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MEGAN RUST MUSTAIN
Professora
Assistente de filosofia. Sua pesquisa e interesses pedagógicos
incluem filosofia americana, filosofia da educação, teoria
feminista, e filosofia da medicina.
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Ritmos utópicos: Ralph Ellison e a estética do
jazz
Megan Rust Mustain
Tradução: Eva Paulino
Bueno
Albert [Ayler] era louco.
Ele tocava como se
houvesse alguma energia primordial que o mundo usava
secretamente como energia. Yeh, a Música. Sentindo-a, a ela que
nos tocava, e nós que a tocávamos, [e isto] nos dava aquela
força, aquele tipo de irreversibilidade que nós sentíamos.
Este estudo explora a noção utópica de
liberdade que existe nos escritos principais de Ralph Ellison e,
seguindo as pistas que há nos seus ensaios sobre literatura e
música, traça o processo da realização da liberdade a um
reconhecimento da natureza rítmica da história. Ellison encontra a
chave deste reconhecimento na criação estética, exemplificada nos
aspectos performativos da escritura de ficção e na composição
musical. Estes atos criativos, que consideram o passado algo tanto
irreversível como mutável, tenta recapitular os ritmos da
experiência de uma tal forma que os faz aflorar a nível consciente.
Para explorar até que ponto tais atos são liberadores, focalizo na
noção de história de Ellison, como ela se liga com outros aspectos
da cultura afro-americana. Em particular, as noções de repetição e
ritmo vêm à tona. Examino até que ponto a ressonância rítmica de
ideais ou princípios criados historicamente constitui o significado
primário do passado — em resumo, a sua vida no presente. Usando a
ficção de Ellison e elementos da tradição do jazz, procuro usar esta
compreensão do ritmo para encontrar um sentido de utopia, ou talvez
um sentido mais sutil de possibilidade dentro da irreversibilidade
do passado. Começo com a discussão das várias maneiras de se
entender a repetição, e, focalizando na noção da repetição como
ritmo, examinar as inter-relações entre o ritmo e a improvisação,
realidade e possibilidade, história e liberdade.
À primeira vista vemos que o fenômeno da
repetição tem muitas faces. Em nossos hábitos, línguas, formas de
arte, valores, e instituições, nós vemos o passado recapitulado no
presente, nossas histórias definindo até os aspectos mais mundanos
das nossas vidas no presente. Isto significa que o passado é uma
força constitutiva no presente. Embora nós não devamos confundir
repetição com duplicação, há perigos se nós não reconhecermos a
presença do passado. A cegueira história e sua companheira, a ação
irrefletida, podem se combinar para limitar possibilidades futuras e
destruir a criatividade. Isto quer dizer que a história, não
menos que a negação da história, determina o campo das
possibilidades. Assim James Snead escreve no seu artigo “On
Repetition in Black Culture” (“Sobre a repetição na cultura negra”):
o reconhecimento [da repetição] pode significar negação ou
aceitação, repressão ou ênfase, mas de qualquer maneira a
transformação é a resposta da cultura à sua própria compreensão
da repetição.” Ele continua, “Podemos facilmente classificar as
formas culturais considerando se elas tendem a admitir ou a cobrir
estes constituintes repetitivos dentro deles.”
A negação desta recorrência, do significado presente do passado,
está entre os temas mais salientes dos escritos de Ralph Ellison.
Realmente, o seu romance O homem invisível pode ser lido como
o relato da luta de um indivíduo pela auto-criação diante das
tragédias do passado e de suas presenças repudiadas no presente.
O narrador de Ellison tem que
continuamente confrontar-se com a contradição entre a história
oficial e corrente dos acadêmicos e teóricos, e aquela história que
é transmitida aos pedaços, através da música e do folclore. O
historiador convencional, que Ellison diz que é o especialista
interessado em cronologia, é ao mesmo tempo um documentador e um
ocultador (dissimulador) da história. Ao apresentar histórias
lineares, tais historiadores aprisionam o passado, reduzindo suas
complexidades e contradições a fórmulas e estereótipos. Em tais
concepções lineares da história, a ocorrência da repetição é
tipicamente explicada através de conceito como o Bildung de Hegel,
ou “desenvolvimento”. Aqui a noção da repetição é submergida debaixo
da noção mais ampla de progresso. Neste esquema, “a repetição não
deve ser vista como somente circulação e fluxo, mas como acumulação
e crescimento” (Snead, p. 149).
Snead encontra uma outra maneira de
entender a repetição na cultura negra: “a repetição significa que a
coisa circula ... há um equilíbrio.” Ele continua, “Na
cultura negra, a coisa (o ritual, a dança, o ritmo) está ‘aí para
que você entre nela quando você retorna” (Snead, pp. 149-150). O que
se repete são ritmos, estilos, atitudes, e, mais importante para
Ellison, princípios. A complexidade dos ritmos recorrentes e as
absurdezas (usando uma das palavras favoritas de Ellison) que
resultam de incompatibilidades entre as pessoas são para Ellison
algumas das características chave da vida americana. O “bumerangue
da história,”
como Ellison o chama, se move através destas contradições. Os
documentos fundadores da república oferecem promessas de liberdade e
responsabilidade que ressonam na contradição para aqueles que ainda
não viram estas promessas cumpridas. A ressonância destes ideais e
promessas ocorre, para Ellison, na maneira de um bumerangue:
“(Cuidado com aqueles que não falam da espiral da história;
eles estão preparando um bumerangue. É uma boa idéia ter um capacete
de aço no jeito.) Eu sei; eu já levei tanto bumerangue na cabeça que
agora eu posso ver a escuridão da luminosidade” (Ibid).
Em seu ensaio de 1956, titulado
“Society, Morality, and the Novel” (“Sociedade, moralidade, e o
romance”), Ellison fala dos princípios estabelecidos pelos
fundadores dos Estados Unidos” “No começo não havia somente a
palavra, mas a contradição da palavra.”
A nação começou com a declaração da igualdade e da liberdade, e a
contradição da escravidão. Mas foi precisamente este estado de
contradição que abriu caminho para um mundo de possibilidades
democráticas, “porque o homem (sic) não pode simplesmente dizer,
‘Tenhamos liberdade e justiça e igualdade para todos,’ e ter isto; e
uma democracia, mais do que qualquer outro sistema, é cheia de
contradições” (Going to the Territory, 251). Os fundadores da
nação (de forma muito parecida ao “Fundador” em Invisible Man),
estabeleceu o que Ellison chama, no romance, de “O princípio, o
plano, em cujo nome nós somos brutalizados e sacrificados” (Invisible
Man, 574). O princípio se tornou um arquétipo americano, uma
corrente subterrânea rítmica, utópica que permeia até as
experiências mais contraditórias. Assim, mesmo para o avô do
narrador — um antigo escravo — o ritmo utópico democrático “era seu,
e o princípio continua vivo em todas as sua diversidade absurda e
humana” (Invisible Man, 580).
Para Ellison os ritmos da história são
transmitidos através da imaginação muito mais facilmente que através
do intelecto. A linguagem poética e lírica das ruas e o estilo
rítmico, improvisacional do blues e do jazz são, para Ellison,
veículos importantes para a expressão, repetição e exploração
daquelas correntes subterrâneas que são ignoradas pelos
historiadores. A “ação democratizadora do vernacular,
seja ela oral ou musical, é o meio através do qual “a contínua
tarefa de dar nome, definir, e criar uma consciência de quem o que
nós nos tornamos”
poderá ocorrer, com maior probabilidade. O vernacular é, para
Ellison, o lugar da síntese de tradições — isto é, as histórias não
escritas, os ritmos — que estão “sempre trabalhando ao fundo para
nos dar pistas de como este processo de auto-definição funcionou no
passado” (Going to the Territory, 144). Ellison escreve em
Going to the Territory: “Eu vejo o vernáculo como um processo
dinâmico em que os estilos mais refinados do passado são
continuamente misturados com as improvisações de ouvido que nós
inventamos em nosso esforço para controlar o nosso meio e nos
divertir” (139).
Como o vernáculo se desenvolve mais ou
menos inconscientemente, é através da exploração do vernacular,
através de atos criativos como escrever, compor, e representar que
nós levamos adiante a tentativa consciente de alcançar os ideais
utópicos cuja primeira expressão começou com o processo pelo qual
este vernáculo pôde se desenvolver.
O ritmo do vernacular americano é uma
expressão do que Ellison chama de “a lógica inconsciente do processo
democrático” (Going to the Territory, 126). E é precisamente
o ritmo, a repetição do passado no presente, que está no âmago da
divergência da cultura americana comparada à cultura européia. Como
Snead escreve, “a música européia usava o ritmo primariamente como
uma ferramenta para a construção de uma cadência harmônica,
raramente enfatizando o ritmo como uma meta em si mesma.”
Para contrastar, Snead estuda a noção do “corte”, um retorno ao
início de uma peça musical, que vem da música africana para as
canções de escravos e os hinos, e finalmente para o blues e o jazz.
Ele escreve, “A cultura negra, no ‘corte’ constrói ‘acidentes’ nesta
cobertura, quase como se para controlar sua imprevisibilidade. Sendo
ela mesma uma forma de cobertura cultural, esta mágica do ‘corte’
tenta confrontar o acidente e a ruptura ao decidir não ignorá-los,
mas abrindo espaço para eles dentro do próprio sistema” (Ibid, 150).
O ‘corte’ é um princípio de repetição na música negra, uma “parada
que parece não ter motivo nenhum... com uma série em progresso e um
retorno forçado a uma série anterior” (Ibid). O retorno ao começo é
um retorno consciente ao ritmo originário, ao princípio de
organização sem o qual “a verdadeira improvisação seria impossível,
já que o improvisador se baseia na repetição continuada da batida” (Ibid).
A certeza da repetição musical é
encontrada na sua socialidade. A batida é algo que existe e da qual
os músicos podem divergir e para a qual retornar, e a audiência pode
participar, marcando o ritmo com os pés e movendo a cabeça.
O ritmo é um ponto de referência social,
muito parecido com as respostas dadas na igreja católica e da
chamadas e respostas que se vêem nas cerimônias religiosas das
igrejas negras.
O ritmo é aquilo ao qual nós “músicos” podemos retornar se nos
acharmos muito distanciados. É aquilo que mantém coeso um grupo de
sons diferentes.
Acima de tudo, é aquilo em que nos baseamos para ajudarmos a fazer
nossos passeios imaginativos no reino da improvisação.
Retornando por um momento aos ritmos da
história, nós temos que considerar o sentido em que o passado é uma
entidade ao mesmo tempo fixa e fluída. Descrevi até agora o passado
como um princípio de repetição, como o lugar onde nascem os ritmos
que definem a vida presente; e até agora isolei e discuti somente um
daqueles ritmos, o ritmo democrático estabelecido nos documentos
fundacionais da nação. Entretanto, não podemos deixar de observar o
fato de que houve, e ainda há, outros princípios que competem entre
si. Os princípios que apoiaram a escravidão, a segregação e o
patriarcado, ressonam no presente tanto quando aqueles que apoiaram
a busca pela igualdade e a liberdade. Embora nós possamos ver os
ideais democráticos mantidos no jazz e no vernacular, também é
igualmente verdadeiro que os ideais anti-democráticos são
encontrados na perpetuação dos guetos e no desprezo ao vernáculo
afro-americano nas salas de aula em todo o país.
Ellison nos diz que há uma pluralidade
de ritmos históricos que encontram vozes no presente, mas que cada
um é derivativo da “lógica do processo democrático subjacente,”
que por sua vez se transforma numa expressão “da antiga pressão
universal em direção da liberdade.”
Ele escreve, “Eu acho que a mistura do maravilhoso e do terrível é
uma condição básica da vida humana e que a persistência dos ideais
humanos representa o maravilhoso se empurrando de dentro do caos
para o universo.”
Para Ellison, o mais maravilhoso dos ideais humanos é a liberdade, e
sua melhor expressão é a democracia. E para ele, mesmo os ritmos
anti-democráticos da opressão têm a sua raiz no ideal utópico da
liberdade; eles estão em contraposição à liberdade precisamente
porque eles esqueceram suas origens, perderam seu ritmo, sua batida.
O otimismo de Ellison está assim
ancorado na repetição do ideal rítmico que subjaz o “lindo absurdo,”
da identidade americana. A complexidade do ritmo é tal que ela não
pode ser simplificada ou apreendida em uma fórmula.
Ao invés disto, Ellison insiste, o ritmo é descritível apenas em
partes, “não há maneira para um grupo [ou para qualquer método]
descobrir por si próprio as formas intrínsecas da nossa cultura
democrática.”
Nós não podemos capturar a utopia em uma visão única, porque a
natureza da utopia-como-ritmo a faz uma meta em movimento; daí a
importância daquelas válvulas de escape estéticas que, como o
vernacular e o jazz, procuram sintetizar ao invés de excluir,
experimentar ao invés de codificar.
Ellison considera que o romance e a
canção são os meios mais agradáveis para este tipo de realinhamento
artístico. Ele nos diz que a função social do romance “é aquela de
apreender do ir e vir das nossas vidas diárias, aqueles padrões
comuns da experiência que, através da sua repetição e consequências
nas nossas vidas, ajudam a formar o nosso sentido de realidade, e da
qual emerge o nosso sentido de humanidade e a nossa concepção do
valor humano.”
Assim como o blues, que, “ao mesmo tempo expressa a agonia da vida e
a possibilidade de conquistá-la através da fortaleza do espírito,”
o romance não oferece soluções. Ao invés disto, ele apresenta (e
assim reafirma) uma imagem artisticamente organizada da experiência,
evocando um sentido do ideal humano que continua sem ser reconhecido
(ou, mais frequentemente, obscurecido) sob a capa dos nossos
anseios. Esta perseguição artística da história, diferentemente da
história acadêmica, solicita e abre lugar para a re-presentação
imaginativa dos ritmos ideais.
O narrador de Ellison em Invisible
Man luta para encontrar-se a si mesmo em uma sociedade que
recusa vê-lo por causa da sua cegueira histórica. Ele luta com
aqueles que cortariam o passado como um erro (os encarregados da
administração de uma faculdade negra) e aqueles que teorizariam
sobre a História à custa de ocorrências reais (os membros
revolucionários da Irmandade). E mesmo assim, no meio de uma vida
que negaria enfaticamente seu próprio ritmo, o ritmo se apresenta,
em geral em forma da fala ou de uma canção. Quando o narrador se vê
em um palco, instruído a fazer um discurso para um comício da
Irmandade, ele descreve a experiência nestes termos, “Eu tive o
sentimento que eu tinha falado além de mim mesmo, tinha expressado
palavras e atitudes que não eram minhas, que eu estava sob o
controle de alguma outra personalidade que estava dentro do mais
fundo do meu ser.”
A “outra personalidade”, ele descobre, é precisamente aquilo dentro
dele que faz parte dos ritmos que ele exteriormente ignoraria e
negaria. Assim ele nos diz, “agora eu entendia que eu queria dizer
tudo o que eu tinha dito à audiência... o que tinha saído da minha
boca tinha sido completamente sem nenhum cálculo, como se outro ser
dentro de mim tivesse tomado conta de mim e falado através de mim.”
Este ser — este ser histórico — emerge de novo no funeral de Tod
Clifton, quando vários dos que marcham começam a tocar “Muitos
milhares se foram.” Ele lembra, “Foi como se aquela canção tivesse
estado ali todo o tempo, e [o cantor] sabia e a levantou do ar; eu
sabia esta canção, e reconheci que a sabia, mas que tinha evitado
soltá-la por sentir um medo ou uma vergonha vaga e sem nome.”
O narrador de Ellison se encontra a si
mesmo somente quando faz as pazes com os ritmos do seu passado.
Através das memórias trazidas por velhas canções de escravos, do
jazz que ele escuta saindo das janelas de uma loja de discos, da
performance de discursos que se parecem com sermões, o narrador é
confrontado com seu passado. Ele reconta a experiência, “e agora
todas as humilhações passadas se transformaram em partes preciosas
da minha experiência, e pela primeira vez... eu comecei a aceitar
meu passado ... e vi que estas eram mais que experiências separadas.
Elas eram eu, elas me definiam.”
Nestas experiências ele se deixa levar a um estado de quase sonho, e
o que emerge é um ato criativo, improvisacional. Seus discursos no
funeral de Clifton (“Tal foi a curta e dura vida do Irmão Tod
Clifton. Agora ele está nesta caixa com as fivelas apertadas. Ele
está nesta caixa e nós estamos nela com ele, e assim que eu lhes
digo isto, vocês podem ir embora. Está escuro nesta caixa e está
muito cheio.”)
e no comício da Irmandade (“Façamos um milagre... Vamos tomar de
volta nossos olhos roubados! Vamos pegar de volta nossa visão; vamos
combinar [nossas forças] e espalhar nossa aldeia.”)
emergem como fazer as pazes com o passado de forma criativa. Assim o
narrador diz no meio de seu discurso na Irmandade, “Eu escuto o
pulsar da sua respiração. E agora, neste momento, com seus olhos
brancos e negros sobre mim, eu sinto... eu sinto... eu de repente
sinto que me tornei mais humano.”
Estes discursos e realmente todas as
memórias do narrador
são precisamente estes tipos de performances criativas que Ellison
quer que compartilhemos. Elas apontam em direção dos padrões em
geral escondidos das nossas vidas, fazendo reais e incitando as
possibilidades improvisacionais que estão sempre esperando por
aqueles que as buscam. Neste sentido, os discursos do narrador são
solos de jazz, e suas memórias uma sessão de blues. Ellison invoca
este paralelo ao colocar as performances oratórias do narrador no
silêncio repentino que segue um caos de som, lembrando para o leitor
o “tempo de parada” de uma música de jazz quando todos param de
tocar, menos o solista. Nestas cenas de improvisação o narrador
retorna à história que ele tentou em vão suprimir
e deste corte” de volta aos ritmos folclóricos ele expressa — ou
improvisa — com base nos padrões. Ao fazer isto, o narrador
reconhece não só a necessidade do passado, mas as possibilidades que
ele engendra. O passado é aquilo para o qual nós podemos “cortar”
[retornar] durante aquele “momento de parada”, e, ao tocar seus
ritmos, nos criamos e recriamos o conteúdo do presente. É assim que
o narrador pode dizer durante o “momento de parada” da sua
hibernação no subterrâneo, “o meu mundo se transformou em um mundo
de possibilidades infinitas.”
As memórias que emergem deste reconhecimento da possibilidade é uma
expressão viva da liberdade, e não uma tentativa de aprisionar o
passado.
A escritura das memórias é a atividade
que tira o narrador do abismo para afirmar o ideal democrático da
liberdade. Ele nos diz, “Assim, tendo tentado dar um padrão ao caos
que vive dentro do padrão das suas certezas, eu preciso sair, eu
preciso emergir.”
O “Eu” que precisa emergir é a identidade anteriormente obscurecida,
a personalidade sem a qual o conceito de liberdade está vazio. Um
refrão muito repetido no mundo do jazz soa verdadeiro aqui: “você
não pode tocar, a não ser que você tenha se encontrado.”
O narrador de Ellison ecoa isto ao dizer, “Quando eu descobrir quem
eu sou, eu serei livre.”
Em jazz, os músicos descobrem sua
identidade na sessão conjunta, que Ralph Ellison chama da
“verdadeira academia para os músicos do jazz.”
Ele escreve,
É aqui que [o músico] aprende
tradição, técnicas de grupo e estilo ... É mais significativo
falar, não de cursos, ou de notas e títulos, mas de aprendizado,
dificuldades, cerimônias de iniciação, e renascimento. Porque
depois que o músico de jazz aprendeu os pontos fundamentais do
seu instrumento e as técnicas tradicionais do jazz — as
entonações, o trabalho mudo, a manipulação do timbre, o corpus
de estilos tradicionais — ele precisa “se encontrar”, ele
precisa renascer, precisa encontrar, por assim dizer, sua alma.
Tudo isto através do encontro de uma sutil identificação entre
seu instrumento e seus anseios mais profundos, que lhe
permitirão expressar sua própria técnica e idéias em sua voz
individual, única. Ele precisa alcançar, então, sua identidade
auto-determinada.
A sessão de grupo é uma arena pedagógica
onde os ritmos são atuados ao invés de professados. É um lugar de
competição e experimentação, de contar histórias e de fazer
histórias. A sessão de grupo é aonde você vai para encontrar sua voz
através da humilhação da derrota e da atração do desafio. Acima de
tudo, a sessão em grupo é o lugar ao qual os que participam
continuamente retornam para tocar e ouvir, para explorar os velhos
ritmos em novas vozes. Em resumo, a sessão de grupo é o lugar onde o
passado é tomado como uma fonte de possibilidades.
Ellison considera o ritual da sessão de
grupo tão importante porque, ele crê, este é um lugar de liberdade
de expressão. Como ela não existe sem as possibilidades de
humilhações e triunfos, a sessão de grupo engendra responsabilidade
entre seus membros. Sua exigência é, “encontre seu lugar”, mas ela
também dá o material – os ritmos e as tradições — através do qual os
maiores atos criativos podem surgir.
Invisible Man (O homem invisível)
é uma espécie de sessão em grupo. Nele, o caos da experiência é
apresentado — não resumido — de tal maneira que o narrador e o
leitor são capazes de detectar alguma coisa que existe por baixo do
que está visível. O que nós descobrimos debaixo da novela, e debaixo
da nossa própria experiência, é a busca pela liberdade encontrada na
improvisação espontânea e a auto-definição que resulta dela. Mais
importante ainda para Ellison, nós descobrimos que esta busca está
ancorada em um princípio utópico, um ritmo da história, uma lógica
inconsciente do processo democrático através do qual nós podemos
viver, se quisermos invocá-lo. A utopia, como os ritmos do jazz e do
blues, está presente aqui e agora, em todos os lugares, esperando
pela nossa volta.
Como uma forma de conclusão, podemos
perguntar sobre o desenlace das concepções de Ellison sobre a
história e a liberdade. Há um idealismo inerente na sua visão da
história como a evidência de uma busca universal pela liberdade. Mas
isto não é um idealismo absoluto. Talvez não consigamos chegar até
lá. As coisas talvez fiquem ainda piores para a liberdade. O que é
significativo no pensamento de Ellison é que, apesar das falhas da
história (e sempre haverá falhas), o impulso para a
liberdade, inspirado por ideais tais como os que fundaram este país,
continua. Ele reconhece que a realidade dos ideais não é um assunto
a-histórico. Mais precisamente, é apenas historicamente que os
ideais foram iniciados e apenas historicamente que eles encontram
sua expressão recorrente. É apenas através do exame de nossas
histórias que podemos achar e agir para tornar realidade nossos
ideais. Assim, ele escreve, “Eu acredito que, a não ser que nós
exploremos continuamente a complexa rede de relações que nos unem,
nós continuaremos sendo as vítimas de várias idéias inadequadas
sobre nós mesmos.”
Os meios através dos quais nós devemos fazer isto não podem ser
redutivos, da forma que o fazem muitos acadêmicos. A exploração
adequada é feita em partes, e sempre está consciente de sua natureza
experimental e portanto falível. Para Ellison a atitude de tal
exploração é tipificada pelos músicos de jazz do seu tempo. A sua
ênfase na tradição e no desejo de experimentar dentro (e com) sua
moldura, exemplifica o sentido improvisacional da liberdade
empregado na ficção de Ellison. Aqui a exploração estética no
espírito da improvisação é ao mesmo tempo uma busca e uma atuação da
liberdade.
O que nos fica é uma noção da história
que é ao mesmo tempo trágica e enobrecedora, ao mesmo tempo
distópica e utópica. Nós obtemos uma promessa de liberdade e o
reconhecimento de que ela aparece apenas infrequentemente. Nós nos
desesperamos e ficamos esperançosos. Em resumo, nós sentimos todas
as contradições que fazem o cerne das nossas experiências. Mas a
mensagem abrangedora do trabalho de Ellison é uma exigência feita a
nós que se origina nos salões esfumaçados dos clubes de jazz:
“encontre a você mesmo.” Este é um princípio de ação, se não for
nada mais. Este princípio nos desafia a nos levarmos a sério... mas
não sério demais. Em um mundo cheio de gente que se leva a sério
demais e aqueles que não podem se levar a sério de jeito nenhum, eu
não consigo imaginar um desafio cultural mais fino.
Referências
Baraka, Amiri. The Autobiography of Le Roi Jones/Amiri Baraka.
New York: Morrow, 1963.
Daniels, Douglas Henry. “The Significance of Blues for American
History.” Journal of Negro History, Volume 70 (Winter –
Spring 1985), 14-23
Ellison, Ralph. Going to the Territory. New York: Random
House, 1986.
__________. Invisible Man. New
York: Random House, 1952.
__________. Shadow and Act. New York: Random House, 1964.
Snead, James A. “On Repetition in Black Culture.” Black American
Literature Forum, Vol. 15, No.4 (Winter 1981), 146-154.
Thomas, Mark. “I’m a Roamin’ Rambler: Lonnie Johnson.” Jazz
Quarterly 2 (No.4), 18.
Professora Assistente de filosofia. Sua pesquisa e
interesses pedagógicos incluem filosofia americana,
filosofia da educação, teoria feminista, e filosofia da
medicina.
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