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CARLOS
BAUER
Doutor em História Econômica (USP), Pós-Doutor
(UNICAMP) e Professor Títular da Universidade Nove de Julho ,
Brasil

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Apontamentos para uma história imediata dos
professores universitários brasileiros
Carlos Bauer
Resumo
Não existe educação
escolar sem alunos e professores, mas ela pode existir sem
prédios, salas de aulas e outros aparatos estatais ou privados.
A história da educação é a história dos professores e dos
estudantes; também não há educação sem instituições ou mesmo
espaços sociais informais que possam abrigá-la. Compreendê-los
exige uma história social dos seus personagens, do contexto e
das particularidades culturais nas quais desenvolvem suas
atividades. De nossa parte, nos interessa formular algumas
perguntas e indagações que, uma vez respondidas coletivamente,
nos ajudem a apresentar alguns apontamentos sobre a história
imediata dos professores universitários e que se constituem como
parte indissolúvel do processo de construção de sua identidade
profissional e social.
Palavras-chave: Professores
universitários, História da Educação, história, identidade
profissional e social dos professores universitários.
OUTLINES TOWARD AN IMMEDIATE HISTOTY OF THE
BRAZILIAN UNIVERSITY TEACHERS
Abstract
There is no school education without students and teachers, but
it may exist without buldings, classrooms or other state
apparatus. The history of education is the history of the
teachers and of the students; still, there is no education
without institutions or even the informal social spaces in which
it may take place. Understanding them requires awareness of
their characters’ social history, the context and the cultural
particularities in which their activities are developed. From
our point of view, it is important to formulate some questions
and inquiries that, once collectively answered, will help us to
present some outlines toward the immediate history of university
teachers and that are an indissoluble part of the process of
constructing their social and professional identity.
Key words:
History of education. Social and professional identity.
University teachers.
Apuntes para una historia inmediata de los profesores
universitarios brasileros
Resumen
No existe educación escolar sin alumnos o
profesores, más ella puede existir sin predios, aulas u otros
aparatos estatales.
La historia de la educación es la historia de los
profesores y los estudiantes; tampoco hay educación sin
instituciones o espacios sociales informales que puedan apoyarla.
Comprenderlos exige una historia social de sus personajes, del
contexto y de las particularidades culturales en las cuales se
desenvuelven sus actividades.
Nos
interesa formular algunas preguntas e interrogantes, que una vez
respondidos colectivamente, nos ayuden a presentar algunos
apuntes sobre una historia inmediata de los profesores
universitarios y que se constituyan como parte indisoluble del
proceso de construcción de su identidad profesional y social.
Palabras clave:
Profesores universitarios, Historia de la Educación, Identidad
profesional y social de los profesores universitarios.
Introdução
Não existe educação escolar sem alunos e
professores, mas ela pode existir sem prédios, salas de aulas e
outros aparatos formais estatais ou privados. A história da educação
é a história dos professores e dos estudantes; também não há
educação sem os funcionários, diretores, supervisores, técnicos,
secretários, ministros, instituições ou mesmo espaços sociais
informais que possam abrigá-la. Compreendê-los exige uma história
social dos seus personagens, do contexto e das particularidades
culturais nas quais desenvolvem suas atividades. De nossa parte,
nesse breve ensaio, nos interessa formular algumas perguntas e
indagações que, uma vez respondidas coletivamente, nos ajudem a
apresentar alguns apontamentos sobre a história imediata dos
professores universitários e que se constituem como parte
indissolúvel do processo de construção de sua identidade
profissional e social.
O ofício do educador é muito remoto
historicamente ainda mais se levarmos conta – no estabelecimento de
quaisquer perspectivas de periodização – às experiências sociais que
se desenvolveram fora dos marcos históricos da ocidentalidade
greco-romana e judaico-cristã, precisa ser separado da profissão
docente e, de fato, não pode ser confundido com a profissionalização
do ato de educar.
A profissão docente é um produto da
modernidade que produz extratos e classes sociais e, principalmente,
o seu vínculo empregatício e institucional com o Estado, a Igreja ou
um outro empregador que por ventura possa identificado. Sua
profissionalização, portanto, depende diretamente das regras que
esses mesmos empregadores determinam e impõem e as formas com que se
relacionam, aceitam, se contrapõem ou resistem a elas.
Fazendo um abrupto corte de
características espaços-temporais e trazendo a discussão para perto
de nós mesmos, podemos dizer que como um fenômeno associado ao
desenvolvimento do capitalismo tardio e periférico que se produziu
no Brasil contemporâneo e a forma como se deu à expansão dos
sistemas de ensino fez com que se estabelecesse vínculo do professor
com a pobreza, com o trabalho político e social com a comunidade
circo vizinha das escolas e as camadas proletarizadas da sociedade
como uma das características de sua atuação profissional.
Por sua vez, salvo raras exceções, em
nosso país, o professor universitário faz parte das camadas médias
da população e sua profissionalização, como em muitos lugares do
mundo, pressupõe uma formação acadêmica e um comportamento
profissional específico, e muitas vezes extremamente extenuante
física e psicologicamente.
Fundamentalmente, o professor
universitário produz sua identidade profissional na cotidianidade da
própria universidade na qual trabalha, lecionando, pesquisando,
orientando seus alunos e no interior de sociedades acadêmicas ou
científicas nas quais se relaciona com os seus pares num contexto de
crescente complexidade, competitividade e exigências sociais.
Antes, não mais do que poucos anos
atrás, ser professor universitário trazia um reconhecimento social,
político e cultural, porém a partir da década de 1980, frutos da
impressionante expansão massificante do ensino superior, da política
dos organismos internacionais, do crônico desinteresse das
autoridades com o exercício da profissão docente no Brasil, o seu
papel se transformou radicalmente. Agora, o seu reconhecimento
social passa pela produtividade crescente, sendo então exigidas cada
vez mais competências no processo do desenvolvimento de suas
atividades profissionais.
Não é nenhum exagero dizer que sua
autodeterminação profissional é construída no interior da
instituição na qual trabalha daí a profunda relação que se
estabelece entre o professor universitário e a universidade na qual
leciona e pesquisa. É, pois, preciso estudar e entender a relação
que se estabelece entre o professor com os alunos, no seu trabalho
mais rotineiro, que é a docência e a instituição da qual faz parte
na compreensão da identidade e da imagem deste profissional na
sociedade e, portanto, do seu próprio reconhecimento na vida social.
Nesse percurso é necessário se partir de
uma simetria, de uma ética simétrica, de diálogo entre as
instituições e seus agentes, como parte da compreensão da identidade
que se busca alcançar. Mas, nem sempre isso é possível! Ressalta-se,
por exemplo, o desgastante relacionamento que vêem se estabelecendo
entre os professores com as instituições de ensino superior
privadas, com ou mesmo sem fins lucrativos. São relações pautadas em
critérios exclusivamente empresariais, de eficiência, produtividade
e atendimento aos clientes que freqüentam os campus
universitário atraídos por toda sorte de sedução midiática e
desprovidos de desejáveis dimensões acadêmicas, culturais e mesmo
política do seu papel enquanto estudantes universitários.
Essa situação opera uma pressão sobre o
professor no sentido de se ajustar nesse processo de inexorável e
crescente individualização do seu trabalho no interior de
instituições que nem sempre estão preocupadas em refletir sobre suas
responsabilidades com a efetivação de um ensino universitário
pautado pela qualidade, ética e, por conseguinte, estética e
política na construção do seu compromisso social.
Dos impasses e exigências da
profissão de ensinar
Mesmo reconhecendo que vivemos numa
etapa histórica em que o ensino universitário vem se transformando
velozmente numa mercadoria como outra qualquer nas prateleiras desse
imenso bazar que chamamos de sociedade capitalista, é preciso buscar
marcos comuns que nos ajudem na construção de sua identidade e no
seu papel social que possa questionar e barrar esse processo de
perversa coisificação do seu ofício.
Em nossa opinião, a sua responsabilidade
social e científica nasce daí e a temática de sua responsabilidade
ética também tende a ficar em evidência, assim como perguntas que
procuram indagar se a universidade tem formado o seu corpo docente
com capacidade para participar crítica e ativamente do processo de
transformação que estão em curso?
Os professores universitários
encontram-se imersos numa instituição e numa sociedade realmente
existente, sendo, portanto, necessário conhecer sua história e suas
responsabilidades sociais e políticas. Num passado não muito
distante, formavam os quadros do Estado e da elite intelectual e as
suas relações sociais se faziam entre os quadros da própria elite,
muito embora não houvesse uma formação especifica para tal fim, na
verdade, formavam-se médicos, advogados, engenheiros, etc. De lá,
desse reino de bacharéis, mas também do clero, das forças armadas,
do empresariado, do jornalismo eram recrutados os docentes
universitários. Somente recentemente buscou-se qualificar esse
profissional e mesmo o exercício de sua profissão, principalmente,
através da expansão dos programas de pós-graduação lato e stricto
senso.
A formação de docentes passou a ser uma
preocupação generalizada nesses programas, logo se tratou de buscar
uma qualificação desses profissionais como nunca antes existiu na
história do país. Houve uma expansão do ensino superior público e
privado o que trouxe a necessidade de um número cada vez maior de
docentes. Os números de estudantes universitários cresceram e
continuam crescendo substancial e exponencialmente e, com isso, os
números de docentes formados pelos programas de pós-graduação também
cresceu simultânea e progressivamente orientado por uma efetiva
política de qualificação desses profissionais. Com isso, o número de
mestres e doutores precisou crescer o que trouxe como conseqüência a
necessidade de um acompanhamento ou um controle estatal da forma
como esses profissionais foram sendo formados.
Ironicamente, a expansão do ensino
superior privado fez com que muitos docentes antecipassem suas
aposentadorias na universidade pública, que havia tornado possível e
nutrido a sua formação acadêmica, e procurassem ampliar sua renda no
ensino privado e, ao mesmo tempo, continuam produzindo as elites
políticas locais, regionais, nacionais e internacionais. Sendo
assim, sua missão continua trazendo uma gama crescente de
responsabilidades políticas, éticas, tecnológicas e sociais. Logo,
deve nos intrigar saber como se estabelece a sua relação com a
sociedade? Qual é o seu papel político? Qual é a sua formação
necessária ou qualquer cidadão pode assumir esse papel? A
preocupação com sua formação precisa ser assumida como uma
responsabilidade política? Suas relações de trabalho têm que
obedecer que tipo de modelo? A atividade docente voltada para o
ensino precisa ser assumida como uma prioridade na construção do seu
trabalho ou ele deverá ser formado para investigar e pesquisar?
No cotidiano suas experiências são
muitas: ensinar suas disciplinas, pesquisar, publicar, polemizar com
seus pares e produzir conhecimento científico, pautados em valores
éticos e responsabilidade social. Não bastasse isso, seus artigos
científicos precisam ser publicados nacional e internacionalmente,
participar de redes de investigação, procurar desenvolver ações
inovadoras e tarefas profissionais de crescente importância social.
Os professores universitários estão formando os líderes desta
sociedade e a universidade representa uma tensão ideológica
permanente, ela precisa pensar e repensar a sociedade criticamente
e, na medida do possível, procurar se associar aos projetos que se
desenvolvem no interior da sociedade com perspectivas de mudanças
nas estruturas sociais.
Exatamente, por isso, seus compromissos
não podem se furtar de combater a miséria que se produz nesta
sociedade e, nesse contexto, é preciso indagar sobre as estratégias
devem ser adotadas para que possamos alcançar tamanho objetivo?
Quais são as reivindicações dos seus estudantes?
A prática docente precisa se desenvolver
sustentada pelos princípios da autonomia universitária e muitas
vezes lhe é exigido que combata e faça a necessária “crítica ao
fetichismo da individualidade” (DUARTE, 2004) e compartilhe os
valores da solidariedade e da ética social, mas como podemos estudar
e conhecer a realidade do professor universitário? Quais são os
marcos teóricos que devem ser buscados, na medida em que
reconhecemos que o seu comportamento não é homogêneo? Quais são os
recursos e/ou fontes que dispomos? Quais são as condições políticas
que desfrutam? Sua história precisa ser conhecida criticamente;
desde a sua origem no interior do pensamento religioso cristão, que
não pode ser menosprezada, até a luta por laicizar e tornar pública
a educação e sua atualidade que também precisa ser reconhecida.
A busca de formação do homem novo e os
seus compromissos com a construção da nação é um importante instante
de sua história profissional, uma página significativa de sua
história e de sua identidade, como também a sua prática, forma de
organização política e sindical precisa ser resgatada. Uma análise
crítica de suas ações precisa ser buscada na melhor compreensão do
seu papel social? O que produz ou explica a sua mobilização? Quais
são as relações políticas que estabelecem? Quais instituições
científicas ou acadêmicas que participam? Como defendem a liberdade
de cátedra? Como trabalham na universidade pública, privada e
confessional?
Por uma parte precisamos estabelecer uma
relação entre a universidade, seus professores e a sociedade e, por
outra, como se estabelecem a formação de quadros e o desenvolvimento
do seu trabalho no interior das instituições, onde muito é exigido
desses profissionais; seus saberes devem ser muitos, dentre eles o
exercício de um pensamento crítico e dialógico, uma conduta pautada
pela responsabilidade ética e socialmente contextualizada.
Da compreensão da identidade do
professor universitário brasileiro e as fontes que podem ser
utilizadas
Na busca de uma efetiva compreensão da
identidade do professor universitário brasileiro, as diferenças
comportamentais são muitas e precisam ser conhecidas. Neste sentido,
o problema das fontes é fundamental e sua articulação com a
filosofia, a teoria e os métodos que estão associados à construção
do conhecimento histórico, pois “não há práxis como atividade
puramente material, isto é, sem a produção de finalidades e
conhecimentos que caracteriza a atividade teórica” (SÁNCHEZ VÁZQUEZ,
1990, p. 208).
A realização de entrevistas e a tomada
de depoimentos é um passo importante no resgate da memória do
protagonista desse complexo processo de construção da identidade dos
professores universitários, como também um reconhecimento de que a
construção da história da educação pressupõe a valorização
documental dessa oralidade.
Mas, e isso nos parece muito importante
de ser realizado, é preciso pesquisar e procurar saber qual é a
visão que os alunos têm desse processo histórico no qual se produz e
se desenvolve a construção da identidade do professor universitário?
O que pensam dos seus professores? Quais críticas lhe dirigem? Quais
virtudes – políticas, éticas, intelectuais, etc. – dos professores
lhes inspiram? O que nos relatam os alunos sobre os comportamentos
dos seus professores?
Com o seu engajamento pela
democratização da sociedade brasileira, com a sua luta pela
liberdade do pensamento e com o seu questionamento político e
ideológico com o Estado autoritário e sua recorrência na história
brasileira, pode-se dizer que muito de sua identidade passou pelo
estímulo no desenvolvimento de formas e práticas de solidariedade
comprometida com o exercício democrático da vida social.
Também é preciso resgatar o mérito dos
professores na arte de ensinar, o seu legado educativo precisa ser
realçado, assim como o que pensam de sua própria trajetória
acadêmica, o que nos levam a formular perguntas como essas: qual é o
juízo crítico que fazem de si mesmos? De sua personalidade e do seu
papel didático-pedagógico? Como se dá a sua identificação com o
ofício de ensinar? Com as teorias e as implicações metodológicas
inerentes ao seu trabalho? Quais são os seus planos, utopias e
sonhos educacionais? Sim, isso também é importante de se resgatar,
pois podemos pensar a história como possibilidade de um outro amanhã
e não como fatalidade?
Quais eventos participou que considera
significativos na história da educação ou mesmo da sociedade?
Considera-se um protagonista, um personagem ativo ou passivo dessa
história? Muito temos que indagar, saber e dizer dos professores
universitários brasileiros e dos percalços e vicissitudes que estão
postos na construção de sua identidade social. Um aspecto
interessante é o compromisso desinteressado que muitos professores
assumem com a formação de tantos outros professores – compromisso
político, cultural, teórico, social que não pode ser esquecido ou
menosprezado. Quantos de nós não enveredamos pela luta política e
social, pela leitura dos poetas, pelos caminhos do cinema, pelo
trabalho docente, pela pesquisa acadêmica pelas mãos de nossos
professores?
Os professores universitários constroem
sua identidade em muitos lugares, fundam tradições, lutam por
rupturas, adotam comportamentos radicais, quando não nos apresentam
autores que serão cruciais em nossa forma de pensar e atuar no mundo
e, tudo isso, precisa ser considerado quando indagamos sobre quais
são os aspectos que não podem ser desprezados quando estamos
dispostos a entender a identidade dos professores universitários
contemporâneos.
Sua identidade passa também pelos
recursos pedagógicos que utiliza e pela forma que socializa o
conhecimento das disciplinas que leciona. Seu mérito como professor
é parte indissolúvel de sua identidade profissional. Quais fontes
buscaram? Quais autores lhe inspiraram? Quais livros julgam
fundamentais no exercício de sua docência? Seus manuscritos também
são documentos da construção da identidade dos professores
universitários. Do que falam? Tratam da preparação de suas aulas?
São exercícios prévios e necessários à construção dos seus artigos
ou ensaios? Neles estão registradas suas idéias educacionais? As
transformações pedagógicas são ali refletidas? Sua compreensão do
papel que atribui à juventude é confessada?
O professor universitário constrói sua
identidade como um combatente das causas sociais. Este comportamento
é particularmente visível na defesa da escola pública, laica e
gratuita para todos. Pode nos interessar registrar a percepção que
esses professores têm do seu próprio papel nessas jornadas, pois,
muitas vezes, a docência universitária aparece como o lugar ideal de
onde se pode exercitar a crítica social. Os gestos e as ações dos
professores precisam ser valorizados como fontes que nos permitam
melhor conhecer a influência e a relação que estabelecem com a
sociedade.
Quais repercussões seus livros e artigos
produzem na vida social? São inspiradoras de mudanças políticas,
econômicas e sociais? Vale lembrar que, não muito tempo atrás,
alguns professores brasileiros foram cassados, presos, torturados e
os seus escritos condenados publicamente. Será que alguns
professores que vivenciaram esses tempos difíceis publicaram suas
obras anonimamente? Seus escritos foram considerados subversivos e
comprometidos com a dissolução da sociedade burguesa? O que pensam
do exílio, quais são as suas memórias destes “anos de chumbo”? Quais
papéis assumiram no processo de redemocratização? Quais relações
estabeleceram com os governos democráticos instalados no Brasil a
partir da década de 1990? Mantiveram-se na oposição? Abandonaram a
luta política? Respostas a essas e a outras perguntas são
fundamentais na construção histórica da identidade do professor
universitário.
Em nosso próprio tempo histórico e
social, não nos parece possível pensar a identidade do professor
universitário desconsiderando-se o seu papel no interior das
instituições privadas que intensificaram a sua presença no cenário
educacional brasileiro das últimas décadas. Aqui os registros serão
mais difíceis de serem obtidos. O ensino superior privado produz
algumas peculiaridades que dificultam, quando não inibem
completamente a possibilidade de uma melhor compreensão da
trajetória dos seus professores e a influência que exercem, por
exemplo, sobre os estudantes, seus pares e outros segmentos da vida
acadêmica, na medida em que sua atuação, normalmente, está
circunscrita ao desempenho da atividade mais elementar, qual seja:
ministrar aulas, sendo, inclusive, chamados pejorativamente de
professores GLS – sigla extraída do tripé de sustentação de sua
atuação profissional – giz, lousa e saliva!
Que tipos de documento devem ser
buscados para compreender os aspectos fundamentais do processo de
construção da identidade profissional dos professores que atuam nas
instituições de ensino superior privado? São os mesmos que indicamos
anteriormente? Ou será que o desempenho das atividades docentes
nessas instituições produz algumas particularidades que dificultam
sua compreensão? Suas histórias de vida podem ser buscadas e
valorizadas? Quais referências podem ser resgatadas através da
memória dos alunos? Até que ponto a crescente instabilidade do
desempenho do seu trabalho dificulta a construção de sua identidade
profissional ou isso é um importante aspecto dela?
Considerações finais
O professor universitário é um
protagonista da história da educação, um personagem ativo que se
inscreve no mundo da cultura e traz com isso a responsabilidade de
produzi-la, mas também de reproduzi-la mecanicamente, deforma-la ou
trata-la de acordo com os mais auspiciosos postulados políticos,
ideológicos e compromissos sociais.
Atuando nas instituições públicas,
privadas, confessionais ou fundações sua trajetória precisa ser
acompanhada, reconhecida e analisada criticamente como um ponto
importante da história social da cultura, da produção de
conhecimento científico; quer seja como um transmissor de valores,
idéias, informações, conhecimento tecnológico ou ainda um crítico
moral da servidão do homem, um disseminador de utopias que, em busca
de esperanças e sonhos de um amanhã melhor, não se furta de descer
ao fundo do inferno que as mazelas sociais têm constituído, pois não
é possível habituar-se ao cenário de desumanidade que o capitalismo
produz.
Cultivamos uma história social da
educação e isso pressupõe reconhecer a sua complexidade, enredamento
e articulação com as próprias relações estruturais que se
desenvolvem no solo histórico da sociedade brasileira. Como os
déficits sociais são incalculáveis, os professores estão obrigados a
uma série interminável e crescente de responsabilidades, mas também
sua trajetória pode ser marcada pelo conservadorismo ou mesmo pela
dificuldade em aceitar as mudanças que se produzem na realidade
social, assumindo mesmo uma postura refratária aos acontecimentos
políticos que estão em curso, dizendo-se neutros ou simplesmente
dizendo que não compreendem o que está acontecendo, nesse caso seus
pronunciamentos nos remetem à idéia de que prestam ou desenvolvem um
serviço profissional, dominando e disseminando um conhecimento, uma
ciência que não se relaciona diretamente com os problemas que estão
cursos na vida social.
Por todas essas e muitas outras
indagações que possam ser feitas, precisamos reconhecer que a
materialidade do seu trabalho é tão complexa e presente em nossa
existência como o ar que respiramos. Não nos damos conta, muitas
vezes não nos importamos com a sua presença, todavia a profissão de
ensinar se faz presente e inunda toda atmosfera na qual se
desenvolve o tempo e o espaço da vida social contemporânea.
Referências
DUARTE, Newton (org.).
Crítica ao fetichismo da
individualidade.
Campinas: Autores Associados, 2004.
SÁNCHEZ VÁZQUEZ, Adolfo S. Filosofia da práxis. 4. ed. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1990.
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