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HENRIQUE RATTNER
Professor na Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade da USP (FEA/USP); e na pós-graduação no
Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Fundador do Programa
LEAD Brasil e da
ABDL - Associação
Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças

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Meio
ambiente, saúde e desenvolvimento sustentável
Henrique Rattner
FEA/USP
Crise financeira ou do paradigma capitalista?
Pode parecer um paradoxo falar de desenvolvimento sustentável em
meio a uma das mais graves crises que afetaram o sistema capitalista
nos últimos cem anos. A crise financeira que estourou em 2008 nos
Estados Unidos e de lá se propagou rapidamente a todos os países do
mundo, evoca em sua extensão e profundidade a de 1929 que durou dez
anos e só foi superada com investimentos maciços em obras públicas
dos governos e, em última análise, com a mobilização e o rearmamento
de milhões de jovens, em preparação da segunda guerra mundial.
Outras crises típicas do sistema capitalista apontadas em sua
dinâmica destrutiva pelos críticos sociais, desde o século XIX,
conseguiram queimar ativos financeiros e setores da economia “real”,
produtivas, eclodiram em outubro de 1987,com perdas de centenas de
bilhões de US$ nos mercados acionários; em 1997, na crise que
atingiu os países asiáticos; a crise russa de 1998 e a “bolha da
Internet de 2000 que levou à desvalorização de empresas, novamente
na ordem de centenas de bilhões de dólares e que se prolongou até
2002.
Entretanto, a atual crise que começou com a quebra de bancos e de
empresas do setor imobiliário nos EUA, exigiu pesadas intervenções
do Tesouro Nacional e do Federal Reserve Bank, para socorrer as
empresas à beira de falência mas, nem assim impediram o alastramento
da crise pelo resto do mundo, alimentada por especulações e fuga de
capitais para paraísos fiscais.
A
crise atual cujos primeiros sinais foram a quebra de bancos e a
retração do crédito, segue a trajetória de um ciclo vicioso: falta
de crédito, fechamento de empresas, redução da massa salarial e dos
rendimentos dos capitalistas, redução do consumo e da demanda por
bens e serviços que, por sua vez acelera o processo de demissão de
trabalhadores e a falência do sistema produtivo.
Uma
ilustração cabal do processo é representada pelo setor automotivo
dos EUA: Como explicar a falência das três montadoras,
empresas-símbolos da pujança econômica norte americana? A redução no
número de compra de veículos não é uma explicação suficiente para os
pedidos de ajuda financeira de bilhões de dólares pelos executivos
dessas empresas que voaram para a Capital, para implorar a ajuda do
Congresso, em plena crise, com jatos particulares pagos pelas
empresas. Má gestão? Especulação nos mercados financeiros? Parece
mais uma repetição cansativa de um refrão conhecido: Embolso privado
dos lucros e socialização das perdas.
Voltamos à crise: desta vez, ela assume proporções globais e nenhum
país, nem os BRICs (Brasil, Índia, China e Rússia) conseguem
escapar. O desempenho econômico de todos os países no último
trimestre de 2008 e no primeiro de 2009, destruiu as expectativas
otimistas e revelou seu caráter universal devido a globalização
durante as últimas décadas. A crise arrastou bancos, seguradoras,
fundos de pensão e , sobretudo, as bolsas de valores.
Assistimos, além da redução drástica de juros, à intervenção dos
Bancos Centrais para aliviar a situação dos setores de importação e
exportação, gravemente atingidos pela queda da demanda em nível
mundial. Devido a queda de atividades produtivas e a falta de
crédito, o desemprego aumenta rapidamente em todos os países.
Não
se fala mais de desregulação e de responsabilidade fiscal, mas há
apelos desesperados para o Estado socorrer e salvar bancos, empresas
e aliviar a situação dos mais pobres. A
corte da taxa de juros, tanto nos EUA quanto na Inglaterra a níveis
inéditos na História, não foi suficiente para impedir a impressão de
dinheiro. Mesmo assim, há receios justificados que não será dinheiro
suficiente diante o tamanho da crise e da quantidade de ativos
“podres” já conhecidos de 1 trilhão de dólares e mais 3 trilhões que
devem aparecer nos próximos meses. Apesar dos “pacotes” de ajuda, os
PIBs dos países continuam a cair e o desemprego se alastra com a
falência de inúmeras pequenas e médias empresas. A crise se
manifesta particularmente virulenta nos países dependentes de
exportações como o Japão, Taiwan e Coréia do Sul que apresentam
perdas no PIB de mais de 10% no último trimestre de 2008.
Após três décadas de reino absoluto das doutrinas neoliberais
impostas pelos EUA, o Fundo Monetário Internacional e o Banco
Mundial, supostamente, mais eficientes, do que o Estado, volta se a
implorar a ajuda do mesmo para salvar as empresas privadas. Nos anos
oitenta, a política econômica neoliberal tinha desmontado os
controles multilaterais e nacionais sobre os movimentos
especulativos do capital transnacional. Agora, diante a
insuficiência da baixa da taxa de juros,
volta se ao receituário keynesiano de políticas de fomento do
consumo, investimentos e emprego. A gravidade da situação exige
medidas de urgência dos governos para reverter as expectativas
pessimistas dos agentes econômicos e criar disposição e ânimo para
mobilizar o excedente não consumido e investir na produção e na
geração de empregos.
A ruína do sistema internacional ou a “desglobalização”.
O
derretimento dos sistemas financeiros, nacionais e internacional,
tem contaminado a economia “real” ou os setores produtivos – a
indústria, o comércio e a agricultura. A cada dia surgem novas
estimativas sobre a retração do crescimento econômico no mundo. Com
a queda dos preços de “commodities” – petróleo, minérios e produtos
agrícolas – o comércio internacional, os transportes marítimos e
aéreos encolheram, assim como o turismo para países que dependem
dessa fonte de receitas para sua sobrevivência. Nos países em
desenvolvimento, a situação piorou devido a redução significativa do
fluxo de capitais sob forma de FDI – Foreign Direct Investments.
Como no caso do comércio, a desglobalização financeira afeta
duramente a todos, embora haja diferenças na profundidade dos
impactos. O Extremo Oriente foi menos afetado por dispor de amplas
reservas de moeda estrangeira. Somente a China dispõe de quase 2
trilhões de dólares em letras de tesouro norte americanos. Mas, a
Europa Oriental e Rússia foram mais duramente atingidos por terem
acumulados débitos com bancos estrangeiros e suas contas correntes
apresentam déficit assustador.
Investimentos estrangeiros têm diminuído no mundo todo â razão de
mais de 30%, sobretudo nos países ricos, como Irlanda, Alemanha,
Finlândia e outros que passaram por uma saída líquida de capitais.
Outro aspecto da globalização – a mobilidade da mão de obra – tem
sofrido uma queda acentuada. A Organização Internacional de Trabalho
estima que o desemprego no mundo, somente no ano de 2009, passará
dos 30 milhões, por causa da recessão econômica. Haverá também uma
redução drástica de movimentos migratórios que alimentavam o “boom”
da construção civil nos EUA (latinos), na Irlanda(polonêses), na
Espanha (norte africanos) e na China, cuja população rural que saiu
do campo para trabalhar nas indústrias, deverá voltar, com um
destino incerto. Isto certamente afetará as remessas de países ricos
para os pobres, dos milhões de trabalhadores vindos do sudeste
asiático para os países do Golfo Pérsico, jovens africanos que foram
para a África do Sul e norte africanos que foram para Espanha,
Itália e França, afora de milhões de trabalhadores que saíram da
Ásia Central para trabalhar na Rússia e que estão sendo mandados de
volta para suas casas.
O
grande triunfo da globalização – a construção de cadeias de
suprimento de peças e componentes distribuídos em escala global –
que resultariam em maior eficiência e lucratividade, está dando
sinais de enfraquecimento com o alastramento da recessão econômica e
a crise financeira.
A
queda generalizada das bolsas no mundo em mais de 50% no último
trimestre de 2008, somou perdas de dezenas de trilhões em valores
monetários, embora muitos de natureza fictícia. O PMB – Produto
Mundial Bruto ou, o total de bens e serviços produzidos em um ano,
foi estimado, antes da erupção da crise, em 45 trilhões de US
dólares. Entretanto, o valor monetário de papéis em circulação,
fonte de derivativos e outras formas de especulação teria alcançado
um nível múltiplo , sem qualquer lastro na economia real, da
produção e de comércio. O “estouro da bolha” deixou praticamente
todas as instituições financeiras e muitas empresas que tinham
embarcado na “dança macabra”, sem fundos e reservas suficientes para
honrar seus compromissos para com seus clientes. Daí, iniciou se o
“circulo vicioso”: Sem crédito, não há produção, demitem se os
empregados, cai o consumo, o que resulta em nova retração das
atividades econômicas.
A crise do desemprego.
Diante da extensão e profundidade da onda de desemprego, em todos os
países, os governos estão sendo pressionados para ajudar aos
atingidos, da mesma forma como auxiliaram os bancos e outras
instituições financeiras. Os impactos mais dolorosos estão sendo
sentidos nos países mais pobres onde milhões de trabalhadores que
ocuparam posições no fim da cadeia de suprimentos, estão perdendo
seus empregos e devem voltar para o mercado informal. Estimativas do
Banco Mundial calculam que mais de 50 milhões de pessoas cairão ao
nível abaixo da pobreza, somente neste ano de 2009. Ao mesmo tempo,
a onda de protecionismo está se espalhando sob forma de incitar os
consumidores de evitar importados e de comprar produtos nacionais.
Na França, o presidente Nicolas Sarkozy anunciou o repatriamento de
uma fábrica de automóveis da Renault estabelecida na Eslovênia, para
gerar pelo menos 400 empregos no país. É imprevisível o desastre que
se seguirá à imitação dessa política por outras grandes empresas
multinacionais. Por outro lado, os governos parecem incapazes de
enfrentar as consequências sociais de um contingente crescente de
trabalhadores desempregados.
A
perda do emprego deve ser analisada em suas dimensões psico-sociais,
políticas e humanas, além dos aspetos econômico – financeiras. Os
desempregados perdem não somente o salário ou a renda regular, mas
tornam se também alienados, em suas relações produtivas com a
comunidade, a família e toda a sociedade. A perda da função social
de provedores das necessidades da família resulta em perda da auto
estima e, também, do respeito dos outros, inclusive da mulher e dos
filhos.
O
número crescente de desempregados tende a enfraquecer os laços
tradicionais de solidariedade, amparados por sentimentos de
identidade e de pertencer, sem os quais as pessoas se sentem
abandonados, inseguras, marginalizadas e apreensivas quanto ao seu
futuro. Nos casos extremos, tal situação pode levar ao suicídio,
como aconteceu nos anos da crise de 1930, na Alemanha e outros
países da Europa Central. A dignidade humana, baseada em identidade
individual e coletiva, constitui um dos pilares de um convívio
social organizado e harmônico e de estabilidade suas instituições. O
desemprego torna se, assim, em problema de saúde pública, em suas
dimensões físicas – nutrição e assistência médica insuficientes, e
psíquicas em consequência de distúrbios de personalidade e de
comportamento.
Apelos aos governos para que criem empregos ou defendam os direitos
dos trabalhadores contra as novas práticas administrativas, tais
como a “reengenharia”, organizações “enxutas” e flexibilização da
legislação trabalhista têm pouco ou nenhum efeito sobre a dinâmica
de investimentos, fusões ou desmembramentos de unidades produtivas
por parte dos conglomerados e empresas transnacionais, cujo objetivo
central é a maximização do retorno sobre o capital investido, no
prazo mais curto, independentemente dos efeitos sociais negativos.
Por isso, inevitavelmente prosseguem os atentados ao meio ambiente,
com outros sérios impactos na saúde de toda a população.
Sobre o estado do meio ambiente, neste início de século XXI.
Desde a primeira reunião internacional sobre o meio ambiente e
desenvolvimento, realizada em Estocolmo, Suécia, em 1972, muitas
outras a seguiram: A CNUMAD – Conferência das Nações Unidas sobre o
meio ambiente e desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em
1992, outra reunião intermitente, também no Rio em 1997 que
coincidiu praticamente coma de Kyoto, no Japão e inúmeras outras
reuniões, em Johanesburgo, África do Sul e Bali na Indonésia, em
fins de 2007 e, mais recentemente, a de Londres que devia preparar a
agenda para nova reunião da Convenção do Clima da ON U, a realizar
se em dezembro de 2009, em Copenhague, Dinamarca.
Os
parcos resultados alcançados nesses 37 anos de reuniões e
conferências das quais participaram milhares de delegados,
políticos, jornalistas e representantes das ONGs – organizações não
governamentais – causam desanimo e desespero naqueles que lutam
incansavelmente para salvar o planeta e a humanidade de desastres
ecológicos cada vez mais frequentes e violentos.
Mas, tal como na reunião de Kyoto quer procurava fixar metas para a
redução de emissões de gases poluentes responsáveis pelo efeito
estufa, também nas seguintes não se chegou a um acordo porque os
principais países poluidores – os EUA e os BRICs – recusaram se
terminantemente a assumir suas responsabilidades para reduzir, nos
próximos quinze anos (1997-2012) suas emissões de CO2, NO4, SO2,
metano e material
particularizado, responsável por doenças respiratórias, sobretudo de
crianças e de idosos, destacando se por sua arrogância a delegação
norte americana que, devido à sua recusa numa reunião internacional
que requer unanimidade na votação, inviabilizou todos os esforços.
Em 1997, a Rússia aderiu ao Protocolo e, no final do mesmo ano, a
Austrália sob governo trabalhista declarou sua adesão às metas da
Convenção. Permanecem fora, por enquanto, os EUA e os três países
“emergentes” – China, Índia e Brasil que alegam seu direito de
poluir até terem alcançado o nível de desenvolvimento dos países
“ricos”. O argumento é frágil no caso do Brasil, cujas queimadas de
florestas são responsáveis por aproximadamente 20% das emissões de
CO2 no mundo. Vários relatórios publicados nos últimos anos pelo
PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – para
facilitar o balanço da saúde ambiental do planeta e orientar os
debates sobre os rumos da política ambiental a ser adotada para
evitar desastres e seus impactos sobre populações indefesas, apontam
os principais problemas:
-
A
concentração de gás carbônico na atmosfera é um dos fatores que
provocam o efeito estufa. Apesar de amplamente documentado e
reconhecido ma Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças
Climáticas, posteriormente reforçado pelo Protocolo de Kyoto,
nenhuma ação concreta foi iniciada, devido à resistência dos
EUA. O aumento do aquecimento global terrestre, em razão do
aumento de consumo de combustíveis fósseis na produção de aço,
cimento, energia termoelétrica e queimadas de biomassas, causou
severos danos à camada de ozônio, com severos impactos na saúde
das populações afetadas por câncer da pele.
-
A
crescente escassez de água potável: com uma demanda crescente em
consequência do aumento da população mundial, do desenvolvimento
industrial e da agricultura irrigada, verifica se uma oferta
limitada de água potável distribuída de forma muito desigual.
Relatórios do PNUMA estimam que 40% da população mundial sofrem
de escassez de água, desde a década de 1990. A falta de acesso à
água e de saneamento básico tem resultado em centenas de milhões
de casos de doenças, provocando mais de cinco milhões de mortos
a cada ano.
-
A
degradação de solos por erosão, salinização e o avanço da
agricultura irrigada em grande escala, os desmatamentos e a
remoção da cobertura vegetal natural, o uso de máquinas pesadas,
as monoculturas e o uso de sistemas de irrigação inadequados,
além de regimes de propriedade arcaicos, contribuem para a
escassez crescente de terras aráveis e assim, a segurança
alimentar da população mundial.
-
A
poluição de rios, lagos, zonas costeiras e baías, tem causado
degradação ambiental contínua por despejo de volumes crescentes
de resíduos e dejetos industriais e orgânicos. O lançamento de
esgotos não tratados aumentou dramaticamente nas últimas
décadas, com impactos eutróficos severos sobre a fauna, a flora
e os próprios seres humanos.
-
Os
desmatamentos contínuos: relatórios do PNUMA estimam uma perda
de florestas somente na década dos noventa, de 94.000 km
quadrados ou seja, 15.000km quadrados anualmente só no Brasil,
descontadas as áreas reflorestadas. Uma das consequências do
desmatamento é a perda da biodiversidade, particularmente nas
áreas tropicais. Mudanças climáticas, extração predatória de
recursos naturais e minerais, transformações no uso do solo
estão dizimando a flora e fauna em diversas regiões de mundo.
-
O
crescimento exponencial da população, acompanhado de novos
padrões de produção e consumo resulta em enormes quantidades de
resíduos tóxicos poluentes com efeitos desastrosos na
biodiversidade. Embora não existam dados precisos sobre espécies
extintas nas últimas três décadas, o PNUMA estima que 24%
(1.183) de espécies mamíferas e 12% (1.130) de aves estariam
ameaçados de extinção.
-
A
situação se configura particularmente dramática nas áreas
urbanas e metropolitanas nas quais vive quase metade da
população mundial, a maioria em condições de alimentação,
habitação, saneamento e acesso a facilidades de recreação e
lazer cada vez mais precárias. A concentração ininterrupta de
desempregados, miseráveis e excluídos nos espaços urbanos
caracterizados por desigualdades extremas produz o fenômeno de
anomia social – marginalidade, delinquência e narcotráfico que
enfraquecem a coesão social e ameaçam a própria governabilidade
da sociedade. Um relatório das Nações Unidas estima que
aproximadamente 800 milhões de habitantes urbanos vegetam abaixa
da linha de pobreza e são extremamente vulneráveis a desastres
naturais e mudanças ambientais. Essas mudanças são diretamente
responsáveis pela saúde deteriorada e a baixa qualidade devida,
sendo a falta de saneamento básico e a poluição do ar
responsáveis pela maior parte de doenças e mortes.
Saúde e meio ambiente.
Na
parte anterior do texto apontamos para alguns dos impactos causados
na saúde humana, pela degradação do solo, ar e água, além dos
efeitos desastrosos de condições de moradia inadequada e de falta de
acesso ao saneamento básico,, sobretudo nas favelas e cortiços nas
áreas metropolitanas.
A
indústria de mineração e de beneficiamento de minérios e as
indústrias petroquímicas, entre outras, são responsáveis pelo
despejo ou descarga de resíduos químicos letais (mercúrio, benzeno,
enxofre etc.) nos solos e rios, causando impactos muitas vezes
irreversíveis na saúde das populações residentes na região. Outra
grave ameaça à saúde humana origina se nos produtos alimentícios
fornecidos por uma agricultura praticada em larga escala, baseada
numa poderosa indústria de agrotóxicos, pesticidas e fertilizantes
químicos que contaminam seus produtores e consumidores. Alegando a
necessidade de prover alimentos básicos à população crescente
concentrada nas áreas urbanas, a agricultura moderna utiliza
pesticidas, hormônios e fertilizantes químicos que causam a
devastação do meio ambiente, a contaminação dos lençóis freáticos e
a deterioração da saúde dos consumidores – elo final da cadeia.
Significativo a respeito é a introdução de transgênicos que, tal
como a “revolução verde” nos anos cinquenta, irão resolver os
problemas de escassez de alimentos, mas cujos riscos à saúde humana
e animal não têm sido pesquisados e avaliados devido às pressões
políticas das grandes empresas produtoras. Assim, sua penetração nas
áreas de lavouras tem acuado ou eliminado as culturas tradicionais e
as variedades genéticas, além de criar uma dependência dos
agricultores dessa tecnologia cuja propriedade é concentrada nas
mãos de poderosas empresas e oligopólios.
Mas, os impactos mais sérios na saúde humana são produzidos,
indubitavelmente, pelas condições de vida, a desigualdade social e a
consequente exclusão e marginalidade que atingem dezenas de milhões
de brasileiros e centenas de milhões da população mundial. Talvez,
por isso, um relatório recente divulgado
pela OMS – Organização Mundial de Saúde – em agosto de 2008 e
elaborado por um grupo de especialistas com ampla experiência em
desenvolvimento e saúde, inicia se com as palavras “Justiça social é
um assunto de vida e morte”. O documento concentra se na questão de
desigualdade e sua relação com a saúde e conclama os governos a
superar o fosso entre ricos e pobres, no período de uma geração. O
fosso é configurado pelos extremos de mortalidade infantil e
expectativa de vida entre os mais pobres da África, Ásia e América
Latina quando comparados aos indicadores das classes média e alta,
moradores nas áreas urbanas privilegiadas.
O
relatório aponta para fatores sociais, políticos e econômicos que
podem determinar ...”se uma criança irá crescer e desenvolver seu
pleno potencial durante sua vida ou se morrer cedo”... Para reduzir
os riscos dessa fatalidade, os especialistas recomendam, entre
outras medidas, a melhoria da qualidade de vida, particularmente das
mulheres e moças nos países pobres, mediante investimentos em
cuidados às crianças, na educação e nas condições de trabalho.
Insistem na necessidade de corrigir a distribuição desigual de
dinheiro, poder e de outros recursos, por meio de um melhor sistema
de governança, apoio à sociedade civil e políticas econômicas mais
equitativas.
Outro fator importante para tornar o mundo em um lugar mais justo e
saudável para os pobres, seria a transparência nas decisões e o
monitoramento dos progressos em programas de eliminação das
desigualdades na área de saúde.
O
relatório seria apenas uma manifestação louvável de expectativas e
de exortação do poder público para empreender políticas de
distribuição de renda? Os autores reconhecem que o crescimento
econômico tem impacto importante, embora possa levar, como de fato
ocorre, à maior desigualdade, sobretudo se não houver políticas
públicas para melhorar o nível de saúde das populações mais pobres.
Outros fatores não monetários referem à insegurança de emprego que
pode levar à angustia e depressão, indicadores de saúde mental
afetada.
A
vacinação de crianças, a educação sexual de meninas e a informação
sobre nutrição adequada às mães podem melhorar o nível de saúde
pública. A análise da estrutura dos serviços de saúde dá destaque à
cobertura universal do tipo SUS que produziria melhores resultados
do que outros modelos, vantagem essa documentada pelos indicadores
de saúde de países como Costa Rica e Cuba, superiores aos dos outros
países da América Latina, materialmente mais ricos. Também, a
posição relativa do ministério da saúde na estrutura de poder e,
portanto, a possibilidade de se obter mais verbas, seria outro fator
determinante.
No
fundo, os problemas de saúde pública têm raízes sistêmicas e
interdependentes que refutam e inviabilizam qualquer abordagem
linear e cartesiana. Donde se infere que qualquer reducionismo, em
se tratar de problemas sociais complexos, se revela estéril e
improdutivo. Para intervir nesse cenário desalentador é preciso
melhorar os indicadores da eficácia das políticas públicas de saúde,
para informar e conscientizar a sociedade civil, organizada e
motivada para sua plena participação nas decisões que afetam sua
saúde e seu bem estar.
A
comprovação empírica de algumas das hipóteses levantadas acima pode
ser extraída de duas publicações recentes do Ministério da Saúde do
Brasil: Vigilância da Saúde Ambiental – Dados e Indicadores
Selecionados – 2006, elaborada sob a coordenação geral de Anamaria
Testa Tambellini, e
IDB 2007 Brasil –
Indicadores e Dados Básicos para a Saúde, editada pela RIPSA – Rede
Interagencial para a Saúde. Ministério da Saúde e OPAS – Organização
Panamericana de Saúde.
Voltando à sustentabilidade.
O
conceito de sustentabilidade havia sido cunhado no relatório da
Comissão Brundtland, divulgado em 1987, sob o título “Nosso Futuro
Comum”. Os representantes dos países concordaram com a elaboração da
Agenda 21 na qual se listavam metas e estratégias para os principais
obstáculos ao desenvolvimento, desde o nível local, regional,
nacional e até internacional. Apesar das críticas formuladas pelos
autores, o tom geral era de otimismo e confiança nas políticas
propostas para superar os desafios à construção de um mundo
sustentável. Para definição de desenvolvimento sustentável foram
apontados três critérios: economicamente viável; socialmente
equitativo e ecologicamente inofensivo. Ignorava se , na teoria e na
prática, a dimensão ética da vida em sociedade, face à dinâmica
“perversa” da acumulação e reprodução do capital e seus impactos
devastadores na espoliação e alienação dos trabalhadores e dos
recursos naturais. O raciocínio que postula a prioridade do
crescimento econômico como resposta aos desafios do desenvolvimento
é falacioso, pois a cada dia aumentam as dúvidas sobre um modelo de
crescimento que beneficie a poucos e traga desgraças para muitos. Em
todas as sociedades, as pessoas se tornam angustiadas, frustradas e
revoltadas diante da falta de perspectivas e da incapacidade dos
governos de atender suas perspectivas de bem estar. O Estado perdeu
o monopólio de poder coercitivo para grupos armados envolvidos no
tráfico de drogas, de armas ou de jogos ilegais. Entre os defeitos
sociais desses processos desestruturadores destaca se a percepção de
uma situação de caos, de insegurança, de perda de identidade e
assim, o enfraquecimento da solidariedade social. In fere se ,
portanto, que o conceito de sustentabilidade não pode ser reduzido
ao “esverdeamento”, ao ecologicamente coreto e, tampouco, ao
economicamente viável (para quem?). Há uma dimensão social e ética
que deve ser priorizada, assegurando os direitos humanos e a justiça
social para todos. Caberia ao Estado zelar pela “internalização” dos
custos sociais e das deseconomias das metrópoles, penalizando seus
responsáveis. Entretanto, a estrutura do sistema político não toca
nos privilégios das elites, enquanto ignora as necessidades das
populações desamparadas. De pouco adiantará o crescimento econômico
se for em setores que consomem matéria prima e fontes energéticas
não renováveis, poluem o meio ambiente e deixam resíduos tóxicos de
difícil e custoso tratamento. A indagação sobre “como romper o
círculo vicioso” nos leva à dimensão política, pouco explorada, dos
processos de transformação. Desigualdades geram conflitos e
violência – sintomas de sociedades insustentáveis – para conquistar
ou distribuir melhor o acesso às posições de mando, ou seja,
instaurar um regime mais democrático e solidário. O esgotamento do
paradigma de desenvolvimento capitalista, cuja natureza
centralizadora e autoritária inviabiliza uma evolução gradual e
pacífica para um convívio democrático coloca na pauta a busca de um
novo paradigma – uma sociedade democrática e inclusiva, protegida e
orientada por um Estado que persiga como seu objetivo a
reestruturação da sociedade, de seus espaços urbanos, da economia,
do meio ambiente e do convívio social como tarefa central de nossa
época. Retomando suas funções de planejamento e orientação das
atividades econômicas, o Estado abrirá amplo espaço para todas as
iniciativas criativas e inovadoras, individuais e coletivas.
O
modelo presente de desenvolvimento do mundo não é sustentável.
Mudanças do clima, perda de diversidade ecológica e cultural,
pobreza e desigualdade tendem a aumentar a vulnerabilidade da vida
humana e dos ecossistemas planetárias. Necessitamos de uma melhor
compreensão das interações complexas e dinâmicas entre sociedade e
natureza, à luz das relações não lineares, complexas e
retro-alimentadoras dos processos observáveis. Pesquisas recentes
nas áreas da biologia, astrofísica e computação evidenciam que em
situações de caos aparente e de desestruturação, surgem nas bordas
do sistema novas formas de organização e interação. O mesmo fenômeno
pode ser observado na vida social em situações em que “tudo que é
sólido se desmancha no ar”, quando surgem empreendimentos
autogestionárias, cooperativas de produção e de consumo, entidades
que praticam a economia solidária e outras formas alternativas ,
capazes de superar a desordem reinante. A organização coletiva –
seja nas empresas autogestionárias, seja na agricultura familiar –
permite também as manifestações das mais variadas formas de
expressão cultural, pelas quais jovens e adultos conseguem romper os
grilhões da marginalidade e encontrar um sentido para sua
existência.
Até a reunião anual do
Fórum Econômico Mundial realizado em Davos, Suíça, com a
participação de altos executivos de empresas, políticos e
acadêmicos, reconheceu a necessidade de se criar um novo sistema, em
vez do capitalismo predatório e injusto. Mas, as propostas não
passaram de um modelo que continuaria sendo hierárquico, explorador
e polarizador entre ricos e pobres. A proposta alternativa foi
proclamada pelo Fórum Social Mundial: Um outro mundo é possível e
este será pluralista, democrático e igualitário. |
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