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ALEXANDRE
REINALDO PROTÁSIO
Graduado em História, Especialista
em Educação Brasileira e Mestre em Educação Ambiental (FURG)

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A natureza no
Cárcere: o conceito
de natureza na obra
de Gramsci
Alexandre Reinaldo Protásio
O conceito de Natureza ao longo dos
“Cadernos do Cárcere” (os especiais e miscelâneos) sofreu variações
de conteúdo. Os “Cadernos” foram escritos entre fevereiro de 1929 e
junho de 1935, de acordo com a cronologia elaborada por G. Francioni
(Gramsci, 2002b: 457). Para o breve exame do conceito, não será
seguida a ordem temática, como estão organizados os Cadernos na
atual edição da Civilização Brasileira, mas sim cronológica.
Além disso, muitos Cadernos especiais e
miscelâneos foram escritos de maneira simultânea ou com poucas
semanas de diferença, o que demonstra a vitalidade da obra
gramsciana, pois podemos acompanhar, como em um “diário conceitual”,
as transformações no método e nos principais conceitos. As relações
entre o Americanismo e a natureza, presente na obra de Gramsci,
ficaram de fora deste artigo.
Transformações e oscilações no
conceito de natureza
Entre novembro de 1930 e fevereiro de
1931, Gramsci escreveu no parágrafo 18 do Caderno miscelâneo nº 7,
que a unidade nos elementos constitutivos do marxismo se dava “pelo
desenvolvimento dialético das contradições entre o homem e a matéria
(natureza – forças materiais de produção)” (Gramsci, 2004a: 236-7).
Nesse trecho, Gramsci apresenta a natureza de duas formas
complementares: componente dialético que, ao lado do homem, compõe a
realidade; e como matéria no processo produtivo.
Para o Gramsci de 1930-1932, o homem
entra em contato com a matéria (natureza) através da técnica, da
tecnologia ou do trabalho (processo produtivo). Em virtude desse
entendimento, percebe-se um avanço qualitativo na construção do
conceito, principalmente se comparado com o período da juventude
(artigos políticos): a relação não é mais de oposição (homem
versus natureza) e sim dialética e complementar. Além disso,
tem-se a decidida secundarização do termo ambiente (presente nos
artigos de juventude) em favor do conceito de natureza.
No §35, ainda no Caderno miscelâneo nº
7, escrito entre fevereiro e novembro de 1931, onde Gramsci
analisava a relação entre materialismo e materialismo histórico,
aparecem diversos trechos em que tratava das relações entre ambiente
e natureza humana. Para o autor sardo, “não foi a semeadura regular
do trigo que extinguiu o nomadismo, mas, ao contrário, foram as
condições emergentes opostas ao nomadismo que conduziram às
semeaduras regulares” (Idem: 244). Essas transformações modificaram,
na visão de Gramsci, a relação do homem com o ambiente, iniciando
uma etapa de predatismo do espaço natural. No mesmo parágrafo:
É também verdade que o “homem é o
que come”, na medida em que a alimentação é uma das expressões
das relações sociais em seu conjunto e que todo agrupamento
social tem uma alimentação fundamental própria; mas, da mesma
maneira, é possível dizer que “o homem é a sua morada”, o “homem
é o seu modo particular de reprodução, ou seja, a sua família”,
já que – na alimentação, no vestuário, na casa, na reprodução –
residem elementos da vida social, nos quais, da maneira mais
evidente e ampla (isto é, com extensão de massa), manifesta-se o
conjunto das relações sociais (Ibidem).
Na citação acima, Gramsci reuniu sob a
rubrica de “relações sociais” dois elementos complementares e
interpenetrados, natureza e sociedade: de um lado, a alimentação (“o
homem é o que come”), o corpo humano, o processo reprodutivo (a mais
“natural” das nossas relações) e a transformação da natureza
(matéria); do outro, as relações de parentesco, a cultura (“todo
agrupamento social tem uma alimentação fundamental própria”) e a
massificação da produção (“extensão de massa”).
Mais adiante no Caderno, Gramsci se
deteve na conceituação da natureza humana. Asseverava que “a
afirmação de que a ‘natureza humana’ é o ‘conjunto das relações
sociais’ é a resposta mais satisfatória porque inclui a idéia do
devir; o homem ‘devém’, transforma-se continuamente com as
transformações das relações sociais” (Idem: 245). Se for tomada a
concepção de “relações sociais” apresentada neste parágrafo (§35),
perceber-se-á que as relações dialéticas entre sociedade
(parentesco, produção, etc.) e natureza (alimento, vestuário, corpo,
etc.) compõem a “natureza humana” e que a transformação dessa
natureza humana ocorre na medida em que são transformadas as
relações sociais, ou seja, as relações entre o homem e o ambiente,
entre a sociedade e a natureza. Isso também reforçava a crítica de
Gramsci ao princípio liberal que estabelece uma “natureza humana”
(essência) universal e atemporal.
Giorgio Baratta, ao analisar o mesmo
trecho, afirma que, para Gramsci, “natureza e sociedade entram na
constituição do indivíduo tanto quanto este entra a fazer parte
daquelas, em um intercâmbio contínuo de funções e papéis” (Baratta,
2004: 128). Como Gramsci afirmou em outro trecho dos Cadernos: o
homem é o centro de amarração de todas essas relações sociais e
naturais.
No mesmo parágrafo existem oscilações
importantes no conceito de natureza humana: “também é possível dizer
que a natureza do homem é a ‘história’ (e nesse sentido, posta
história = espírito, de que a natureza do homem é o espírito),
contanto que se dê a história o significado de ‘devir’, em uma
concordia discors que não parte da unidade, mas que tem em si as
razões de uma unidade possível” (Gramsci, 2004a: 245). Gramsci
manteve em seu vocabulário os conceitos hegelianos de espírito e
devir, lembrando aos marxistas que Hegel foi o grande manancial
filosófico da obra marxiana.
No Caderno miscelâneo nº 9, escrito
entre julho e agosto de 1932, Gramsci faz a seguinte referência
sobre o idealismo: “Para Croce, as ciências filosóficas são as
únicas e verdadeiras ciências, enquanto as ciências físicas ou
exatas são ‘empíricas’ e abstratas, porque para o idealismo a
natureza é uma abstração convencional, ‘cômoda’, etc.” (Idem: 255).
A passagem reforçava a contínua superação por Gramsci dos conceitos
idealistas, principalmente no formato desenvolvido por Croce, que o
autor sardo considerava conservador frente à revolução cultural e
conceitual desencadeada por Hegel no século XIX.
Entre meados de abril e maio de 1932, no
Caderno especial nº 10, no §1, o autor sardo afirmava que “se se diz
que ‘natureza do homem é o espírito’ diz-se que ela é a ‘história’,
ou seja, o conjunto das relações sociais em processo de
desenvolvimento, ou, ainda, o conjunto da natureza e da história,
das forças materiais e daquelas espirituais ou culturais” (Idem:
281). Ao conceito de história, apresentado em parágrafos já
mencionados, Gramsci unificava espírito e natureza, e afirmava que
formavam o “conjunto das relações sociais em processo de
desenvolvimento”, isto é, em constante “devir”. Além disso, podemos
depreender a seguinte fórmula: natureza humana = espírito = história
= natureza ž
devir. Gramsci, evidentemente, abandonou a
visão da juventude (1916): “o homem é sobretudo espírito, ou seja,
criação histórica, e não natureza”.
No Caderno nº 12, §2 (maio e junho de
1932), surgem as conseqüências ontológicas da relação entre homem e
natureza: “a lei civil e estatal organiza os homens do modo
historicamente mais adequado a dominar as leis da natureza, isto é,
a tornar mais fácil o seu trabalho, que é a forma própria através do
qual o homem participa ativamente na vida da natureza”, dito de
outra maneira, “visando transformá-la e socializá-la [natureza] cada
vez mais profunda e extensamente” (Gramsci, 2004b: 43). No mesmo
parágrafo, Gramsci acrescenta que o “conceito do equilíbrio entre
ordem social e ordem natural com base no trabalho, na atividade
teórico-prática do homem, cria os primeiros elementos de uma
intuição do mundo liberta (...) e fornece o ponto de partida para o
desenvolvimento de uma concepção histórica, dialética, do mundo”
(Ibidem).
O Caderno nº 9, entre julho e agosto de
1932, no §65, comentando o termo “acaso” (que Gramsci associa à
natureza) está escrito que:
Sempre estamos na defensiva contra o
“acaso”, ou seja, o concurso imprevisível de forças
contrastantes que nem sempre podem ser todas identificadas (e
negligenciar apenas uma delas impede que se preveja a combinação
efetiva das forças que sempre dá originalidade aos
acontecimentos), e podemos “atacá-lo” no sentido de intervir
ativamente em sua produção e, de nosso ponto de vista, torná-lo
menos “acaso” ou “natureza” e mais efeito de nossa atividade e
vontade (Gramsci, 2002a: 296).
Gramsci utiliza os termos “acaso”,
“natureza” e “atacá-lo” justamente porque não parece sua intenção,
na maturidade, contrapor mecanicamente natureza e homem. Na verdade,
Gramsci, como todos os marxistas desse período, buscava desvendar os
fenômenos constantes (economia) e ocasionais (vontade ou o acaso)
que determinavam (do ponto de vista histórico) as transformações na
sociedade, por isso a necessidade de não “negligenciar” nenhum
acontecimento social. Contudo, não deixam de ser “forças
contrastantes” as intempéries climáticas que provocam catástrofes,
fenômenos que o homem também tenta prever.
Entre julho e agosto de 1932, no Caderno
especial nº 11, §22, Gramsci escreveu: “este é o ponto crucial de
todas as questões nascidas em torno da filosofia da práxis e, sem
tê-lo resolvido, é impossível resolver o outro, o das relações entre
a sociedade e a ‘natureza’, ao qual é dedicado um capítulo especial
no Ensaio [Bukhárin]” (Gramsci, 2004a: 140). O tema não
completamente resolvido ao qual Gramsci faz referência versa sobre
como nasce a história a partir da estrutura (economia). O que
significa dizer que na economia (e seus “reflexos” sobre a
superestrutura) se manifestam os fundamentos para um estudo das
relações entre homens e natureza.
No §30, mesmo Caderno e período, o autor
sardo indagava se “o conceito idealista segundo o qual a natureza é
apenas a categoria econômica, não poderia, depurado de suas
superestruturas [que para Gramsci também são as ideologias]
especulativas, ser reduzido aos termos da filosofia da práxis,
demonstrando-se que ele é historicamente ligado a esta e constituiu
um seu desenvolvimento?” (Idem: 160). Com essa pergunta, Gramsci
apresenta o seguinte argumento: para o marxismo não interessa as
características físico-químico-mecânicas que a natureza adquire em
contato com o trabalho humano, mas sua relevância enquanto “objeto
de propriedade de determinadas forças sociais, enquanto expressa uma
relação social e esta corresponde a um determinado período
histórico” (Idem: 161).
No mesmo Caderno, entre agosto e final
de 1932, §34, Gramsci segue analisando a mediação, exercida pela
técnica e a tecnologia, entre natureza e homem: “na atividade
experimental do cientista, que é o primeiro modelo de mediação
dialética entre o homem e a natureza, a célula histórica elementar
pela qual o homem, pondo-se em relação com a natureza através da
tecnologia, a conhece e a domina” (Idem: 166). Além disso, afirmava
que a experiência científica era a “primeira célula do novo método
de produção, da nova forma de união ativa entre o homem e a
natureza” (Ibidem).
Somado a isso, Gramsci foi brilhante em
sua breve e inconclusa análise (Nota I, §34) da obra “História e
Consciência de Classe” de Georg Lukács (1885-1971) (provavelmente
Gramsci não conhecia a obra diretamente, talvez por contato indireto
em artigos), produzindo uma das passagens mais significativas e
esclarecedoras desse Caderno:
Parece que Lukács
afirma que só se pode falar de dialética para a história dos
homens e não para a natureza. Pode estar errado e pode ter
razão. Se sua afirmação pressupõe um dualismo entre a natureza e
o homem, está errado, já que cai numa concepção da natureza
própria da religião e da filosofia greco-cristã, bem como do
idealismo, que não consegue unificar e relacionar o homem e a
natureza mais do que verbalmente. Mas, se a história humana deve
também ser concebida como história da natureza (também através
da história da ciência), então como a dialética pode ser
separada da natureza? (Idem: 167).
O parágrafo 37 completa a bela exposição
acima: “para a filosofia da práxis o ser não pode ser separado do
pensar, o homem da natureza, a atividade da matéria, o sujeito do
objeto; se se faz essa separação, cai-se numa das muitas formas de
religião ou na abstração sem sentido” (Idem: 175). Nas duas
passagens está posto um princípio fundamental: a explícita oposição
de Gramsci ao dualismo homem-natureza, que se manifesta em outros
binarismos, como os referidos na citação do §37. Além disso, fica
patente a relação entre homem (pensar, atividade) e natureza (ser,
matéria), ou seja, a natureza é o ser/matéria que corporeifica o
pensamento, a cultura, o homem. Não existe possibilidade de
dissociarmos biologia e filosofia, ser e pensar, inspirar e
transpirar.
No que tange aos filósofos (§62), a
unidade homem-natureza é condição necessária para a longevidade de
qualquer filosofia (o que inclui o marxismo):
Todo filósofo está e não pode deixar
de estar convencido de que expressa a unidade do espírito
humano, isto é, a unidade da história e da natureza; de fato, se
tal convicção não existisse, os homens não atuariam, não
criariam uma nova história, isto é, as filosofias não poderiam
transformar-se em “ideologias”, não poderiam assumir na prática
a granítica e fanática solidez daquelas “crenças populares” que
têm a mesma energia das “forças materiais” (Idem: 204).
Ainda no parágrafo 62: “Deve-se dizer,
também, que a passagem da necessidade para a liberdade ocorre na
sociedade dos homens e não na natureza (se bem que poderá ter
consequências sobre a intuição da natureza, sobre as opiniões
científicas, etc.)” (Idem: 206). Na relação dialética entre homem e
natureza, o papel ativo, ontológico, está no primeiro fator da
equação, o homem, a sociedade na qual existe (§64): “identidade dos
contrários no ato histórico concreto, isto é, atividade humana
(história-espírito) em concreto, indissoluvelmente ligada a uma
certa ‘matéria’ organizada (historicizada), à natureza transformada
pelo homem” (Idem: 209). As transformações no ambiente realizadas
pelo homem provocam mudanças na própria natureza humana, por isso
Gramsci suspeita de uma mudança na “intuição da natureza” e menciona
uma certa “matéria historicizada”.
No Caderno nº 10, dessa vez no §41, do
mês de agosto de 1932, o autor italiano afirmou que a nova concepção
de história (e de ciência) “vincula o homem à natureza por meio da
técnica, mantendo a superioridade do homem e exaltando-a no trabalho
criador; portanto, exalta o espírito e a história” (Idem: 365). O
homem é espírito, portanto história e natureza, mas essa unidade,
como já foi visto no início do capítulo, não é monista, mas
dialética, mediada pela técnica e pelo trabalho.
A concepção anti-monista precisa sempre
ser levada em consideração para que as assertivas de Gramsci não
pareçam esbarrar no dualismo idealista. Não se pode esquecer que a
precariedade das condições de estudo de Gramsci (e a natureza
não-sistemática dos Cadernos) provocou inconstâncias na escrita e no
tratamento de alguns conceitos. Por isso, não se pode saber quais
argumentos e conceitos Gramsci teria agrupado se tivesse publicado
seus escritos.
Entre os meses de setembro e novembro de
1932, no Caderno miscelâneo nº 9, §121, Gramsci afirmava que o
clássico alemão Goethe conseguiu manter certa atualidade quando
tratava o tema da relação entre natureza e homem, “porque expressa,
sob forma serena e clássica, aquilo que Leopardi, por exemplo, é
ainda conturbado romantismo: a confiança na atividade criadora do
homem, numa natureza vista não como inimiga e antagonista, mas como
uma força a ser conhecida e dominada” (Gramsci, 2001: 122).
Cabe aqui um salto cronológico, para
apontar que nos meados de janeiro e fevereiro de 1933, no Caderno
miscelâneo nº 14, §41, o autor sardo buscava outro clássico da
literatura para evidenciar a relação homem e natureza, dessa vez
Balzac: “compreende-se a admiração que nutriram por Balzac os
fundadores da filosofia da práxis [Marx e Engels]: que o homem seja
todo o conjunto das condições sociais nas quais se desenvolveu e
vive, que para ‘mudar’ o homem seja preciso modificar este conjunto
de condições, é algo intuído por Balzac” (Gramsci, 2002b: 245). No
mesmo parágrafo, Gramsci aponta que “é também verdade que este
‘conjunto de condições’ ou ‘ambiente’ foi compreendido de modo
‘naturalista’” (Ibidem).
Em dezembro de 1932, no §48 do Caderno
especial nº 10 (“Introdução ao estudo da filosofia”), Gramsci traça
uma importante relação entre os conceitos de progresso e natureza:
“O nascimento e o desenvolvimento da idéia de progresso correspondem
à consciência difusa de que se atingiu uma certa relação entre a
sociedade e a natureza (incluindo no conceito de natureza o de acaso
e o de ‘irracionalidade’)” (Gramsci, 2004a: 403). A idéia de
progresso (domínio da natureza, crescimento constante da produção e
do consumo) tem a marca da civilização capitalista, daí sua oposição
à natureza (concebida pelo capitalismo como o mundo da
“irracionalidade”).
Já em 1932, segundo o autor sardo, a
idéia de progresso se encontrava em crise: “os ‘portadores’ oficiais
do progresso tornaram-se incapazes deste domínio [da natureza], já
que suscitaram forças destruidoras atuais tão perigosas e
angustiantes quanto as do passado (hoje ‘socialmente’ esquecidas,
mas não por todos os elementos sociais)” (Idem: 404). Gramsci se
refere às crises econômicas e ao desemprego, deixando subentendido
(nossa dedução), sem desenvolver essa linha de raciocínio, que a
ausência de domínio sobre a natureza está na base dessas “forças
destruidoras”. Contudo, seria forçar o pensamento gramsciano afirmar
que, nesse trecho, existiu uma preocupação ecológica (no máximo
ambiental).
No §48 estão, até o presente momento
desta análise, os argumentos mais incisivos de Gramsci sobre a
natureza. O autor afirma que “dado que o homem é também o conjunto
das suas condições de vida, pode-se medir quantitativamente a
diferença entre o passado e o presente, já que é possível medir a
medida em que o homem domina a natureza e o acaso” (Idem: 406).
Interessam dois pontos dessa sentença: o homem é o conjunto das
condições de vida (argumento bastante explorado anteriormente); a
relação entre homem e natureza (domínio do ponto de vista
capitalista) possibilita caracterizar o modo de produção e o estágio
de sua evolução.
Além disso, “o homem deve ser concebido
como um bloco histórico de elementos puramente subjetivos e
individuais e de elementos de massa e objetivos ou materiais, com os
quais o indivíduo está em relação ativa. Transformar o mundo
exterior, as relações gerais, significa fortalecer a si mesmo,
desenvolver a si mesmo” (Ibidem). Para Baratta, “é em virtude desta
componente ‘ativa’ e ‘relacional’ (...) de todo comportamento
humano, que a ‘humanidade’ do ‘indivíduo’ se traduz, sem resíduos,
no relacionamento estrutural com os ‘outros homens’ e a natureza” (Baratta,
2004: 121).
Vários elementos importantes estão
presentes nessa citação de Gramsci: a realidade é um bloco histórico
composto por matéria, individualidades e coletivos; a transformação
desse bloco histórico implica mudanças nas relações com a matéria
(produção), na concepção de indivíduo (de homem) e na própria
sociedade. Podemos deduzir que, na teoria gramsciana, um projeto de
mudança da sociedade passa pela mudança nas relações entre homem e
natureza.
Em fevereiro de 1933, no Caderno
especial nº 10, §53 (“Pontos de meditação sobre a economia”), tem-se
a seguinte passagem sobre o consumo no capitalismo: “Mas não apenas
os puros consumidores aumentam de número; aumenta também o seu
padrão de vida, isto é, aumenta a quota de bens por eles consumidos
(ou destruídos)”. No mesmo parágrafo e página: “Uma sociedade que
afirma trabalhar para criar parasitas, para viver do chamado
trabalho passado (que é uma metáfora para indicar o trabalho atual
dos outros), destrói, na realidade, a si mesma” (Idem: 411). Para
Gramsci consumo e “aumento do padrão de vida” está relacionado com
“destruição”, um juízo que, transmutado para nossos dias, seria um
diagnóstico preciso da situação metabólica do capitalismo.
O §54, do Caderno nº 10, escrito no
final de fevereiro de 1933, contêm uma espécie de sumário do
pensamento dialético de Gramsci sobre a natureza. Pode-se afirmar
que, nas próximas citações, estão os elementos centrais do
pensamento gramsciano acerca do conceito materialista de natureza.
Os trechos trabalhados até aqui (1930-32), acumularam entendimentos
e conceitos para as altas reflexões que Gramsci desenvolveu a partir
de 1933.
Na primeira frase, Gramsci nos diz que
“a humanidade que se reflete em cada individualidade é composta de
diversos elementos: 1) o indivíduo; 2) os outros homens; 3) a
natureza. Mas o segundo e o terceiro elementos não são tão simples
quanto poderia parecer” (Idem: 413). A humanidade, portanto, está
assentada sobre este tripé fundamental, onde Gramsci incluiu a
natureza.
Na seqüência do §54, Gramsci explica a
complexidade da relação entre os homens e destes com a natureza: “O
indivíduo não entra em relação com os outros homens por
justaposição, mas organicamente, isto é, na medida em que passa a
fazer parte de organismos, dos mais simples aos mais complexos”
(Ibidem). Por isso, “o homem não entra em relações com a natureza
simplesmente pelo fato de ser ele mesmo natureza, mas ativamente,
por meio do trabalho e da técnica” (Ibidem). Estão presentes todos
os elementos apresentados até aqui: mediação homem-natureza pelo
trabalho-técnica; a relação homem = história = natureza.
As relações apontadas por Gramsci “não
são mecânicas. São ativas e conscientes, ou seja, correspondem a um
grau maior ou menor de inteligibilidade que delas tenha o homem
individual. Daí ser possível dizer que cada um transforma a si
mesmo, modifica-se, na medida em que transforma e modifica todo o
conjunto de relações do qual é o centro estruturante” (Ibidem).
Nesse sentido:
O verdadeiro filósofo é – e não pode
deixar de ser – nada mais do que o político, isto é, o homem
ativo que modifica o ambiente, entendido por ambiente o conjunto
das relações de que todo indivíduo faz parte. Se a própria
individualidade é o conjunto destas relações, construir uma
personalidade significa adquirir consciência destas relações;
modificar a própria personalidade significa modificar o conjunto
destas relações (Ibidem).
Além disso, a consciência “mais ou menos
profunda delas [do conjunto das relações que o indivíduo faz parte]
já as modifica. As próprias relações necessárias, na medida em que
são conhecidas em suas necessidade, mudam de aspecto e de
importância. Nesse sentido, o conhecimento é poder” (Idem: 414). No
entanto, Gramsci não considera suficiente expor o problema dessa
maneira, acrescenta um dado histórico: “não é suficiente conhecer o
conjunto das relações enquanto existem em um dado momento como um
dado sistema, mas importa conhecê-los geneticamente, em seu
movimento de formação, já que todo indivíduo é não somente a síntese
das relações existentes, mas também da história destas relações”, ou
seja, “o resumo de todo o passado” (Ibidem).
Na próxima passagem, considera-se o
termo “sociedade das coisas” uma designação para natureza e também o
mundo da produção material, contudo não ficou precisa a intenção de
Gramsci: “É um lugar comum a afirmação de que o homem pode ser
concebido somente como vivendo em sociedade; todavia, não se extraem
de tal afirmação todas as consequências necessárias, inclusive
individuais” (Ibidem). Que consequências são essas? “Uma determinada
sociedade humana pressupõe uma determinada sociedade das coisas e
que a sociedade humana só é possível enquanto existe uma determinada
sociedade das coisas é também um lugar-comum” (Ibidem).
Por fim, no último argumento do §54, o
autor sardo asseverava ser necessário “elaborar uma doutrina na qual
todas estas relações sejam ativas e dinâmicas, fixando bem
claramente que a sede desta atividade é a consciência do homem
individual que conhece, quer, admira, cria, na medida em que
conhece, quer, admira, cria, etc.” (Idem: 415). O flagrante
idealismo desse trecho se completa com a sentença final sobre o
“homem que se concebe não isoladamente, mas repleto de
possibilidades oferecidas pelos outros homens e pela sociedade das
coisas, da qual não pode deixar de ter um certo conhecimento”
(Ibidem).
Sobre as propriedades da natureza,
Gramsci escreveu em 1934 (§12): “é preciso desde logo estabelecer
que não se pode falar de ‘natureza’ como algo fixo, imutável e
objetivo” (Idem: 51). Além disso, reafirmava um argumento
apresentado em outros Cadernos: “a ‘natureza’ do homem é o conjunto
das relações sociais, que determina uma consciência historicamente
definida; só esta consciência pode indicar o que é ‘natural’ ou
‘contra a natureza’. Além disso: o conjunto das relações sociais é
contraditório a cada momento e está em contínuo desenvolvimento”
(Ibidem).
O ambiente (as relações sociais) “não
justifica, mas só explica” o comportamento dos homens, esse é um
princípio avançado para uma época em que subsistia o economicismo
entre as tendências marxistas. Tanto ambiente, quanto natureza
(principalmente a segunda), são conceitos que se articulam com a
teoria política, unitária e coerente, que Gramsci desenvolveu sobre
o socialismo (sociedade regulada). Socialismo que se apresenta como
o projeto de uma nova sociedade, um novo homem, uma nova cultura e
uma nova relação com a natureza.
Bibliografia:
BARATTA, Giorgio. As Rosas e os Cadernos: O pensamento dialógico
de Antonio Gramsci. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.
GRAMSCI. Cadernos do Cárcere. Vol. 1, Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2004a.
_________. Cadernos do Cárcere. Vol. 2, Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2004b.
_________. Cadernos do Cárcere. Vol. 3, Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2002a.
_________. Cadernos do Cárcere. Vol. 4, Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2001.
_________. Cadernos do Cárcere. Vol. 6, Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2002b.
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