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ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)

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Ideologia e Utopia
Antonio Ozaí da Silva
Ideologia!
Eu quero uma prá viver...
(Cazuza)
As
ideologias mobilizam indivíduos e multidões, alimentam
intolerâncias, intentam conservar ou transformar sociedades,
produzem guerras e revoluções. Qual a fonte dessa força imensa que
se dissemina e conquista corações e mentes em povos de culturas e
realidades tão díspares? Será porque expressam utopias? Ideologias e
utopias são semelhantes, nomes diferentes para os mesmos fenômenos
políticos e sociais? Se as ideologias sobrevivem ao passar dos anos
e vivificam nos homens e mulheres do tempo presente, mesmo quando
são declaradas mortas, será que vivemos uma época em que a utopia se
exauriu? O objetivo deste texto é analisar essas questões, a partir
da obra de Karl Mannheim [1].
Em geral, tomamos ideologia e utopia
como sinônimo. Por exemplo, nos referimos ao comunismo (socialismo)
e, praticamente com o mesmo sentido, à utopia comunista
(socialista); da mesma forma, consideramos a ideologia anarquista
como semelhante à utopia libertária. Quando, porém, aludimos às
ideologias de cunho conservador e/ou liberal, não estabelecemos
vínculos com utopias. Na linguagem política corrente, essas
ideologias são concebidas como valores e idéias que legitimam e
mantêm o status quo. Geralmente não falamos em “utopia
conservadora” e “utopia liberal”. Reservamos a expressão utopia para
as ideologias contestatórias, as quais colocam-se como objetivo o
revolucionamento da ordem social e, portanto, a construção do
“não-existente” a partir da negação do “existente”. Por isso, é mais
comum falarmos em utopias comunista, socialista e anarquista.
Se tomarmos, porém, o pensamento liberal
em suas origens, é possível fazer o mesmo raciocínio. Numa época em
que predominava a sociedade feudal e a ideologia da nobreza e do
clero era seu sustentáculo, as idéias liberais diziam respeito ao
“não-existente”, à transformação da ordem social tradicional e sua
superação pelo liberalismo, pela ordem social do Capital. O
liberalismo foi revolucionário e, portanto, utópico. Mas tão logo
derrotou o feudalismo e conquistou seu espaço, tornou-se uma
ideologia conservadora e perdeu seus traços utópicos. Não podia ser
diferente, pois se a burguesia levasse às últimas conseqüências seu
lema “Igualdade, Liberdade, Fraternidade”, teria que negar-se a si
própria. E nenhuma classe social comete suicídio político.
O mesmo ocorreu com o “socialismo
realmente existente”: à sua vitória seguiu-se a necessidade de
conservar a ordem. Os revolucionários de hoje são os conservadores
de amanhã. Não é mero acaso que, seja nas revoluções burguesas ou
nas socialistas, surja a crítica interna dos setores minoritários
que almejam empurrar a revolução para além dos limites dos que
desejam estabilizar o poder. A nova ordem precisa ser negada para
que a utopia permaneça; o não-existente continua a ser o objetivo a
perseguir. No entanto, os novos grupos e classes sociais no poder
não podem tolerar os que se mantêm utopistas. Suas cabeças devem ser
guilhotinadas, seus corpos são cravados pelas balas dos fuzis dos
camaradas da véspera; aos períodos revolucionários seguem-se os
tempos inquisitoriais. Assim, os líderes bolcheviques tiveram que
perseguir os anarquistas e silenciar a oposição interna no partido;
o stalinismo e congêneres completou o serviço. A nova ortodoxia não
tolera heresias.
A história parece dar razão a Karl
Mannheim. Ele distingue ideologia e utopia. A primeira refere-se ao
conjunto de idéias que objetivam manter a ordem existente; a
segunda, às idéias que fundamentam as ações pela transformação
desta. De acordo com Mannheim:
“O conceito de “ideologia” reflete
uma das descobertas emergentes do conflito político, que é a de
que os grupos dominantes podem, em seu pensar, tornar-se tão
intensamente ligados por interesses a uma situação que
simplesmente não são mais capazes de ver certos fatos que iriam
solapar seu senso de dominação. Está implícita na palavra
“ideologia” a noção de que, em certas situações, o inconsciente
coletivo de certos grupos obscurece a condição real da
sociedade, tanto para si como para os demais, estabilizando-a
portanto.
O conceito de pensar utópico
reflete a descoberta oposta à primeira, que é a de que certos
grupos oprimidos estão intelectualmente interessados na
destruição e na transformação de uma dada condição da sociedade
que, mesmo involuntariamente, somente vêem na situação os
elementos que tendem a negá-la. Seu pensamento é incapaz de
diagnosticar corretamente uma situação existente da sociedade.
Eles não estão absolutamente preocupados com o que realmente
existe; antes, em seu pensamento, buscam mudar a situação
existente. Seu pensamento nunca é um diagnóstico da situação;
somente pode ser usado como uma orientação para a ação. Na
mentalidade utópica, o inconsciente coletivo, guiado pela
representação tendencial e pelo desejo de ação, oculta
determinados aspectos da realidade. Volta as costas a tudo que
pudesse abalar sua crença ou paralisar seu desejo de mudar as
coisas” (MANNHEIM, 1976, p. 66-67).
Para Karl Mannheim, a utopia não apenas
desvincula-se da ideologia como do real, o existente. Sua relação
com a realidade dá-se apenas enquanto negação. Aqui, a utopia não é
um vir-a-ser mas algo a ser vivenciada agora. “Um
estado de espírito é utópico quando está em incongruência com o
estado de realidade dentro do qual ocorre”, afirma (id., p.216). Não
é suficiente, portanto, que as idéias transcendam a ordem existente
para ser consideradas utópicas, é preciso que se orientem pela
ruptura das amarras com o existente, que se declare plenamente
incompatível:
“Todos os períodos da história
contiveram idéias que transcendiam a ordem existente, sem que,
no entanto, exercessem a função das utopias; antes eram as
ideologias adequadas a este estágio de existência, na medida em
que estavam “organicamente” e harmoniosamente integradas na
visão de mundo característica do período (ou seja, não ofereciam
possibilidades revolucionárias. Enquanto a ordem medieval, a
organização feudal e clericalmente, pôde situar seu paraíso fora
da sociedade, em qualquer outra esfera do mundo que
transcendesse a história e que amortecesse seu potencial
revolucionário, a idéia de paraíso ainda constituía parte
integrante da sociedade medieval. Somente depois que certos
grupos incorporaram estas imagens desiderativas à sua conduta
efetiva é que estas ideologias se tornaram utópicas” (id., p.
217).
Ideologia e utopia são distinguidas pela
relação que mantêm com a ordem social existente. Para que as idéias
desempenhem o papel utópico, isto é, adquiram um “estado de espírito
utópico”, é necessário que não apenas transcendam a ordem, mas que
incorporem-se nos grupos sociais oprimidos e capazes de revolucionar
a ordem. A mentalidade utópica, em suma, é revolucionária; a
ideologia permanece atrelada ao existente.
Mas é possível viver em sociedade e
alienar-se completamente dela? Mesmo o revolucionário mais radical
não se vê obrigado a considerar o realmente existente? Ele/ela não
está com os pés no chão social real do seu tempo? As idéias
dominantes da sua época não influenciam? Como contestar a ordem sem
partir da realidade negada? Não há a tentação de se adaptar, ainda
que se mantenha o discurso contestatório?
Não é apenas uma questão teórica e
conceitual. Os movimentos sociais revolucionários, e, portanto,
utópicos, tiverem que levar em conta o existente. Quando não foram
derrotados, adaptaram-se. Nas raras oportunidades em que foram
vitoriosos, como na Revolução Russa, tiverem que construir a nova
ordem a partir do arcabouço da velha sociedade. Tradições, hábitos,
valores, idéias permaneceram latentes e atuantes, em conflito com os
novos valores e idéias impostos pelo processo revolucionário. O novo
homem e a nova mulher socialistas não nascem prontos e purificados.
Além disso, as necessidades políticas
para a manutenção do poder do Estado levam à prática de atitudes
antes criticadas, mas agora legitimadas pelo “realismo
revolucionário”. Inicia-se, então, processos contra-revolucionários,
paradoxalmente em nome da Revolução. O discurso revolucionário, vale
dizer, utópico, ossifica-se na tradição, cuja legitimidade é dada
pelo recurso ao profeta de origem. Daí a necessidade de estabelecer
linhas de continuidade do tipo Marx-Engels-Stalin e outras a
depender do “profeta” continuador.
O dilema dos utopistas é negar o
existente e ser coerente com esta negação. O reformismo expressa
essa dificuldade. Sua solução não foi muito melhor do que aquela das
sociedades “socialistas” historicamente existentes. Longe de
transformar a ordem existente, a estratégia reformista adaptou-se e
fortaleceu-a. Negou não apenas as idéias que transcendiam a
sociedade capitalista, mas também a possibilidade da utopia.
É praticamente impossível viver a utopia
desvinculado do “ser no mundo”. O existir no mundo “consiste no que
é “concretamente efetivo”, isto é, uma ordem social em
funcionamento, que não exista apenas na imaginação de certos
indivíduos, mas de acordo com a qual as pessoas realmente ajam”
(id.). As ideologias e utopias não estão apartadas dessa concretude.
Por outro lado, as ideologias são conservadoras, mas também
contestatórias. E estas se confundem com as utopias. Como assinala
Mannheim:
“Ao observador que delas tenha uma
visão relativamente externa, esta distinção teórica e
completamente formal entre utopias e ideologias parece oferecer
pouca dificuldade. Contudo, determinar concretamente o que em um
dado caso seja ideológico e o que seja utópico é extremamente
difícil” (id., p. 219-220).
A distinção parece mera construção
formal, conceitual. Qual o critério para estabelecer com segurança o
que é ideologia e o que seja utopia?
“Aqui nos defrontamos com a
aplicação de um conceito que envolve valores e padrões. Para que
tal aplicação se efetue, deve-se necessariamente partilhar dos
sentimentos e das motivações das partes em luta pelo
assenhoramento da realidade histórica” (id., p.220).
As definições conceituais nem sempre se
encaixam na realidade da vida. Os grupos e classes sociais em pugna
apropriam-se e redefinem os conceitos a partir da sua práxis. Ou
seja, também os conceitos e teorias são objetos de disputa. Assim,
por exemplo, a acusação de “ideológico” a um adversário ou inimigo
político, ou mesmo quando ocorre na formalidade das relações
acadêmicas, encobre o fato de que a acusação também é ideologia. O
“cientificismo” e a pretensão à “neutralidade científica” são tão
ideológicos quanto o sujeito-objeto criticado por “ser parcial”,
isto é, “ideológico”.
O mesmo ocorre com a utopia. É muito
comum a crítica ao “utopismo” dos outros, sendo que o crítico
coloca-se na posição do “realista”. Nesses casos, a crítica tende a
ser pejorativa, ou feita com certa condescendência. De qualquer
forma, o objetivo é caracterizar o outro como “irrealista”,
“sonhador”, etc. O uso das palavras expressa posições políticas.
Como escreve Mannheim:
“Os representantes de uma ordem dada
irão rotular de utópicas todas as concepções de existência que
do seu ponto-de-vista jamais poderão, por princípio, se
realizar. De acordo com esta utilização, a conotação
contemporânea do termo “utópico” é predominantemente a de uma
idéia em princípio irrealizável. (...) Dentre as idéias que
transcendem a situação, existem certamente algumas que em
princípio jamais poderiam realizar-se. Não obstante, os homens
cujos pensamentos e sentimentos se acham vinculados a uma ordem
de existência na qual detêm uma posição definida, manifestarão
sempre a tendência a designar de absolutamente utópicas todas as
idéias que tenham se mostrado irrealizáveis apenas no quadro da
ordem em que eles próprios vivem” (id., p.220)
Os defensores da ordem social vigente
procuram desqualificar e até mesmo ridicularizar os contestadores
utopistas. Com o tempo, muitos destes se rendem ao discurso
“realista”. No século XIX, por exemplo, social-democrata significava
a ação política que tinha como objetivo superar a sociedade de
classes, o capitalismo, e, por meios revolucionários, construir a
sociedade socialista rumo ao comunismo. No que se transformou a
social-democracia? Que é o reformismo senão a integração à ordem?
Que expressa a história política recente da esquerda brasileira
senão o abandono de quaisquer veleidades utópicas? Parcela
importante dessa esquerda negou os princípios ideológicos que, mal
ou bem, inspiraram a ação de homens e mulheres, jovens e adultos. Os
que recusaram a adaptação à ordem e permanecem utópicos, são os
órfãos de uma geração que ousou sonhar, mas desistiu de lutar por
seus sonhos.
“É inexeqüível”, ouvi certa vez.
Compreendo! É difícil imaginar a viabilidade de uma sociedade sem
classes, sem Estado e fundada na autogestão dos indivíduos livres.
Como vislumbrar qualquer pensamento utópico se nossa mente e
sentimentos estão tão enraizados na sociedade em que vivemos. Como
agir segundo os princípios utópicos se permanecemos escravos do
“reino da necessidade?
A utopia é o discurso sobre o não
existente. Mas isso não significa que seja uma quimera, um delírio
de indivíduos incapazes de “ver a realidade”. Se o pensamento humano
permanecesse prisioneiro da “realidade”, isto é, restrito à ordem
social e legitimador desta, as sociedades seriam estacionárias.
Muito do que parece “irrealizável” em cada época histórica
específica, é apenas e tão somente do ponto-de-vista daquela época,
das idéias predominantes nela. Ora, a realidade está em permanente
mudança. Não levar isso em conta, é decretar a morte da dialética e
acreditar que não fazemos a História. A sociedade que nega
veementemente a utopia produz as condições para a sua realização.
Com Mannheim,
“Queremos dizer com isso que cada
época permite surgir (em grupos sociais diversamente
localizados) as idéias e valores em que se acham contidas, de
forma condensada, as tendências não realizadas que representam
as necessidades de tal época. Estes elementos intelectuais se
transformam, então, no material explosivo dos limites da ordem
existente. A ordem existente dá surgimento a utopias que, por
sua vez, rompem com os laços da ordem existente, deixando-a
livre para evoluir em direção à ordem e existência seguinte”
(id., p.223).
A mentalidade utópica é vista por muitos
como idealismo, quixotismo típico dos que combatem moinhos de vento.
Esse tipo de entendimento está presente tanto no senso-comum quanto
em intelectuais que se consideram cientistas. Para uns e outros, a
utopia é coisa de sonhos irrealizáveis. Na prática, personificam e
legitimam a ordem social existente.
A burguesia e seus intelectuais
orgânicos afirmam a inviabilidade, inexequibilidade de qualquer
projeto político alternativo ao Capital. Qualquer proposta que
coloque em xeque as bases de sustentação do seu domínio são
consideradas irrealistas e “utópicas”. E, no entanto, a burguesia
também acreditou e defendeu sua utopia. Qual a grande utopia dessa
classe na época do feudalismo?
“A utopia da burguesia ascendente
consistia na idéia da “liberdade”. Era em parte uma verdadeira
utopia, isto é, continha elementos orientados para a realização
de uma nova ordem social, constituindo um instrumento para a
desintegração da ordem previamente existente, e que, após sua
realização, se converterem parcialmente em realidade. Liberdade
no sentido de quebrar as cadeias da ordem de estado, guilda e
casta, no sentido da liberdade de pensamento e de opinião, no
sentido de liberdade política e liberdade do desenvolvimento sem
entraves da personalidade, tornaram-se em um sentido amplo, ou
pelo menos em um sentido mais amplo do que na sociedade feudal
anterior baseada nos laços de status, uma possibilidade
viável. Sabemos, hoje em dia, exatamente em que medida estas
utopias se tornaram realidades e até que ponto a idéia de
liberdade daquela época continha não apenas elementos utópicos,
mas igualmente ideológicos” (id., p. 227).
Eis o critério da distinção conceitual
entre ideologia e utopia. Para Mannheim, é a realização da utopia
que indica a sua diferenciação em relação ao aspecto ideológico:
“Idéias que posteriormente se
mostraram como tendo sido apenas representações distorcidas de
uma ordem social passada ou potencial eram ideológicas, enquanto
as que forma adequadamente realizadas na ordem social posterior
eram utopias relativas” (id., p. 228).
Na materialidade histórica, porém, as
ideologias revolucionárias atuam com o objetivo de construir novas
ordens sociais, portanto, capazes de realizar as utopias. Ou seja,
ideologias também são utópicas, ainda que se afirmem “científicas”.
Assim, a “ideologia” não é apenas o recurso das classes dominantes
para dissimular a realidade, mas também meio para o desvendamento
desta. Quem atua na perspectiva da crítica à “ideologia dominante”
também afirma a sua ideologia. E ao afirmá-la enquanto perspectiva
de revolucionar a ordem social existente também assume o caráter
utópico.
De qualquer forma, ideologias e utopias
estão relacionadas a grupos sociais. Enquanto as idéias não forem
incorporadas pelos grupos e classe sociais não terão efeito. O
indivíduo utópico, isto é, aquele que inova criando idéias que
transcendem o status quo, não pode efetivá-las em sua
solidão. As idéias precisam circular, conquistar adeptos e serem
personificadas por um número crescente de indivíduos, ou seja,
necessitam corresponder ao horizonte político de determinados grupos
sociais e se manifestar em ações. Então, a utopia passa a ser
realizável.
Eis o “calcanhar de Aquiles” do
pensamento utópico. Na medida em que se restringe a alguns
indivíduos ou à minoria da minoria, ele é pressionado a se adaptar
e/ou é mantido sob limites que permaneça inofensivo. Até é tolerado
sob o argumento da liberdade de expressão. Em determinadas
circunstâncias, é visto de maneira condescendente como inerente às
“esquisitices” típicas de alguns indivíduos “especiais”. Noutros
casos, refugia-se nas estruturas que, paradoxalmente, deveria
combater. E, assim, academiciza-se, torna-se abstração escolástica,
perde o élan utópico e esvazia-se enquanto discurso;
auto-proclama-se contestador da ordem social, mas, na prática,
ajusta-se aos seus ditames. Assim, as ideologias-utopias
cristalizam-se em seus opostos:
“Com efeito, quanto mais ativamente
um partido em ascensão colabora em uma coalizão parlamentar,
tanto mais abandona seus impulsos utópicos originais e, com
eles, sua perspectiva ampla, tanto mais seu poder para
transformar a sociedade tenderá a ser absorvido por seus
interesses em detalhes isolados e concretos. (...) O esforço
utópico visando a um objetivo e a possibilidade, intimamente
relacionada a ele, de uma perspectiva ampla desintegram-se, no
conselho consultivo parlamentar e no movimento sindical, em mero
conjunto de orientações para dominar um vasto número de detalhes
concretos, com vista a assumir posição política quanto a eles”
(id., p.274).
A pressão pela integração é
intensificada com a derrota das ideologias críticas à ordem vigente.
Quando as idéias materializam-se nas ações humanas, nem sempre os
resultados são os projetados. Dessa forma, decretam o fim das
ideologias (claro, referem-se às ideologias contestadoras) e
ironizam os “utópicos”, “ingênuos” e, muito provavelmente,
“ignorantes”.
Não obstante, é legítimo questionar se
ainda há lugar para Utopias. A crise das ideologias, e
conseqüentemente das utopias, renova o dilema dos indivíduos que
insistem em afirmar a possibilidade de um outro mundo, que não se
rendem aos que, com seus discursos pretensamente “científicos”,
“realistas” e “bem informados”, congelam a História e insistem em
repetir que não há alternativa. Para eles, resta tão somente a
reconciliação com o status quo e, já que é inevitável, tirar
o máximo proveito. Esse tipo, geralmente personificado em
intelectuais respeitáveis, aconselha, ainda, o combate aos que
permanecerem renitentes. Ou seja, não basta renegar as próprias
idéias e a si mesmo.
Porém, desde a era mais remota, o ser
humano se permite imaginar a transcendência da ordem. Quando este
sonho é abraçado por outros que sonham o mesmo sonho, então
transforma-se em utopias passíveis de realizar-se. Nesse exercício
reside a esperança humana que, tal qual a fênix, sempre renasce das
cinzas. Mesmo nas fases históricas de maior desespero humano, há os
que encontram forças para continuar lutando para transformar a
realidade. Se há algo em comum nas utopias e essa promessa de que um
novo mundo é possível.
O ser humano é um ser imaginativo,
desejante e o único capaz de pensar a vida para além da sua
existência. Ainda que derrotados em suas respectivas épocas, as
idéias que alimentam utopias sobrevivem e são incorporadas pelas
gerações vindouras. Enquanto não forem superadas as contradições
presentes na ordem existente, tais idéias permanecem vivas.
O ser humano precisa da utopia. Enquanto
indivíduos podemos ser favoráveis ou contra a ordem social vigente,
ou sermos indiferentes. Porém, isso apenas mostra o quanto a
realidade é contraditória. A erradicação da utopia só é possível com
a sua realização ou com o absurdo da eliminação do ser humano (e,
historicamente, as inquisições seculares e religiosas também
representam a vã tentativa de eliminar as idéias utópicas,
consideradas “heresias”, eliminando-se aqueles que as personificam).
A utopia é necessária porque expressa a
afirmação do humano. Como ressalta Mannheim:
“A desaparição da utopia ocasiona um
estado de coisas estático em que o próprio homem se transforma
em coisa. Iríamos, então, nos defrontar com o maior paradoxo
imaginável, ou seja o do homem que, tendo alcançado o mais alto
grau de domínio racional da existência, se vê deixado sem nenhum
ideal, tornando-se um mero produto de impulsos. (...) o homem
perderia, com o abandono das utopias, a vontade de plasmar a
história e, com ela, a capacidade de compreendê-la” (id., p.
285).
Décadas se passaram desde que o autor
escreveu estas palavras. E, no entanto, como as ideologias utópicas,
permanecem necessárias e atuais.
Referência
MANNHEIM, Karl. Ideologia e Utopia. Rio de Janeiro: Zahar
Editores, 1976.
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