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LUCIRLEIA
ALVES MOREIRA PIERUCCI
Doutoranda em Educação pela
Universidade Estadual de Campinas, pesquisadora do Grupo FOCUS/FE.

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A Organização Pan-americana de Saúde (OPAS) e
a difusão do ideal da medicina preventiva
Lucirleia Alves Moreira Pierucci
A Organização Pan-Americana da Saúde
(OPAS) foi criada em 1902 na “2ª. Conferência Internacional da
Organização dos Estados Americanos”, sendo considerada como o
organismo regional especializado em saúde do Sistema Interamericano.
Segundo seu site oficial, a OPAS tem por missão “orientar os
esforços estratégicos de colaboração entre os Estados membros e
outros parceiros, no sentido de promover a eqüidade na saúde,
combater doenças, melhorar a qualidade e elevar a expectativa de
vida dos povos das Américas” (OPAS, 2007).
Para Nísia Lima (2002), cujo trabalho
procura compreender o “papel desempenhado pela saúde na configuração
das relações internacionais a partir da segunda metade do Século
XIX”, a OPAS, criada em 1902 “é não só o mais antigo organismo de
cooperação na área de saúde, mas também uma das primeiras
instituições de cooperação internacional”. (LIMA, 2002, p.25)
Em seu trabalho, Lima (2002), divide a
história da OPAS em momentos distintos. No primeiro momento, entre
1902 a 1947, a atuação da OPAS se deu principalmente por meio das
“Conferências Sanitárias Pan-Americanas”, que difundiam as idéias
científicas e as ações de saúde desenvolvidas pela Organização,
principalmente por intermédio do Boletim da Oficina Sanitária
Pan-americana, conseguindo implementar o Código Sanitário
Pan-Americano em 1924, que regulamentava as ações pertinentes ao
controle das doenças transmissíveis. (LIMA, 2002, p.48).
Num segundo foi à implantação do
programa de descentralização e transformação da OPAS em organismo
regional da Organização Mundial da Saúde (OMS), criada em 1946.
Contudo, a incorporação da OPAS à OMS
somente ocorreu em 1948, quando os países Latino-americanos fizeram
consideráveis contribuições em dinheiro, fazendo com que o orçamento
da OPAS, que ficava na casa dos US$ 100 mil dólares, chegasse a
incrível marca dos quase US$ 1,3 milhão. Assim, nesse mesmo ano, os
acordos entre a OMS e OPAS, foram conduzidos à 1ª. Assembléia
Mundial de Saúde.
Os rumos da OPAS sob a direção de Fred
Soper
consistem no segundo momento, no período de 1947 a 1958. Esse
período ficou marcado pelo advento da segunda guerra, e pelos
acordos bilaterais entre o Instituto de Assuntos Interamericanos,
criado em 1942 e subordinado ao Departamento de Estado, e os
governos latino-americanos, que permite passar a entender a saúde
como uma forma estratégica de atuação. Fred Soper teria estabelecido
uma forte interação com sanitaristas brasileiros, principalmente com
Clementino Fraga, Belisário Pena e João de Barros Barreto, e
“pode-se afirmar que suas atividades, segundo o modelo de ampla
cobertura territorial e vigilância sanitária estrita, apresentavam
afinidades com a centralização da administração pública durante o
Governo Vargas” (LIMA, 2002).
No terceiro período, entre 1958 a 1982,
a autora cita, entre os grandes temas que envolveram as relações
entre Brasil e OPAS, a reforma no ensino médico. Entre as
iniciativas esta a criação da Biblioteca Regional de Medicina (BIREME)
em 1967 com sede em São Paulo, em parceria com o Ministério da
Saúde.
Na década de 60, a OPAS, começou a
difundir o modelo de medicina preventiva na América Latina. A
proposta pretendia reformular o ensino médico, introduzindo a
"mentalidade preventivista" e a implantação da medicina comunitária.
Para isso, a OPAS procurou apoiar o surgimento de departamentos de
Medicina Preventiva no país.
Como o desenvolvimento urbano e
industrial do Brasil pós década de 60 acarretou um impacto
significativo nos serviços públicos, nas condições saúde de
habitação e trabalho, “esse quadro suscitou os debates sobre as
políticas de saúde nas décadas de 1960 e 1970, intensificando os
estudos sobre pobreza urbana e suas relações com temáticas
sanitárias”. (LIMA, 2002, p.80)
No período correspondente a 1958 a 1982,
em parte marcado pela Guerra Fria, e pelo esfriamento das relações
entre Estados Unidos e Cuba, a OPAS teria, segundo Macedo (1977), a
única a ter apoiado e utilizado a experiência desse país nas áreas
de desenvolvimento tecnológico em saúde e de ações assistenciais,
como o programa de médico de família. (LIMA, 2002, p.80)
Um importante marco na história da
educação e formação profissional na área da saúde na América Latina,
foi a realização do Seminário sobre o Ensino de Medicina Preventiva,
realizado em Viña del Mar, no Chile, em 1955. Durante esse evento,
apontaram-se propostas alternativas ao modelo de organização da
educação médica proposto no relatório do educador norte-americano
Abraham Flexner, medicina científica, então predominante no
continente americano desde a segunda década do século XX. Assim, foi
a partir do Seminário de Viña del Mar, que intensificou-se a criação
de departamentos de medicina preventiva ou social em vários países,
através da OPAS (LIMA, 2002, p.91).
Nesse rumo, vários departamentos de
Medicina Preventiva e Social, foram sendo criados nas Universidades
e em instituições públicas brasileiras. No período de 1965 a 1970 a
tendências nos departamentos era reproduzir parte daquele modelo
importado, juntamente com os conteúdos da higiene que orientou a
formação e a prática dos antigos sanitaristas. Um estudo efetuado
por Everardo Duarte Nunes, sobre as disciplinas ensinadas no nosso
Departamento na graduação médica, mostrou que figuravam, naquele
período inicial, conteúdos da velha higiene: como a Medicina
Construtiva e Educação Sexual, ao lado de disciplinas que colocavam
novos conteúdos pertencentes ao modelo importado, como as Ciências
Sociais Aplicada à Medicina e a Clínica de Família, numa perspectiva
de Medicina Integral. Mas no início da década dos anos 70 o modelo
de medicina comunitária de ensino e assistência na tentativa de não
mais reproduzir os modelos preventivistas e higienistas
Apesar da tentativa de reelaboração
teórica com relação aos conceitos de medicina preventiva, medicina
social e saúde pública, essas expressões segundo Schramm "referem-se
a uma mesma realidade de ‘reunião’ (coletivo), de ‘associação’
(social), de ‘coisa comum’ (público)" e não alteraria de maneira
significativa a prática dos departamentos envolvidos dentro desse
processo (GRIGÓRIO, 2002, op.cit. SCHRAMM, 1993).
Tomando como pontos fundamentais os
temas do desenvolvimento e da medicina social, destaca-se a forma
como a agenda proposta pela OPAS, ao mesmo tempo influenciou e se
forjou a partir de forte interação com instituições e intelectuais
brasileiros, principalmente através da Biblioteca Regional de
Medicina e Ciências da Saúde (BIREME), que estabeleceu uma rede
Pan-americana de informação biomédica e social.
A OPAS teve um papel determinante na
disseminação da Medicina Social no país no início dos anos 80,
através da institucionalização, no Brasil, da abordagem da medicina
social, ainda que, naturalmente, comportasse inúmeras clivagens e
diferenciações nos planos teóricos - políticos, principalmente nos
Departamentos de Medicina Preventiva da Universidade de Campinas
(UNICAMP) e da Universidade de São Paulo (USP), além do Instituto de
Medicina Social da UERJ e pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP),
na Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ). Uma das implicações desse
processo foi à incorporação de cientistas sociais aos quadros
docentes dessas instituições.
Com a criação do Conselho Nacional de
Saúde Previdenciária,
em1981, houve um embate ideológico e de interesses muito intenso,
dentro do Conselho. De um lado estavam, os representantes de
prestadores de serviços privados, sindicatos estaduais de hospitais,
Associação Médica Brasileira, grupos de interesse da indústria
farmacêutica e de equipamentos médico-hospitalares. Versus
representantes do “Movimento Sanitário”
,
sindicatos médicos, Rede Médica (REME), Centro Brasileiro de Estudos
em Saúde (Cebes), Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva),
Institutos de Saúde Coletiva e Departamentos de Medicina Preventiva,
sindicatos de trabalhadores, associações de moradores,
posteriormente os secretários municipais e estaduais de saúde e
integrantes de partidos políticos.
Contudo sabemos que o grande marco
histórico do grupo do Movimento Sanitário foi à realização da VIII
Conferência Nacional de Saúde, ocorrida em março de 1986, que contou
com a participação de diversos setores organizados da sociedade e na
qual houve um consenso de que para o setor da saúde no Brasil não
era suficiente uma mera reforma administrativa e financeira, mas sim
uma mudança em todo o arcabouço jurídico-institucional vigente, que
contemplasse a ampliação do conceito de saúde segundo os preceitos
da reforma sanitária.
O relatório produzido nessa Conferência serviu de referência para os
constituintes que elaboraram a Constituição de 1988 e o Sistema
Único de Saúde (SUS).
Sendo assim, de certa forma, o grande
desafio do Movimento da Reforma Sanitária passou a ser promover a
transição do sistema desintegrado, principalmente na articulação das
esferas de governo, e centralizado, ora em serviços médicos
hospitalares privados, ora em programas verticalizados, para um
outro sistema com comando único em cada esfera de governo. Aqui não
mais uma tarefa de resistência, como ocorreu dentro do Conselho
Nacional de Saúde Previdenciária.
A Carta de 1988 enunciava as seguintes
garantias para sistematização das ações e dos serviços destinados à
promoção, proteção, preservação e recuperação da saúde individual e
coletiva: a) a saúde como um direito de cidadania e dever do Estado;
b) a relevância pública das ações e serviços de saúde; c) a
universalidade da cobertura e do atendimento, tendo como princípio a
eqüidade da assistência; d) a descentralização da gestão
administrativa com garantia de participação comunitária; e) a
integração da rede pública de serviços num sistema único; f) a
possibilidade de participação complementar do setor privado de
serviços no sistema público de saúde; g) o co-financiamento dos
orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios; h) a direção única nas esferas de governo (União,
Estados, Distrito Federal e Municípios); i) a saúde como resultante
de políticas sociais e econômicas e de fatores que determinam e
condicionam o estado de bem-estar físico, mental e social do
indivíduo.
Na década de 90, no entanto, os
incentivos à saúde pública, emergiram principalmente em 1994 com o
documento “Saúde Pública nas Américas”, esse documento teria surgido
da visão particular sobre a esfera da reforma setorial da saúde no
continente. A tentativa era de revaloração do sanitarista.
O pioneirismo da OPAS, nos projetos de
reformulação dos recursos humanos em saúde tem seu marco na década
de 60, com a publicação da Carta de Punta Del Leste
considerado o primeiro marco político-institucional e simbólico da
mudança no entendimento do papel das políticas públicas de saúde e
dos profissionais deste campo, no desenvolvimento social e econômico
das nações latino-americanas.
Na ocasião, a OPAS/OMS já havia firmado
um acordo complementar ao celebrado a 14 de novembro de 1973 entre o
governo do Brasil, através do Ministério da Saúde e o Ministério da
Educação e Cultura, para o desenvolvimento de um programa de
recursos humanos para a saúde no Brasil, previsto para 1975, que
ficou conhecido mais tarde como Programa de Preparação Estratégica
de Pessoal de Saúde (PPREPS).
O PPREPS foi criado
em 1975 por convênio entre o governo brasileiro e a OPAS, de 1975 a
1978, e desenvolveu projetos de treinamento e desenvolvimento de
recursos humanos com as secretarias estaduais de saúde, de
integração docente assistencial, a cargo de universidades e de
tecnologia social.
Dessa forma, o PPREPS apresentava como
propósito: "adequar progressivamente à formação de Recursos Humanos
para a saúde com os requerimentos de um sistema de saúde com
cobertura máxima possível e integral, regionalizada e de assistência
progressiva de acordo com as necessidades das populações respectivas
e as possibilidades das diversas realidades que o país apresenta"
(MS/MEC/OPAS, PPREPS, 1976, p.5).
Sabe-se que os projetos que compuseram o
PPREPS destinaram-se a cobrir três áreas de atuação, sob a
responsabilidade do Ministério da Saúde: (i) planejamento de
recursos humanos, (ii) preparação direta de pessoal para a saúde,
(iii) apoio ao desenvolvimento do programa nacional de preparação e
(iv) distribuição estratégica de pessoal de saúde (MS/MEC/OPAS,
PPREPS, 1976, p.3).
Esse Programa explicitou como um dos
seus grandes objetivos, "apoiar o estabelecimento de Sistema de
Desenvolvimento de Recursos Humanos em cada Estado da federação,
integrados aos sistemas de planejamento setorial respectivo", sendo
a consecução deste objetivo o que poderia assegurar a continuidade
de desenvolvimento de recursos humanos pelas Secretarias Estaduais
(Simões, 1986, p.3).
Contudo, no final de 2001, ocorre
uma mudança importante no cenário nacional. O governo federal lança
o Programa de Incentivo a Mudanças Curriculares nos
Cursos de Medicina, conhecido como PROMED, desenvolvido numa
parceria entre o Ministério da Saúde e o da Educação com o apoio da
OPAS. Com esse programa, o estado passou a disponibilizar
recursos financeiros da ordem de R$ 1,2 milhões para
três anos de trabalho para cada Instituição de Ensino Superior que
adequasse sua proposta de formação às diretrizes da medicina
comunitária.
Com o PROMED, várias universidades
mudaram o modelo de formação para se adequar à sua proposta. Dentre
as vinte escolhidas na primeira seleção, dez eram federais, quatro
estaduais e cinco particulares.
A intenção do Estado com esse Programa
de Incentivo foi regular a formação dos recursos humanos na saúde,
uma vez que faz uma crítica a excessiva “flexibilização permitida
pela nova LDB”. Além disso, segundo consta na proposta do PROMED
acusa-se os órgãos de formação superior de excessiva autonomia, que
teria acarretado um “afastamento de seu constituinte principal, que
é a sociedade”. (PROMED, 2001)
Podemos dizer que de certa forma, a
tendência em geral de adoção das orientações da medicina voltada
para a comunidade, se dá em geral pelos Departamentos de Medicina
Preventiva e Social. A idéia do Promed é incentivar os outros
professores e Departamento das Escolas Médicas a aceitarem as
mudanças propostas e se adequarem à proposta do governo para a
educação médica no país.O PROMED pode ser visto assim, como uma
espécie de “deja vú” do PREPS que a OPAS tentou implementar
em 1975- 78. O PROMED se enquadra na estratégia para efetivação de
atividades que já haviam sido realizadas desde a década de 70 no
Brasil, principalmente com o Apoio da OPAS via Ministérios da saúde,
para o Desenvolvimento de Recursos Humanos de Saúde, que é uma das
marcas da Organização.
Referências:
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humanos para a saúde. Cad. Saúde Pública., Rio de Janeiro, v. 2,
n. 4, 1986.
Dr. Soper desempenhou papel na luta contra a febre amarela e
outras doenças infecciosas no Brasil como parte do seu
trabalho com a Fundação Rockefeller nas décadas de 20 e 30,
no controle do tifo na África do Norte e na Itália durante a
Segunda Guerra Mundial. Atuou também como Diretor da
Organização Pan-Americana da Saúde (Escritório Regional da
Organização Mundial da Saúde para as Américas) de 1947 a
1959.
O Movimento Sanitário surgiu em contraposição à Lei 6229,
que organizou em 1975, o Sistema Nacional de Saúde e
estabeleceu as principais competências das distintas esferas
de governo. Segundo Andrade (2000), essa organização tinha
forte característica centralizadora no nível federal e
nítida dicotomia entre as ações coletivas (competência do
Ministério da Saúde) e individuais (competência do
Ministério da Previdência e Assistência Social), o que fazia
com que não se estabelecesse um comando único em cada esfera
de governo. No nível federal, além das competências do
Ministério da Previdência e Assistência Social e do
Ministério da Saúde, também se definiam competências para os
Ministérios da Educação, do Trabalho e do Interior.
(ANDRADE, 2000)
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