AFRÂNIO MENDES CATANI

Professor na Faculdade de Educação e no Programa de Pós-Graduação em América Latina (PROLAM), ambos da Universidade de São Paulo - USP. Pesquisador do CNPq.

 

 

GUSTAVO LUIZ GUTIERREZ

Professor no Departamento de Estudos da Atividade Física Adaptada da Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

 

 

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Alberto J. Pla visto por dois brasileiros

Afrânio Mendes Catani* & Gustavo Luis Gutierrez**

 

Alberto J. Pla - Foto cedida por Gustavo Guevara, professor da UBA e da Universidad Nacional de RosarioAlberto J. Pla faleceu, aos 82 anos, em 10 de agosto de 2008 em Rosario, Província de Santa Fé, República Argentina, mesma cidade que o viu nascer em 26 de janeiro de 1926. O historiador Hernán Camarero, da Universidade de Buenos Aires, alguns dias após a morte de Alberto, escreveu um necrológio que foi divulgado com destaque nos meios intelectuais argentinos – “Alberto J. Pla y su compromiso militante por una historiografía socialista” -, no qual razão e emoção se fundem. Partindo inicialmente do texto de Camarero, procuramos recuperar no presente artigo as linhas gerais do intercâmbio que mantivemos, ao longo de quase duas décadas, com esse historiador marxista que dedicou muito do seu labor ao estudo do movimento operário e da realidade latino-americana durante o século XX, e cuja obra é pouco conhecida no Brasil.

Camarero escreve, já no primeiro parágrafo de seu artigo, que “na existência de Pla se confundiram, de maneira criativa, e fértil (...), a dimensão do militante com a do intelectual universitário, sendo que  jamais quis abdicar de qualquer uma delas, mas sim, potencializá-las em sua interrelação mútua”[1]

Alberto foi criado em uma família culta e de classe média, sendo seu pai, engenheiro e socialista, um dos precursores da Reforma Universitária de Córdoba (1918). Cresceu vivenciando uma época de grandes transformações revolucionárias, a partir da revolução russa, recente na memória de seu círculo inicial de referência, passando também pela revolução mexicana e pela guerra civil espanhola. Acompanhou com interesse a ascensão e queda do fascismo e a derrota do stalinismo. Mas voltemos a Camarero:

“Seu interesse pela política se iniciou de maneira precoce, sobretudo na cidade de La Plata, para onde havia se transladado para estudar, em meados dos anos quarenta. Após fugaz passagem pela juventude do Partido Socialista, em 1946 Pla ingressou no pequeno Grupo Obrero Marxista (GOM), liderado por Nahuel Moreno, um dos grupos mais importantes no movimento trotskista argentino daquela época. O outro era o Grupo Cuarta Internacional (GCI), orientado por J. Posadas, logo oficializado como seção argentina daquela organização mundial. Pla abandonou as fileiras do GOM e, até finais dos anos 40, se incorporou ao GCI, logo transformado em Partido Obrero Revolucionário. Sua participação ativa na tendência de Posadas se manteve durante mais de uma década e meia. Distanciado de uma inserção orgânica na referida corrente, desde meados dos anos sessenta, manteve-se durante certo tempo próximo a algumas de suas posições teóricas e políticas. Com o transcorrer dos anos, Pla definiu a filiação mais global ao pensamento e às posturas inspiradas na tradição de León Trotsky, apostando em uma reivindicação e reinvenção de um marxismo clássico e ao mesmo tempo aberto, não dogmático e inconformista. A partir dessa postura localizada, nunca abandonou seu compromisso com a luta dos trabalhadores, dos explorados e dos oprimidos pelo capitalismo, pelo imperialismo, pelas ditaduras e pelos regimes burocráticos falsamente denominados socialistas”.

Oriundo da carreira de história, ao longo de cinqüenta anos Alberto conciliou, com paixão, docência, investigação e escrita. Influenciado pela escola francesa dos Annales, procurou entrelaçar marxismo com os aportes da história social, encontrando em José Luis Romero e Sérgio Bagu “alguns de seus primeiros pontos de referência em sua disciplina”. Iniciou sua atividade docente na Facultad de Humanidades y Ciencias de La Educación de La Universidad Nacional de La Plata. Ministrou cursos e realizou pesquisas nas Universidades Nacionais de Buenos Aires, Bahía Blanca e Salta.

Por defender suas idéias e sua liberdade de cátedra foi perseguido na ditadura de Onganía e sua política de intervenção nas universidades; enfrentou restrições no governo de Isabel Perón e, finalmente, “com a chegada do feroz regime do Processo. Em seu exílio obrigatório na cidade de Caracas, Pla ensinou na Universidad Central de Venezuela, ao mesmo tempo em que fundou um Centro de Estudos do Movimento Operário”. Defendeu tese de doutorado na Universidade de Paris VIII, sobre a história sindical venezuelana na primeira metade do século XX. Em seguida, viveu no México, trabalhando na Universidad Autônoma de Puebla (1982-1984). Regressou à Argentina em 1985, lecionando nas cátedras de história da América Latina Contemporânea, na Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad de Buenos Aires (UBA) e, na maior parte do tempo, na Facultad de Humanidad y Artes de La Universidad Nacional de Rosario (UNR). Logo depois, Pla foi nomeado investigador principal do CONICET e, em 2005, recebeu o Doctorado Honoris Causa da Universidad Nacional de Rosario.

Hernán Camarero dedica, ainda, mais de cinqüenta linhas comentando a obra escrita de Alberto Pla, salientando ser “vasta e diversa”, além de transcender “o âmbito local, pois boa parte dela foi editada, circulou e tornou-se conhecida em vários países latino-americanos (México, Venezuela, Peru) e na Espanha”. Um dos temas que mais abordou foi o da história econômica, social e política de nosso continente, “desde visões globais e de longa duração”. São representativas, nesse sentido, América Latina siglo XX: economía, sociedad, revolución (1969) e La burguesía nacional en América Latina (1971), tendo polemizado com André Gunder Frank e Theotonio dos Santos. “Auscultou de maneira meticulosa e apaixonada os processos revolucionários latino-americanos: México (1911), Bolívia (1952), Cuba (1959), Nicarágua (1979), rechaçando as concepções etapistas e tentando restituir o caráter vivo, dinâmico e permanente dos mesmos”. Escreveu também Modo de producción asiático y las formaciones económico-sociales inca y azteca (1979). Pla dedicou-se, igualmente, à história do movimento operário e da esquerda na América Latina, tendo escrito uma série de artigos, folhetos, livros e antologias, destacando-se sua compilação Clase obrera, partidos y sindicatos en Venezuela, 1936-1950 (1982) y La Internacional Comunista y América Latina (1996). No Centro Editor de América Latina Alberto dirigiu duas coleções de textos escritos por acadêmicos e militantes, a saber, Historia de América Latina em la siglo XX (1971-72) e Historia del Movimiento Obrero (1972-74). Ele também estudou problemas teóricos, metodológicos e, epistemológicos, “tanto do marxismo como da historiografia e das ciências sociais em geral, âmbitos que sempre pensou de forma entrelaçada”. Nessa vertente enquadram-se Ideología y método en la historiografía argentina (1972), La Historia y su método (1980), Historia y socialismo (1988) e América Latina: mundialización y crisis (2001).

Nas últimas duas décadas, parte de suas investigações tiveram lugar no Centro de Estudios de Historia Obrera (CEHO), na Universidad Nacional de Rosario, do qual foi o principal animador. Destaque-se, ainda, sua participação, a partir de 1984, em Cuadernos del Sur “revista socialista de teoria, sociedade e política”, representando uma “lufada de ar fresco no campo intelectual e político da esquerda argentina”.

Mantivemos contatos freqüentes com Alberto Pla, entre 1991 e 2005, em encontros, simpósios, congressos e eventos científicos. Ao longo dos anos de 2006 e 2007, constantes ligações telefônicas foram feitas e mensagens eletrônicas se trocaram entre nós.

Esse homem alto, magro e dotado de um “humor argentino”, em que ironia, picardia e falsa irritação se constituem em características vitais, foi uma referência segura, não apenas para a discussão da realidade que nos rodeia, mais precisamente a latino-americana, mas também um colega e amigo sempre disponível para ajudar aos brasileiros um pouco perdidos na balbúrdia de grandes eventos acadêmicos em seu país, cujos códigos nem sempre são fáceis de entender pelos estrangeiros. Paciente e tranqüilo, Alberto nos conduzia por corredores apinhados de estudantes e professores em busca da sala da palestra ou do local onde leríamos nossa ponencia, ou ainda atrás de alguém (secretário, membro de comissão organizadora) que poderia nos arranjar o certificado de participação. Em várias oportunidades ele reservou passagens aéreas e rodoviárias, bem como hotéis, inclusive adiantando valores das reservas.

A partir de um convite de Osvaldo Coggiola, argentino radicado no Brasil, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo, uma delegação brasileira integrada, entre outros, por Florestan Fernandes, José Carlos Sebe Bon Meihy, Zilda Iokoi, Tullo Vigevani, Paulo Henrique Martins, Afrânio M. Catani, Marcelo Ridenti, Emanuel Soares de Veiga Garcia, Ricardo Melani, Rui Costa Pimenta, Raul Pont, Wilson A. Lima e Jair Baida, viajou a Buenos Aires para participar do “Simpósio Internacional Pasado, Presente y Perspectivas del Socialismo” (Universidad de Buenos Aires – UBA, 30 de setembro a 3 de outubro de 1991). Na ocasião Alberto Pla compartiu uma sessão com Florestan Fernandes, então deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores, intitulada “Actualidad del Socialismo”, além de ser moderador em dois outros painéis, “Vigencia o crisis del marxismo” (com Michel Löwy e Atílio Borón) e “Origen y trayectoria del PT” (com Rui Costa Pimenta e Raul Pont) e na conferência de Stefan Blass, “El stalinismo y la Victoria del nazismo”.

No ano seguinte estivemos juntos no Brasil em “América 92: raízes e trajetórias”, congresso internacional, com duas edições: em São Paulo (16 a 20/agosto/1992), no Departamento de História (FFLCH-USP), no âmbito do XI Encontro Regional da ANPUH, e no Rio de Janeiro (23 a 27/agosto/1992). As sessões de trabalho contaram com a apresentação de ponencias de autoria de vários docentes argentinos que, nos anos seguintes, encontraríamos em muitas oportunidades: são os casos de Eduardo Bajo e Guillermo León Beato (Universidad Nacional de Córdoba), Ricardo Alberto Rivas (Universidades Nacionales de La Plata e de Mar del Plata), Waldo Ansaldi, Patrícia Funes e Maria Cristina Carnevalle (Universidad de Buenos Aires), além de Maria Cristina Viano e Gabriela Beatriz Aguila (ambas da Universidad Nacional de Rosario) e Alicia Salomone e Yolanda Colón (UBA) – as quatro professoras discípulas de Pla. O pesquisador Nicolás Iñigo-Carrera e outros docentes da UBA também leram seus trabalhos no evento, como Luis Alberto Romero e José Carlos Chiaramonte. Osvaldo Coggiola (USP) e León Pomer, então na UNESP-Assis, não deixaram de discutir frutos de suas pesquisas. Leopoldo Zea (Centro Coodinador y Difusor de Estúdios Latinoamericanos – CCyDEL – Universidad Nacional Autónoma de México, UNAM) fez a conferência de encerramento, em 20 de agosto de 1992, enquanto o escritor José Saramago, dois dias antes, falava sobre “Literatura e História”.

Alberto Pla participou em mesa-redonda especial, em 17 de agosto, intitulada “Universidade e América Latina”, coordenada por João Alexandre Barbosa (USP), Roberto Leal Lobo e Silva (Reitor da USP), Elvira Martín Sabina (Ministerio da Educación, Cuba) e José Saramago. Pla apresentou, ainda, o trabalho “América Latina y el Nuevo Orden Internacional: determinismo económico tecnológico y crisis social”, cujo resumo pode ser lido à página 184 do Programa e Cadernos de Resumos: “A 500 años de La llegada de los europeos a América y de la expansión europea que alimentó el camino del capitalismo, América Latina vive ahora una crisis estructural, producto de una recomposición capitalista mundial. La crisis y el ajuste como parámetros de una crisis de civilización más amplia y global afecta todo y a todos. Mientas tanto el Nuevo Orden Internacional (NOI) como intento de reciclar la crisis se muestra en todas sus limitaciones. Así vamos del tecnologismo a la crisis social generalizadas. En este contexto analizamos la crisis en los Estados Unidos, una crisis de múltiples facetas donde sobresales la crisis económico-financiera y la crisis de hegemonía. Ahí criticamos los enfoques regulacionistas por un lado y en las nuevas características de la relación capital trabajo por el otro, con todo lo que significa la flexibilización laboral como parte de la ofensiva del capital. Las alternativas de las burguesías latinoamericanas al estilo del Mercosur repiten recetas comerciales, coherentes con la concepción mercantilista de la ideología de la economía de mercado. En este contexto revaloramos la alternativa socialista como única respuesta teórico-metodológica y político-ideológica frente a los varios siglos de fracaso del capitalismo y de la civilización burguesa, para hacer mas habitable al planeta”.

No Rio de Janeiro, localizamos na programação do evento menção ao trabalho que Alberto apresentou em 25 de agosto de 1992, intitulado “Del Estado Nacional (Centralizado) al Estado del ajuste neoliberal (postfordista) en la América Latina: una aproximación historico metodológica”.

Na “IV Jornadas Interescuelas/Departamentos de Historia de las Universidades Nacionales”, realizada en Mar del Plata (20 a 22 de outubro de 1993), Facultad de Humanidades – Universidad Nacional de Mar del Plata, Pla não compareceu, em razão da doença de sua esposa, que viria a falecer logo depois. O contato mais estreito ocorreu com os colaboradores rosarinos de Alberto, Gustavo Guerra, Adriana Pons, Gabriela Aguila e Maria Cristina Viano, ocasião em que Afrânio Catani apresentou o trabalho “Brasil: neoliberalismo e política cultural cinematográfica no governo Collor (1990-1992)”, em simpósio organizado por Pla e Eduardo Bajo (Universidade Nacional de Córdoba).

Em 1995, na “V Jornadas”, ocorrida no Uruguai, Montevidéu, Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación, Universidad de la Republica (UDELAR), Alberto organizou com Gustavo Guevara e Ricardo A. Rivas o Simpósio “América Latina a fines del siglo XX: claves históricas de su presente” (27 a 29 de setembro), em que, Gustavo Gutierrez e Afrânio Catani apresentam os trabalhos “Universidades Públicas do Estado de São Paulo: a autonomia financeira e a greve de 1994” e “Educação Superior na República Argentina: uma identidade esgarçada”. No convite que nos foi enviado em 06 de fevereiro de 1995, Alberto, Ricardo Rivas e Gustavo Guevara escreviam que “El Simposio tiene por objeto las presentes transformaciones operadas en América Latina en el contexto del Nuevo Orden Internacional surgido a partir de la coyuntura marcada por el derrumbe del `socialismo real` en Europa del Este y la profunda crisis y reestructuración del mundo capitalista. La aplicación del ajuste neoliberal, el avance de los procesos de integración (Mercosur, Nafta, ALCA, etc.), la crisis del sistema político y el surgimiento de cuestionamiento armados (Chiapas/México) constituyen algunas de las preocupaciones a ser analizadas y debatidas tomando en consideración la realidad contemporánea desde una perspectiva que permita la explicación de estos fenómenos en su irreductible dimensión histórica”.

Em Santa Rosa de La Pampa, capital da Provincia de La Pampa, ocorreu a “VI Jornadas” (1997), ocasião em que Gustavo Gutierrez, Afrânio Catani e Paulo Martinez (UNESP de Assis) apresentaram trabalhos, a convite de Alberto, envolvendo a universidade e a política brasileiras. Coube a Pla pronunciar a conferência de encerramento do evento, publicada depois no Brasil na revista Universidade e Sociedade, Brasília, ANDES, Sindicato Nacional, Ano VIII, n. 16, p. 54-57, junho, 1998 – tradução de Gustavo  Gutierrez.

Em junho de 1998 a Cátedra de Historia General de América II, da Facultad de Humanidades da Universidad Nacional de Mar del Plata, em conjunto com o Centro de Estudiantes de Humanidades, organizaram as Jornadas Internacionales “A 80 años de la Reforma Universitaria”. Houve um painel intitulado “Reforma Universitaria en América Latina”, contando com os seguintes participantes: Ricardo Rivas (Universidad Nacional de Mar del Plata) – coordenador; Alberto Pla (UNR); Patrícia Funes (UBA); Hugo Biagini (UN de La Plata); Afrânio M. Catani (USP). Nossas falas e os debates que se seguiram duraram mais de quatro horas, em um auditório todo enfumaçado, lotado de estudantes tomando grandes quantidades de mate.

A “VII Jornadas” foram em Neuquén (1999), Universidad Nacional de Comahue, Província de Neuquén, onde nós dois apresentamos trabalho, conversamos muito com Alberto sobre a situação política da Argentina e, também, acerca de uma viagem pela Galícia, realizada em companhia de sua única filha, que muito o encantou.

Em Salta, Universidad Nacional de Salta, também apresentamos trabalho, (VIII Jornadas, 2001), enquanto Afrânio Catani leu “Duas memórias de presos políticos, Argentina e Brasil, anos 70”, em simpósio organizado por Patrícia Flier (Universidad Nacional de la Plata) e Patrícia Funes (UBA), nas Jornadas número IX, ocorridas na Universidad Nacional de Córdoba (2003). Alberto, por questões de saúde, não havia preparado nada para a ocasião. Entretanto, convidado pelas organizadoras, fez um longo, detalhado e erudito comentário, ao longo de 40 minutos, acerca do trabalho de Afrânio. Por ser temática ainda candente na Argentina (o encarceramento, a tortura e o desaparecimento de presos políticos), os debates foram longos e acalorados.

Na “X Jornadas Interescuelas/Departamentos de Historia” (Universidad Nacional de Rosario, 20 a 23 de setembro de 2005). Aberto J. Pla (UNR), Afrânio Mendes Catani (USP-Brasil) e Christian Castillo (UBA) organizaram a mesa nº 12, “América Latina y la crisis actual: una realidad y un debate”, contando com a apresentação de 21 trabalhos acerca de temas diversos: zapatismo e lutas indígenas; desigualdade e exclusão no capitalismo na AL; transformações sociais e políticas no governo Kirschner; economia solidária no Brasil; análise dos discursos dos Ministros da economia; espaço da produção acadêmica no Brasil; classe operária na AL; o Partido dos Trabalhadores e a história política; o Programa Universidade para Todos e seus impasses; o impacto da ideologia neoliberal no meio operário brasileiro; a educação e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) no Brasil; o Mercosul e a imprensa argentina; geopolítica do petróleo e as relações entre a Venezuela e os Estados Unidos da América etc. A ponencia de Alberto intitulou-se “Una discusión sobre la realidad y la teoría del capitalismo hoy: América Latina, señal de advertencia”, sendo seu abstract o seguinte: “Durante casi dos siglos ha habido una confrontación entre Capital y Trabajo, ya definida de manera clásica. También hubo un hecho revolucionario que puso al planeta en estado deliberativo, por lo menos: la revolución rusa de 1917. América Latina no ha sido ajena a nada de ello. La necesidad de cambiar al sistema del Capital es un debate permanente. Hoy, ese capitalismo cambia sus modos de proceder. La mundialización no es ninguna novedad, sí lo es la forma de operar. Los cambios son sustanciales, pero de lo que se trata no es de mejorar al capitalismo sino de abolirlo. Los reformistas de distinto tipo a lo sumo discuten el diagnóstico, las izquierdas anticapitalistas discuten la sustancia. Hoy es prioritario tomar conciencia que el sistema en su conjunto produce crisis, desolación y muerte. Se ha abierto un periodo histórico que debe ser superador. La crisis de civilización burguesa plantea nuevos desafíos. Y América Latina es protagonista”.

Em maio de 2003 foi lançada a revista Margem Esquerda – ensaios marxistas, capitaneada por Ricardo Antunes, Celso Frederico, Marcelo Ridenti, Márcio Naves, Sedi Hirano, Ricardo Musse, Emir Sader, Ivana Jinkings, Maria Orlando Picassi, Afrânio Catani, dentre outros. Em seu “Manifesto”, pode-se ler que havia surgido à proposta de se criar uma revista

“que seja a expressão de uma frente de esquerda que se propõe a repor o trabalho crítico e desmistificador de desvendamento da realidade social capitalista, assim como de aprofundamento das questões teóricas que a tradição marxista acumulou (...). Se remar contra a corrente tem sido o destino inelutável da esquerda, esperamos que a Margem Esquerda possa oferecer instrumentos aos que insistem em navegar para superar esse tempos de águas turvas”.

Alberto Pla aceitou o convite do comitê de redação da Margem Esquerda e, já no número 2 (novembro, 2003), integrou o Conselho Editorial. A partir do número 5 (maio, 2005), e até o número 9 (junho, 2007), integrou o Conselho de Consultores da revista, ocasião em que conversamos com certa frequência por telefone e por e-mail.

Ele nos informou que não participaria da XI Jornadas em 2007 na Universidad Nacional de Tucumán, evento que contou com a participação de Gustavo Gutierrez.

O último contato com Alberto ocorreu em fins de 2007, em razão das festas. No ano passado, devido a uma série de viagens que realizamos, acabamos não nos falando, até sermos surpreendidos por uma pequena mensagem, em 11 de agosto de 2008, na qual Ricardo Antunes comunicava o seu falecimento. Por poucos dias Pla não assistiu a mais recente crise do capitalismo e todas as suas consequências nefastas. Mas isso certamente não o teria surpreendido, como grande estudioso do marxismo que era.

A vida de Alberto Pla foi um exemplo de coerência entre pesquisa teórica, ação e atuação profissional. Comprometido com a mudança social, a defesa dos trabalhadores e dos explorados, jamais deixou de ser um crítico implacável da ordem existente e da dominação burguesa. Sua memória dignifica o campo de lutas de todos aqueles que compartilham de seus ideais de justiça social.

 

* Professor na Faculdade de Educação e no Programa de Pós-Graduação em América Latina (PROLAM), ambos da Universidade de São Paulo - USP. Pesquisador do CNPq.

** Professor no Departamento de Estudos da Atividade Física Adaptada da Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

[1] A tradução de significativos trechos do artigo de Hernán Camarero é de Afrânio Mendes Catani.

 

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