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PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil


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Paulo Roberto de
Almeida
1. Ossificação
ideológica e revisionismo histórico: interpretações abertas
Quase duzentos anos depois da Revolução
Francesa, escolas opostas de pensamento histórico continuavam a se
digladiar em torno não apenas do espólio da Revolução, mas,
sobretudo de seu significado político e social. Os historiadores
‘jacobinos’ – dos quais o mais famoso representante na academia
francesa foi certamente Albert Soboul – eram os herdeiros de uma
longa tradição que colocava a burguesia no centro dos
acontecimentos, escola historiográfica que remonta ainda à primeira
metade século 19. Dela fizeram parte ilustres representantes da
própria burguesia, como Guizot e Mignet, ou mesmo um aristocrata
como Thiers, sem esquecer o ‘historiador do povo’ Michelet ou,
ainda, o revolucionário Louis Blanc, que se aproxima da, e talvez
inaugure a, interpretação marxista (ou seja classista) do processo
revolucionário. Não é preciso retomar aqui os diversos textos
marxianos ou marxistas que colocam o Terceiro Estado no centro dos
eventos, alterando radicalmente a escrita da história, que passa,
assim, da ação por vezes irrefletida dos homens para o movimento
inelutável dos grupos políticos e das classes sociais.
A querela
contemporânea sobre a natureza da Revolução francesa começou com uma
conferência pronunciada em 1954, pelo historiador britânico Alfred
Cobban, sob o título “The Myth of the French Revolution”, cujos
argumentos serão mais tarde retomados em seu livro: The Social
Interpretation of the French Revolution (Cambridge: Cambridge
University Press, 1964). A confrontação dos historiadores
revisionistas da tradição empirista da academia anglo-saxã com as
teses rigorosamente marxistas do francês Albert Soboul durou pelo
menos duas décadas, até que vários outros historiadores, desta vez
franceses, desmantelam o que restava de caricatural na versão
simplificada marxista da ‘luta de classes’. Destacou-se no combate
ao “catéchisme révolutionnaire” de Albert Soboul o historiador de
inspiração tocquevilleana François Furet, em especial em seu livro
Penser la Révolution française (Paris: Gallimard, 1978).
Qualquer que seja o
rigor metodológico dos novos historiadores – franceses e
estrangeiros – na reavaliação do processo revolucionário francês, a
visão clássica, isto é, classista (e, portanto, marxista) desse
fenômeno fundador da era contemporânea ainda encontra largo curso
nos compêndios de história, que tendem a prolongar os mitos que
foram se forjando ao longo dos séculos 19 e 20 em torno da burguesia
revolucionária. Ou seja, a despeito de estar fundamentalmente
equivocada quanto aos atores sociais e suas motivações políticas e
de continuar ideologicamente enviesada na interpretação geral do
processo, a versão classista, ou marxista, da Revolução francesa
continuou impregnando as mentalidades e determinando a reflexão
histórica dos contemporâneos.
Esta parece ser uma
fatalidade que atinge todos os movimentos e processos extremamente
radicais, aqueles que cindem uma sociedade ao meio, dividem famílias
e opõem escolas rivais de pensamento, consolidando uma visão
ossificada do processo histórico, que pouco a ver tem com a
realidade dos movimentos sociais e políticos efetivamente
transcorridos. Lentamente, a sociedade e seus intelectuais caminham
para algum tipo de interpretação que incorpora as diferentes
vertentes explicativas e retira o conteúdo passional, quando não
irracional, dos julgamentos a quente feitos pelos contemporâneos e
imediatos sucessores. Mas trata-se de um processo muito lento, como
pode testemunhar a historiografia ainda cindida em torno da
Revolução francesa.
2. O maniqueísmo
em torno do golpe de 1964: triunfo de uma escola
A mesma ‘fatalidade
histórica’ parece ocorrer em relação ao movimento político-militar
de março-abril de 1964, que derrocou o governo de João Goulart e
inaugurou o regime dos generais-presidentes; com uma diferença
essencial, porém: até aqui, a historiografia é predominantemente
‘jacobina’, para não dizer claramente marxista. Refiro-me,
obviamente, aos livros didáticos, posto que obras especializadas
respeitam a complexidade do processo de 1961-64 e levam em conta as
divisões existentes na classe política e na própria sociedade
brasileira. São os primeiros, contudo, que moldam as ‘explicações’
em torno da crise política que agitou quase o inteiro período do
governo Goulart e seu desdobramento militar sob a forma de um golpe
apoiado por parte substancial da opinião pública naquela conjuntura.
A visão consagrada
nesses livros didáticos e paradidáticos é, contudo, a de um vigoroso
movimento de massas apoiando um governo comprometido com as chamadas
‘reformas de base’ – agrária, tributária, eleitoral, universitária,
habitacional –, lutando para concretizar as aspirações mais sentidas
do povo brasileiro e tendo de enfrentar uma coligação agressiva de
latifundiários, industriais, donos da ‘grande imprensa’ e seus
aliados imperialistas, representados pelo governo dos EUA e suas
agências operacionais (CIA, adidos militares etc.). Da mesma forma,
os grupos políticos e as personalidades de oposição que lideraram a
resistência armada contra o regime militar são automaticamente
identificados a defensores da liberdade e da democracia, ainda que
poucos deles tenham deixado evidências materiais dessa luta
democrática contra o ‘regime ditatorial’.
Pouco se fala sobre
o projeto político real da maior parte dos opositores do regime
militar e da ‘dominação imperialista’, que era o da instauração de
uma ‘democracia popular’ muito alinhada com os países do socialismo
real e, portanto, uma economia totalmente enquadrada nos cânones do
estatismo exacerbado, e talvez empenhada na contenção da economia
privada. Não há, tampouco, nenhuma visão critica sobre o desastre
econômico, político e moral – com o imenso custo humano – desses
regimes, que, ainda hoje, recebem, vergonhosamente, uma avaliação
positiva nesse tipo de subliteratura.
Quase meio século
depois do movimento político-militar de 1964, são poucos os exemplos
de obras não passionais, ou relativamente isentas, sobre as
circunstâncias imediatas, as causas profundas e a complexidade
intrínseca desse processo que marcou profundamente a sociedade
brasileira – e a classe acadêmica, obviamente – durante todo o seu
decorrer e em todo o período subseqüente, até os dias atuais. Mesmo
uma obra recente – como a de Adriana Lopez e Carlos Guilherme Mota,
História do Brasil: Uma Interpretação (São Paulo: SENAC-SP,
2008) –, que poderia ter dado o início à tarefa de
‘desideologização’ da República civil-militar de 1964-1985, sucumbe
a conceitos típicos da tradição ‘jacobina’ como os de autocracia
burguesa, ou de contra-revolução preventiva, para caracterizar um
movimento civil-militar que é visto unicamente no contexto da Guerra
Fria. De fato, como expressamente afirmado nessa obra, “o movimento
colocava o país nos quadros da dominação americana” (p. 799),
retomando a interpretação maniqueísta do golpe.
Um livro que tentava
um interpretação mais ou menos isenta do processo de lutas políticas
que levaram ao desfecho de 1964, o de Thomas Skidmore sobre a
história política brasileira de Getúlio a Castelo Branco, nunca foi,
na verdade, bem aceito pelos acadêmicos brasileiros, a despeito de
se ter convertido numa espécie de referência geral para o estudos
dessas décadas da Era Vargas (talvez ainda não definitivamente
encerrada, pelos seus prolongamentos sindicais e trabalhistas, e
também pela visão do Estado como o demiurgo do desenvolvimento
nacional). Atente-se que seu título original – Politics in Brazil,
1930-1964: An Experiment in Democracy – era razoavelmente
pessimista sobre as chances de se ter no Brasil um sistema político
estável e passavelmente democrático, considerando o autor que apenas
vivíamos entre impulsos democráticos e crises recorrentes num longo
continuum autoritário, que é inaugurado pelas intervenções
militares desde o início da República. Atente-se igualmente que, ao
mesmo tempo em que os brasilianistas americanos estavam elaborando
uma versão menos passional da história política brasileira, também
começavam a ser publicados os primeiros livros da série histórica de
Leôncio Basbaum, História Sincera da República (em quatro
volumes sucessivos), situado possivelmente nas antípodas da
interpretação relativamente pasteurizada de Tom Skidmore. Essa
produção acadêmica por um dos mais conhecidos militantes do
movimento comunista brasileiro pode ser legitimamente considerada
como o equivalente, no Brasil, da historiografia jacobina francesa,
com todos os maniqueísmos e simplificações a que esse tipo de
elaboração ‘histórica’ tem direito: na verdade, se tratava mais de
uma compilação da literatura secundária do que propriamente um
trabalho original, conservando apenas o parentesco com a versão
jacobina da história pelo uso dos conceitos e categorias marxistas e
pela abordagem classista do processo histórico.
Se é possível
identificar um ‘Albert Soboul’ nacional, este seria representado,
sem dúvida nenhuma, pelo historiador de origem militar Nelson
Werneck Sodré, que encarnou como poucos a versão soviética,
praticamente stalinista, da história dialética, com todas as
simplificações classistas e materialistas que poderiam ser
encontradas nos manuais históricos e nas enciclopédias ‘científicas’
representativas da ‘idade de ouro’ – se o termo se aplica – da
dominação do pensamento marxista tradicional nas ciências humanas e
sociais. Entretanto, pela riqueza de sua escritura, pela ampla
cultura clássica e pelo seu conhecimento aprofundado da literatura
original das eras colonial e independente, Werneck Sodré podia ser
considerado um intelectual de primeira linha, quase um erudito da
produção historiográfica brasileira, na comparação com a pobre
produção histórica que se seguiu.
As principais obras representativas da
didática histórica, a partir de meados dos anos 1960, foram
caracterizadas por um marxismo vulgar de baixíssima qualidade, quase
nenhuma pesquisa de arquivo (e um apoio quase exclusivo em alguns
grandes ‘mestres’ do pensamento nacional, independentemente da
defasagem metodológica de suas obras, velha de algumas décadas),
poucas bases empíricas e o pavoroso espírito maniqueísta que seria
de se esperar na subliteratura histórica que passou a servir de
referência aos estudantes brasileiros a partir do final dos anos
1960.
Pode-se dizer que, mesmo sem levar em conta suas orientações
políticas e ideológicas, essa produção é de muito baixa qualidade
intrínseca; mas é ela que continua a moldar, ainda, as
interpretações correntes sobre o período militar no Brasil.
3. Mitos do
governo Goulart: reformas de base e autonomia frente ao império
Invariavelmente, a
história vulgar sobre o golpe militar de 1964 começa com a ascensão
das lutas sociais pelas reformas de base – sendo a principal delas a
reforma agrária – e contra a dominação estrangeira, lutas que vão se
acelerando desde o segundo governo Vargas e que culminam no governo
de seu legítimo sucessor trabalhista e pobre líder político, João
Goulart. As grandes questões nacionais daquela conjuntura seriam as
da aliança do latifúndio com o imperialismo e a da subordinação da
burguesia nacional a esse esquema espúrio e anti-nacional. Os
partidos e movimentos progressistas estariam engajados no rompimento
dessa aliança e na construção de uma aliança de classes que
viabilizasse o desenvolvimento do Brasil em bases propriamente
nacionais.
O livro símbolo
daquele momento, mais do que qualquer manual de história ou
compêndio de política aplicada, era um panfleto nacionalista chamado
“Um dia na vida de Brasilino”, que ainda hoje pode ser encontrado no
site do PCdoB ou de movimentos afins; um típico exemplo de
nacionalismo piegas e de anti-imperialismo infantil. Brasilino é um
brasileiro médio que, desde o momento em que acorda até a hora de se
deitar, consome obrigatoriamente produtos de marcas estrangeiras e,
assim, está o tempo todo pagando dividendos ao capital estrangeiro,
como explica repetitivamente o seu autor após cada ato de consumo do
‘herói’ da história. A moral da história, inversamente ao que se
poderia esperar de uma análise estritamente econômica que revelaria
as fragilidades da indústria nacional, é, obviamente, a de que o
Brasil está dominado pelo capital estrangeiro, e que todos os
brasileiros são, como Brasilino, cúmplices da ‘exploração’ da pátria
por esses interesses defraudadores da riqueza nacional.
Outro mito propagado
nesse tipo de subliteratura constitui, pelo lado paranóico, o da
conjunção de interesses entre, de um lado, os capitalistas
nacionais, os militares e políticos entreguistas, sem falar dos
reacionários do campo e da cidade, em primeiro lugar os
latifundiários, e, de outro lado, os representantes do capital
estrangeiro e os próprios enviados do império, com destaque para os
agentes da CIA e os adidos militares da Embaixada americana, que
foram os que induziram seus colegas brasileiros ao golpe. Nem todos
os didáticos históricos apresentam o golpe de 1964 como tendo sido
teleguiado de Washington. Mas todos eles, invariavelmente,
referem-se ao aumento da ‘pressão externa’ e aos preparativos para a
intervenção norte-americana, como elementos decisivos na decisão dos
militares brasileiros que derrubaram Goulart.
A subliteratura
didática encontra-se, obviamente, apoiada em alguns grandes nomes da
historiografia nacional. Assim, é constrangedor constatar que, mesmo
um compêndio atual, por um dos principais representantes da produção
histórica nacional, o já citado livro de Adriana Lopez e de Carlos
Guilherme Mota, História do Brasil: Uma Interpretação,
reproduz chavões que se pensava afastados das interpretações mais
recentes desse processo histórico. Citando vários nomes da vida
pública e acadêmica brasileira, os autores referem-se a “uma
variadíssima gama de testas-de-ferro de empresas multinacionais” ou
a representantes da ‘burguesia nacional’ – em especial a paulista –
“com mentalidade dos tempos da pedra lascada” (p. 782). Os autores
pelo menos registram o depoimento de Darcy Ribeiro que informa que
“líderes das Ligas Camponesas haviam se deslocado para Goiás à
procura de bases para guerrilhas, ‘com apoio do governo cubano’” (p.
783). Esse tipo de alusão ao modelo revolucionário cubano como
caminho para o processo de ascensão das massas brasileiras ao poder
político nacional é, contudo, raro na literatura disponível a
respeito, que se contenta em reproduzir a versão sobre a oposição
dos ‘reacionários’ às grandes reformas progressistas de Goulart.
Quase não existem
traços de uma avaliação equilibrada, ou seja razoavelmente crítica,
em relação ao governo de Goulart e seus inúmeros equívocos
econômicos, políticos e administrativos. Praticamente nenhum deles
menciona a inflação galopante, o descontrole orçamentário, o clima
político de conflitos quase diários no campo e na cidade, a perda de
autoridade do governo em relação às corporações do Estado, enfim, o
ambiente de desorganização progressiva da vida nacional. Tudo se
resume a um complô de reacionários nacionais e aliados estrangeiros
contra um governo progressista. De fato, mesmo um protagonista
direto dos acontecimentos, o então chefe da Casa Civil Darcy
Ribeiro, pretende, em seu livro-depoimento que:
O importante é que o governo de
Jango não caiu em razão de seus eventuais defeitos; ele foi
derrubado por suas qualidades: representava uma ameaça tanto
para o domínio norte-americano sobre a América Latina como para
o latifúndio.
Esse tipo de
avaliação complacente, e profundamente equivocada, sobre as supostas
virtudes do governo Goulart, visto como uma vítima inocente das
forças conjugadas dos latifundiários, dos empresários e políticos
‘entreguistas’, dos testas-de-ferro das multinacionais e dos
interesses poderosos do império, constitui a versão corrente da
historiografia dita ‘progressista’, num tipo de simplismo
explicativo que fica bem aquém, pela sua grosseira contradição com
os fatos, das interpretações jacobinas originais, relativas à
historiografia tradicional da Revolução francesa. Em versões ainda
mais simplificadas e maniqueístas, ela freqüenta a maior parte da
produção didática sobre a história política da transição da
República de 1946 para o regime militar.
Raramente esse tipo
de literatura destaca não as qualidades, mas os defeitos reais do
caótico governo Goulart: sua incompetência administrativa; a
ignorância econômica do presidente; seu total descaso ou
desinteresse pelo equilíbrio das contas públicas; o loteamento de
cargos em função de critérios puramente personalistas (não de acordo
com os méritos individuais dos candidatos); a tolerância com a
inflação e a desordem nas agências do Estado; a indiferença em
relação às sucessivas quebras da hierarquia e da disciplina –
princípios sagrados – nas Forças Armadas; bem como, nos últimos
meses, o incitamento à divisão política e social no país, com as
promessas de realização das ‘reformas de base’, ainda que contra os
preceitos constitucionais e os processos legislativos normais.
Poucos desses autores lembram que a inflação anualizada para 1964
aproximava-se perigosamente de 100% – num contexto de ausência
completa de mecanismos corretores ou de indexação de valores e
contratos, recorde-se, o que fez cair a níveis irrisórios os volumes
de poupança privada; em menor número, ainda, são os historiadores
complacentes com o governo Goulart que registram a queda nas taxas
de crescimento e de investimento total na economia, com a completa
retração do capital estrangeiro e mesmo a fuga de capitais
nacionais; o desestímulo à produção agrícola ou manufatureira
nacional – em virtude dos controles de preços que começavam a ficar
extensivos e arbitrários; a paralisia nos mercados imobiliários,
tanto de construção quanto de aluguéis – em vista das ameaças de
intervenção nos contratos e nas condições dos negócios
habitacionais; a deterioração no balanço de pagamentos, com redução
de exportações, ausência de empréstimos internacionais e a situação
de virtual insolvência nas obrigações externas; enfim, um conjunto
de indicadores econômicos, políticos e sociais não apenas negativos
no curto prazo, mas potencialmente indutores de instabilidade social
e política e de grave crise econômica, que, aliás, já estava em
curso quando os militares decidiram se mobilizar.
4. Desmontando os
mitos: instabilidade política e incapacidade de reformar
As ditas ‘reformas
progressistas’ do Governo Goulart foram mais anunciadas – e mais
propriamente agitadas, notadamente no famoso comício da Central do
Brasil, em 13 de março de 1964 – do que propriamente implementadas,
seja por manifesta incompetência do presidente e seu governo, seja
pela falta de base congressual, e de apoios sociais mais explícitos,
o que as condenou a permanecer o que sempre foram: meros slogans de
agitação política para tentar, desesperadamente, encontrar algum
suporte na sociedade, à falta de consenso nas bases políticas
tradicionais. O que é um fato, e que a historiografia complacente
não aborda com clareza, é que o governo Goulart, a exemplo de tantos
congêneres populistas na região e alhures, dividiu a sociedade ao
meio e foi incapaz de traçar um plano claro, implementável, de
reformas políticas, sociais e econômicas dentro de uma perspectiva
realista de um país capitalista da periferia, introduzindo uma
agenda semi-socialista que muito fez, justamente, para dividir a
sociedade.
Como sempre ocorre
nos momentos de dificuldades econômicas, líderes políticos
populistas buscam um bode expiatório para os problemas, atribuindo
sua origem a fatores externos ou aos ‘inimigos do povo’, como fez
Goulart nesse discurso da Central do Brasil. Indiferente às
verdadeiras causas do desabastecimento alimentar e da alta de
preços, ou preferindo ignorar as responsabilidades do próprio
governo para a construção de um cenário que anunciava contenção dos
ganhos dos ricos e limitação da remessa de lucros por parte dos
investidores estrangeiros, ele prometia ser rigoroso contra os
especuladores e sonegadores: “Ação repressiva, povo carioca, é a que
o governo está praticando e vai ampliá-la cada vez mais e mais
implacavelmente, assim na Guanabara como em outros estados contra
aqueles que especulam com as dificuldades do povo, contra os que
exploram o povo e que sonegam gêneros alimentícios e jogam com seus
preços”.
A historiografia complacente é
totalmente acrítica em relação aos fracassos do governo Goulart,
notadamente em estabilizar a economia, controlar a inflação e
retomar as altas taxas de crescimento do governo Kubitschek, que
ficou na história, justamente, por combinar desenvolvimento
econômico com estabilidade política.
Duas das personalidades mais saudadas do governo Goulart, San Tiago
Dantas e Celso Furtado, foram especialmente infelizes na tentativa
de implementar programas de estabilização monetária, de reformas
essenciais e de crescimento econômico: a ambos faltou o apoio do
presidente na implementação de medidas que eram absolutamente
necessárias para desviar o país da rota da hiper-inflação, do
estrangulamento externo, do descontrole orçamentário e do caos
social. O primeiro, bastante esquecido atualmente, lutou bravamente
no governo e no Congresso para promover medidas realistas de
reformas macroeconômicas e setoriais, que ele identificava com uma
agenda para a ‘esquerda positiva’, mas se viu confrontado com o
desinteresse do presidente e a exacerbação de radicalismos que
levaram o Brasil ao desfecho inglório de 31 de março de 1964.
Celso Furtado, por
sua vez, é ainda hoje saudado como o grande economista nacionalista
e desenvolvimentista, esquecendo-se de destacar, seus defensores,
sua postura essencialmente complacente com a erosão inflacionária –
que ele via como um mal menor, em função do objetivo maior do
crescimento, do emprego e da renda dos trabalhadores – o que pode
estar na origem da tolerância histórica no Brasil com altas taxas de
inflação, uma das causas principais, justamente, da concentração de
renda e da manutenção de vastos estratos sociais na pobreza crônica.
Ele é especialmente lembrado pelo seu Plano Trienal, aliás sabotado
pelo próprio presidente, que não pretendia fazer um esforço mínimo
que fosse pelos objetivos modestamente estabilizadores desse plano
frustrado a poucos meses de seu lançamento. Cabe, talvez, reproduzir
a síntese a respeito desse plano econômico vitimado pela política
viciada do governo Goulart, feita por este mesmo autor, em trabalho
analítico publicado em obra coletiva:
Em contraste com o nítido sucesso do Plano de
Metas, o Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social,
elaborado em apenas três meses por uma equipe liderada por Celso
Furtado no final de 1962, para já subsidiar a ação econômica do
governo João Goulart no seu período presidencialista (em
princípio de 1963 a 1965), sofreu o impacto da conjuntura
turbulenta em que o Brasil viveu então, tanto no plano econômico
como, em especial, no âmbito político. O processo inflacionário
e as crises políticas com que se defrontou o governo Jango,
combinaram-se para frustrar os objetivos desenvolvimentistas do
plano, que buscava retomar o ritmo de crescimento do PIB da fase
anterior (em torno de 7% ao ano), ao mesmo tempo em que
pretendia, pela primeira vez, contemplar alguns objetivos
distributivistas. Estavam previstos, em seu âmbito, a realização
das chamadas “reformas de base” (administrativa, bancária,
fiscal e agrária), ademais do reescalonamento da dívida externa.
Era um plano de transição econômica, não de
planejamento macro-setorial, e sua interrupção, antes mesmo da
derrocada do governo Goulart, torna difícil uma avaliação
ponderada sobre seus méritos e defeitos intrínsecos (como o
problema das economias de escala no caso da indústria de bens de
capital). Ele partia, em todo caso, do modelo de “substituição
de importações” e da noção de que os “desequilíbrios
estruturais” da economia brasileira poderiam justificar uma
elevação persistente no nível de preços, de conformidade com
alguns dos pressupostos da teoria estruturalista que disputava,
então, a primazia conceitual e política com a teoria
monetarista, que era aquela preconizada pelo FMI e seus aliados
nacionais (já objeto de notória controvérsia no anterior governo
JK). O processo inflacionário era, em parte, atribuído a “causas
estruturais” do setor externo (esquecendo o efeito do ágio
cambial sobre os preços internos) e, em parte, ao déficit do
Tesouro como decorrência dos altos investimentos realizados (mas
a unificação cambial também privou o Estado de uma fonte de
receita substancial, sem considerar a questão salarial, tratada
de modo pouco responsável).
Em qualquer hipótese, os objetivos contraditórios
do Plano Trienal (reforma fiscal para elevação das receitas
tributárias, mas inibição do investimento privado; redução do
dispêndio público via diminuição dos subsídios ao trigo e ao
petróleo, mas política de recuperação salarial; captação de
recursos no mercado de capitais, sem regulação adequada e sem
remuneração compensatória da inflação; mobilização de recursos
externos num ambiente de crescente nacionalismo e hostilidade ao
capital estrangeiro), ademais da aceleração do processo
inflacionário (73% em 1963, contra 25% previstos no Plano),
condenaram-no ao fracasso antes mesmo que o governo Goulart
fosse derrubado numa conspiração militar. A economia cresceu
apenas 0,6% em 1963, como reflexo do baixo nível de
investimentos realizado no período: na verdade, os investimentos
privados cresceram 14% nesse ano, mas eles tinham caído 10% no
ano anterior, contra um decréscimo de 18% nos investimentos
públicos em 1963. Em síntese, o plano falhou em seu duplo
objetivo de vencer a inflação e promover o desenvolvimento, mas
as causas se situam acima e além de sua modesta capacidade em
ordenar a atuação do Estado num contexto político que tornava
inócua a própria noção de ação governamental.
5. Desmontando os
mitos: uma análise das ‘reformas progressistas’
Uma exposição crítica das famosas
‘reformas de base’ do governo João Goulart – o que é raramente
feito, se jamais alguém o fez, na subliteratura dita progressista
que se caracteriza pelo maniqueísmo político em torno dessa época –
revelaria, aliás, que elas eram nada mais do que uma assemblagem
oportunista de diversos objetivos gerais, sem qualquer detalhamento
específico e sem qualquer iniciativa concreta no plano parlamentar.
De fato, poucas foram as medidas encaminhadas sob a forma de
projetos de lei ao Congresso, para sua tramitação legislativa
normal. Mas muitos foram os discursos e anúncios feitos geralmente
de forma bombástica para encantar platéias de apoiadores ou de já
convencidos de sua ‘necessidade’. Algumas, aliás, foram anunciadas
às pressas, como no famoso discurso da Central do Brasil, já numa
fase de desespero político pela degringolada visível do governo
junto aos congressistas e militares, como, por exemplo, as
desapropriações de terras que ladeavam rodovias e ferrovias
nacionais para fins de reforma agrária – ‘contra a Constituição’, se
fosse preciso, como se jactou o presidente – e a estatização de
refinarias de petróleo, numa conjuntura em que a Petrobras se
encontrava periclitante, depois de mais de dez presidentes em menos
de nove anos de existência.
Quais eram, finalmente, as famosas
‘reformas de base’ do governo Goulart? Elas são sumariamente
apresentadas a seguir, no ordenamento feito no livro já referido de
Lopez-Mota, tal como originalmente apresentadas no livro-depoimento
de Darcy Ribeiro, Aos Trancos e Barrancos.
Após o enunciado de cada uma delas, este comentarista complementa a
informação sintética com alguma avaliação crítica que se pode fazer
a respeito de cada uma delas, talvez com o benefício do chamado
hindsight – ou o viés da visão retrospectiva – mas em todo caso
de maneira o mais possível objetiva e imparcial.
1) “Reforma
Urbana, com vistas a definir uma Lei do Inquilinato que melhorasse
as condições de vida da classe média não-proprietária e dos
trabalhadores;”
PRA: Trata-se de
velha tentação de políticos populistas, como ainda tenta fazer,
neste mesmo momento, o governo Chávez, na Venezuela: a fixação, por
critérios eminentemente políticos, de tetos máximos de reajuste dos
aluguéis, com eventual determinação igualmente política de um teto
máximo para a aferição dos valores de mercado – para construção ou
aluguel – do metro quadrado a ser construído ou alugado;
eventualmente, as medidas são completadas por programas de
construção de habitações populares subsidiadas – o que cria um
problema para as contas públicas, quando não uma bolha imobiliária
que terá graves repercussões financeiras, creditícias e fiscais,
mais adiante. O resultado prático da maior parte dessas iniciativas
é uma paralisação da construção civil para fins imobiliários, uma
retração do mercado de aluguéis, o desenvolvimento de um mercado
negro de contratos fraudados nesse setor e uma carência habitacional
ainda maior do que a existente no período anterior ao anúncio ou à
implementação dessas medidas. A iniciativa de Goulart, se jamais ela
fosse implementada, correria esses mesmos riscos, como aliás provado
pelos equívocos posteriores de fixação de tetos máximos para a
contratação de aluguéis privados, uma indesejada intromissão do
governo no patrimônio de particulares (para todos os efeitos
equiparados a ‘rentistas desalmados’, quando muitos eram ou são, na
verdade, cidadãos de classe média tentando complementar pensões ou
aposentadorias oficiais notoriamente insuficientes).
Suas promessas eram
muito simples, na verdade: “Dentro de poucas horas, outro decreto
será dado ao conhecimento da Nação. É o que vai regulamentar o preço
extorsivo dos apartamentos e residências desocupados, preços que
chegam a afrontar o povo e o Brasil, oferecidos até mediante o
pagamento em dólares. Apartamento no Brasil só pode e só deve ser
alugado em cruzeiros, que é dinheiro do povo e a moeda deste país.
Estejam tranqüilos que dentro em breve esse decreto será uma
realidade.” Em outras palavras, ele prometia tabelar os aluguéis, o
que seria o caminho mais curto para a subtração do mercado
habitacional de milhares de imóveis potencialmente utilizáveis, uma
receita segura para um déficit ainda maior nessa área. Esta medida
foi já adotada na Venezuela pelo presidente Hugo Chávez, com as
conseqüências desastrosas que se conhecem...
2) “Reforma
Agrária, facilitando aos trabalhadores rurais acesso à terra,
atacando os latifúndios improdutivos ao instituir o uso lícito da
terra;”
PRA: De fato, o tema
da reforma agrária é um dos mais recorrentes na
história social e econômica da América Latina desde tempos
imemoriais, praticamente desde suas etapas formadoras enquanto terra
de ocupação pela via preferencial do latifúndio e da grande
exploração comercial de exportação. As elites agrárias dos países da
região, independentemente de sua composição de origem e de seu
relacionamento com os demais estratos dirigentes, sempre conseguiram
monopolizar as terras e as políticas públicas em seu favor,
distorcendo mecanismos tributários e as instituições de registro
patrimonial, desafiando inclusive a lógica econômica, que
recomendaria o desenvolvimento de um amplo mercado interno de
produção e consumo baseado na repartição patrimonial desse fator
essencial de riqueza e poder, que é a terra. Como a ocupação do
território não se deu pela via preferencial da colonização familiar,
como na America do Norte, as distorções permaneceram e foram se
agravando ao longo do tempo, gerando imensas camadas de camponeses
pobres, absolutamente marginais do ponto de vista estrutural e
social; ou de simples trabalhadores rurais, sem condições políticas
ou econômicas de aceder à posse da terra. A reivindicação fazia,
portanto, todo o sentido, num contexto de pré-modernização das
estruturas produtivas no campo, desde que se pudesse assegurar
efetivamente a existência de uma classe ou amplos estratos sociais
correspondendo à definição clássica do que seja a categoria
camponesa, o que nem sempre se manifestou de maneira concreta.
Como já escreveu um
historiador brasileiro de tradição marxista, Caio Prado Jr. – que,
aliás, recomendava uma reforma agrária de cunho essencialmente
capitalista, e nem sempre pela simples repartição de terras –, o
Brasil careceu, desde os tempos coloniais, de uma verdadeira
categoria assimilável, em linha de princípio, aos camponeses no
sentido clássico da palavra, uma vez que os ‘camponeses’ livres ou
os trabalhadores rurais não pertencentes a um latifundiário, ou não
assalariados, sempre foram, em sua opinião, marginais, estrutural e
historicamente falando. Não lhe parecia, assim, que uma reforma
agrária ao estilo mexicano ou russo poderia ser aplicada no Brasil
de modo economicamente racional e socialmente sustentável. Caio
Prado dizia que uma solução capitalista – via melhoria das condições
de trabalho sob um regime salarial – poderia cumprir as funções
econômicas essenciais para a constituição desse mercado interno
capitalista, que não tinha sido possível constituir no tempo
histórico de formação da sociedade brasileira.
Em outros termos, se
a reforma agrária tinha sido uma necessidade em outros tempos,
talvez a sua oportunidade já tivesse passado e caberia examinar as
outras possibilidades de modernização econômica e social no campo,
compatíveis com uma moderna economia capitalista, em vista da
inexistência já referida da classe camponesa tradicional. Assim, se
havia algum sentido de ‘justiça social’ na distribuição de terras,
esse tipo de medida poderia não se revelar funcionalmente eficiente
nas condições concretas da economia brasileira da segunda metade do
século 20. O que existia, sim, era uma demanda por trabalho e renda
no campo, sem que os demandantes tivessem, contudo, condições
técnicas e competência profissional para se estabelecerem como
‘camponeses capitalistas’ de modo pleno, sem requerer assistência
contínua e apoio financeiro do Estado, o que não necessariamente os
transformaria em camponeses bem sucedidos, mas provavelmente em
eternos dependentes do apoio estatal, na falta de capacitação
especializada nessa área.
Em paralelo, havia,
claro, uma enorme demanda política por ‘reforma agrária’; mas isso
correspondia mais aos movimentos políticos organizados em busca de
uma agenda qualquer de ‘transformação social’ do que propriamente a
uma necessidade estrutural daqueles mesmos que seriam objeto dessa
‘reforma agrária’. Ou seja, era uma boa agenda eleitoral, e de
agitação ideológica, oportunamente explorada pelos movimentos em
questão, e pelos demagogos de plantão.
João Goulart, em seu
famoso discurso da Central do Brasil falou da ‘reforma agrária’ como
uma espécie de “abolição do cativeiro para dezenas de milhões de
brasileiros que vegetam no interior, em revoltantes condições de
miséria”, o que era absolutamente verdade, mas sem que isso pudesse
implicar em que essas dezenas de milhões de brasileiros se
convertessem, da noite para o dia, em camponeses prósperos ou
minimamente independentes da ajuda estatal. O que ele pretendia,
através de um decreto da Superintendência da Reforma Agrária, era
expropriar terras às margens das rodovias e ferrovias, para
entregá-las a ‘camponeses’ pobres, num gesto cheio de demagogia e
inconseqüências: “O que se pretende com o decreto que considera de
interesse social para efeito de desapropriação as terras que ladeiam
eixos rodoviários, leitos de ferrovias, açudes públicos federais e
terras beneficiadas por obras de saneamento da União, é tornar
produtivas áreas inexploradas ou subutilizadas, ainda submetidas a
um comércio especulativo, odioso e intolerável.”
O vezo ideológico,
mais bem demagógico, de sua proposta transparecia na imediata
seqüência de seu discurso: “Não é justo que o benefício de uma
estrada, de um açude ou de uma obra de saneamento vá servir aos
interesses dos especuladores de terra, que se apoderaram das margens
das estradas e dos açudes. A Rio-Bahia, por exemplo, que custou 70
bilhões de dinheiro do povo, não deve beneficiar os latifundiários,
pela multiplicação do valor de suas propriedades, mas sim o povo.”
Ele prometia, então, que em 60 dias, com a ajuda das Forças Armadas,
começaria o trabalho de demarcação e atribuição das terras assim
designadas para a sua ‘reforma agrária’ relâmpago. Mais adiante ele
reiterava suas promessas: “A reforma agrária deve ser iniciada nas
terras mais valorizadas e ao lado dos grandes centros de consumo,
com transporte fácil para o seu escoamento.” Ademais dos imensos
problemas logísticos que tal medida em favor do ‘povo’ acarretaria,
em vista da completa incapacidade da Supra em administrar um
processo dessa magnitude, havia o obstáculo do impedimento
constitucional da expropriação de terras sem prévia indenização em
dinheiro, tal como estabelecido pelos constituintes de 1946.
Não é possível saber
que destino e que trajetória teriam tido a expropriação e a
distribuição de terras ‘valorizadas’, segundo o programa de ‘reforma
agrária’ de Goulart, posto que ela sequer chegou a ser implementada.
Provavelmente ela teria conduzido a difíceis batalhas legais no
Supremo, além de alguma exacerbação da violência no próprio campo, a
supor que o Exército teria efetivamente servido de guarda pretoriana
da Supra na sua tentativa de acelerar a redenção do ‘povo rural’ por
meio de iniciativas de claro conteúdo confrontacionista.
Em todo caso, o
governo militar do general-presidente Humberto de Alencar Castello
Branco adotou, como uma de suas primeiras medidas de reforma
estrutural, o Estatuto da Terra, que pretendia eliminar o latifúndio
pela via da imposição fiscal e da sua inviabilização patrimonial
mediante condicionalidades produtivas, ou seja, uma típica reforma
capitalista. Quaisquer que tenham sido os resultados desse
instrumento de reestruturação agrária, o tema não deixou de ter sua
forte conotação política e ideológica durante todo esse tempo, até
os dias que correm, quando um partido neo-bolchevique ainda diz
pretender realizar a ‘reforma agrária’ com os mesmos métodos e
objetivos já inoperantes e economicamente irrelevantes de meio
século atrás.
3) “Reforma
Político-Eleitoral, instituindo o voto aos analfabetos;”
PRA: Medida justa,
em sua franquia universal, ainda que ela viesse acoplada de uma
exigência que ainda hoje desperta um sentimento de caução: “que a
todos seja facultado participar da vida política através do voto,
podendo votar e ser votado”. De fato, Goulart pretendia que “Nesta
reforma, pugnamos pelo princípio democrático, princípio democrático
fundamental, de que todo alistável deve ser também elegível.” O
princípio é meritório, mas contar com prefeitos ou vereadores
analfabetos pode não ser o melhor caminho para o aperfeiçoamento da
máquina administrativa e seu funcionamento adequado.
4) “Reforma
Educacional, para ampliar a rede pública, assegurando a todos o
direito à Educação com qualidade, dentro dos princípios do Estado
laico;”
PRA: Os princípios e
as intenções sempre foram vagos, e o governo Goulart nunca
explicitou como ele pretendia assegurar a todos o direito à educação
de qualidade. Supostamente, isso se faria pela ampliação das
universidades públicas e pela democratização do acesso, o que
permaneceu indefinido até que o Ministério da Educação da ditadura
militar decidiu instituir o vestibular como método universal, e
meritório em seu recrutamento impessoal, de seleção na entrada,
cabendo depois resolver o problema das vagas e da qualidade do
ensino. O que seria possível prever, mesmo na continuidade do regime
democrático no Brasil, seria a grande expansão do ensino
universitário, demanda universal da classe média e dos estratos
urbanos da classe média baixa. O que os militares fizeram, de fato,
foram enormes investimentos na pós-graduação, ao lado de um relativo
descaso com os ciclos inicial e secundário da educação, com
conseqüências catastróficas nas décadas que se seguiram (mas isso
não era fácil de prever à época, dada a relativa qualidade do ensino
público dos níveis fundamental e médio.
O fato é que,
independentemente dos regimes militares e civis, e de sua orientação
mais estatizante ou liberal, a educação nos dois primeiros níveis
continuou a se deteriorar continuamente no Brasil, ao passo que a
democratização do acesso ao ensino superior, assegurado pela
expansão sobretudo privada da oferta de vagas, foi acompanhada de
certa mediocrização dos quadros docente e discente, o que é de certa
forma natural e esperado, num movimento desse tipo. A melhoria da
qualidade da produção científica não encontrou correspondência na
transposição desse conhecimento para o aparelho produtivo, e o
Brasil segue dependente de tecnologia e know-how estrangeiros. Em
qualquer hipótese, seria altamente aleatório e improvável que um
governo Goulart levado a seu termo tivesse alterado
significativamente a qualidade do ensino no Brasil, em qualquer
nível. O mais provável é que ele teria contribuído com sua
deterioração mais rápida, em vista do exacerbado corporativismo
sindical já presente e de suas conhecidas orientações demagógicas e
populistas, incompatíveis com um ensino adaptado aos requerimentos
de uma sociedade de mercado competitiva como deveria ser o Brasil.
Mencione-se a
propósito, que com todo o autoritarismo do regime militar, este
esteve mais próximo de cumprir certas exigências de uma moderna
economia competitiva – sobretudo ao estimular tremendamente a
pós-graduação – do que todo o besteirol à la Bourdieu ou ao estilo
ingênuo de um Paulo Freire, disseminado por pedagogos incompetentes
como costumam existir nesses regimes fortemente ideologizados e
sindicalizados. O desastre educacional teria sido bem maior e teria
vindo provavelmente mais rápido. O problema básico da educação no
Brasil é a afirmação do mérito, algo a que se opõem virulentamente
sindicalistas oportunistas.
5) “Reforma
Administrativa, para modernizar o corpo funcional, racionalizando a
máquina do Estado e combatendo a corrupção;”
PRA: Nada mais
meritório e nada mais necessário, aliás ainda hoje. Como para o
problema educacional acima mencionado, o mais provável teria sido
uma deterioração do serviço público, em função do corporativismo
exacerbado que já vigorava nos tempos de Kubitschek e caminhou para
seu ponto máximo no governo Goulart. A orientação tecnocrática do
regime militar, aliás condizente com a própria natureza das Forças
Armadas, levou a uma modernização sensível do aparelho de Estado,
ainda que pela via autoritária, e com imensas restrições
ideológicas, típicas da mentalidade estreitamente anti-comunista
então vigente. Os militares, na verdade, mesmo tendo modernizado o
Estado, ampliaram enormemente o seu escopo e abrangência
substantiva, penetrando nas mais diversas áreas de natureza
diretamente produtiva. O resultado foi uma elevação da carga fiscal
de menos de 13% para mais de 24%, servindo em parte para
investimentos produtivos, mas em grande medida também para a
manutenção do próprio Estado. A sociedade brasileira, já premida por
uma carga tributária próxima da dos países ricos – com uma renda per
capita seis vezes menor –, paga o preço dessa expansão desmesurada
do Estado, que, contrariamente ao que se pretendia, correspondeu
também a um crescimento da corrupção (absolutamente natural, posto
que o Estado manipula um volume maior de recursos, com muito mais
funcionários e canais de intermediação, inclusive de controle, que
podem também servir a objetivos de fraude e roubo deliberado).
6) “Reforma
Bancária, para ampliar o crédito e financiamento às forças
produtivas, abaixando e controlando os juros;”
PRA: O Brasil nunca
tinha tido, de fato, um mercado de créditos efetivo e um sistema
bancário digno desse nome; desde o Império, a carência de capitais
foi uma constante em nossa história. Era, portanto, mais que
justificado que o governo Goulart pretendesse fazer uma reforma
bancária para ampliar o crédito e financiar a produção, mas o
sentido adotado para isso era deliberadamente enviesado para abaixar
os juros, mantendo-os controlados por mera volição administrativa. O
Brasil, na verdade, precisava mais do que uma reforma do sistema
bancário: ele tinha de passar por uma reforma econômica radical, que
deveria começar por uma reforma monetária, fiscal e orçamentária,
estabelecendo as bases de um sistema financeiro competitivo e
aberto, com graus moderados de extração tributária e de
requerimentos de financiamento por parte do Estado, o que
contribuiria, justamente, para manter em níveis moderados os juros
bancários. O que eleva os juros é a dívida pública e a falta de
concorrência no sistema bancário, não a ganância dos banqueiros,
como parecia acreditar o governo Goulart. Controle de juros, assim
como controle de câmbio, gera distorções no campo econômico, além de
ser inócuo, posto que um mercado paralelo – de financiamento ou
cambial – se colocaria imediatamente como alternativa informal à
determinação governamental. Outro não foi o resultado no mercado
cambial em resposta à fixação e uma taxa oficial para o comércio de
divisas, como já se sabia nos anos 1960.
7) “Reforma
Tributária, para corrigir as distorções da tributação entre
proprietários e assalariados;”
PRA: Certamente
necessária, aliás indispensável, posto que a estrutura existente em
1964, preservando imposto anacrônicos que vinham do Império ou do
início da República, era altamente disfuncional do ponto de vista da
produção, do consumo e da renda. Mas, essa distinção feita na
proposta entre ‘proprietários’ e ‘trabalhadores’ é profundamente
reveladora da visão distorcida que mantinham seus defensores,
indicando um desejo pouco disfarçado de taxar os detentores de
patrimônio – ou seja, o estoque de riqueza existente na
economia – em lugar de estimular a produção, para então taxar os
fluxos de riqueza criados. Não se sabe qual seria, exatamente, a
proposta de reforma tributária do governo Goulart, além desses
instintos predatórios ou retaliatórios contra os ‘proprietários’ e
supostamente contra os ‘rentistas’ também, que seriam os banqueiros,
assimilados a possíveis ‘exploradores do povo’. Ele sequer
apresentou um projeto ao Congresso e era altamente duvidoso que o
fizesse, e mesmo que o tivesse feito, era altamente aleatório ou
improvável que tal projeto fosse aprovado no ambiente de profundo
dissenso congressual vivido naqueles anos.
O governo militar
fez, sim, profunda reforma tributária, introduzindo, aliás,
precocemente, princípios de tributação – como o do valor agregado –
que seriam depois adotados em outras economias modernas. O sentido
foi também concentrador e ‘extrator’, posto que o Estado passou a
assumir funções econômicas crescentes, mesmo se, no meio do caminho,
a carga fiscal diminuiu relativamente, substituída pelo
endividamento interno e externo. A centralização tributária operada
pelo regime militar foi depois parcialmente revertida na
redemocratização de 1985-88, não em favor dos contribuintes – como
seria legítimo esperar – mas em benefício dos Estados e municípios,
os próximos responsáveis pelo desastre fiscal no Brasil dos anos
1980 e 90, até serem contidos, parcialmente, pela Lei de
Responsabilidade Fiscal de 2000.
Atualmente, é
altamente duvidoso que uma reforma tributária seja conduzida no
Brasil, e se ela for feita, mais uma vez não será em benefício dos
produtores e consumidores e, sim, obviamente, em favor das unidades
da federação. O mais provável que ocorra é uma ‘progressividade
extratora’ pelos anos à frente, ou seja, um aumento contínuo, ainda
que moderado, da carga fiscal. Desde a Constituição, ela já aumentou
dez pontos percentuais do PIB, equiparando-se atualmente ao nível
médio da OCDE, em torno de 38% do PIB, dez
pontos acima da média dos países em desenvolvimento e outros dez
pontos acima dos países de maior dinamismo e crescimento econômico.
Como os órgãos de ‘repressão’ tributária são altamente eficientes no
Brasil, o mais provável é que a esquizofrenia fiscal tenha ainda um
grande espaço para se exercer no futuro imediato e de longo prazo.
Na verdade, o Brasil apresenta todos os sintomas de uma
bomba-relógio fiscal em formação – excesso de gastos inevitáveis, e
crescentes, e baixo crescimento econômico – o que deve manifestar
com maior intensidade a partir de meados da próxima década.
8) “Reforma
Militar, para permitir a participação dos suboficiais na política;”
PRA: Ponto altamente
demagógico, sem dúvida, que não constitui propriamente uma reforma
militar, mas um simples expediente eleitoreiro, apelando para uma
categoria corporativa suscetível de apoiar políticos populistas. Nas
condições do Brasil do início dos anos 1960, e do ambiente militar,
seria suscetível de agravar ainda mais o ambiente já efervescente
nas casernas, desde o retorno dos trabalhistas ao poder.
9) “Reforma do
Capital Estrangeiro, para mudar as relações e contratos com empresas
multinacionais, regulados pela Lei de Remessa de Lucros;”
PRA: Não se tem
idéia de qual reforma se estava falando, mas a intenção seria
limitar a remessa de lucros e controlar ainda mais os contratos e as
atividades das empresas estrangeiras. Uma lei específica que
regulava a atração e o tratamento do capital estrangeiro no Brasil
tinha sido aprovada em 1962, mas jamais foi promulgada pelo
presidente Goulart, tendo isso sido feito pelo Congresso dois anos
depois, para ser depois modificada no início do governo militar. O
Brasil, na verdade, sempre teve uma atitude algo esquizofrênica
nessa área: ele gosta do capital estrangeiro – posto que necessário
ao financiamento do Estado ou das obras de infra-estrutura – mas
detesta o capitalista estrangeiro e sua propensão dominadora sobre
setores inteiros da economia (automobilístico, farmacêutico,
comunicações, por exemplo). Essa atitude ainda não mudou
fundamentalmente, e continuamos dependentes do capital estrangeiro
para o financiamento de muitas obras de infra-estrutura e do próprio
Estado, assim como continuamos a atrair o capital estrangeiro pelas
dimensões do nosso mercado interno, a despeito do ambiente precário
de negócios e da alta tributação existente; a lei de 1964 não mudou,
aliás, a não ser para facilitar o acesso dos brasileiros a divisas e
operações cambiais.
6. Balanço
econômico do governo Goulart: uma visão pouco complacente
Sem pretender
criticar mais uma vez a visão pouco complacente da maior parte da
literatura semi-acadêmica brasileira a respeito do governo Goulart,
e deixando de lado, agora, a postura totalmente acrítica desses
autores em relação às ‘chamadas reformas de base’ e às posições
presumidamente ‘progressistas’ desse governo na maior parte dos
temas sociais, cabe voltar, pela sua importância intrínseca em
relação ao bem-estar e oportunidades de emprego e renda para a
maioria da população, à administração da economia nacional nos anos
Goulart. É um fato, e não uma opinião, que o ambiente macroeconômico
deteriorou-se sensivelmente entre 1961 e 1964: a inflação e os
desequilíbrios do setor externo, o estrangulamento cambial e o saldo
(na verdade déficit) do balanço de pagamentos agravaram-se
enormemente nesses anos; a instabilidade da política econômica gerou
volatilidade e incertezas, que determinaram, por sua vez, fuga de
capitais e desinvestimento produtivo. A rigor, não se pode dizer que
1961 possa ser colocado sob o domínio da política econômica de
Goulart, posto que ele assumiu apenas em setembro desse ano,
cerceado por um regime parlamentarista do que ele se desvencilharia
apenas em janeiro de 1963.
Vamos, assim,
considerar os anos de 1962 a 1964 como tendo sido ‘influenciados’,
relativamente, pela política econômica de Goulart, sendo que os anos
de 1962 e 1963 caem inteiramente sob sua responsabilidade. E quais
são os números econômicos desses anos?
|
Brasil: indicadores
econômicos selecionados, 1962-1964 |
|
Variações anuais (%) |
1962 |
1963 |
1964 |
|
PIB, aumento real |
5,3 |
1,5 |
2,9 |
|
PIB real per capita |
2,4 |
-1,4 |
0,0 |
|
Inflação |
55,8 |
80,2 |
86,6 |
|
Estoque médio de M1 |
56,6 |
64,9 |
82,0 |
|
Produção agrícola |
5,5 |
1,0 |
5,2 |
|
Produção industrial |
7,8 |
0,2 |
1,3 |
|
Fonte: Carlos M. Peláez,
Wilson Suzigan, História Monetária do Brasil (2a.
ed.; Brasília, Editora da UnB, 1981), p. 272.
M1: Depósitos à vista e
dinheiro em poder do público. |
À vista desses
números, não se pode considerar a gestão econômica de Goulart um
sucesso, muito ao contrário, talvez mesmo um desastre. As ‘reformas
de base’ só ocorreriam efetivamente sob os governos militares, que
alteraram radicalmente as bases e o modo de funcionamento da
política econômica e o papel do Estado. A característica essencial
dessa política econômica sob o regime militar foi a centralização e
a estatização, algo, aliás, muito próximo da ideologia socialista
defendida pelos antigos líderes populistas e que os militares
recusavam absolutamente nos planos político e cultural.
De fato, parece
surpreendente que o regime militar tenha realizado muitos dos
objetivos econômicos estatizantes que a esquerda defendia
abertamente antes (e depois) do regime militar. Durante o período, a
esquerda condenou as políticas de ‘arrocho’ salarial, de repressão
aos movimentos sociais e de subordinação dos sindicatos de
trabalhadores ao Estado, práticas que todos os regimes socialistas
sempre mantiveram em todos os experimentos históricos conhecidos, em
escala muito mais ampla do que qualquer ditadura capitalista ou
economia de mercado. O regime militar brasileiro – é verdade que
muito com base no endividamento interno e externo – levou o Brasil a
taxas de crescimento jamais vistas, antes e depois, na economia
brasileira: 10,4 em 1970, 11,3% em 1971, 11,9% em 1972 e, no auge de
um ciclo que não mais se repetiria, 14% em 1974. No plano mundial,
apenas a China, bem mais tarde, reproduziria taxas sustentadas
nesses picos durante muito tempo.
Cabe reconhecer,
também, que a inflação, alimentada pela inércia da correção
monetária e pelo frenesi expansionista dos gastos públicos – boa
parte, é verdade, para investimento produtivo –, manteve-se
consistentemente na faixa dos dois dígitos durante todos os anos
1970, e acima dos três dígitos a partir dos anos 1980. A
redemocratização, em 1985, não foi particularmente feliz, nem em
taxas de crescimento, nem nos índices de custo de vida, posto que o
índice geral de preços saiu de 225% (1985) para 684% (1988), depois
para 1.320% (1989) e, finalmente, 2.310% (1990), só superado pelo
pico de 2.407% em 2004. O controle inflacionário só viria depois,
com a introdução de medidas econômicas, para ser claro, de sentido
totalmente contrário ao espírito da política econômica patrocinada
por Goulart.
Qualquer que seja o
julgamento que se faça dos ‘anos de chumbo’, durante a fase mais
aguda da ditadura militar, é um fato que a história desses anos,
como aliás, dos períodos anterior e posterior, está sendo escrita
desde uma perspectiva de esquerda, ou pelo menos ‘progressista’.
Ora, é um fato, também, que essa história, até porque seus
produtores se julgam (talvez corretamente) opositores do regime
militar, é decididamente enviesada contra esse regime, ao mesmo
tempo em que é profundamente leniente ou tolerante em relação aos
anos Goulart, considerado geralmente como um período de
‘florescimento democrático’ e de ‘conquistas políticas e sociais’.
Essa literatura descura por completo a incompetência econômica e
administrativa desses anos.
As distorções
começam, justamente, pelos motivos do golpe, como sendo mera reação
de latifundiários, de capitalistas entreguistas e de militares
teleguiados pelo império aos supostos avanços dos movimentos sociais
reformistas. Mais até do que uma suposta ameaça de ‘ditadura
comunista’ – justificativa utilizada por mais de um ideólogo do
regime militar, na tentativa de legitimar o golpe de Estado de 1964
– o que assustou a classe média e levou os militares a se libertarem
de seus escrúpulos legalistas, foi, basicamente, o recrudescimento
da espiral inflacionária e o quadro de instabilidade econômica e
social, que deteriorou gravemente o ambiente político no início dos
anos 1960.
Não se pode dizer
que o democratismo caótico dos anos Goulart tenha contribuído para
reduzir os altos níveis de desigualdade social e de concentração da
renda: ao contrário, posto que a aceleração da inflação trouxe, na
verdade, uma elevação do coeficiente de Gini – o índice que mede a
concentração de renda. Como se sabe, a inflação atinge basicamente
os pobres, ao atuar como uma espécie de imposto sobre seus
rendimentos, embora não se possa descurar o peso da (falta de)
educação no perfil extremamente concentrado da distribuição de
renda. Num cômputo meramente estatístico, os resultados econômicos
do governo Goulart são negativos.
Concluindo, pode-se
dizer que a subliteratura existente nos manuais escolares de
história ou de ciências humanas no Brasil em torno do movimento
militar que derrocou o regime Goulart e deu início a uma ditadura de
duas décadas não serve à história nem à memória correta do Brasil de
início dos anos 1960, uma sociedade em rápida transição para a
industrialização, mas ainda atrasada nos planos agrícola,
tecnológico, político e social. É correto dizer que a história é
feita de mitos – heróis nacionais, episódios gloriosos de um passado
incerto, etc. – mas neste caso específico, os mitos em torno de 1964
são especialmente mistificadores e deformadores da história real.
Está em tempo de encerrar essa subliteratura e começar a escrever a
história seriamente.
As principais etapas da historiografia revolucionária podem
ser conferidas na obra clássica de Georges Lefebvre, La
Naissance de l’Historiographie Moderne (Paris:
Flammarion, 1971). A visão marxista tradicional está em
Albert Soboul, Histoire de la Révolution française
(Paris: Les Editions Sociales, 1962).
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