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DAFNE MELO
Jornalista e estudante de História.
SILVIA BEATRIZ ADOUE
Doutora em Letras pela FFLSCH-USP,
professora nos cursos de Filosofia e de Letras do Centro
Universitário Claretiano, no curso de Letras da UNESP-Araraquara
e na Escola Nacional Florestan Fernandes.
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Uma casa três vezes tomada
Dafne Melo
& Silvia Adoue
Este trabalho é o ponto de partida de
uma investigação que uma das autoras, Dafne Melo, está levando
adiante e que remete aos cruzamentos da literatura com a história,
no caso, da literatura e a história argentinas. O objeto da
investigação é o conto “Casa tomada” de Julio Cortázar, de 1946, de
“Cabecita negra”, de Germán Rozenmacher, de 1962, e de “Casa
tomada”, escrito por Washington Cucurto em 2008. Os dois últimos são
reescritas não do primeiro conto, e sim das leituras sociológicas
que foram feitas da narrativa de Cortázar.
Não pretendemos aqui desenvolver
exaustivamente resultados de um estudo que já está em curso, senão
apresentar algumas reflexões, produto de conversas sobre o tema
entre as duas autoras. Acreditamos que uma investigação sobre este
tema pode ser bastante fértil e jogar luz sobre os processos e
procedimentos de produção e reprodução de narrativas sobre
Argentina.
Na Argentina parece que sempre se conta
a mesma história. É possível pensar em alguns relatos repetidos como
linhas de força dentro de um campo de batalha das narrativas. Para
que qualquer batalha aconteça, são necessárias pelo menos duas
condições: que os dois bandos se encontrem no mesmo espaço físico e
que ambos possuam um equilíbrio mínimo no poder de fogo. No caso, é
necessária uma linguagem comum, a munição é abastecida por um
conjunto de códigos que circulam entre umas e outras narrativas,
mesmo quando aparecem dentro de diferentes configurações, que supõem
sentidos diferentes em cada relato. Algumas das séries que sustentam
a tensão entre os pólos em pugna são facilmente distinguíveis. Esse
jogo de espelhos paródico, que se vale na maioria das ocasiões da
linguagem alegórica, não conforma, porém um repertório apenas para
iniciados, uma vez que os códigos migram das diferentes formas da
oralidade para a literatura e vice versa. São muitas vezes retirados
do boato, da linguagem jornalística, da publicidade, da retórica
política e a eles retornam depois de passar pela literatura.
Vamos estudar, então, uma dessas séries:
a que se inicia com o conto “Casa
tomada”, de Julio Cortázar, que foi publicado por primeira vez na
revista “Los Anales de Buenos Aires”, dirigida por Jorge Luis
Borges, em 1946. Um ano depois a mesma revista publicou outro conto
de Cortázar, “Bestiario”. Em 1949, os dois contos foram publicados
numa coletânea com o nome de “Bestiario” (CORTÁZAR, 1977)
e que remete a uma coleção organizada de monstros. As narrativas
reunidas no “Bestiario” se inserem numa série de relatos de registro
fantástico da qual faziam parte obras de Jorge Luis Borges e Adolfo
Bioy Casares.
Segundo Andrés Avellaneda:
Em 1945, a irrupção do peronismo foi
percebida pelas classes médias urbanas como uma agressão dos
setores alheios que tentavam se apropriar indevidamente de
espaços políticos e culturais que não lhes correspondiam, o
topos da invasão, obsessivo na literatura desses anos,
vincula-se fortemente com esse modo de perceber a realidade
social e cultural da época. (2002, p. 104)
[...] os textos desses escritores
ajustam-se apertadamente às práticas culturais dos estratos
sociais que alimentavam o circuito escritor-leitor da época. No
plano do discurso, essas diferentes formas culturais
antiperonistas praticadas pelas camadas médias -as formas
culturais simples e as complexas, as altas e as baixas,
mas também seus discursos políticos, suas piadas, suas regras de
comportamento, sua literatura-, estão interconectadas a partir
de um sistema retórico comum [...][1]
(AVELLANEDA, 2002, 105)
No enredo de “Casa tomada”(CORTÁZAR in CORTÁZAR, 1977), um casal de irmãos, ambos
solteiros, moram na casa dos seus antepassados. O narrador
protagonista descreve com minúcia a casa e a rotina dele e da sua
irmã Irene. A descrição do espaço sugere uma família tradicional,
ainda abastada, mas sem o esplendor de outros tempos. Móveis pesados
de madeira nobre, objetos de arte empoeirados e inúteis:
Como não lembrar da distribuição da
casa. O comedor, uma sala com gobelins, a biblioteca e
três dormitórios grandes na parte mais retirada, a que dá para a
rua Rodríguez Pena. Apenas um corredor com sua maciça porta de
carvalho isolava essa parte da asa dianteira onde havia um
banheiro, a cozinha, nossos dormitórios e o living central, para
o qual comunicavam os dormitórios e o corredor. [...] Quando a
porta estava aberta advertia-se que a casa era muito grande;
quando não, dava a impressão de um apartamento daqueles que hoje
se constroem, onde as pessoas apenas podem se mexer [...] Há
poeira demais no ar, mal sopra uma brisa e dá para tatear o pó
nos mármores e nos buracos das toalhas de macramé; dá trabalho
tirá-lo direito com o espanador, voa e suspende-se no ar para
logo depositar-se novamente sobre os móveis e pianos. (CORTÁZAR in CORTÁZAR, p. 11-13)
Eles sobrevivem com folga com a renda
dos campos familiares. Dedicam-se ele à leitura de literatura
francesa e ela ao crochê. O contrato realista é quebrado com a
aparição de certos barulhos que denunciavam a invasão da parte
traseira da casa. Os irmãos trancaram uma porta que os separava
dessa parte ocupada e passaram a morar nas habitações da frente. Se
a presença estranha é assustadora, os personagens a tratam com
resignação.
O som vinha impreciso e surdo, como
um cair de cadeira sobe o tapete ou um murmúrio sufocado de
conversação. Ouvi-o também, ao mesmo tempo ou um segundo depois,
no fundo do corredor que trazia daquelas habitações até a porta.
Joguei-me contra a porta antes que fosse tarde demais, fechei-a
de um golpe apoiando o corpo; felizmente a chave estava do nosso
lado e além do mais fechei o grande trinco para maior segurança.
Fui na cozinha, esquentei a
chaleira, e quando retornei com a bandeja do chimarrão falei
para Irene:
- Tive que fechar a porta do
corredor. Tomaram a parte dos fundos. (CORTÁZAR in CORTÁZAR, p.
13)
A rotina dos dois ficou levemente
afetada. Tiveram de fazer certos ajustes. Mas o novo equilíbrio
voltou a ser rompido por novos barulhos, dessa vez, do lado de cá da
porta, anunciando a presença estranha na parte da casa que dava para
a rua. Os irmãos abandonaram a casa, deixando tudo para trás.
Trancaram a porta e jogaram a chave fora.
Estávamos com a roupa do corpo.
Lembrei dos quinze mil pesos no armário do meu dormitório. Agora
já era tarde.
[...] Segurei com meu braço a
cintura de Irene (eu creio que ela chorava) e saímos assim para
a rua. Antes de afastar-nos tive pena, fechei bem a porta de
entrada e joguei a chave no bueiro. Não fosse coisa de um
coitado entrar para roubar, nessa hora e com a casa tomada.(CORTÁZAR in CORTÁZAR, p. 17-18)
A presença mais assustadora ainda que a
de um possível ladrão, em quem haveria alguma humanidade
reconhecida, é a do outro com o qual não haveria diálogo possível.
Para Helena Borrás e María del Carmen Marengo:
O problema do outro parece
acirrar-se quando estes outros atravessam as fronteiras que os
mantêm dentro de um âmbito próprio, criando assim novos
cronotopos. Por outra parte, se em Borges o problema se
apresenta em termos fundamentalmente étnicos, em Cortázar
aparece claramente social.(BORRÁS e MARENGO in LEGAZ, 1998, p. 13)
A irrupção dos pobres como novos
sujeitos políticos, a sua presença nos espaços públicos, até então
privativos das camadas médias e altas, como resultado da onda
migratória que já se insinuava nos anos ’30, acompanhando a
industrialização resultante da necessidade de substituição de
importações devido à guerra mundial, deixou entre aqueles que
sentiram seus ambientes invadidos por aquele elemento estranho uma
série de imagens paradigmáticas. Uma delas é a dos trabalhadores dos
subúrbios ocupando o centro da cidade de Buenos Aires no 17 de
outubro de 1945 pedindo pela liberdade do então coronel Juan Domingo
Perón, Secretário de Trabalho até pouco tempo antes, que tinha sido
preso no contexto de um confronto no seio do governo do militar do
qual fazia parte. Alguns desses trabalhadores, depois de caminhar
desde a periferia até a região central da Capital, arregaçaram as
calças e mergulharam os pés no chafariz da praça do Congresso. O
episódio seria lembrado como o das “patas en las fuentes”, e
inscrito na memória das camadas médias e altas como um gesto bárbaro
contra a cultura urbana, confirmando o ideologema “civilização x
barbárie”, instalado como matriz para pensar o popular desde o
século XIX, com a publicação de “Facundo”, de Domingo Faustino
Sarmiento, em 1845.
Mas em “Casa tomada” a presença
assustadora do outro não é definida. O elemento popular era tão
novo, seus limites tão pouco conhecidos, que nem sequer podia ser
nomeado. Era o indizível. Os protagonistas, nos quais se apóia o
foco narrativo, parecem cientes da inutilidade das suas vidas. O
narrador lê uma e outra vez os mesmos livros franceses ou revisa uma
coleção de selos, a sua irmã tece peças de roupa e depois as desfaz
para refazê-las. A classe que vive da renda da terra é apresentada
como um setor estéril, incapaz de reproduzir a ordem da qual se
beneficiava. Os irmãos sem descendência, últimos representantes da
família abandonam a casa ocupada. A própria casa, o narrador
suspeita, os tornou estéreis: “Às vezes chegamos a acreditar que era
ela [a casa] que não nos deixou casar” (CORTÁZAR in CORTÁZAR, p. 9).
Não se sentem com força e nem vontade para disputar o controle do
seu espaço, nem para se relacionar com os invasores, seja
negociando, seja compartilhando a casa. A presença desses estranhos
é uma fatalidade contra a qual nada se pode fazer.
Os intelectuais argentinos execraram o
peronismo quase unanimemente até a primeira metade da década de ’50.
Só depois do golpe que derrubou Perón, em 1955, que os intelectuais
reunidos em torno à revista “Contorno”, vão repensar o peronismo em
outros termos. É em 1963 que Juan José Sebreli, membro desse grupo,
interpretou criticamente de “Casa tomada” como “alegoria do
sentimento de invasão”(SEBRELI,
2003, p. 102) da plebe.
A classe média reagia perante esse
processo histórico, que não compreendia, com um histérico
antiperonismo; via como a inflação deteriorava sua situação, sem
defesa por causa do seu isolamento e desorganização corporativa,
sem desculpas ideológicas nem prestígios social, frente à
ascensão operária. Na medida em que certos setores da classe
média empobreciam, mais se afastavam psicologicamente dos
pobres. Este ódio, tão irracional e difuso, encontrou sua
expressão adequada no racismo elementar e enrustido, com a
transformação do “cabecita negra” em bode expiatório dos seus
males. Este fenômeno foi semelhante ao de outros países com
migrações internas, como os “meridionais” nas cidades do Norte
da Itália. A assimilação do migrante das províncias ao
proletariado conduziu à atribuição do desdenhoso mote de “negro”
e “negrada” a todo operário, ainda que fosse loiro. O verdadeiro
anti-cabecita negra era o pequeno-burguês; a alta burguesia
circulava num mundo privado de bairros afastados, de casas
herméticas, de automóveis velozes; quase não tinha, por tanto,
oportunidade de topar no caminho com “cabecitas negras” e
dava-se ao luxo de ignorá-los. O pequeno-burguês, ao contrário,
devia viajar no ônibus cheio, compartilhando o espaço com esses
operários de pele escura; vivia junto ao muro de arrimo de um
cortiço e ouvia as rudes expressões de alegria da família
provinciana e até devia suportar as exigências da empregada
–quando a tinha-, também uma garota do interior. Um conto de
Julio Cortázar, “Casa tomada”, pode ser interpretado como uma
alegoria de este angustioso sentimento de invasão que a migração
interna provocava na classe média.
[...] O invisível cordão sanitário
que impedia aos homens sem terno e gravata –em épocas nas que
ainda não havia sido inventado o gesto provocador de tirar o
casaco, porque aqueles que deviam fazê-lo não o possuíam-
caminhar por certas ou determinadas ruas elegantes, por onde
passeavam os que sim tinham terno. É lamentável mas inevitável:
nossa sociedade, o paraíso de uns tem sido sempre o inferno dos
demais.
A queda do poder político da
burguesia proprietária de terras na etapa peronista provocou a
perda da suave tutoria que aquela exercia sobre a classe média.
(SEBRELI, 2003, p. 101-102)
Mas, já
em 1962, Germán Rozenmacher publica o conto “Cabecita negra” como
uma reescrita de “Casa tomada”. Utilizando o aparato retórico do
conto de Cortázar, “Cabecita negra” inverte o seu sentido. O
narrador, desta vez é em terceira pessoa, mas adota o ponto de vista
do protagonista, Lanari. Coincidindo com a análise de Sebreli, o
dono da casa, que se sente invadido, não pertence às camadas altas
da sociedade, é um pai de família, comerciante de classe média,
filho de imigrantes que consegue a ascensão social, ameaçado, porém,
com o fantasma da falência:
Não podia se queixar da vida. Seu
pai havia sido um cobrador de luz, um imigrante morto de fome
que não chegou a parte alguma. O senhor Lanari havia trabalhado
feito uma besta de carga e agora tinha esse apartamento de
terceiro andar perto do Congresso, e poucos meses atrás havia
comprado o pequeno Renault que agora estava abaixo, na garagem e
tinha gastado uma fortuna nos belos acessórios cromados das
portas. A loja de ferragens da Avenida de Maio ia muito bem e
agora tinha também a casa de final de semana onde passava as
férias. Não podia queixar-se. Logo seu filho ganharia o diploma
de advogado e com certeza casaria com alguma moça distinta. É
claro que teve que fazer muito sacrifício. Nestes tempos, quando
as desordens políticas eram rotina, havia estado em várias
ocasiões perto da falência. Palavra fatal que significava o
escândalo, a ruína, a perda de tudo. Teve que esmagar muitas
cabeças para sobreviver porque, de não fazê-lo, assim teriam
feito com ele. Assim era a vida. (ROZENMACHER in OLGUIN, 2000,
p. 32-33)
Há um par de breves reflexões sobre a
relação do protagonista com a cultura. Lanari quis, na juventude,
dedicar-se ao violino, mas desistiu ante as responsabilidades
familiares que o impeliam a atividades que lhe dessem maior
estabilidade financeira.
Além do mais, quando jovem tocava o
violino e não tinha nada que ele gostasse mais no mundo. Mas viu
um futuro duvidoso e sombrio pela frente, cheio de humilhações e
miséria, e teve medo. Pensou que devia se ocupar dos
semelhantes, da sua família, que na vida a gene não podia fazer
tudo que queria, que tinha que seguir o caminho reto, o caminho
do dever e que não devia fracassar. (ROZENMACHER in OLGUIN,
2000, p. 33)
Ele possui uma enorme biblioteca que é
todo seu orgulho, mas que não tem tempo de ler. Há uma referência
específica à história de Mitre,
encadernada em couro.
O enredo desenvolve-se durante uma
madrugada de insônia e culmina quando o sol já está alto, de manhã,
e é narrado em passado. Lanari estava só no apartamento porque sua
família havia saído passar um final de semana fora de casa,
carregando a empregada. Ouviu gritos no meio da noite e desceu à
rua, para ver de que se tratava. Encontrou uma mulher bêbada sentada
no último degrau da entrada de um hotel com um letreiro luminoso:
“Para Damas”. Sentiu pena e desprezo.
[...] Apenas uma cabecita negra
sentada na soleira do hotel que tinha o letreiro luminoso “Para
Damas” na porta, de pernas abertas e bêbada, vencida e sozinha e
perdida, de pernas abertas embaixo da saia suja de grandes
flores estridentes e vermelhas e a cabeça caída sobre o peito e
uma garrafa de cerveja embaixo do braço.
- Quero ir pra casa, mãe –chorava-.
Quero cem pesos pro trem pra ir pra casa.
Era uma índia que podia ser sua
empregada sentada no último degrau da estreita escada de madeira
embaixo da luz amarela.
O senhor Lanari sentiu uma vaga
ternura, uma vaga piedade, disse para si próprio que assim eram
esses negros, que podia ser feito, a vida era dura, sorriu,
tirou do bolso cem pesos e os colocou enrolados na boca da
garrafa pensando vagamente na caridade. Sentiu-se satisfeito.
Ficou olhando para ela, com as mãos nos bolsos, desprezando-a
devagar. (ROZENMACHER in OLGUIN, 2000, p. 34-35)
Estava refletindo sobre a condição dos
“cabecitas negras”
quando percebeu a presença de um policial. O agente o acusava de
algum crime que Lanari não alcançava a entender qual era. Sentiu-se
confundido com alguma outra pessoa. A pergunta retórica foi a
primeira arma com que se defendeu: “O senhor sabe com quem está
falando?”(ROZENMACHER
in OLGUIN, 2000, p. 35). Mas a estratégia não surtiu efeito.
De repente, aproximou-se ao agente
que era uma cabeça mais alto que ele e que o olhava de lado,com
desprezo, com duros olhos selvagens, injetados e malignos,
bestiais, com grandes bigodes de morsa. Um animal. Outro
cabecita negra.(ROZENMACHER
in OLGUIN, 2000, p. 36)
Para contornar a situação, cogitando
inclusive um suborno, Lanari convidou o policial para tomar um
conhaque na sua residência. O policial foi e levou junto a mulher.
Logo informou que é sua irmã e acusou Lanari de ter desonrado ela.
Ao chegar no apartamento, a mulher cai dormida na cama de casal. A
situação virou um pesadelo para o dono de casa, que se sentia
acusado de uma “escura culpa” e suspeitando uma armadilha de alguém
disfarçado de policial, usando a mulher como isca. A casa estava
tomada”(2000, p.39). O
policial tirou os sapatos, e Lanari lembrou um episódio
paradigmático:
O senhor Lanari lembrou vagamente os
negros que tinham lavado alguma vez as patas no chafariz da
praça Congresso. Agora sentia a mesma coisa. A mesma humilhação,
a mesma raiva. Teria querido que ali estivesse seu filho. Nem
tanto para defender-se de aqueles negros que agora espalhavam as
patas na sua própria casa, mas para enfrentar isso todo que não
tinha pés nem cabeça e sentir-se junto a um ser humano, uma
pessoa civilizada. Era como se de repente esses selvagens
tivessem invadido sua casa.(ROZENMACHER in OLGUIN, 2000, p. 38-39)
É quando o policial começou a bater em
Lanari que a mulher acordou e disse para o irmão: “Não é este, José”
(p. 40). Lanari dormiu profundamente e só acordou na manhã seguinte
sem muita certeza a propósito da realidade dos acontecimentos da
madrugada. Só três indícios pareciam confirmar a ocorrência: a casa
desarrumada, a porta do apartamento aberta e uma dor na boca do
estômago.
Alguma coisa tinha sido violada. “A
gentalha”, disse para tranqüilizar-se, “é preciso esmagá-los,
esmagá-los”, disse para tranqüilizar-se. “A força pública”,
disse, “temos a força pública e o exército”, disse para
tranqüilizar-se. Sentiu que odiava. E de repente o senhor Lanari
soube que a partir de então jamais estaria seguro de nada. De
nada. (ROZENMACHER in
OLGUIN, 2000, p. 40)
A virada proposta por Rozenmacher parece
querer revelar a verdadeira condição social do intelectual
identificado imaginariamente com a grande burguesia rural, mas de
fato membro das camadas médias, ameaçada pela possibilidade de
empobrecimento repentino, mas, ilusoriamente sentindo-se parte da
elite. Se apropriando tardiamente da cultura das classes
tradicionalmente dominantes pela escolarização e o consumo de bens
culturais que ela mesma não é capaz de produzir, essas camadas
médias enfrentam-se com uma nova “crise de identidade”.
A volta de parafuso dada pelo conto
“Cabecita negra” com relação a “Casa tomada” também transforma
aquela presença difusa em personagens com nome, voz, razões e
argumentos. E eles entram na casa convidados pelo seu dono, que quer
com eles negociar. Se Lanari sente sua casa invadida, sabe que foi
ele quem abriu a porta. O espaço onde acontece o encontro é a rua, o
espaço claramente público. Esse deslocamento com respeito ao conto
de Julio Cortázar está relacionado com o reconhecimento do país como
um espaço que a todos pertence, inclusive aos “cabecitas negras”.
Irene e seu irmão narrador abandonam sua própria casa, que se
confunde com o país, e trancam a porta em “Casa tomada”. José e sua
irmã retiram-se do apartamento de Lanari sem fechar a porta em
“Cabecita negra”. Os diferentes desenlaces supõem enredos de final
fechado e aberto respectivamente. Se a ameaça dos pobres sobre as
expectativas das camadas médias fica explicitada no conto de
Rozenmacher, a dúvida sobre a sua realidade fica registrada,
insinuando que o medo dos pobres é paranóico. No conto de Cortázar,
a realidade fantástica afirma-se sem deixar dúvidas no desenlace.
Essas diferenças talvez corram por conta
das diferentes posições assumidas pelos escritores perante o
peronismo nesses dois diferentes momentos da história da Argentina.
A aparente falta de polaridade promovida
pela desagregação social e o fracasso dos projetos emancipatórios
que se afirmaram nos anos ’90 levaram esse jogo de substituições ao
paroxismo neo-barroco, num jogo paródico radical em que os códigos
já construídos e as próprias atividades de codificar e decodificar
aparecem justapostas. Assim é o conto “Casa tomada” de Washington
Cucurto, publicado em 2008 pelo projeto editorial de Eloísa
Cartonera, empreendimento de uma cooperativa de catadores de
papelão. A obra toda do autor, e particularmente este conto, parece
utilizar os procedimentos de reciclagem dos catadores de resíduos,
recuperando códigos, personagens e histórias com procedimentos
paródicos para falar de uma Argentina atual, cujo imaginário está
povoado daqueles relatos canônicos que assombram fantasmagoricamente
o presente.
A atmosfera do conto de Cucurto é
delirante e é ambientado no período da pré-revolução “de Mayo”.
O narrador é um garoto de “doze anos e trinta e três dias”(CUCURTO in CUCURTO; SCHMID e AMERI,
2008, p. 7) e. O narrador e mais dois “negros ‘liberados’ pela Coroa
Espanhola” (CUCURTO in CUCURTO; SCHMID e AMERI, 2008, p. 7),
Clodoaldo Maripili e Azulino Sepulveda, vivem o descontrole da
recente alforria:
Eu convivia com dois negros
“liberados” pela Coroa Espanhola. Para estes seres frescos, sem
partido político nem religião, sem mais ambição que viver cada
dia, com vontade de sexualizar a vida a tal ponto que apenas
fosse isso, trazidos da África em barcos carvoeiros, imaginem o
que pode provocar a descoberta da cidade. Imaginem conviver com
seres que até um par de dias atrás tinham menos condição social
que uma mesa, uma cadeira, um guarda-roupa e de repente pum, a
liberdade. Caminhavam pela rua sem correntes, sem a necessidade
espantosa de segurar a vela para o amo. Estatelavam-se contra as
grades da liberdade. Descontrolavam até dar nojo, foda, foda e
buceta. (CUCURTO in
CUCURTO; SCHMID e AMERI, 2008, p. 7)
A irrupção de novos sujeitos históricos
aludida nos textos de Sebreli e Avellaneda no conto de Cucurto é
deslocada para a fundação da nação, num processo inverso àquele que
se opera habitualmente no sistema literário argentino. As “classes
populares, classes perigosas” não são colocadas no presente, mas num
passado em que a historiografia se perde na mitologia das
representações escolares dos tipos humanos do Buenos Aires colonial,
só que sem qualquer traço de celebração ingênua dos escravos
libertos devidamente pasteurizados ou glamorizados. Há celebração,
sim, mas celebração da representação demonizada das classes
perigosas. A ocupação da cidade passa do âmbito privado da moradia
popular e do seu entorno para os espaços públicos e de estes para o
âmbito privado das casas burguesas.
Tempo depois –ficamos entediados de
bailar cumbia e tomar cerveja Condorina- chegaram umas
mademoiselles espanholas que eram um terremoto, duas irmãzinhas
letais, Victrola e Irene Campos, umas oligarcas com um espírito
burguês assustador, as duas eram poetas, Victrola, além do mais,
tocava a flauta.
[...] Tinham por namoradinhos dois
babacas que passavam o dia lendo literatura francesa. Uns manés
entediados com o ócio, uns caras que falavam coisas esquisitas,
e até meio bichas.(CUCURTO
in CUCURTO; SCHMID e AMERI, 2008, p. 8)
As referências à cumbia e à cerveja
Condorina constituem um dos tantos anacronismos explícitos,
remetendo neste caso, a códigos sociais atuais, apontando para a
condição de parábola do relato ambientado no século XIX. Os nomes
das irmãs remetem ao mesmo tempo a “Casa tomada” de Cortázar e às
leituras psicanalíticas que apontavam à condição de assexuados do
casal de irmãos. No caso, mantém-se o nome de Irene, mas Victrola é
um tratamento próximo ao insulto.
A prática de ler literatura francesa do protagonista/narrador do
conto de Cortázar é, na boca do narrador do conto de Cucurto,
associada à homossexualidade. Os códigos presentes nos nomes das
irmãs não se limitam a isso. Victrola Campos também é uma referência
a Victoria Ocampo, que junto com sua irmã Silvina Ocampo, escritora,
esposa de Adolfo Bioy Casares, fundou e levou adiante por décadas a
revista “Sur”. O código aqui remete a um estrato social vinculado à
burguesia pecuarista, a uma cultura e a um projeto cultural e
ideológico e especificamente literário.
No enredo de Cucurto, o encontro entre
os três plebeus e as duas aristocratas aconteceu na região do porto,
onde costumam circular as prostitutas. Elas estão procurando
“negros”.
Pegamos as duas patricinhas perto do
cais de Retiro. E quando nos abriram a porta da sua casa tudo
mudou nas nossas vidas. O bichinho do luxo mordeu os afros e a
mim também, nunca tínhamos estado numa casa tão grande. Espanha
seria assim? A hispanidade meteu-se em nós pelo rabo do cu. A
casa era espaçosa e bem colonial (tanto e tanto afastava a gente
daquele cortiço onde costumávamos comer as pretinhas bregas que
até sentíamos falta dele com melancólica vaidade!). (CUCURTO in
CUCURTO; SCHMID e AMERI, 2008, p. 8-9)
Mas as duas mulheres cansam desses
“negros” e querem dispensá-los para transar com outros. Os três
brutalizam as mulheres, matam-nas e colocam os seus dois
“namoradinhos” para fora da casa para se apropriar dela.
[...] Gostamos do luxo, da vida
poética dos burgueses e dos sanduíches de miolo de pão. [...]
Jogamos fora o piano, a biblioteca, as mesas de centro de vidro,
o roupeiro até com sapatinhos de cristal. Um piano, um roupeiro,
uma biblioteca, nunca vimos coisas tão inúteis! Com os tacos do
piso, é claro, fizemos fogo pro churrasco. (CUCURTO in CUCURTO; SCHMID e AMERI, 2008, p. 10)
Se no conto de Rozenmacher os plebeus
não realizam as expectativas assustadoras e aparecem apenas reparar
uma injustiça da que foram vítimas, neste, de Cucurto, parecem
confirmar até o exagero todas as fantasias aterrorizantes sobre a
selvageria das “classes perigosas”. O churrasco feito usando os
tacos de madeira do piso para fazer fogo, sublinhado pelo “é claro”,
é uma confirmação de um mito “gorila”, que circula até hoje entre os
anti-peronistas, segundo o qual, quando os pobres recebiam as casas
dos planos sociais de moradia popular durante o primeiro governo de
Juan Domingo Perón, com piso de taco de madeira, este era usado para
fazer o fogo do churrasco. No conto, a apropriação deste e outros
“mitos”, sua confirmação e exagero funcionariam para anular o
sentido, para desnudar sua irrealidade, sua condição de ideologia.
A casa é o tema nosso e de 35
milhões de argentinos. A casa sempre impossível, o sonho eterno,
longínquo impróspero para nossa pobreza. [...] Já disse um
linotipista erudito e o gorila pró-ianque: “o melhor que pode
acontecer conosco é ser colônia, de maneira que terminemos de
uma vez por todas com esse triunvirato”. (CUCURTO in CUCURTO;
SCHMID e AMERI, 2008, p. 10)
Este anacronismo assinala o uso
proposital do ambiente da Buenos Aires colonial como recurso de
desfamiliarização, para falar de temas atuais, da pobreza atual dos
35 milhões de habitantes que o país hoje possui. O procedimento de
referir-se à dissolução do triunvirato, governo de tendência
jacobina que surgiu na segunda década do século XIX, e opor a ele o
pensamento de um “gorila pró-ianque” superpõe todos os tempos da
história argentina utilizando os códigos intercambiáveis para repor
sentidos.
Azu, lia cómics eróticos espanhóis,
os primeiros do mundo. Clodo, queria aprender francês e lia os
clássicos burgueses deixados na vida pelas duas mortas. E assim
passávamos os dias, coçando saco. (CUCURTO in CUCURTO; SCHMID e
AMERI, 2008, p. 11)
A apropriação do espaço é apresentada
também como apropriação de bens simbólicos.
Uma manhã acordamos com vontade de
comer uns biscoitos de banha e fomos para a cozinha. A porta
estava fechada. Quisemos abrir de qualquer maneira, mas não teve
jeito, alguém tinha fechado com chave por dentro. (CUCURTO in
CUCURTO; SCHMID e AMERI, 2008, p. 11)
As suspeitas sobre quem teria fechado a
porta recaem sobre “o espírito das irmãzinhas Campos”(CUCURTO in CUCURTO; SCHMID e AMERI, 2008, p. 11) e também
sobre os seus “namoradinhos”, sobreviventes. Depois ouvem barulhos e
começam a encontrar as portas de algumas das habitações trancadas. O
espaço da casa fica reduzido e a família, numerosa, de Clodoaldo vem
da Nigéria e se instala na parte que permanece aberta aos três
ocupantes. Aos poucos as pessoas ficavam encerradas nas habitações.
A família ficou dentro da casa, no
comedor, estranhamente encerrados. Eles acreditavam que estavam
a salvo, mas era evidente que alguma coisa os estava
aprisionando para sempre. Quatro gerações de pessoas, avó, mãe,
netos e bisnetos, ficavam a salvo das injustiças que o mundo
podia dar a eles.
Eu, que tenho um pouco de cabeça,
percebi que a mesma coisa acontecia com as outras habitações que
tinham sido tomadas pela força e que permaneciam pessoas
encerradas.
Foi então que percebi como a chave
do comedor girava para sempre.
Decidimos ir embora antes de ficar
encerrados [...] Quando abrimos a porta e saímos para a rua foi
uma sensação de liberdade única. A porta fechou com um golpe,
deixando a gente do lado de fora. (CUCURTO in CUCURTO; SCHMID e
AMERI, 2008, p. 13-14)
A casa, o espaço burguês, a entrada no
jogo de poder é assinalado como prisão. A marginalidade é
apresentada como uma escolha pela liberdade.
Contentos, na rua apareceram três
pretinhas e as levamos para tomar umas cervas em nosso cortiço
ilustre da beira do rio.
- Clodo, joga as chaves!, disse pra
ele de braço dado com uma pretinha.
- Tá maluco, um catador de papelão
me dá dois pesos pelo cobre. (CUCURTO in CUCURTO; SCHMID e AMERI,
2008, p. 14)
De Cortázar a Cucurto, passando por
Rozenmacher, o outro do letrado vai adquirindo voz, nome e razões
para sua ação. A escolha pelo narrador e a focalização no conto de
Cucurto radicaliza essa tendência.
Por outro lado, se o conto de
Rozenmacher é prenúncio do engajamento de uma parte considerável dos
intelectuais argentinos na luta política no marco da formação de uma
esquerda peronista, o conto de Cucurto é uma reflexão sobre o
fracasso das formas de inclusão dos pobres no consumo de bens
materiais e simbólicos, e na política. A metáfora da casa aponta
para o campo do poder como terreno marcado previamente pelas formas
de dominação. A “casa”, objeto de desejo dos pobres, na realidade ou
na projeção paranóica das elites e das classes médias, seria, para
os pobres, uma armadilha, uma prisão que os encerra. Sufocaria o
desejo pela cooptação ou pela satisfação parcial das reivindicações.
Uma “casa” que não pode ser usufruída por todos os que dela estão
privados, porque não dá conta das demandas, ao mesmo tempo contém o
elemento irrefreável e transgressor que a tomou por assalto.
Referências
Bibliográficas
AVELLANEDA, Andrés.
“Evita: cuerpo y cadáver de la literatura”. In: NAVARRO, Marysa (org.).
Evita. Mitos y representaciones. Buenos Aires: Fondo de
Cultura Econômica, 2002, p. 101-141.
CORTÁZAR, Julio.
Bestiario. 18a. Ed. Buenos Aires: Sudamericana, 1977.
SEBRELI, Juan José.
“Buenos Aires, vida cotidiana y alienación”. In: Buenos Aires,
vida cotidiana y alienación, seguido de Buenos Aires, ciudad en
crisis. Buenos Aires: Sudamericana, 2003.
[1]
A tradução deste e de outros textos, em espanhol no
original, é das autoras deste artigo.
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