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ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI
Professor do Mestrado em Educação
nas Ciências da UNIJUÍ - RS e da Universidade Johannes Kepler de
Linz (Áustria). Doutor em Ciências Econômicas e Sociais pela
Universidade de Osnabrück (Alemanha)

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O mito da neutralidade dos transgênicos
Antônio Inácio
Andrioli
“O conceito de
razão técnica é talvez ela mesma ideologia. Não somente sua
aplicação, porém já a técnica em si é dominação (sobre a natureza e
sobre os seres humanos).
Uma dominação metódica, científica, calculada e calculadora”
(Herbert Marcuse)
A
proibição de cultivo da variedade de milho MON 810 conduziu a uma
controversa discussão sobre a concepção de ciência e técnica na
Alemanha. Há mais tempo se defende na imprensa e, inclusive em
círculos científicos, a necessidade de uma ciência puramente
objetiva, neutra, especializada, orientada pelos fatos, livre de
ideologias, valores e emoções. A ministra da Agricultura, Ilse
Aigner, afirmou, após a proibição do milho transgênico, que ela se
baseia em estudos científicos e que a decisão não teria sido
política. Pode a decisão de uma ministra de Estado não ser política?
A afirmação
da ministra Aigner, caracterizando-se como uma pessoa pragmática e
não ideológica, pressupõe a existência de uma espécie de coerção
objetiva dos fatos (Sachzwang) na ciência, que deveria servir de
orientação aos políticos. Embora na ciência se almeje uma
aproximação da verdade, com essa compreensão de ciência a pesquisa
científica é confundida com a verdade. Portanto, a procura pela
verdade, fundamentada em Karl Popper, passa a ser concebida como
sendo a própria verdade. Isso pode constituir a base para o aumento
da tecnocracia na sociedade, ou seja, o conhecimento especializado
passa a ser aceito como fato consumado, como se o processo de
pesquisa e a sua interpretação estivessem livres de influências
subjetivas. Nesse sentido, as opiniões que se desviam do
conhecimento científico teriam um caráter exclusivamente “político”.
Mesmo que
isso pareça plausível a um grande público, no processo de construção
do conhecimento científico essa questão não é tão simples. Se
levarmos em consideração como a ciência funciona particularmente, é
evidente que são tomadas decisões subjetivas. Iniciando com a
escolha do tema, dos objetivos da pesquisa, do referencial teórico e
da metodologia, até chegar à interpretação dos dados coletados, um
cientista ou uma comunidade científica tomam, necessariamente,
decisões subjetivas. Essas decisões, por sua vez, são influenciadas
pelas ideologias e cosmovisões do contexto, no qual uma pesquisa é
realizada. Por isso, a ciência é contraditória, histórica e
contextualizada. Conseqüentemente, a ciência não está livre de
valores e ela se diferencia de outras formas de acesso ao
conhecimento em função do seu método, através do qual se procura
analisar empiricamente um determinado contexto, fundamentando-o
teoricamente. Esse método foi desenvolvido ao longo da história,
quando as visões de mundo eram dominadas por mitos, crenças e
superstições. A ciência afirmou sua condição de procurar
primeiramente compreender um contexto antes de acreditar nele.
O debate
sobre transgênicos, entretanto, está mais dominado por crenças do
que pela ciência. Trata-se, basicamente, de um debate político, o
qual numa sociedade democrática deveria ser decidido pela
publicidade crítica e não pela arrogância e pelo poder da
tecnocracia. Para isso, o conhecimento e a pesquisa são importantes,
mas de que tipo de ciência se trata? Uma ciência que estigmatiza
ideologicamente o contexto, em que não haveria paralelos entre
fenômenos naturais e entre acontecimentos históricos? Uma ciência,
na qual a pesquisa para a indústria química é confundida com
progresso tecnológico? O que significa, afinal, a liberdade de
pesquisa, quando os interesses da indústria química e farmacêutica
se sobrepõem aos interesses da maioria dos consumidores e
agricultores?
Após a
proibição do cultivo do milho MON 810, também na Alemanha, o
objetivo que está por detrás da transgenia ficou mais evidente. A
indústria química se queixa em função dos investimentos realizados
em pesquisa e que os empregos dela decorrentes estariam em perigo.
Cientistas anunciam que existe a possibilidade de não mais atuarem
na Alemanha. Diante disso, os governos, portanto, deveriam continuar
assegurando, que uma técnica não desejada pela maioria da população,
continue sendo utilizada.
Se, em
decorrência da proibição do cultivo, a pesquisa, que não pressupõe
necessariamente sua utilização, continua permitida, porque tais
cientistas deixariam de pesquisar na Alemanha? A questão fundamental
está exatamente na parcialidade ideológica dessa pesquisa: não se
pesquisa o que não poderá ser utilizado e só é utilizado o que
interessa à indústria química. Para isso, a indústria anuncia
investimentos para manter postos de trabalho. A situação mais
marcante é a dos pesquisadores, que com suas pesquisas procuram
construir a base para a aceitação dos transgênicos, de forma a
assegurar seus próprios empregos. Nessa situação, é possível
desconsiderar os interesses da indústria química e dos cientistas
por ela financiados?
Ideologias
surgem em decorrência da junção entre interesses e conhecimento. Há
poucos exemplos na história da ciência que demonstram, de forma tão
evidente, o caráter ideológico da técnica como o dos transgênicos.
Também não há outro setor da pesquisa pública, em que universidades,
laboratórios públicos, empresas privadas e multinacionais cooperem
tanto no desenvolvimento de uma técnica e em sua pesquisa, quanto na
área da transgenia. Muitos pesquisadores reconhecidos simpatizam com
a proposta de comercialização de seus resultados e utilizam sua
posição acadêmica para forçar o uso desta técnica não desejada pela
maioria da sociedade.
Nesse
contexto, estudos críticos, que há mais de 10 anos apontam para os
efeitos negativos dos transgênicos, são simplesmente ignorados de
forma irresponsável. O argumento dominante é que não se deve deixar
de usar uma “tecnologia de futuro”. E isso, mesmo sabendo que os
cultivos transgênicos existentes não são mais produtivos e
sustentáveis do que os cultivos convencionais. A discussão sobre o
futuro está baseada em crenças, pois as experiências dos
agricultores demonstram o contrário: após poucos anos de cultivo das
plantas transgênicas resistentes a herbicidas e/ou insetos, surgem
resistências de inços e pragas, de maneira que a técnica perde sua
eficácia. Os cientistas e políticos “neutros” também desconsideram
os efeitos negativos dos transgênicos ao meio ambiente e à saúde de
seres humanos e animais. O meio ambiente e as pessoas, que vivem nos
países em que os transgênicos foram introduzidos há mais tempo, são
atingidos, especialmente, em função do aumento do uso de
agrotóxicos, correspondendo aos interesses de expansão da indústria
química e farmacêutica.
Se trata,
portanto, de uma decisão política, e os transgênicos estão
relacionados com a dominação na sociedade. As tentativas
tecnocráticas de forçar a sociedade a usar uma técnica inefetiva
estão fundamentadas ideologicamente, seja através do medo
neomalthusiano (de que futuramente faltaria comida para alimentar
uma crescente população mundial) ou através da crença nos “milagres
da técnica”. Se o uso de uma técnica representa vantagens para uma
minoria e causa prejuízos para a maioria, a decisão sobre sua
utilização cabe à sociedade. Os cultivos experimentais em ambiente
aberto, assim como os cultivos comerciais de transgênicos,
representam a destruição de lavouras e de bens alheios, em função da
contaminação resultante. Contra isso, as leis de proteção à maioria
atingida são bem vindas. Os representantes da indústria química e
seus defensores, que em outros momentos se manifestaram como
legalistas, agora não querem aceitar esse tipo de decisão e
continuam tentando propagar a “razão técnica”, com o objetivo de
afirmar seus interesses ideológicos.
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