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PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil


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Paulo Roberto de
Almeida

1. O que é uma
utopia e como o marxismo se encaixa no molde?
Utopia, no sentido original do criador
da expressão, representava uma crítica indireta (ou alegórica) da
situação existente, pela descrição imaginária de um lugar diferente
– situado em lugar nenhum, como corresponde ao sentido do vocábulo,
mas que era, presumivelmente, uma ilha do Novo Mundo, não muito bem
localizada geograficamente. Em seu sentido mais amplo, a obra pode
ser lida como a expressão de um desejo consciente de que a realidade
corrente, feita de misérias e injustiças, pudesse ser transformada
pela ação de homens racionais, aproximando-se, assim, de um cenário
mais conforme aos desejos da maioria. De fato, a maior parte das
leituras feitas a partir do texto original – durante os séculos de
exegeses e interpretações que se seguiram – sustenta que a obra é um
argumento em favor da reforma social e em defesa da propriedade
privada, embora também existam aqueles que a consideram um manifesto
pregando uma sociedade autoritária, dominada por um Estado
todo-poderoso, na qual não mais existiria a propriedade privada,
considerada por um dos personagens da ‘história’ como a fonte de
todo o mal social.
Thomas More (ou
Morus, na versão latina), o autor da ‘fábula’ – terminada em 1516 e
publicada em latim, em 1518, para atingir um público mais vasto –,
estava, obviamente, criticando a Inglaterra do seu tempo, e propondo
uma organização política e social na qual a justiça, a verdade e a
equidade pudessem prevalecer, sem o temor da violência arbitrária
dos soberanos, a corrupção dos juízes ou a perversão dos líderes
espirituais. Não terminou sua vida na cama, como é sabido, mas
deixou uma lição de moral que se converteu em símbolo literário
universal da busca pelo bem comum através da organização racional de
uma sociedade ideal. Aliás, considerado um mártir da causa católica
– ou melhor, da Igreja oficial –, Thomas More foi beatificado pelo
Vaticano em 1886 e canonizado pelo Papa Pio XI em 1935.
Nos séculos
seguintes, o sentido original da expressão foi perdendo seu
significado de crítica a uma situação perversa e de exposição de um
estado ideal, atingível pela ação racional dos homens, para
converter-se em seu contrário, isto é, a de uma exposição idealista
de objetivos inatingíveis, misto de ingenuidade e de ilusionismo,
promessa vazia de uma organização impossível de concretizar-se,
posto que fundamentada em objetivos e metas irrealistas, próximos do
fantástico ou da pura ficção filosófica. Foi com esta interpretação
negativa que Marx e Engels designaram, em meados do século 19, todas
as propostas anteriores de realização de uma sociedade socialista,
colocando em seu lugar o que eles pretenderam classificar como a
única modalidade factível de socialismo, o “científico”, que seria o
deles mesmos. Socialismo “utópico” tornou-se, assim, sinônimo de
ingenuidade, idealismo e ilusão, devendo ser necessariamente
descartado em benefício de uma versão auto-justificada de
organização socialista, apresentada como suscetível de romper
séculos de miséria e sofrimento, encerrando, portanto, uma etapa da
história para dar início a uma outra, alegadamente mais avançada ou
mais conforme um mundo supostamente ideal.
É desde já curioso
constatar que a proposta marxista de um socialismo “científico” se
aproxima bastante, pelas suas motivações e propósitos idealistas, de
uma ‘utopia’ terrena, pertencendo, portanto, ao mesmo gênero das
propostas (ou ‘fantasias’) criticadas. Em defesa de sua posição,
Marx e Engels argumentavam que não estavam partindo de propostas
totalmente imaginárias ou de reformas da organização social
existente, artificialmente construídas pela ação idealista de homens
de boa vontade – como as de More, de Tomaso Campanella, de Charles
Fourier, de Robert Owen ou de Pierre-Joseph Proudhon – mas, sim,
formulando as bases da sociedade futura a partir de uma crítica
radical da situação existente, com base, portanto, em suas próprias
premissas capitalistas. A partir da constatação – óbvia, para eles,
de que o capitalismo encerra em si mesmo uma contradição
fundamental, qual seja, a da natureza social da produção e sua
apropriação privada – eles estavam simplesmente tirando as
consequências lógicas do desenvolvimento necessário das contradições
em curso na sociedade para prefigurar a futura organização social.
O caráter
“científico” do socialismo marxista foi exposto em diferentes
ocasiões, mas sua evolução natural a partir do capitalismo realmente
existente é bastante conhecida a partir da descrição sintética feita
na Introdução à Crítica da Economia Política: a partir de uma
certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas da
sociedade entram em choque com as relações de produção existentes –
capitalistas, obviamente – e essas contradições acabam provocando
uma ruptura entre a superestrutura da sociedade, já correspondendo
ao caráter social das relações de produção, e a sua base, ainda
dominada pela apropriação privada dos meios de produção. Uma era
revolucionária então se abre e a nova sociedade emerge da velha para
realizar a reconciliação entre forças produtivas e relações de
produção, sem os grilhões da propriedade privada e da opressão
política das classes dominantes sobre a maioria da população
(necessariamente formada por trabalhadores assalariados).
Independentemente,
porém, da correção (ou não) dessas considerações sociológicas sobre
os processos de mudança social, o fato é que o marxismo, enquanto
doutrina política, se aproxima basicamente da essência do modo de
organização social existente na ilha utópica de Thomas More, qual
seja, um modo de vida comunal, com base numa economia totalmente ‘desmonetizada’,
o que, ao fim e ao cabo, representa o objetivo último do comunismo,
etapa superior do socialismo marxiano. Nesse sentido, o marxismo se
encaixa inteiramente no mesmo molde messiânico das utopias que ele
pretendia criticar, em primeiro lugar no modelo original exposto na
fábula de More (mas que este, no íntimo, rejeitava, pelas mesmas
razões pelas quais se opôs ao autoritarismo de Henrique VIII).
2. Utopia
marxista e falácias acadêmicas: qual sua importância relativa?
Pois bem: ao
considerar que o conjunto do edifício marxista inscreve-se na
categoria das utopias – inclusive e principalmente a partir de suas
raízes marxianas – caberia, preliminarmente ao desenvolvimento de
argumentos para sustentar essa afirmação, detectar onde estariam as
falácias acadêmicas que constituem o objeto desta série de ensaios
dedicada aos equívocos mais comuns encontrados na academia
brasileira, a propósito de problemas que são examinados de maneira
convencional pelas disciplinas clássicas da tradição universitária –
ciências humanas e economia, principalmente – e o seu tratamento
alternativo (de fato, dominante, em grande parte das humanidades)
pela vertente escolástica que adere, implícita ou explicitamente, às
grandes linhas explicativas do marxismo acadêmico.
Pode-se considerar,
inicialmente, que à diferença da academia americana, por exemplo, na
qual a tradição marxista é praticamente marginal nas fundamentações
teóricas e nos estudos empíricos – restringindo-se a poucos núcleos
bem identificados das ciências sociais, ainda assim com um número
muito reduzido de praticantes – no Brasil e em outros países de
formação similar (como os latino-americanos em geral, ou a França e
a Itália, no continente europeu) a dominação do marxismo, nessas
mesmas áreas de estudo, é literalmente avassaladora, sendo
disseminada horizontal e verticalmente mesmo quando seus
propositores não o fazem explicitamente, ou que sequer tenham
consciência de que estão aderindo a esse tipo de explicação a partir
de suas raízes diretas. Pense-se, por exemplo, nos muitos livros
didáticos ou para-didáticos de segundo grau que falam naturalmente
de ‘classes sociais’ – como instrumento de dominação, obviamente –,
de ‘modo de produção’, de ‘contradições’ entre os diferentes
interesses de classe na sociedade, enfim de uma variedade de
conceitos atinentes à vida social e produtiva que passam por
absolutamente normais e necessários e que nada mais são do que
expressões da mesma concepção fundamental de conhecimento e
interpretação da realidade profundamente vinculada ao edifício
teórico marxista.
O marxismo é de tal modo dominante na
academia brasileira que seus defensores ou promotores sequer
percebem quando estão cometendo as falácias mais evidentes ligadas a
seu uso indiscriminado como meio de argumentação e debate. Veja-se,
a título de exemplo, a introdução a um debate recentemente lançado
por um veículo simpático a (quando não dominado por) essa corrente,
que pretende discutir o marxismo e o século XXI, cujo autor, um dos
mais conhecidos marxistas da academia brasileira, Francisco de
Oliveira, não hesita em escrever o que segue: “O marxismo
seguramente foi a doutrina mais importante do século XX, no amplo
sentido de um “campo” (Bourdieu) ou ainda no sentido de ideologia
(Gramsci) e não no dos próprios Marx e Engels (como doutrina
dominante da classe dominante). A tal ponto que se pode dizer que o
século XX foi o século do marxismo.”
O marxismo pode ter
sido mais importante do que o freudismo, a outra ideologia que com
ele ocupou parte significativa dos afazeres acadêmicos durante
várias décadas do século 20. Mas dizer que ele foi a doutrina mais
importante no período constitui um exagero – e uma falácia – que
requer imediato questionamento. O século XX foi claramente o século
das ideologias – nacionalismo, fascismo, socialismo e comunismo –,
assim como o século XIX tinha sido o do liberalismo e (apenas em
parte) do darwinismo; mas daí a privilegiar uma dessas ideologias
como tendo sido a mais importante, e colocá-la quase como sinônimo
do próprio século, vai um evidente exagero e um descompasso com a
realidade que requer imediata correção e inclusão na categoria das
falácias. O que foi importante no século XX, depois da derrocada dos
regimes fascistas – que, na verdade, só submergiram na voragem da
Segunda Guerra Mundial porque se lançaram em aventuras
expansionistas, do contrário teriam provavelmente sobrevivido muito
tempo mais, inclusive porque chegaram a fazer alianças táticas com
seu suposto inimigo –, foi o socialismo, mais especificamente o de
tipo soviético, que dominou boa parte (mais exatamente setenta anos)
de um século especialmente mortífero e destruidor.
A falácia acadêmica
talvez esteja, aqui, na identificação do socialismo real com a
doutrina marxista, quando ambos guardam, se tanto, vinculações
tênues em termos de legitimação teórica e de busca de fundamentação
instrumental. Muitos marxistas, na verdade, recusam essa vinculação
entre o socialismo soviético e o marxismo teórico, pela inevitável
contaminação criminosa do segundo pelo primeiro: o número de vítimas
(atestadas) do marxismo prático – ou socialismo real – é muitas
vezes maior do que seus congêneres socialistas da vertente fascista.
(Parênteses: não há como descartar o fato de que tanto Mussolini
quanto Hitler pretendiam construir o ‘socialismo de Estado’ e que
nos fundamentos de ambas as doutrinas encontra-se o regime econômico
coletivista dominando amplamente pelo Estado).
Uma outra falácia típica desse tipo de
raciocínio acadêmico enviesado consiste em atribuir ao marxismo –
simples ‘doutrina universitária’ para todos os efeitos práticos –
atributos de uma personalidade histórica, quase como um personagem
que interage com forças e processos sociais tangíveis e
inquestionáveis. Assim, o mesmo autor supra-citado, argumenta de
forma totalmente ingênua e a-histórica: “A partir das formulações
originais da dupla Marx-Engels, o marxismo foi se constituindo numa
concepção de história, numa visão de mundo, numa prática de luta,
numa política, diretamente na crítica ao capitalismo, seu inimigo
figadal”.
Trata-se de uma
evidente falácia, posto que o capitalismo não pode se constituir em
inimigo de nenhuma doutrina, já que ele não constitui um corpo
filosófico e doutrinal em busca de adeptos ou seguidores, e sim o
que os marxistas chamariam de ‘modo de produção’ (outra falácia
aberrante), convivendo em termos razoavelmente funcionais com
diferentes doutrinas políticas: democracia de massas, fascismo,
ditaduras personalistas, parlamentarismo aristocrático e,
provavelmente até, com o marxismo de muitos dirigentes espalhados
pelo mundo em diversas épocas.
Mas essa falácia de
um marxista acadêmico nos permite situar o campo no qual discutir as
falácias em geral da utopia marxista, geralmente situadas em dois
terrenos de interesse teórico e prático: o materialismo histórico,
que tende a disseminar-se pelas demais ciências sociais a partir da
história, e a economia, cujos efeitos são mais importantes, na
medida em que seus discípulos podem influenciar políticas públicas
(à diferença dos primeiros, que influenciam, no máximo, a concepção
do mundo de alunos ingênuos ou passivos). Ambas vertentes, ao fim e
ao cabo, são relevantes para o nosso exercício de identificação e
desmantelamento das falácias acadêmicas mais importantes, posto que
fundamentadas na mesma concepção geral que vê as ‘forças produtivas’
e as ‘relações de produção’ devendo, natural e necessariamente,
evoluir de seu envelope capitalista atual, opressivo, desigual e
injusto socialmente, para um conteúdo claramente socialista,
caracterizado pela socialização dos meios de produção, supostamente
mais conforme aqueles desejos de igualdade, justiça social e
liberada da exploração do homem pelo homem.
Sem ser necessário
apontar aqui as tragédias sociais, e o tremendo custo humano, a que
conduziram essas tentativas de construção de outra ordem social no
‘século do marxismo’, podemos passar a considerar as falácias mais
correntes desse tipo de engenharia social cujos objetivos últimos
são alegadamente humanistas e conformes ao ‘sentido da história’
(mas cujos resultados práticos são por demais conhecidos para
refazer a lista dos casos mais exemplares; bastaria apontar que as
tentativas remanescentes, nenhuma delas exemplar, situam-se,
atualmente, nas antípodas do mundo, um canto recuado da Ásia e numa
ilha do Caribe, num cenário de misérias humanas que dispensa
qualquer descrição).
3. Quais são os
mitos da utopia marxista?
Antes de tratar dos
mitos da utopia marxista, conviria abordar seus muitos acertos e
análises corretas. Curiosamente, a maior parte dos ‘acertos’
marxistas não se situa propriamente nesta obra de ‘economia gótica’
que se chama Das Kapital – considerada por muitos como o
nec plus ultra do cientificismo marxista, mas que tem seu lugar
apenas na estante de história das idéias, não numa biblioteca de
teoria econômica – mas num panfleto de propaganda feito
expressamente com esse objetivo que se chama, obviamente,
Manifesto do Partido Comunista (1848). Esta pequena obra
representa a mais poderosa defesa da sociedade burguesa e do modo de
produção capitalista jamais produzido por qualquer apólogo do
sistema de mercado desde então. O texto aponta corretamente que a
sociedade burguesa – que para Marx era quase sinônima de capitalismo
– não pode existir sem revolucionar constantemente os meios de
produção; que sua tendência à expansão contínua a levaria a
conquistar o mundo todo, oportunamente – constituindo, portanto, a
mais formidável promoção da globalização de que se tem notícia,
aliás totalmente ignorada pelos altermundialistas e atuais
opositores da globalização capitalista, que Marx consideraria como
totalmente irracionais; e que o capitalismo traz em seu próprio seio
a promessa de crises regulares, inevitáveis, eventualmente
devastadoras, falhando ele apenas em achar que o sistema inteiro
seria finalmente tragado numa dessas crises de grandes proporções (e
aqui vem o componente messiânico, ou poético, da mensagem utópica
marxiana).
A crítica contra o
capitalismo conduzida nas páginas do Manifesto – e mesmo em
muitas passagens do Capital – é inteiramente correta e
verdadeira, embora Marx tenha praticado esse equívoco monumental –
totalmente preservado nos equívocos ainda maiores de seus seguidores
e propagandistas atuais – de confundir modo de funcionamento do
capitalismo com a forma mais geral de organização da produção numa
sociedade de mercado, daí advindo os formidáveis erros de concepção
econômica que levaram, ao fim e ao cabo, ao desastre total de
todos – sem exceção – regimes socialistas existentes na face da
terra (e não vale apontar para o ‘socialismo’ escandinavo como
possível solução para um socialismo democrático ou liberal, posto
que as sociedades nórdicas jamais aboliram a propriedade privada ou
o regime econômico de mercado, como fundamento de seus modelos
social-democráticos).
Tanto essas críticas
são corretas que a maior parte dos órfãos do socialismo e das viúvas
do marxismo esfregam atualmente as mãos e sorriem de contentamento
interior ao apontar – com base inclusive em transcrições seletivas
de obras marxianas – a grande crise do capitalismo (não
exclusivamente financeiro) como ‘prova’ de que as ‘lições’ de Marx
estavam certas e que o capitalismo é, sim, sinônimo de anarquia e
caos no processo produtivo e que ele só pode existir quando guiado
pela mão visível do Estado, a que supostamente se opunha um
economista ‘burguês’ como Adam Smith (quem, aliás, nunca se opôs à
ação visível do Estado nos muitos campos em que essa atuação é
indispensável). Mas, atenção, reconhecer a correção básica da
análise marxiana do capitalismo – o que Max Weber, por exemplo,
também o fez, ainda que parcialmente, apenas – não significa que as
previsões poéticas do marxismo sobre a crise final do capitalismo e
sua superação pelo socialismo sejam corretas e aqui entramos,
justamente, na descrição das utopias marxistas.
Quais são, então, os
mitos da utopia marxista? As falácias do marxismo são muitas,
inumeráveis mesmo, tendo em vista que mais de um século e meio se
passou desde que as primeiras hipóteses sobre o ‘desenvolvimento
histórico’ foram formuladas pelos demiurgos originais e que, desde
então, epígonos e discípulos têm-se encarregado de perpetuar essas
falácias, sem o mínimo cuidado em efetuar sua crítica e evitar sua
repetição. Essas falácias têm a ver com a famosa ‘interpretação
econômica da história’ – e seus derivativos sob a forma de ‘modos de
produção’ e ‘lutas de classes como motor da história’; e também com
toda a parte analítica no terreno da economia, que quiçá foi a que
produziu os maiores desastres já conhecidos na história econômica
mundial, com todo um cortejo de experiências falidas e uma perda
desnecessária de bem-estar para muitos povos. Uma última categoria
de falácias tem a ver com a natureza da sociedade comunista; mas as
especulações marxianas a esse respeito pertencem mais ao terreno da
ficção política do que ao domínio da análise das sociedades
capitalistas existentes ao tempo de Marx, e podem ser perfeitamente
ignoradas como simples expressão de um desejo irrealizável (posto
que não sustentadas em qualquer exposição objetiva das condições que
levariam a tal ‘utopia’).
A primeira
categoria, inscrita no campo geral do materialismo histórico,
vincula-se ao desenvolvimento das sociedades existentes e sua
evolução para a comunidade socialista, a partir das contradições da
sociedade capitalista, desdobrando-se numa série de proposições
altamente questionáveis. Em primeiro lugar, e de maneira mais geral,
situa-se a crença num ‘fim da história’, alegação que os desatentos
críticos atuais do ‘marxista-hegeliano’ Francis Fukuyama atribuem
aos promotores do ‘pensamento único’ de extração liberal clássica
(que eles acusam falsamente de ser neoliberal, quando este conceito
não quer dizer rigorosamente nada).
Marx e Engels
(sobretudo este último, com suas construções mecanicistas sobre a
‘evolução’ da sociedade e do Estado) acreditavam que a resolução
final das contradições da sociedade capitalista se daria no quadro
da sociedade comunista, na qual cada um trabalharia de acordo com
sua capacidade e receberia em função de suas necessidades, sem a
opressão do capitalista explorador. A falácia moderna, partilhada
por um número inacreditavelmente alto de acadêmicos, consiste em
acreditar que o Estado provedor conseguirá atender à maior parte das
necessidades sociais, sem as distorções típicas de um sistema
privado de apropriação do produto social. Se isto fosse verdade, não
apenas teoricamente, mas sobretudo do ponto de vista prático, os
sistemas mais fortemente estatizados conhecidos ao longo do século
XX seriam exemplos acabados de sucesso econômico e de dinamismo
tecnológico, e não o desastre econômico e o fracasso tecnológico que
foram.
Em segundo lugar,
coloca-se o fio condutor desse processo, sob a forma da famosa
proposição sobre a luta de classes como o motor da história. A tese
não é especificamente marxista (ou marxiana), sendo uma espécie de
lugar comum explicativo nas décadas imediatamente posteriores à
Revolução francesa, como tal propagada pelos próprios publicistas e
panfletários do processo revolucionário e depois disseminada pelos
primeiros historiadores dos grandes eventos da França naquela
conjuntura. Marx apropriou-se do conceito e o generalizou para o
conjunto da história passada, antevendo que a luta final se daria
entre a burguesia e o proletariado, este encarregado de inaugurar a
nova era e de comandar à implementação do novo ‘modo de produção’,
inevitavelmente socialista, cela va sans dire.
Em terceiro lugar,
justamente, apresenta-se o famoso conceito de ‘modo de produção’,
supostamente capaz de organizar a história em função de formas
possíveis de organização social da produção em etapas sucessivamente
evolutivas – não necessariamente lineares ou sequenciais –, conceito
que ainda hoje frequenta certos manuais universitários como sendo a
única maneira adequada de descrever o substrato material das
sociedades existentes (e, claro, sua superação pelo modo
socialista). Nem é preciso recordar aqui o ridículo debate
pretensamente historiográfico travado no Brasil, durante a fase
áurea do stalinismo triunfante, no sentido de decidir se o modo de
produção da era colonial era feudal ou se ele já era capitalista,
para constatar a que absurdos pode levar uma concepção rígida do
processo histórico orientado por esse tipo de camisa de força
conceitual.
As transformações
ocorridas ao longo dos séculos nas sociedades agrárias tradicionais
seguem padrões extremamente diversificados em direção de formações
mercantis, crescentemente manufatureiras, progressivamente
industriais e, com maior intensidade a partir destas últimas,
gradualmente pós-industriais, com a chamada economia do conhecimento
reforçando um setor de serviços integrado aos demais setores
produzindo a maior parte do valor agregado. Marx, como é sabido,
considerava várias atividades do terciário (ou seja, os serviços,
justamente) como ‘improdutivas’, o que é um equívoco monumental para
quem se pretendia economista – mas que sempre foi, apenas e tão
somente, um filósofo social – e estava preso ao seu tempo,
concebendo a grande indústria manufatureira como o fenômeno
econômico dominante e decisivo, em seu horizonte histórico de
reflexão.
Não é preciso dizer
que, para Marx, a sucessão dos ‘modos de produção’ – do escravismo
antigo ao capitalismo, passando pelo feudalismo e por um pouco
definido ‘modo asiático de produção’, inventado a partir de certa
etapa de suas pesquisas para acomodar aspectos incongruentes em sua
caracterização rígida – deveria conduzir inevitavelmente ao ‘modo
socialista’, quase que tirado por um fiat filosófico das
entranhas do capitalismo, chegado em sua fase madura. A falácia
fundamental não consiste apenas em imaginar que formações
econômico-sociais tão diversificadas como as historicamente
existentes possam ser encaixadas, ou aprisionadas, em categorias tão
estanques quanto, simplesmente, redutoras; mas, sobretudo, em
acreditar que um ‘modo de produção’ possa ser inventado a partir das
elucubrações de um cérebro, por mais genial que este possa ter sido.
4. As falácias
econômicas do marxismo
Bem mais
importantes, porém, do que as falácias ‘histórico-materialistas’ de
Marx (e Engels) são os equívocos analíticos e conceituais de seus
textos de análise econômica, inclusive pelas consequências práticas
que eles tiveram para a vida de centenas de milhões de pessoas,
durante grande parte do século XX, sendo a maior parte desses
efeitos de trágicas dimensões, como o escravismo stalinista, por
exemplo. Essa outra categoria de falácias não é bem percebida por
uma parcela substancial dos acadêmicos, tanto porque são poucos os
que se decidem a enfrentar as 2.500 páginas do Capital, as
300 páginas da Crítica da Economia Política, as mais de 400
páginas das Teorias da Mais-Valia, a prosa gongórica ou
barroca da Crítica do Programa de Gotha, da Ideologia
Alemã ou de vários outros escritos esparsos, como os
Manuscritos Econômico-Filosóficos. A maior parte dos
‘estudiosos’ se contenta com resumos dessas obras, com as avaliações
generosas que seguidores complacentes delas fizeram ou, no máximo,
com a leitura rápida do Manifesto e do 18 Brumário.
Realmente não é
fácil fazer a crítica econômica da economia política de Marx e não
será aqui que tal empreendimento poderá ser realizado a contento;
tanto por falta de espaço (e para não abusar da paciência dos
leitores), como, sobretudo, por uma sensação de inutilidade, posto
que poucos dos argumentos ‘econômicos’ marxianos podem ser
transpostos na linguagem da economia contemporânea e receber, assim,
o tratamento empírico-factual a que se submetem as teorias ou
construções correntes produzidas em ambiente universitário. Antes
que me critiquem por incapacidade analítica, convido os defensores
da economia política marxista a tentar elaborar criticamente, isto
é, com os instrumentos da teoria econômica contemporânea, a respeito
das seguintes noções – que são centrais no pensamento econômico
marxiano – que constituem um conjunto de falácias que só são
preservadas nas aulas das humanidades, e muito raramente nas
faculdades que se dedicam ao ensino sério da economia: teoria do
valor-trabalho (um equívoco, diga-se de passagem, que Marx partilha
com os clássicos que o precederam); tempo de trabalho socialmente
necessário; fetichismo da mercadoria; doutrina da miséria crescente;
taxa de mais-valia; composição orgânica do capital; taxa decrescente
de lucro; superprodução de mercadorias; superabundância de capital.
Existem outras noções bizarras, certamente, mas estas bastam para o
desafio.
Na verdade, essas elaborações prolixas
da pluma de Marx não foram compreendidas ou desenvolvidas nem por
seus seguidores e discípulos,
que se contentaram com algumas fórmulas rápidas extraídas de algumas
dessas obras citadas para daí construir um dos mais monumentais
equívocos econômicos de que se tem notícia na história da economia
prática e das políticas públicas: refiro-me, obviamente, ao
socialismo de tipo soviético, ‘teoricamente’ (mal) bosquejado por
Lênin e implementado a marretadas pouco teóricas por Stalin e outros
improvisadores econômicos. Ainda que se possa dizer que esses
experimentos semi-bárbaros de militantes de uma sociedade
pré-capitalista pouco tinham a ver com os ‘verdadeiros’ fundamentos
teóricos marxistas, é um fato que eles procuraram se legitimar
através da crítica à economia política ‘burguesa’, tal como
conduzida pessoalmente por Marx, e que eles se sustentaram numa
concepção do mundo que tinha como suportes fundamentais duas
elaborações centrais do próprio mestre: a teoria da exploração e a
‘previsão’ da crise geral do capitalismo (não exatamente em virtude
da pressão política dos movimentos socialistas, mas por suas
próprias contradições internas, de tipo estrutural).
A teoria da
exploração, como se sabe, está no centro daquilo que os marxistas
consideram ser a contribuição fundamental de Marx à crítica da
economia política, a saber, a teoria da mais-valia. No Capital,
Marx divide o seu objeto analítico em duas partes: capital constante
e variável, sendo o primeiro a parte incorporada nos equipamentos e
nos produtos utilizados no processo de produção, e transferido
inteiramente para o valor do produto (parcialmente no caso dos
equipamentos, apenas a parte correspondente ao seu desgaste físico),
e o segundo a parte relativa ao custo da força-de-trabalho, da qual
apenas uma parte constitui a remuneração do trabalhador, sendo o
resto apropriado pelo capitalista como mais-valia justamente. Marx
pretendia ter descoberto ali o segredo do processo de acumulação
capitalista, sendo que a taxa de mais valia (s) criada pelo capital
variável (v) – expressa na fórmula v/s = trabalho
necessário/sobre-trabalho – corresponderia exatamente à taxa de
exploração do trabalho pelo capital. Nenhum economista sério
consegue trabalhar economicamente com uma falácia desse tipo;
desafio qualquer economista marxista a me provar a utilidade
instrumental dessa formulação para fins de teoria econômica ou como
mero instrumento analítico no plano da microeconomia (isto é, a
parte da economia dedicada especificamente ao processo de produção,
que é justamente a parte da critica à economia política que Marx
alegava ter desenvolvido de uma maneira superior aos economistas
‘burgueses’ do seu tempo).
A falácia mais
importante do marxismo, porém, a que o distingue particularmente no
conjunto de teorias econômicas críticas do (e ao) capitalismo, é,
evidentemente, a que trata da crença – sinto muito, mas não encontro
outro substantivo para este equívoco – de que os desequilíbrios
regulares e constantes da economia de mercado – de toda e qualquer
economia de mercado, que esses mesmos críticos confundem com o
capitalismo, a partir do erro original de Marx – conduziriam a
contradições insuperáveis nos limites do sistema existente, apenas
resolvíveis pela sua substituição ‘natural’ pelo modo de produção
predestinado como sucedâneo e sucessor, o socialismo.
Marx tentou formular
seu desejo filosófico em termos especificamente econômicos, mas que
são, na verdade sociológicos. No Capital, ele se ocupa,
sobretudo, de: acumulação capitalista; taxa de salários; exército
industrial de reserva; monopólios; deficiências na demanda;
desequilíbrios na produção (como resultado da superprodução de
mercadorias e da sobreabundância de capital); diferenças entre os
processos de produção e de circulação; descompassos entre o
crescimento da produção e a expansão dos mercados. Tudo isso
ilustrado por abundantes citações de relatórios oficiais –
geralmente parlamentares, mas de funcionários do governo também –
sobre o trabalho nas fábricas inglesas (que ele lê na British
Library e cita muito seletivamente) e por ainda mais abundantes
comentários em estilo literário sobre os horrores da produção fabril
e sobre a cupidez dos capitalistas. Existem passagens realmente
brilhantes, jocosas ou irônicas segundo a ocasião, e descrições tão
pungentes da miserável situação dos trabalhadores que são capazes de
comover os corações mais duros e as almas mais cândidas.
A falácia mais evidente, aqui, é a de
ter confundido a dinâmica de uma economia de mercado – com seus
desequilíbrios inevitáveis – com as contradições insanáveis de todo
o sistema capitalista, que na verdade representa uma parte muito
pequena da economia de mercado. Esta falácia foi perpetuada não
apenas pelos seguidores imediatos de Marx, como também por seus
êmulos contemporâneos, sobretudo na academia, onde se costuma
misturar as duas coisas numa salada indigesta que passa por economia
política. Os primeiros pretenderam destruir o capitalismo a
marretadas; o que mais conseguiram fazer foi impedir o funcionamento
de uma economia de mercado minimamente condizente com o cálculo
econômico indispensável à aferição do valor relativo dos bens e
serviços, condenando assim à esclerose precoce o seu pretendido
‘modo socialista de produção’.
Pode-se dizer, em sua defesa, que eles não tinham uma idéia muito
precisa de como construir o socialismo ‘científico’ apregoado por
Marx, já que este não havia deixado nenhum manual de instruções, uma
escusa de que não dispõem os segundos, que puderam observar várias
décadas de experimentos fracassados e desastres práticos, com todas
as evidências empíricas ao seu alcance, desde que eles se
dispusessem a raciocinar, está claro.
Mas parece óbvio
hoje em dia – pelo menos confio na inteligência humana – que nenhum
marxista consciente está propondo, atualmente, o socialismo em suas
formas conhecidas no século XX, sobretudo em sua versão clássica do
Gosplan soviético; e menos ainda nos modelos embalsamados das
tristemente célebres experiências da pavorosa Coréia do Norte e da
patética ilha caribenha. O que os marxistas estão pedindo – e alguns
governos atendendo, ainda que não se pretendam socialistas – é a
nacionalização, ou seja, a estatização, do sistema bancário, como
forma de acabar com o aspecto mais detestável, moralmente falando,
do capitalismo, que é a especulação financeira, algo que qualquer
marxista contemporâneo pratica regularmente quando joga na loteria,
a mais desenfreada especulação financeira administrada pelo Estado.
Eles também pedem –
e nisso os governos do G20 financeiro também parecem dispostos a
atendê-los – uma regulação ainda mais estrita dos mercados pelo
Estado, como forma de interromper, pelo menos momentaneamente, a
crise devastadora que não deixa de representar desemprego, pobreza
temporária para os que não dispõem de seguro-desemprego (e isso se
aplica a 95% da força de trabalho brasileira) e outras consequências
variadas, todas vinculadas às supostas misérias que o capitalismo é
capaz de produzir na concepção desses seus utópicos detratores.
Trata-se, obviamente, de um contra-senso econômico, posto que uma
regulação mais rígida e burocratas estatais no comando dos bancos
conseguirão produzir, se tanto, menor crescimento econômico, menor
flexibilidade dos mercados e, portanto, menores possibilidades de
criação e de distribuição de riquezas, pontos que os
propositores de tais medidas não estão dispostos a reconhecer (por
problemas filosóficos compreensíveis), mas que são importantes para
o futuro das economias de mercado (característica fundamental que
eles, pelo menos isso, aprenderam a respeitar).
Pode ser que, ao fim
e ao cabo, a falácia do marxismo em proclamar a utopia da sociedade
socialista seja comparável à falácia capitalista – se é que ela
existe – de uma economia de mercado sem crises e sem perda de
riquezas, o que ainda não foi inventado por nenhum cérebro genial.
Na verdade, o capitalismo não tem a pretensão de fazer engenharia
social ou de operar toda a economia de mercado: ele se contenta em
gerir seus próprios negócios privados, abrindo com isso o caminho
para a construção de um poderoso sistema de criação (e distribuição)
de riquezas, o que não é pouca coisa. Em todo caso, nenhum sistema –
socialista, coletivista, ou qualquer outro ‘inventado’ pela ação
humana – foi capaz, até o presente momento, de oferecer tantas
oportunidades de criação de riquezas quanto as economias de mercado
operando de modo mais ou menos espontâneo. Entre essas economias se
situa o capitalismo, que constitui ainda uma pequena parte dos
‘modos de produção’ disponíveis nos supermercados da história, e uma
fração relativamente diminuta das formações sociais historicamente
existentes, inclusive no plano espacial-geográfico (a despeito do
que possam pensar os marxistas, mas eles costumam exagerar no poder
de fogo do capitalismo).
Thomas More, se vivo
fosse, teria certamente muito material para novas utopias se tivesse
conhecido todas as propostas de engenharia social contidas nas
formulações marxistas para um novo modo de produção e um novo tipo
de sociedade. Mas, talvez ele não tivesse sobrevivido a alguns
experimentos do século XX, bem mais terríveis do que as diatribes
anti-papistas e anti-Vaticano de um Henrique VIII...
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