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SHEILA
RIGANTE ROMERO
Mestre em História Comparada pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisadora do
Laboratório de História Antiga – LHIA/UFRJ.

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A introdução da Philía nas relações
homoeróticas entre Erastês e Erômenos nas obras
simpóticas de Platão e Xenofonte
Sheila Rigante Romero
Este artigo almeja compreender como eram
demonstrados, no período clássico ateniense, os comportamentos
homoeróticos: a pederastia exercia uma função social claramente
definida, obrigatória, predeterminada ou até mesmo peculiar? As
relações ditas pederásticas se modificaram ou se mantiveram
uniformes por toda a Atenas democrática?
Para os estudiosos Sutton (1992) e
Shapiro (1992), ao buscarmos uma compreensão a respeito dos
comportamentos sexuais entre pessoas do mesmo sexo na Atenas
Clássica, que ocorriam geralmente ao final dos banquetes, é de
fundamental importância atentarmos para a relação intrínseca entre
amizade (philía) e amor (eros) observada na ligação
entre erastês e erômenos. Essa união será percebida
como uma rede, como um dos fios condutores desta tessitura
sócio-histórica.
Na época clássica, esperava-se que todos
os cidadãos da pólis ateniense fossem phíloi (amigos)
entre si, tanto nas esferas cívica e pública, quanto nas esferas
pessoal e privada. Essa regra, tradicional, ao mesmo tempo em que
promovia a coesão social, fazia com que os interesses particulares
se sobrepusessem aos interesses públicos. As relações de philía
ao mesmo tempo em que garantiam a reprodução da estrutura
políade, por meio de redes de alto grau de coesão social,
também causavam conflitos entre: os interesses de amigos versus
os interesses da pólis; os interesses de amigos versus
os interesses de parentes; os interesses dos amigos versus
os interesses pessoais e os interesses pessoais versus a
letra das leis em vigor (THEML, 2005, p. 09-10).
Por essa razão, para os atenienses
aristocráticos, como veremos mais adiante, a amizade possuía,
principalmente, um caráter político, um ideal de solidariedade entre
os cidadãos do grupo ao qual pertenciam. Como nos explica Pizzolato,
observamos nesse período que a idéia aristocrática de philía
trazia em si um forte conteúdo de seletividade o que nos indica a
importância dos áristoi em se diferenciarem do todo da
pólis. Isso se tornou mais intenso no período clássico porque
indivíduos de outros segmentos sociais, entre eles os metecos ricos,
estavam participando da vida política da pólis (na ascensão
da democracia radical) e, portanto, os aristocratas precisavam se
afirmar enquanto um grupo de iguais (PIZZOLATO, 1993, p. 07).
Logo, em nosso entender, os laços de
philía vinculavam-se a qualquer grupo social e também à
comunidade políade. Esses laços ajudavam a manter o bem-estar
e a harmonia entre os cidadãos. Verificamos, assim, que amigos eram
indispensáveis, por motivos de honra e segurança pessoal. Viver na
pólis exigia que cada um priorizasse os interesses coletivos
em detrimento dos interesses privados e mais, não existia para cada
cidadão um outro lugar para se viver que não fosse na sua pólis.
Daí que, pólis e philía produziram conflitos em
diversos níveis da estrutura social opondo tó koinón a tó
ídion – público versus privado (THEML, 2005, p.
10).
Asseveramos, com isso, que a philía,
por abarcar uma complexa rede de relações pessoais, políticas,
econômicas e familiares, ultrapassa a noção de amizade que hoje
compartilhamos. A philía permitia ao indivíduo um processo de
formação pessoal e social que o fazia ser reconhecido socialmente e
dentro de seu próprio grupo. Ao priorizar a philía,
observamos que a preservação da ligação entre os indivíduos
fortalecia e solidificava a relação de identidade, solidariedade e
coerência no seio do grupo. Essas relações certificavam a
diferenciação do grupo no âmago da sociedade e a sua contraposição a
outros grupos e valores éticos e sociais.
Dessa forma, nos fazemos o seguinte
questionamento: sendo a philía um elemento de ligação entre o
sujeito e sua vida pessoal, política e comunitária, qual a sua
função na relação entre erastês e erômenos observadas
nos banquetes atenienses dos séculos V e IV a.C? Como Platão e
Xenofonte a entendiam nas relações homoeróticas? Essa teria uma
função social ou apenas pessoal?
Os pensadores atenienses ao introduzirem
a philía como um elemento fundamental na relação homoerótica
nos banquetes a valorizavam de modo a torná-la honrada dentro de
seus princípios éticos e filosóficos. A philía, nas obras
simpóticas, não se configurava apenas numa relação
exclusivamente direcionada aos prazeres corporais e, muito menos,
modificava a importância do casamento. Dentro desse campo de
raciocínio, devemos considerar que a philía denotava-se entre
os pensadores como uma espécie de afeição entre o amante e o amado,
o que, portanto, reforçava ainda mais sua distinção frente a uma
relação voltada exclusivamente ao desejo do corpo (REIS, 2002, p.
82).
Para Reis, a relação entre erastês
e erômenos, discutida por Platão e Xenofonte, permitiu o
surgimento da philía entre um jovem e um adulto, e a
philía, por sua vez, não foi investida de valores condenáveis
pela democracia, daí tem-se que a valorização das práticas
homoeróticas passava por representações idealizadas que propunham
determinado nível de identidade ente eros homoerótico e
philía, embora a philía entre os áristoi fosse
encarada de modo diferente do que entre os dêmoi, o que valia
era a intenção de minimizar os possíveis ataques ao homoerotismo
ressaltando os seus aspectos políticos (2002, p. 79).
A relação de philía entre os
cidadãos atenienses continuava a existir mesmo após o amadurecimento
do jovem cidadão, o que nos faz assegurar que ela trazia consigo uma
certa estabilidade, que “tornava possível a vida social dos
indivíduos, mesmo que no interior de seu próprio grupo” (REIS, 2002,
p. 97). Podemos dizer, desse modo, que a homophilia foi ao
encontro desses interesses ao levar a associação, a união entre os
indivíduos, pois se a relação tinha como ponto de partida a
diferença de idade, com o passar do tempo buscava estabelecer certa
medida entre as partes envolvidas, reequilibrando o processo; o
indivíduo passivo tornava-se aos poucos participativo das várias
esferas de atividades do grupo, através da interação com outros
indivíduos mais velhos e experientes, entre os quais estava o seu
erastês.
Neyde Theml atenta para a questão da
reciprocidade existente entre os parceiros. Em sua opinião, os
amigos precisavam ser úteis uns aos outros, deviam cultivar o dar e
o receber recíproco. Ela salienta ainda que, no caso da sociedade
ateniense clássica, não se tratava de uma forma de relacionamento
regulada a partir da prestação de serviços, retribuição de favores
ou obrigações de dependência pessoal; quando se fazia um favor a um
amigo não se esperava receber algo em troca, mas sim que, em algum
outro momento, este amigo também pudesse dar. A conduta de dar e
receber reciprocamente entre os parceiros era um elemento tão
fundamental na relação entre erastês e erômenos que
Platão recomendava ao erômenos (amado) – antes de aceitar um
relacionamento mais íntimo – que verificasse se o amante que o
cortejava lhe traria (futuramente) os benefícios e vantagens que uma
amizade nobre poderia lhe proporcionar (THEML, 1995, p. 139-141).
Por essa razão, como podemos verificar no discurso de Pausânias, o
filósofo recomendava aos jovens que não concedessem a sua amizade a
um “amante popular ou pandêmio” apenas interessado nos prazeres dos
belos corpos, que somente oferecia uma amizade passageira, o que não
traria ao erômenos nenhuma vantagem no futuro. O erômenos,
assim, deveria resistir às tentativas de conquista vindas do
erastês o máximo que pudesse:
É desonroso conceder uma afeição
indigna a um homem indigno, é nobre conceder uma afeição digna a
um homem honrado. E por indigno entendemos justamente esse
amante popular, ou pandêmio, que prefere o amor do corpo ao amor
da alma, e não é constante, por não se constante o objeto a que
se prende: logo ao passar a flor da juventude, objeto da sua
paixão, evola-se e desaparece, renegando suas muitas promessas e
discursos. Aquele que ama alguém pela beleza do seu caráter,
esse permanece pela vida fora, porque sua afeição se une com o
que é constante. São esses nossos costumes que precisam ser
colocados à prova, para averiguar com justeza aqueles a quem se
deve conceder afeição e aqueles a quem se deve recusá-la. E com
este fito se recomenda a uns que persigam e a outros que se
defendam, a fim de ajuizar, nesta competição, a qual das duas
categorias pertencem tanto o erastês como o erômenos
(PLATÃO, O Banquete, 183d-e; 184 a).
Examinamos, dessa forma, que a philía
ao apoiar o liame entre os companheiros (amado/amante), sustentava,
por sua vez, a agregação, a coesão, a concórdia, a paz e a ordem
entre iguais ou dos que pretendiam, futuramente, ser iguais. Com
isso, “a philía seria como uma força de socialização, de
integração do erômenos no grupo, já que o estreitamento de
laços com o indivíduo de mais idade contribuía, igualmente, para a
educação do jovem” (REIS, 2002, p. 80). Logo, afirmarmos que para
Platão a amizade originada do eros homoerótico estava
essencialmente ligada à relação entre erastês e erômenos,
devido ao fato dos amantes dignos e honrados valorizarem, acima de
tudo, a amizade e não somente os belos corpos, o que contribuía para
tornar essa relação duradoura e recíproca.
Notamos ainda em Xenofonte a valorização
da amizade na relação entre erastês e erômenos, quando
diz que “sem amizade (philías) nenhuma relação vale a pena” (Banquete,
VIII, 13). Afirma, além disso, que a relação entre os companheiros
se dava pela afeição entre eles, tanto pelos belos corpos, quanto
pelas belas almas. Contudo, com o passar dos anos e o amadurecer do
rapaz, se fazia mais digna a afeição somente das belas almas. Ao
colocar a philía como elemento fundamental na relação
homoerótica entre erastês e erômenos apenas procurava
valorizá-la, torná-la digna, honrada e virtuosa – o que não
significava que deveria ser menos prazerosa – para, assim, ser
valorizada pela pólis, ao mesmo tempo em que criava laços de
igualdade entre os cidadãos.
Na compreensão de Reis, os valores
vigentes no interior da sociedade democrático-ateniense pressupunham
a contradição entre a liberdade (eleutheria) de conduta de
um cidadão e a igualdade (isonomia) de direitos perante a
lei de outro cidadão. A liberdade do erômenos antes de
concluir sua formação colocaria em perigo as regras sociais, a
igualdade de direitos de todos os cidadãos. Para ultrapassar tal
contradição “que punha em risco a ordem social e a desestruturação
da sociedade, formulou-se, então, o preceito sophrosýne”
(autocontrole, comedimento, justa medida). Dessa forma, a liberdade
deveria ser comedida, moderada para trazer paz e equilíbrio na
sociedade, ou para o interior do próprio grupo ao qual o jovem fazia
parte. Para a autora, é nesse sentido que os valores relativos ao
homoerotismo na pólis ateniense do período clássico se
aproximavam do valor da sophrosýne, para “criar lealdade a (sic)
autoridade aristocrática com base em valores que se pretendiam
isonômicos, na medida em que se criava laços de igualdade entre
os iguais” (REIS, 2002, p. 85).
A preocupação de Platão e Xenofonte ao
inserirem na relação homoerótica entre erastês e erômenos
a noção de philía demonstrava que a relação entre os
parceiros não poderia existir exclusivamente para atender aos
desejos dos amantes pelos rapazes, devido ao fato de ser passageiro
e sem valor, o que mostrava que não existia uma afeição verdadeira
pelo jovem. A relação que se baseava somente no amor pelos corpos
acabava quando o desejo terminava.
Porquanto, a philia aparece
euforizada no relacionamento homoerótico por Platão e Xenofonte
somente quando relacionada ao eros chamado celestial.
Sem dúvida, podemos afirmar que existia uma distinção entre uma
espécie de eros carnal e outro eros celestial
(espiritual) que se caracterizava por uma verdadeira afeição entre
os companheiros. Entretanto, como assegura a autora, devemos lembrar
que Platão nos apresenta uma visão idealizada das práticas de seu
tempo. Platão com sua teoria do “mundo das ideias”, em que, um dos
pressupostos básicos refere-se à idealização dos objetos corpóreos,
físicos e materiais, entendia tudo o que se fundamentava em aspectos
sensíveis, ou seja, concretos, como sendo oposto ao “mundo ideal”,
isto é, como sendo corruptíveis, passageiros e falsos, e, portanto,
como não sendo dignos de serem apreciados e buscados.
Xenofonte, por sua vez, desenvolveu o
seu ideal de perfeita kalokagathia, ou seja, seu ideal de
virtude, dignidade, virilidade, integridade e honra de caráter,
sempre baseado na perspectiva dos valores e da tradição
aristocrática, que contrapunha o grupo dos áristoi,
naturalmente superiores, aos homens comuns. Daí se entrevem a
oposição entre “democracia versus aristocracia”, uma vez que
a democracia abria espaço para a participação política dos que eram
incapazes para tal.
Calame infere que a relação de
homophilia, entendida em sua função propedêutica, que se
manifestava em uma inversão de tipo iniciático, apresentava no
início do período clássico uma assimetria que não deve ser
interpretada em termos de papel ativo (ateniense adulto) e passivo
(jovem ateniense). Nem a transformação ativa exigida ao jovem, nem,
tampouco, a posição adotada pelo adolescente em seu contato sexual
com o ateniense já formado, permitem chegar a tal conclusão. De
acordo com o historiador, para os atenienses da época clássica a
passividade e sua reprovação afetavam, essencialmente, o
homoerotismo estável do afeminado. Por outro lado, embora os papéis
designados a cada sexo na idade adulta fossem claramente distintos e
definissem gêneros separados, a similitude dos processos que
conduziam a cada um deles impedia a assimetria constitutiva desses
processos da diferença entre os sexos (CALAME, 2002, p. 104).
Verificamos, assim, que a philia
não era determinada pela reciprocidade assimétrica de direitos e
deveres, de obrigações de tipo hierárquicas, ela denotava uma
relação entre iguais, que subentendia uma simetria entre os
parceiros. Contudo, no momento em que a relação se compunha apenas
pelo desejo físico era seguida pela diminuição do status do
objeto de desejo. O rapaz quando se sujeitava aos desejos, caprichos
e vontades de seu amante, desempenhava um papel passivo. Essa
passividade era contrária aos valores próprios da Atenas
democrática, pois o cidadão deveria exercer um papel ativo, em
nenhum momento poderia rebaixar-se a outro homem.
Quando o erômenos vivenciava,
experimentava com o erastês uma relação essencialmente
física, ele era diminuído não só como homem, ao adotar uma postura
considerada feminina, mas, também, como cidadão; pois sendo a
democracia respaldada pelo princípio de isonomía, de
igualdade perante a lei entre todos os cidadãos, ao sujeitar-se a
outro cidadão, o rapaz diminuía a si mesmo a uma categoria
semelhante a do escravo (doulos) e estrangeiro (metoikos).
Podemos dizer, assim, que o rompimento das práticas sexuais
significava (num plano ideal) que o erômenos foi capaz de
superar uma fase anterior, marcada por assimetrias, e, com isso,
atingiu uma nova posição na tessitura social, agora em pé de
igualdade com relação a seu antigo erastês. Estabelecia-se um
equilíbrio de forças, o que fazia com que a relação entrasse em
sintonia com a idéia de equilíbrio, um dos princípios mais
difundidos e buscados no interior da sociedade ateniense clássica.
Verificamos nessas práticas a expressão social e histórica que
figuravam como elemento de identidade de grupos sóciopolíticos; e
tais práticas faziam do banquete um lugar para a formação dos
cidadãos e um lugar de expressão dos conflitos políticos e de
transgressões da ordem democrática vigente.
Referências
Documentação textual
Platon, “Le Banquet”.
(1941). Platon oeuvres complètes. Tome IV. Paris: Les Belles
Lettres.
JENOFONTE.
“Banquete”. (1946). Obras completas de Jenofonte. México:
Universidad Nacional Autónoma de México.
Bibliografia sobre o tema:
CALAME, Claude. 2002. L’ éros dans la Grèce antique. Paris:
Belin.
PIZZOLATO, Luigi. 1993. L’idea di amicizia nel mondo ântico clássico
e cristiniano. Torino: Giulio Einaudi.
REIS, Rachel Correia Lima. 2002. Erastés, erómenos e os
aristocratas atenienses. Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-Graduação em História Social. Rio de Janeiro: IFCS.
SHAPIRO, H.A.
1992. “Eros in
love: pederasty and pornography in Greece”. Pornography and
representation in Greece & Rome. New York/Oxford: Oxford
University Press, p.53-72.
SUTTON Jr., Robert.
1992. “Pornography and persuasion on attic pottery”. Pornography
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THEML, Neyde. 2005. “Direito e Amizade”. Revista Justiça e
História. Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul.
Memória do Judiciário gaúcho, vol 02, n. 03, p. 01-13.
____. 1995. “As relações e
representações da philía em Atenas no V°
século a.C.” Representações da Antigüidade. III Congresso
Nacional de Estudos Clássicos – IX Reunião da Sociedade Brasileira
de Estudos Clássicos. Rio de Janeiro: UFRJ.
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