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ROSELANY
DE HOLANDA DUARTE
Mestranda em Letras pela UERN/CAMEAM

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O leitor ou as dimensões da recepção
Roselany de Holanda Duarte
Introdução
A lingüística e a teoria literária
modernas promoveram uma verdadeira revisão sobre o problema da
interpretação. Já não podemos mais acreditar que o sentido de um
texto é algo dado a priori, estável e imutável que basta ser
“descoberto” pelo leitor. Também não podemos mais acreditar que o
sentido de um texto deve ser buscado na intenção do autor, pois hoje
sabemos que o autor “não é a origem, a fonte absoluta do sentido,
porque na sua fala outras falas se dizem” (Brandão, 2001, p. 92).
Apesar de todas as diferenças, prevalece atualmente entre as
diversas teorias a idéia de que o sentido de um discurso é
construído e não descoberto; e se esse sentido é construído é lógico
que o leitor deixa de ser o “receptor” e passa à posição de um
sujeito ativo.
Este trabalho objetiva discutir o
problema da recepção de textos ou , em outras palavras, o papel do
leitor na construção dos sentidos de um texto. Nossa discussão parte
de dois enfoques teóricos de origem distintas, mas que guardam entre
si muitos pontos em comum: a semiótica de Umberto Eco e a estética
do efeito de Wolfgang Iser. Como veremos, muitas vezes os dois
teóricos estão falando de um mesmo problema, dando a este um mesmo
enfoque, porém valendo-se de conceitos diferentes. Ao fim da
discussão teórica, procuramos somar a contribuição dos dois
pensadores e aplicá-la à leitura do poema “Canção”, de Cecília
Meireles.
Umberto Eco: da obra aberta à
intentio operis
A partir da noção de obra aberta, Eco
soube captar um aspecto fundamental na constituição das obras de
arte modernas. Segundo Eco (1997, p. 22), constitui característica
imprescindível de toda obra de arte ser uma “mensagem
fundamentalmente ambígua, uma pluralidade de significados que
convivem num só significante”. Mas tal ambigüidade, na arte
contemporânea, torna-se “uma das finalidades explícitas da obra, um
valor a realizar de preferência a outros”.
O autor contemporâneo, colocando a
ambigüidade como valor fundamental na constituição do seu discurso,
freqüentemente volta-se para “os ideais de informalidade, desordem,
causalidade, indeterminação dos resultados” (Id., Ibid.). Assim, por
exemplo, tanto um romance de Balzac como um de James Joyce são obras
em que uma gama de sentidos convivem num único significante, mas a
abertura de A Mulher de Trinta Anos é diferente da abertura
promovida por Ulisses. Joyce estrutura sua obra de tal forma que se
torne difícil assentar um sentido estável; personagens, situações e
remissões intertextuais estão sempre carregadas de ambigüidade,
torna-se difícil estabelecer os limites entre paráfrase e paródia.
Num romance tradicional, como o de Balzac, é sempre mais ou menos
possível sabermos onde está a voz do autor; já James Joyce pertence
à era do romance polifônico e seus personagens e situações não são
títeres que o autor manipula para expor sua visão de mundo (cf.
Bakhtin, 1981).
O acaso, o ambíguo, o indeterminado, o
inacabado e o polivalente são, segundo Eco, os valores cultuados
pelo artista contemporâneo.
Para Eco, a entronização da obra aberta
se inicia conscientemente no Simbolismo e torna-se uma verdadeira
divisa da arte contemporânea; a partir de então, o leitor é
convidado a concluir a obra de arte. O texto estrutura
deliberadamente essa abertura, ele não se quer fechado, quer-se obra
em movimento. Eco (idem, p. 46) cita o pensamento de Mallarmé, poeta
francês pioneiro na execução da obra aberta: “denominar um objeto é
suprimir três quartos da fruição do poema, que é feita da felicidade
de adivinhá-lo pouco a pouco: sugeri-lo ... eis o sonho”.
A obra de arte moderna é convite,
sugestão, inacabamento; as obras abertas convidam o leitor a
fazê-las junto com o autor. Para Eco (idem, p. 40), “cada fruição é
(...) uma interpretação e uma execução, pois em cada fruição a
revive dentro de uma perspectiva original” (itálicos do autor).
Apesar da aceitação acadêmica da teoria
da obra aberta, Umberto Eco revisou-a diversas vezes. A nosso
trabalho interessa a revisão dessa teoria que Eco realizou na obra
Interpretação e Superinterpretação e o conceito ali exposto
de intentio operis.
Eco, na obra supracitada, reclama das
extrapolações da noção de obra aberta feitas por muitos de seus
intérpretes. Eis a síntese dessas reclamações nas próprias palavras
do autor (2001, p. 27):
Nesse livro [Obra Aberta] eu
defendia o papel ativo do intérprete na leitura de textos
dotados de valor estético. Quando aquelas páginas foram
escritas, meus leitores focalizaram principalmente o lado aberto
de toda questão, subestimando o fato de que a leitura aberta que
eu defendia era uma atividade provocada por uma obra (e visando
à sua interpretação). Em outras palavras, eu estava estudando a
dialética entre os direitos dos textos e os direitos de seus
intérpretes. Tenho a impressão de que, no decorrer das últimas
décadas, os direitos dos intérpretes foram exagerados.
A teoria da obra aberta, como Eco deixa
muito claro, não vai ao encontro de certas posturas das linhas mais
radicais do pós-estruturalismo, para as quais o leitor não só
constrói o sentido mas o inventa, não havendo interpretação
equivocada. Eco cita um exemplo dessa postura na crítica
desconstrucionista do norte-americano Geoffrey Hartman; o
semioticista italiano toma como exemplo uma interpretação que
Hartman fez de um poema do inglês Wordsworth. Esta, para Eco, seria
uma interpretação que excedeu os limites da interpretação legítima
porque Hartman sobrepôs sua intenção de leitor sobre as
possibilidades que os elementos concretos da obra permitem.
Segundo Eco (2001, p. 32), a noção
peirciana de uma semiótica ilimitada não nos faculta julgar que a
interpretação não possui critérios:
Dizer que a interpretação (enquanto
característica básica da semiótica) é potencialmente ilimitada
não significa que a interpretação não tenha objeto e que corra
por conta própria. Dizer que um texto potencialmente não tem fim
não significa que todo ato de interpretação possa ter um final
feliz.
Se nem toda interpretação pode ter um
final feliz, então como marcar os limites entre uma interpretação
válida e uma interpretação inválida? Eco (idem, 29 passim) responde
que podemos compreender a interpretação de um texto como um complexo
em que se debatem a intenção do autor (intentio auctoris), a
intenção do leitor (intentio lectoris) e a intenção do texto (intentio
operis). Eco considera que uma teoria da interpretação preocupada
com o papel ativo do leitor toma como irrelevante a intentio
auctoris; o sentido de um texto surge da dialética entre a intentio
lectoris e a intentio operis.
Umberto Eco sabe e deixa claro para nós
o quanto é difícil definir abstratamente a intentio operis.
Ela não é revelada pela superfície textual; é preciso o leitor
querer vê-la (cf. Eco, idem, p. 76). Isto é, a intentio operis
advém da disponibilidade do leitor. Ela nos faz lembrar a distinção
entre interpretação e uso; se o leitor quer usar a obra ela não fará
sentido, porque aí o texto será apenas um pretexto para o discurso
do leitor. Mas se queremos interpretar uma obra, ela será
fundamental para que o leitor estabeleça um legítimo diálogo com o
texto.
Para Eco, a intentio operis é uma
estratégia semiótica; todo texto produz um leitor-modelo e o leitor
empírico “é apenas um agente que faz conjeturas sobre o tipo de
leitor-modelo postulado pelo texto” (idem, p. 75). A intentio
operis não é uma essência; são marcas, pistas que estão no texto
mas que só ganham efetividade se o leitor se dispuser ao jogo. Eco
cita o exemplo do “Era uma vez” . Ele é índice, por exemplo, de que
o leitor-modelo é uma criança e de que o texto é um conto de fadas.
Em outra situação, esse mesmo “Era uma vez” pode figurar num texto
com sentido irônico; neste caso, Eco observa que o texto pediria um
leitor-modelo mais sofisticado.
Enfim, a intentio operis controla
as possibilidades interpretativas e quando a desprezamos estamos
apenas fazendo uso do texto ou então caímos no que Eco denomina “superinterpretação”,
isto é, numa extrapolação, numa exegese que não se respalda nos
elementos textuais, mas apenas nos desejos do leitor.
Wolfgang Iser e a teoria dos vazios
O problema interpretação tem sido um dos
focos centrais de Wolfgang Iser (1996, 1979) através da sua estética
do efeito.
Para Iser, os textos ficcionais, e até
mesmo os não-ficcionais, não são figuras plenas, mas discursos
marcados por indeterminações chamadas “vazios” que pedem uma
intensificação da atividade imaginativa do leitor. O sentido, tal
como para Eco, surge da interação do texto com o leitor. Na
concepção de Iser (1996, p. 53), não faz sentido perguntarmos o que
um texto quer dizer ou o que um autor quer dizer, mas “o que sucede
com o leitor quando sua leitura dá vida aos textos ficcionais”.
A ênfase de Iser sobre o efeito na
relação texto-leitor não valida qualquer interpretação, como
poderíamos pensar. Um leitor que apenas projeta sobre os textos seus
interesses e devaneios sem observar as “instâncias de controle”
(1979, p. 91) existentes no texto faz com que a comunicação estética
vá por água abaixo. Essas instâncias de controle, também chamadas de
“estruturas centrais de indeterminação” (idem, p. 106), são os
vazios e suas negações. São os vazios que acionam a interação
texto-leitor (vazios) enquanto as negações realizam o controle,
possibilitando assim o processo de comunicação:
Os vazios e as negações contribuem
de diversos modos para o processo de comunicação que se
desenrola, mas, em conjunto, têm como efeito final aparecerem
como instâncias de controle. Os vazios possibilitam as relações
entre as perspectivas de representação do texto e incitam o
leitor a coordenar estas perspectivas. Os vários tipos de
negação invocam elementos conhecidos ou determinados para
suprimi-los. (1979, p. 91)
As estruturas centrais de
indeterminação no texto são os vazios e suas negações. Eles são
as condições para a comunicação, pois acionam a interação entre
texto e leitor e até certo nível a regulam. (idem, p. 106)
A presença de vazios se faz em todo tipo
de texto, mas nos ficcionais eles entram como elementos estruturais
de suma importância, propositalmente acionados. Para Iser, o valor
de um texto ficcional está vinculado, dentro outros fatores, à
maneira como o escritor estrutura os vazios. Em textos ficcionais, a
exploração dos vazios adquire as seguintes formas:
1) são
reduzidos para que se sobressaia a mensagem; nesse caso a intenção
do texto é geralmente didática ou doutrinária. Iser cita como
exemplo o romance de tese e obras escritas com fins políticos;
2) são
ardilosamente manipulados para fins comerciais, como ocorre, de
acordo com Iser, no romance seriado ou nas telenovelas;
3) são
tematizados e às vezes até absolutizados, exigindo do leitor uma
intensa atividade projetiva e assegurando um alto padrão de
excelência artística. Como exemplos, Iser cita os romances de Ivy
Compton-Burnett e de James Joyce.
As múltiplas faces da pequena canção
O poema que segue é de autoria da
poetisa Cecília Meireles e está inserido no livro Vaga Música,
cuja primeira edição é de 1942. De acordo com as teorias que
expusemos, partiremos do princípio de que o sentido do texto emerge
da dialética entre texto e leitor ou como diz Eco (2001, p. 75) do
“elo dialético entre a intentio operis e a intentio lectoris”.
Assim, nossa interpretação, para que não seja um simples uso do
texto ou uma superinterpretação, respeitará “o pano de fundo
cultural e lingüístico” do poema (Eco, idem, p. 81). Nosso objetivo
não será construir uma interpretação exaustiva, mas demonstrar como
os vazios do poema podem ser preenchidos de diferentes maneiras sem
que se caia numa superinterpretação. Estaremos assim validando o
pensamento de Iser, que defende que o leitor preenche os vazios do
texto de acordo com o seu repertório cultural e os seus interesses
pessoais.
Pequena canção
Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?
Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua...
Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!
Primeira aproximação
Em “Pequena Canção”, o principal
elemento a introduzir os vazios são as metáforas (“flor”, “mar” ...)
e as expressões metafóricas (“Pássaro da lua”, “osso de ouvido”);
estas devem ser “traduzidas” pelo leitor para que o sentido seja
construído. O poema encaixa-se bem no que Umberto Eco caracterizou
de obra aberta, pois Cecília, parece que, de forma deliberada, não
quis fechar o sentido do poema. O “inacabamento” e a “abertura” do
texto advém principalmente das metáforas. As metáforas
conscientemente vagas que ela inventa convidam a nós leitores a
construir o sentido do texto. Ela não quis nos ensinar nem tampouco
nos doutrinar; ela nos convida a co-participar da produção do texto
através da doação de sentido às suas construções metafóricas.
O índice metafórico central do poema é a
expressão “pássaro da lua”, que se encontra nas três estrofes do
texto. Se levarmos em conta que grande parte da tradição poética da
modernidade, inclusive da geração de Cecília, voltou-se para a
metapoesia, isto é, para poema que tematiza o próprio ato de poetar
e se observarmos bem certos vazios do texto, não será uma
superinterpretação dizermos que se trata de um monólogo metapoético.
Dentro dessa linha interpretativa, “pássaro da lua”, que sempre
aparece como um vocativo de fundo apelativo, é um apelo da poetisa a
si mesmo, indagando se vale à pena poetar.
Vejamos a primeira estrofe: “Pássaro da
lua, / que queres cantar,/nessa terra tua,/sem flor e sem mar?”.
Cecília, em toda a sua obra, usou diversas vezes “canção” como
sinônimo de poema lírico e “cantar” como sinônimo de poetar. Esta
estrofe é então uma indagação dramática sobre o sentido de se poetar
num mundo (“terra tua”) sem beleza (“flor”) e sem grandeza (“mar”).
Dentro dessa linha interpretativa, obviamente que o pássaro que quer
cantar corresponde ao poeta que quer escrever seus poemas. Mas por
que a poetisa qualifica o pássaro com a locução adjetiva “da lua”?
Essa expressão parece ter aí um valor pejorativo, nos fazendo
lembrar a expressão “no mundo da lua”, usada para caracterizar o
alheiamento ou mesmo a alienação ou, até mesmo, a idiotia de uma
pessoa. O pássaro-poeta é “da lua” porque ele é tolo ou inocente,
“distanciado da realidade”, e insiste em querer fazer poesia num
mundo desencantado.
Vejamos a segunda estrofe: “Nem osso de
ouvido/ Pela terra tua. /Teu canto é perdido, /pássaro da lua...”. A
situação do pássaro-poeta, nesta estrofe, se complica. Antes não
havia encantamento no mundo que justificasse o gesto de fazer
poesia; agora não há interlocutor para apreciar essa poesia. Fazer
poema é inútil porque não há um ouvido “sólido” (“osso de ouvido”),
isto é, apto a receber a canção-poema; os ouvidos, no mundo sem flor
e sem mar, perderam a consistência. Vimos, então, que de uma estrofe
a outra radicalizou-se a angustiada indagação da poetisa: por que a
poesia?
O tom niilista das indagações da poetisa
atingem o ponto alto na terceira e última estrofe: “Pássaro da lua,
/ por que estás aqui? / Nem a canção tua / precisa de ti!”. Na
pergunta do segundo verso desta estrofe, subentendemos que o
pássaro-poeta exerce uma atividade deveras inútil, pois nem mesmo o
produto do seu labor (a canção-poema) precisa dele. Ou seja: poetar,
num mundo desencantado, é um ato inútil, pois não há um público
sensível, criam-se objetos inúteis.
Essa reflexão de Cecília não vem a ser
uma novidade no âmbito da poesia moderna, pois sabemos, como a
poetisa bem sabia, que a indústria cultural que se acentuou no
decorrer do século XX pôs a poesia numa situação de grande
marginalidade. Cecília reflete, portanto, sobre a perda de uma
função social; o poema é disfarçadamente um monólogo exatamente
porque o poeta moderno parece não ter a quem falar. Paradoxalmente,
porém, Cecília produz um poema para falar da impossibilidade de se
produzir poemas. Esse aparente contra-senso releva que o niilismo da
poetisa não é completo: ela não se cala, poetiza; ela duvida da
efetividade de seu gesto, mas o realiza; ela nega, mas não se nega.
Segunda aproximação
Como obra aberta, a poesia ceciliana
suportaria outros vieses interpretativos. Nas linhas que seguem,
tentaremos uma segunda aproximação. Nesta, estaremos nos remetendo,
de forma mais efetiva, ao contexto social do que ao contexto
lingüístico.
“Poema Canção”, como já dissemos, veio
ao lume em 1942, quer dizer, na época em que ocorreu um dos mais
desastrosos atos de barbárie perpetrados pela humanidade: a Segunda
Guerra Mundial. O poema, lido nesta perspectiva, descreveria a
situação do poeta (do artista, de um modo geral) diante de um mundo
onde a barbárie bélica arrastou tudo o que era belo e grandioso, um
mundo, segundo a poetisa, “sem flor e sem mar”. Se a poesia é a
consagração do belo, qual o seu lugar num mundo em que o belo se
ausentou, cedendo lugar à guerra? Essa seria a pergunta de Cecília.
Interessante assinalar que
aproximadamente na mesma época o filósofo Theodor Adorno, em tom de
polêmica, diria que é impossível escrever poesia depois da barbárie
perpetrada nos campos de concentração nazistas. Assim, tanto para o
filósofo quanto para a poetiza não há mais “osso de ouvido” porque
estes foram “dissolvidos” pelos gritos de horror da guerra.
Se investigarmos a biografia de Cecília
Meireles, iremos descobrir que a poetisa tinha uma visão muito
aberta do mundo, tendo feito viagens por todos os continentes como
também possuía uma sólida formação espiritual, sendo humanista e
católica fervorosa. Esses dados biográficos nos ajudam a confirmar
que a Segunda Guerra pode certamente ter impactado a poetisa e a
levado a essa reflexão grave. Cecília via a poesia como agente de
espiritualização e se angustiava com a perspectiva de uma guerra
solapar o sentido da arte e o valor deste agente humanizador por
excelência que seria o artista.
Considerações finais
Certamente que, para além da excelência
formal, um dos fatores que contribuem para assegurar um alto padrão
de realização artística nesse poema de Cecília Meireles foi a forma
como a poetisa distribuiu, no poema, os vazios. Eles exigem uma
co-participação do leitor; a autora não quis impor seu ponto de
vista, antes dotou-o, pela ambigüidade dos signos, de um certo grau
de incompletude, deixando a cargo do leitor a complementação do
gesto. Esta atitude de Cecília casa-se bem com a forte herança
simbolista que atravessa sua obra, já que, na estética simbolista,
através da aproximação entre poesia e música, buscou-se uma poesia
sugestiva em detrimento de um tratamento racionalizante, tendente ao
conceitual. Não por acaso, “Pequena Canção” está inserta num livro
intitulado Vaga Música, título que sugere dois elementos centrais do
poema: a vaguidão de sentido (que pede uma intensificação da
atividade imaginativa do leitor) e a intensa musicalidade (elemento
sobre o qual não nos debruçamos por depender de conhecimentos de
versificação, área distante de nossa alçada).
Ao propormos dois modelos
interpretativos para “Pequena Canção” esperamos não ter sugerido que
estas sejam as únicas possíveis. A multiplicidade de sentidos do
poema suportaria certamente outras leituras. Ficamos em duas breves
leituras porque consideramos o suficiente para demonstrar que,
diante de obras abertas, a melhor atitude que podemos tomar é
procurar demonstrar que, na interação texto-leitor, muitos sentidos
poderão ser construídos. Não há, como antes se pensava, um sentido
dado que a leitura apenas confirmaria; esse essencialismo
rebarbativo é atacado com veemência pela Semiótica de Eco, pela
Estética do Efeito de Iser e pela Análise do Discurso porque, dentro
desses campos teóricos, há muito o receptor deixou de ser sinônimo
de leitor.
Referências
BAKHTIN, M. Problemas da
poética de Dostoiévski. Rio Janeiro: Forense-Universitária, 1981.
BRANDÃO, H. H. Nagamine.
Introdução à Análise do Discurso. 7 ed.Campinas: Unicamp, 2001.
ECO, U. Interpretação e
Superinterpretação. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
________. Obra Aberta.
São Paulo: Perspectiva, 1997.
FIGUEIREDO, Priscila.
“Pequena Canção”. In: Ponto com poesia. Disponível em: < http://www.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/poesias/>Encontrado
em 16/10/2005.
ISER, Wolfgang. “A
Interação do Texto com o Leitor”. In: COSTA LIMA, Luiz (org.). A
Literatura e o Leitor: textos de estética da recepção. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1979.
________. O Ato da
Leitura: uma teoria do efeito estético, vol. 01. São Paulo: Ed. 34,
1996.
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