ser lembrado e as tradições mantidas,
mas, no caso do Brasil, tudo foi feito no sentido de manter o
domínio e a exploração, a eterna política da conservação. Os sonhos
de liberdade e justiça nunca se realizaram. O passado nada glorioso,
então, deveria ser deixado para trás e o futuro desejado construído.
Pelo horror ao esforço, ou tendência
ao repouso, insiste o homem em apegar-se ao passado, que lhe
poupa a fadiga de novas adaptações, e exagera ainda, o seu valor
porque aí se incluem, finalmente, todos os privilégios de classe
(BOMFIM, 1996, p. 557-558).
Assim sendo, Bomfim propunha que se
destruísse o passado, pois só deste modo poderia haver total troca
da classe dirigente, e no futuro que seria construído, a massa dos
que trabalham e produzem estariam incluídas na história.
A revolução deveria ser feita pelo
próprio povo, deveria “vir de baixo”, pois para abolir a estrutura
sobre a qual estava o país só uma força regeneradora, totalmente
nova, poderia impor um novo padrão de valores.
Manoel Bomfim não vislumbrava para o
Brasil uma revolução nos moldes da ocorrida na Rússia, em 1917, por
duas significativas razões. Primeiro, porque no Brasil a classe
operária era quase inexistente. Segundo, o nível de consciência
revolucionária era muito baixo. Logo, o país “não poderia contar com
uma imediata solução comunista”. Tampouco acreditava na revolução
que se desnudava com os movimentos de 1930, pois achava que
permaneciam os “governantes tradicionais”, o que a tornava incapaz
de fazer as mudanças necessárias a reformar a política e as formas
de administração do Estado. Sua proposta revolucionária baseava-se
nos moldes da revolução mexicana, nascida de baixo, no seio da
população. Essa revolução seria feita com o propósito de substituir
gentes, programas e processos, tornando viável, em seguida, mudanças
sociais, econômicas e políticas essenciais ao progresso brasileiro.
Só vemos um tipo de revolução que
seria o próprio caminho para o Brasil – a que o México vem
fazendo nos últimos doze ou quinze anos: afastamento definitivo,
como que eliminação, dos dirigentes antigos dominadores, e
reparações que, sendo parte da justiça reclamada, são, ao mesmo
tempo, estímulo, soerguimento de ânimo nacional (...) E
compreende-se que tal nos convenha: as condições históricas
aproximam-nos tanto (BOMFIM, 1996, p. 572).
Bomfim acreditava na idéia de irradiação
do sentimento da revolução. Cada indivíduo passaria enxergar mais
claramente a realidade que o envolvia e ampliaria seu
descontentamento clamando mais e mais pessoas para fazerem a
revolução necessária. E conclui afirmando que os dirigentes
brasileiros queriam apenas o mando, o usufruto do poder; no entanto,
havia tantas necessidades urgentes para serem atendidas, muitas
delas com fáceis soluções. Portanto, nesta brecha da incompetência
do Estado é que a revolução se tornaria tangível.
Bem, oitenta anos depois, resta-nos a
história para explicar.
Referências
AGUIAR, Ronaldo Conde. O rebelde esquecido: tempo, vida e
obra de Manoel Bomfim. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000.
__________. Sobre a presença de Manoel Bomfim no pensamento social
brasileiro, no centenário de A América Latina: males de
origem. In: Achegas (www.achegas.net/numero/31). São Paulo,
vol. 31, 2005. Acessado em 26 mar. 2009.
ALVES FILHO, Aluízio. Manoel Bomfim: combate ao racismo, educação
popular e democracia racial. São Paulo: Expressão popular, 2008.
BOMFIM, Luís Paulino. Pequena biografia de Manoel Bomfim. In: BOMFIM,
Manoel. A América Latina: males de origem. Edição do
centenário. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005.
BOMFIM, Manoel. A América Latina: males de origem. Edição do
centenário. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005.
__________. Instrução popular. In: Cultura e educação do povo
brasileiro. Rio de Janeiro: Pongetti, 1932.
__________. O Brasil na história: deturpação dos trabalhos,
degradação política. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1930.
__________. O Brasil Nação: realidade da soberania
brasileira. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996.
__________. O progresso pela instrução. In: BOMFIM, Manoel; LIMA,
Sérvulo; XAVIER, Américo; MEDEIROS, Albuquerque. Discursos.
Rio de Janeiro: Tipografia do Instituto Profissional, 1904.
PETRUCCELLI, José Luis. Doutrinas francesas e o pensamento racial
brasileiro (1870-1930). Estudos Sociedade e Agricultura. Rio
de Janeiro, v. 7, p. 134-149, dez.1996.
RIBEIRO, Darcy. Manoel Bomfim, antropólogo. In: BOMFIM, Manoel. A
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Janeiro: Topbooks, 2005.
SANTOS, Claudefranklin Monteiro; OLIVA, Terezinha Alves. As
multifaces de “Através do Brasil”. Revista Brasileira de História.
São Paulo, v. 24, no. 48, p. 101-121, 2004.
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