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JOÃO FÁBIO
BERTONHA
Doutor
em História, Professor
do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá/PR
e Pesquisador do CNPq.

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A crise internacional e os “modelos”.
Ou, sobre as dificuldades em escrever sobre a
história do tempo presente
João Fábio Bertonha
No decorrer dos últimos dois anos,
dediquei um bocado de tempo e estudo para examinar como vários
países do mundo estavam conseguindo atingir taxas razoáveis de
crescimento econômico, procurando identificar se haveria algo a
apreender destas experiências para aplicar na nossa realidade
nacional. Um esforço, apresentado aqui aos leitores da EA, do qual
não me arrependo, pois me deu a oportunidade de estudar as mais
diferentes realidades sociais e econômicas e aprender e refletir
muito mais sobre o cenário mundial.
Não obstante, não foi este um mero
exercício didático meu. Havia também a pretensão de que aquela série
de artigos pudesse ser de alguma ajuda para repensar o próprio
Brasil e a realidade internacional. Não imaginava, claro, que o
Estado brasileiro ou algum partido ou ONG iriam pegar aquelas
reflexões e utilizá-las para a criação de novas políticas públicas
ou como programa de ação. Mas, como todo intelectual, eu gostava de
acreditar que fosse de alguma utilidade maior para o debate nacional
e não um mero exercício intelectual meu. O número de e-mails que
recebi no período, elogiando ou criticando o que escrevi, parecia
indicar que ao menos este objetivo tinha sido atingido.
De repente, como uma tempestade no céu
azul, chega a tão falada crise mundial De um momento para outro,
aparentemente, tudo se modifica e quase tudo o que foi apresentado
parece sem sentido e/ou fora de foco. É como se todos aqueles
textos, de um momento para outro, se tornassem obsoletos e pudessem
ser jogados no lixo.
E realmente, até certo ponto, é isso que
deverá ser feito com eles. Vejamos. Dos nove casos de crescimento
econômico intenso que analisei, praticamente nenhum deixará de ser,
em maior ou menos escala, afetado pela crise mundial. Assim, Espanha
e Irlanda já estão em contração econômica, com diminuição prevista
do PIB para os dois anos a seguir. Na Espanha, inclusive, onde
estive há pouco, fala-se abertamente em desemprego em massa,
diminuição da imigração, etc.
Nos países que dependiam da exportação
do petróleo e do alto preço deste, como Venezuela e Rússia, a
perspectiva também não é das melhores, com a diminuição dos
ingressos petrolíferos afetando rapidamente os indicadores
econômicos nacionais. A Rússia ainda tem reservas razoáveis com as
quais pode agüentar um bom tempo, mas sua bolsa de valores já entrou
em quase colapso e o rublo desvalorizou. A Venezuela de Hugo Chávez,
então, precisa urgentemente encontrar recursos para sustentar a
ativa política externa na América Latina e o assistencialismo
interno, o que é tarefa hercúlea. Em ambos os casos, crescimento
diminuto da economia ou mesmo retração são os cenários mais
prováveis para os tempos a seguir.
Também outros países dependentes da
exportação de matérias primas ou alimentos, como a Argentina e o
Chile, vão encontrar problemas e, se não entrarem em recessão, terão
um crescimento bastante reduzido para os próximos anos. Os tigres
asiáticos e a Índia provavelmente não terão recessão, mas seu
crescimento será reduzido. Até mesmo a China, a grande estrela do
crescimento mundial, deverá reduzir sua taxa de incremento do PIB
para cerca de 7%, ou um pouco menos, nos dois próximos anos. Uma
taxa ainda alta e que seria um sonho para o resto do mundo, mas que
fica além do que a liderança chinesa considera o mínimo para manter
a estabilidade nacional.
Em resumo, a conjuntura mudou
completamente e as análises conjunturais apresentadas em todas
aquelas páginas podem, com certeza, ser jogadas na lata do lixo. No
entanto, tenho a impressão que as reflexões mais estruturais não
perderam completamente sua validade.
Um dos pontos lá levantados era que ter
o Estado equilibrado em termos contábeis, com equilíbrio dos gastos,
taxa razoável de tributação e de dívida pública, moeda confiável,
inflação controlada, etc., era uma necessidade que nem podia ser
chamada de neoliberal ou coisa do gênero, mas de simples bom senso.
Isso se confirma nesse momento de crise. Países que fizeram a “lição
de casa”, ao menos até certo ponto, como o Chile e o próprio
Brasil, estão em melhores condições para superar o auge das
dificuldades, enquanto aqueles que simplesmente surfaram no bom
momento da economia mundial, sem se preocupar com o gerenciamento do
Estado, estão agora em situação mais complicada, como a Argentina e
a Venezuela.
Por outro lado, o equilíbrio fiscal
anterior também permite, nesse momento em que a demanda privada ou
internacional diminui, que o Estado abra as portas da despesa
pública e inunde a economia de dinheiro, numa típica receita
keynesiana. Isso reforça a tese que apresentei anteriormente que a
ação pública é fundamental para o crescimento e o sustento da
economia, especialmente em época de dificuldades. É o que, por
exemplo, vai fazer a China e suas boas condições fiscais, com baixo
endividamento público e imensas reservas internacionais, só
facilitam a sua tarefa.
Claro que certos países não precisam se
preocupar em demasia com isto. Os Estados Unidos e a União Européia,
que controlam as duas moedas de reserva internacionais, o euro e o
dólar, podem muito bem imprimir montanhas de dinheiro para estimular
a economia, exportando a inflação que isto poderia trazer e pouco se
importando, ao menos em curto prazo, com o aumento da dívida
pública. E é isso que eles farão. Agora, para os que não dispõem
dessa vantagem, estar numa situação fiscal mais equilibrada permite
um pouco mais de flexibilidade para atuação e é uma vantagem, pois,
ter um Estado equilibrado em termos fiscais, eficiente e que tenha
capacidade de ação na economia.
Neste ponto, aliás, o caso inglês é
interessante. A economia inglesa, excessivamente concentrada nas
finanças e serviços, está sendo das mais afetadas pela crise global.
Numa superação da idéia thatcherista de que o Estado nunca deve
intervir na economia, o governo inglês injetou bilhões de libras na
economia, a espera de melhoras. No entanto, parece improvável que o
Reino Unido, sozinho, consiga superar a situação. Assim, vozes no
país sugerem que é o momento de abandonar a libra esterlina e adotar
o euro, de forma a lastrear a economia nacional a uma moeda de
reserva mundial, o que permitiria ainda mais gastos públicos e
ajuda. Uma proposta no mínimo interessante e que representaria a
integração final da Inglaterra à Europa e o enterro final das idéias
de Mrs. Thatcher. Talvez haja pessoas pensando o mesmo, por exemplo,
na Islândia, também fortemente abalada pela crise das instituições
financeiras.
Em resumo, a crise confirma que o
Estado, mas um Estado eficiente e equilibrado, ainda é fundamental
no gerenciamento da economia capitalista. Isso tanto na prevenção de
crises como esta (que, talvez, não pudesse ser detida pela
supervisão e normatização estatal, já que crises são parte do
sistema capitalista, mas que poderia ter sido detectada e desinflada
antes de tomar as proporções que tomou), como na sua resolução. Num
momento em que bancos e grandes multinacionais estão com os pires
nas mãos, correndo em busca do apoio estatal, vemos com clareza como
a economia totalmente estatizada é receita para fracasso (como
indicam os exemplos de Cuba, Coréia do Norte e outros), mas que uma
economia excessivamente liberalizada também o é.
Outra lição que aprendi com a análise
dos “modelos” é a de que uma economia totalmente fechada ao comércio
e à concorrência internacional é receita para incompetência e
fracasso. Mas, por outro lado, defendia a idéia de que uma
dependência total do mercado de capitais e bens internacional
poderia trazer dificuldades em certos momentos. Isso me parecia
especialmente verdade quando um país se especializava em excesso em
apenas uma atividade e ficava excessivamente dependente dos humores
do sistema internacional.
Isso se tornou mais do que claro neste
momento. Irlanda e Espanha jogaram as suas fichas no mercado de
software e turismo/construção, enquanto, como já mencionado, a
Inglaterra e a Islândia optaram por serem grandes centros
financeiros. Agora, essas opções se revelam complicadas e países com
mais diversificação econômica, como a Alemanha, os Estados Unidos ou
mesmo o Brasil, podem ter melhores chances de sobreviver. Dispor de
grandes mercados internos desenvolvidos ou a desenvolver, como a
Índia, a China e alguns dos tigres asiáticos, também se revela
fundamental.
Outro ponto que ressaltei a exaustão era
minha convicção de que era perigosa a integração no mercado
internacional via recursos naturais, seja de produtos agrícolas ou
minerais. No início do ano passado, Caracas, Moscou e Buenos Aires
não tinham muito com o que se preocupar, já que os preços de
alimentos e petróleo estavam nas alturas e eu mesmo não acreditava
que eles deveriam cair muito em curto prazo. Erro meu e deles, pois
uma economia baseada unicamente na exportação de produtos primários
fica ainda mais na dependência dos humores dos mercados mundiais e,
quando estes reagem mal, o golpe na economia é imenso. Estes países
e também outros, como os árabes ou o Irã, terão agora que se ajustar
a esta realidade, que pode durar um, dois ou mais anos.
Neste ponto, a conclusão a que cheguei,
de que o melhor caminho para o Brasil seria tentar se tornar o
celeiro do mundo, um gigante industrial e comercial e, ao mesmo
tempo, uma sociedade pós-industrial, era a correta. Não chegamos lá,
mas o simples fato de nossa indústria ter sobrevivido aos que
queriam um futuro unicamente agrícola e mineral para o Brasil nos
permitirá agüentar um pouco melhor os efeitos desta crise mundial.
Também a questão da educação, que tanto
defendi em todos os textos, não parece necessitar de nenhum grande
reparo. Uma população educada e um amplo sistema tecnológico não
imunizam ninguém de uma crise das proporções da atual, como
demonstram os casos da Irlanda, dos tigres asiáticos e outros. Mas
ela continua fundamental para a diversificação econômica, aumento da
produtividade e entrada na sociedade pós-industrial, como mencionado
acima. E, mais que isso, continua a ser instrumento para a mudança
da nação, de qualquer nação, a longo prazo.
Portanto, as conclusões que tive nos
dois últimos anos parecem se manter. A receita que via para
crescimento econômico acelerado era composta de políticas
macroeconômicas responsáveis e que procuravam criar um ambiente
adequado ao crescimento, um Estado minimamente eficiente e ativo na
promoção do mesmo, um setor empresarial forte e competitivo e uma
inserção cada vez mais intensa no mercado internacional, mas sem
ignorar o mercado interno. Mais do que isso, a receita incluía uma
visão de longo prazo de crescimento e uma percepção de que exportar
minérios, produtos agrícolas ou mesmo produtos industriais baratos
poderia ser uma solução de curto prazo, mas que o futuro estava no
mundo pós-industrial, o que implicava em investimentos maciços em
ciência, tecnologia e educação.
Nenhum dos países que analisei então se
encaixa perfeitamente nesta receita, o que é óbvio. Mas espanta como
os que mais se aproximaram dela, ou seja, China, Índia e tigres
asiáticos, serão dos menos afetados, provavelmente, pela crise
mundial. Já os que dela mais se afastavam, como Venezuela, Argentina
e Rússia, sofrerão mais. Portanto, talvez não estivesse tão errado
nas minhas conclusões. Em termos conjunturais, minhas previsões
caíram no vazio. Mas, em termos de análise de longo prazo ou
estruturais, talvez haja ainda algo a aprender.
Como todo historiador e, especialmente,
como todo historiador que resolve escrever sobre a história em pleno
desenvolvimento, a história do tempo presente, os riscos de erro
quando da análise da conjuntura são imensos. Erros, aliás, que
também os economistas e outros analistas cometem. Mas, às vezes, a
própria experiência do erro conjuntural ajuda a deixar mais claros
os problemas estruturais, o que pode ser significativo. |
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