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MÁRIO
MAESTRI
Historiador e professor do Curso de
História e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS

HELEN ORTIZ
Mestre em História pelo PPGH da UPF,
RS

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Por mais terras que eu percorra ....
Vida, luta e martírio do sargento Manoel
Raimundo Soares
[Parte 1]
Mário Maestri
e Helen Ortiz
Fundada há quase
quatrocentos anos na boca do Amazonas, a cidade de Belém domina o
norte brasileiro. Hoje, sua região metropolitana supera os dois
milhões de habitantes, vivendo em condições que lembram as que
ensejaram, há mais de 160 anos, a luminar revolta social cabana. Em
fins dos anos 1930, Belém mantinha seu perfil colonial, com seus
suntuosos casarões e as mangueiras que, ao longo das
ruas centrais, esforçavam-se para amainar o calor equatorial
opressivo. Na época, possuiria pouco mais de cem mil moradores, em
geral de pele morena, herdada dos antigos senhores dessas regiões.
Em 15 de março de
1936, Etelvina Soares dos Santos pariu Manoel
Raimundo, possivelmente em sua residência humilde. Como tantas
outras mulheres paraenses fortes, criou o menino e seus dois irmãos
desejando-lhes um futuro melhor como trabalhadores dignos.
Manoel Raimundo mostrou-se muito logo menino e jovem inteligente e
de fibra. Após concluir o primário no Grupo Escolar Paulino de
Brito, cursou estudos técnicos no Instituto Lauro Sodré, enquanto
trabalhava em oficina mecânica.
Em 1953, com apenas 17 anos, Manoel
Raimundo abandonou a pacata Belém para morar com conhecidos na
capital federal, então grande palco dos fortes confrontos políticos
e sociais que dilaceravam o Brasil. Por se envolver neles, mais e
mais, com a galhardia dos velhos guerreiros cabanos, o menino de
dona Etelvina conheceria a morte, na luta por seus ideais, aos
trinta anos, distante de sua terra natal, nas águas geladas do
rio-estuário da capital do Brasil meridional.
A crise do
nacional-desenvolvimentismo
Em 1950, três anos antes de Manoel
Raimundo chegar ao Rio de Janeiro, o rio-grandense Getúlio Vargas
elegera-se presidente da República, com 48,7% dos votos, pelo PSD,
PTB e PSB, propondo continuar a industrialização nacional autônoma,
apoiada no mercado interno. Durante a campanha eleitoral,
atacara a "velha democracia liberal e capitalista" e defendera o
“industrialismo” e os “direitos trabalhistas”. Seu governo seria
varado por graves conflitos e contradições.
A valorização do cruzeiro e a
desvalorização do preço das matérias-primas no mercado internacional
deprimiam o valor das exportações, exigindo o controle governamental
das remessas de lucros e de dividendos, necessário à compra de
tecnologia, de equipamentos, de petróleo, etc. Como no Estado Novo,
o getulismo expressava, sobretudo, a burguesia industrial e os
proprietários agro-pastoris voltados para o mercado interno, e,
agora, secundariamente, o operariado fabril, mantido na subordinação
social, política e ideológica.
O governo Vargas iniciou-se com
orientação nacional-desenvolvimentista moderada, oferecendo abertura
aos capitalistas estrangeiros, desde que associados aos nacionais e
respeitosos dos “interesses do país”. Então, o Brasil tinha 52
milhões de habitantes. As classes industriais, médias e operárias
haviam-se fortalecido fortemente em relação ao Estado Novo, enquanto
decrescera o poder dos exportadores, organizados sobretudo na UDN,
que expressava igualmente o imperialismo e o capital financeiro.
Nova relação de forças
O novo governo Vargas ampliou a
intervenção do Estado na economia que levara, no Estado Novo, à
criação da Companhia Siderúrgica Nacional e da Companhia
Hidroelétrica do Vale do São Francisco. Foram fundados os bancos da
Amazônia e do Nordeste; o BNDE e a Eletrobrás. Em 1951, ditou-se o
monopólio estatal sobre o petróleo e minerais radioativos. Em 1953,
a fundação da Petrobrás galvanizou os sentimentos nacionalistas da
população e, a seguir, restringiu a hemorragia das contas públicas
com as importações do petróleo.
A estreiteza do mercado interno e da
poupança nacional emperrava o nacional-desenvolvimentismo. O mercado
urbano era limitado e o rural, menor. Os salários fabris
aproximavam-se ao mínimo necessário à subsistência. O prosseguimento
do padrão nacional-desenvolvimentista burguês exigia maiores
investimentos e maior consumo, através do fim do latifúndio, sem
indenização; da generalização das leis trabalhistas; da elevação dos
salários; de maior participação estatal na economia, etc.
Essas medidas democrático-burguesas
sequer interessavam aos industrialistas ligados ao governo, pois
fortaleceriam o mundo do trabalho e quebrariam o pacto
agrário-industrial, que assegurava a manutenção do latifúndio. Em
agosto de 1954, o suicídio de Vargas assinalou o fim da capacidade
e disposição do capital industrial nacional de garantir ao país
desenvolvimento capitalista tendencialmente autônomo. Nesse momento,
ele já abandonara maciçamente a política populista, com a qual
subordinara os trabalhadores industriais urbanos aos seus
interesses.
Rápida progressão
Em 1955, meses após a comoção nacional
causada pelo suicídio de Getúlio Vargas, Manoel Raimundo Soares, com
19 anos, alistou-se no Exército, alcançando o posto de segundo
sargento, após quatro promoções. Em 20 de setembro do mesmo ano,
após namoro de apenas três meses, casou-se com a jovem Elisabeth
Chalupp, mineira de origem humilde, criada por família estranha,
trabalhando no Rio de Janeiro como operária industrial. Manoel
Raimundo gostava de chamar a esposa de Betinha e Beta.
Falta-nos ainda informação mais precisa
sobre a precoce e destacada participação do jovem sargento paraense
nos conflitos vividos pela sociedade e, junto com ela, pelas Forças
Armadas, nesses anos em que o país foi fortemente tensionado por
iniciativas golpistas conservadoras, com destaque para a tentativa
de deposição de Goulart, em 1961. Ensaio golpista derrotado que
transformou o jovem governador sulino Leonel Brizola no principal
líder popular-nacionalista e grande referência para o movimento dos
suboficiais do Exército, Marinha e Aeronáutica.
Desde o governo de Juscelino Kubitschek
[1956-1961], Manoel Raimundo começara a despontar como militante de
vanguarda da luta pela organização sindical e política dos
suboficiais do Exército. Araken Vaz Galvão, seu companheiro de farda
e de luta, assinala que, por voltas de 1958, ele vivia em Osvaldo
Cruz, no Rio de Janeiro, e servia, como escrevente, no Batalhão
Escola de Saúde, em Magalhães Bastos. Nesse então, Manoel Raimundo
exercia o que Araken definiu como “liderança suave, relacionada com
os problemas” dos sargentos discutidos no Clube da classe,
transformando-se, logo, em um dos
“principais fundadores” do “Movimento dos Sargentos”, assim
batizado por ele.
Além de outras reivindicações sindicais e democráticas, os
suboficiais do Exército mobilizavam-se pelo direito de progressão ao
oficialato; pelo direito de casamento civil, sem autorização do
Exército; pela estabilidade após cinco anos de serviço; pela
elegibilidade ao parlamento dos suboficiais.
Por sua cultura, inteligência e decisão,
Manoel Raimundo era referência para seus companheiros de farda. O
ex-subtenente pára-quedista do Exército Jelsi Rodrigues descreve-o
como homem de estatura baixa e corpo franzino, “cabeçudo”, de
“bigodinho”, de pele levemente morena, habitual do paraense, muito
culto e sobremaneira corajoso. O ex-sargento Araken Galvão, seu
particular amigo, lembra que era um “grande orador” e “neurótico por
cultura”, tendo procurado intelectuais como o sociólogo Vinícius
Caldeira Brant, o filósofo Álvaro Vieira Pinto, entre outros, para
ampliar os horizontes do movimento dos sargentos. Antes mesmo do
golpe, Manoel Raimundo interessava-se pela literatura marxista,
lendo e divulgando Marx, Engels, Lênin.
Na ante-sala do golpe
No mínimo desde 1963, Manoel Raimundo
preocupava-se com a necessidade de organizar resistência ao golpe
militar, que se aproximava, tendo procurado preparar as condições
para resistência, na Serra do Mar, nas proximidades do Rio de
Janeiro, possivelmente inspirado na experiência cubana. O que lhe
ensejou inquérito no Exército, por desvio de armas e cooptação de
sargentos.
Devido à manifestação de sargentos do
Exército, em 11 de maio de 1963, no Sindicato dos Comerciários, no
centro do Rio de Janeiro, Manoel Raimundo sofreu pena disciplinar e
foi transferido, do Rio de Janeiro para Campo Grande, no Mato
Grosso, o mesmo ocorrendo com seus companheiros, promotores da
reunião, do Comando Geral dos Sargentos, enviados para o mesmo
estado e para outras destinações.
Do manifesto de posições muito duras
lido quando da manifestação, faria parte frase de autoria de Manoel
Raimundo que dizia: “O martelar das oficinas, o ribombar dos
tambores confundir-se-ão com o choro das crianças famintas. O
instrumento de trabalho dos sargentos é o fuzil.”
A repressão afastou da capital da República grande parte do núcleo
central do Comando Geral dos Sargentos.
O Golpe de Estado de 1964
Em 1964, as burguesias industrial e
financeira nacionais romperam com o projeto
nacional-desenvolvimentista autônomo, para impor padrão de
acumulação de capitais através de maior integração ao capital
mundial; super-exploração do trabalho; orientação do consumo aos
segmentos ricos nacionais e ao comércio mundial, etc. O golpe
iniciou em Minas Gerais, em 31 de março, chefiado por militar
ex-integralista, com o apoio dos USA, que preparou intervenção no
Brasil, caso houvesse resistência – Operação Brother Sam.
Em Porto Alegre, Leonel Brizola tentou
reviver a Legalidade, apoiado pelo comandante do III
Exército, pela Brigada, pelos sub-oficiais do Exército e da
Aeronáutica, por populares. Em 2 de abril, já na capital sulina,
João Goulart negou-se a chefiar a resistência, permitindo que o
golpismo se instalasse praticamente sem oposição. João Goulart
viajou para uma sua estância em São Borja e, dali, para o Uruguai. O
PCB, única organização de esquerda com força sindical e popular,
subordinara a oposição ao golpismo à direção de Goulart e a
esquema militar organizado em torno de altos membros das forças
golpistas.
Políticos e historiadores defenderam e
defendem a negativa de João Goulart de opor-se ao golpe como ato que
impediu “derramamento de sangue” no Brasil, tese proposta pelo
próprio ex-presidente.
A imposição da ditadura sem resistência ensejou a maior derrota
histórica que o mundo do trabalho e da democracia jamais viveu no
Brasil, com gravíssimas conseqüências para o país, para a América
Latina e para o mundo, que se mantém até hoje.
Golpismo em marcha
Após o golpe e o “Ato Institucional” n.º
1, de 9 de abril, ao qual seguiriam outros, a alta oficialidade
militar interveio nas associações sindicais e profissionais, no
legislativo, no executivo e no judiciário; expurgaram, prenderam,
torturaram, etc. opositores, que abandonaram comumente o país,
quando puderam, sobretudo pelo Uruguai, onde se encontravam João
Goulart e Leonel Brizola, com as relações políticas e pessoais
cortadas.
O golpe militar, apoiado pelas classes
proprietárias do Brasil, objetivava relançar o padrão de acumulação
de capital, a partir de bases distintas das
nacional-desenvolvimentistas, que exigiam, como visto, reformas
estruturais não aceitas mesmo pelo capital industrial nacional. A
ditadura militar expressava também a necessidade dos capitais
externos, sobretudo estadunidenses, de intervenção mais direta no
país, onde haviam conquistado maiores posições.
Sob a direção do general Castelo Branco,
expressão do capital financeiro e imperialista, o governo
implementou política liberal e recessiva, que estendeu a seguir o
descontentamento até mesmo a setores que haviam apoiado o golpe, com
destaque para as classes médias, ensejando a primeira tentativa de
reunificação de oposição anti-ditatorial política superestrutural, a
fracassada Frente Ampla, de 1966, promovida sobretudo por Carlos
Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart.
A sub-oficialidade nacionalista
A frustração ensejada pela derrota sem
resistência e o crescente descontentamento popular levaram a que
sub-oficiais nacionalistas de esquerda das forças armadas, sobretudo
do Exército e da Marinha, presos e reformados em grande número,
tenham sido setor social que se disponibilizou prontamente para a
luta anti-ditatorial direta, no contexto prático e político próprio
ao mundo castrense, organizando-se em torno de Leonel Brizola, que
seguia no Uruguai disposto a lutar pelas forças das armas pelo fim
da ditadura.
Manoel Raimundo teve a prisão decretada,
em abril, e foi expulso do Exército, em junho de 1964. Para não ser
preso e poder integrar-se à luta anti-ditatorial, apenas estourou o
golpe, desertou seu quartel em Campo Grande, junto ao sargento
Araken Galvão, também destacado no Mato Grosso. Manoel Raimundo e
Araken viajaram para Juiz de Fora e, a seguir, para o Rio de
Janeiro, de onde partiram, mais tarde, para o Rio Grande do Sul.
Manoel Raimundo teria declarado à polícia que viajou para Porto
Alegre, em 26 de janeiro de 1965, à procura de emprego, retornando
ao Rio de Janeiro, em 6 de março. Em 29 de setembro, teria voltado
ao Sul, sob promessa de trabalho, feita pelo sub-oficial Leony
Lopes, que lhe teria igualmente apresentado Edu Rodrigues, civil
pretensamente oposicionista mas, nos fatos, informante da polícia,
como veremos.
Mais de vinte sargentos teriam viajado,
como Manoel Raimundo, do Rio de Janeiro para Porto Alegre, para
integrar-se à resistência. Uma transferência mais do que
compreensível pois, desde 1964, o Rio Grande do Sul tornara-se a
principal via para alcançar ou manter contatos com o Uruguai, então
centro anti-ditatorial. Em 1965, haveria mais de dois mil
brasileiros refugiados naquele país.
De 1964 a 1966, o ex-governador Leonel Brizola depositou grande
esperança na possibilidade de sublevar Porto Alegre e o Rio Grande
do Sul apoiado em oficiais e suboficiais constitucionalistas,
nacionalistas e de esquerda ainda em serviço.
A primeira resposta armada à ditadura
Foi precisamente do Uruguai, em
20 de março de 1965, que o coronel do Exército
Jéferson Cardin de Alencar Osório e o
sargento da Brigada Militar Alberi Vieira dos Santos
ingressaram no Rio Grande do Sul para organizar coluna de pouco mais
de vinte homens. O grupo armado, após tomar a
cidade sulina de Três Passos, em 25 de março, dirigiu-se ao oeste do
Paraná, onde, no dia 27, foi disperso, após combate desigual com as
forças da ditadura. No combate morreu sargento das forças
repressivas. O objetivo da coluna do Movimento Nacionalista
Revolucionário, ligado a Leonel Brizola, era sublevar militares
oposicionistas, no Rio Grande do Sul e, a seguir, no Brasil.
Em Porto Alegre, desde começos de 1965,
como assinalado, o sargento Manoel Raimundo, companheiros seus do
Comando Geral dos Sargentos e outros resistentes locais participaram
ativamente da organização de dois levantes de quartéis da Brigada e
do Exército da capital. O primeiro contaria com “entre quarenta e
setenta pessoas prontas para fazer a insurreição”, “espalhadas por
aparelhos em Porto Alegre”, e mais outros suboficiais que chegariam
do Rio de Janeiro. O plano teria desandado devido à prisão de Araken
Vaz Galvão.
Em fevereiro-março de 1966, após o
fracasso da chamada “Guerrilha de Três Passos”, um segundo projeto
de levante em Porto Alegre não prosperou,
devido à
denúncia do plano ao comando militar, um dia antes da sua eclosão,
por capitão da Brigada Militar envolvido no movimento, com a prisão
de oficiais, suboficiais, trabalhadores, estudantes, etc. O fracasso
do segundo levante fortaleceu a proposta da organização da luta
anti-ditatorial através de focos armados rurais, desejada pelos
suboficiais do Exército e Marinha, à qual Leonel Brizola resistia.
A queda de Manoel Raimundo
Às 17:35 da tarde de 11 de março, Manoel
Raimundo foi preso ao entregar entre quinhentos e dois mil
panfletos, possivelmente por ele escritos, com os dizeres
“Abaixo a ditadura militar”, contra
a chegada, naquele dia, a Porto Alegre, do general-ditador Castelo
Branco, a Edu Rodrigues, um civil acagüete, em frente ao auditório
Araújo Viana. Na distribuição dos manifestos estariam envolvidos
funcionários da Carris, empresa pública com antiga tradição de luta
sindical e política.
Conhecido pelo serviço de informação do Exército como uma das
principais lideranças do movimento dos sargentos e possivelmente por
seu envolvimento nos movimentos de resistência em Porto Alegre e no
Rio Grande do Sul, Manuel Raimundo era uma presa valiosa para a
repressão, já que, se vergado, causaria baixas duríssimas entre seus
companheiros de luta e no movimento de resistência à ditadura.
A documentação conhecida assinala que,
quando da sua prisão, Manoel Raimundo militava em pequeno grupo
reunindo sobretudo remanescentes da “Guerrilha de Três Passos”,
denominado Movimento Revolucionário 26 de Março [MR-26]. A
denominação seria uma homenagem ao primeiro combate armado com a
ditadura, quando da chamada “Guerrilha de Três Passos”. Praticamente
toda a escassa informação disponível publicada sobre Manoel Raimundo
reafirma essa militância.
Jelsi Rodrigues, companheiro de Manoel
Raimundo no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, lembra que, naquele
então, os suboficiais resistentes reconheciam-se sobretudo como
membros do Comando Geral dos Sargentos. Quando muito, Manoel
Raimundo se compreenderia como parte do Movimento Nacionalista
Revolucionário, organizado sobretudo pelos suboficiais do Exército e
da Marinha, em associação com Leonel Brizola e seguidores. Jelsi
Rodrigues sequer tem conhecimento do MR-26.
Araken Galvão, com participação destacada na primeira tentativa de
levante em Porto Alegre e um dos companheiros mais próximos de
Manoel Raimundo, declarou: “Ao
que eu saiba, Soares nunca militou no MR-26. Aliás, nem sei que
movimento foi esse [...].”
Companheiros de farda
Manoel Raimundo foi preso, no dia 11 de
março, por dois militares à paisana, da 6ª Companhia da Polícia do
Exército, Carlos Otto Bock e Nilton Aguiadas, sem qualquer
determinação judiciária, ao arrepio das próprias leis então
reconhecidas pela ditadura, devido à denúncia do informante Edu
Rodrigues, como visto. A ordem de prisão teria partido de Darci
Gomes Prange, capitão da referida companhia. Era o início do longo
calvário do jovem paraense, nas mãos dos torcionários do Exército e
da Polícia Política.
Manoel Raimundo foi levado em um táxi
DKV verde à sede da Polícia do Exército, onde, sem delongas, sofreu
as primeiras sevícias infligidas por ex-colegas de farda, o sargento
Pedroso e os tenentes Nunes e Glênio Carvalho de Sousa. A seguir,
foi transferido para o mais experiente Departamento de Ordem
Política e Social [DOPS], no Palácio de Polícia, na avenida João
Pessoa, para ser duramente torturado e espancado, por longos dias,
agora pelos delegados Enir Barcelos da Silva, Itamar Fernandes de
Souza, José Morsch, entre outros.
Na época, sobretudo no Rio Grande, a
tortura não se transformara ainda em prática institucionalizada,
sobretudo nas forças militares. O ódio acumulado por oficiais
golpistas e direitistas contra o destacado líder do Comando dos
Sargentos e sua importância na resistência anti-ditatorial talvez
expliquem a violência com que foi interrogado. Sem qualquer
resultado. Ainda hoje, os companheiros de Manoel Raimundo lembram-se
emocionados da decisão com que o jovem enfrentou o interrogatório,
não raro cantando o Hino Nacional e a Marselhesa, sem jamais
dobrar-se, não revelando sequer um nome de companheiros e depósitos
de armamentos, prontamente transferidos, após a sua queda.
Depoimentos incontornáveis
Possivelmente a improvisação da
repressão na época e a importância e galhardia de Manoel Raimundo ao
enfrentar seus algozes tenham ensejado a paradoxal exposição pública
das duras torturas a que foi submetido, realidade que se procurou
manter sob sigilo, mesmo quando do fechamento do regime, após
o Ato Institucional n.º 5, em fins de 1968. São precisas,
abundantes e concordantes as declarações, sobretudo de outros presos
políticos, sobre os maus-tratos sofridos pelo jovem paraense, na
semana em que permaneceu no DOPS.
Em depoimento publicado no Jornal Zero
Hora, de 17 de setembro de 1966, Antônio Giudice, detido no DOPS, de
10 a 15 de março de 1966, relatou “que conversou com Manoel
Raimundo, vendo os hematomas e cicatrizes” “das torturas que vinha
sofrendo”, pois “era diariamente, torturado, colocado várias vezes
no pau-de-arara, sofrendo choques elétricos, espancado e queimado
por pontas de cigarros”.[24]
O pau-de-arara é haste de pau ou ferro, para suspender o prisioneiro
durante a tortura, com os pés e as mãos amarrados para trás, de
cabeça para baixo.
Aldo Alves Oliveira, funcionário da
Companhia Carris, preso na DOPS desde 10 de março, testemunhou ter
conhecido Manoel Raimundo, que “mostrava vários sinais de sevícias”.
Na ocasião, viu, quando o ex-sargento “estava sentado no corredor”
de “acesso à cela”, “sem camisa”, “as marcas de queimaduras” e
sinais de violência. Tão forte fora o espancamento que ele “não
podia engolir alimentos sólidos, razão pela qual” Aldo e outros
presos forneciam-lhe “alguma porção” do “leite que lhes era enviado
por familiares”.[25]
As noites e os dias
Aldo Alves relatou igualmente que,
durante o tempo que esteve preso, “percebia que, quase todas as
noites, pela madrugada, o ex-sargento Manoel Raimundo Soares era
torturado, o que podia ser comprovado pelos gritos da vítima e
também pelo aspecto físico que apresentava quando era trazido de
volta a sua cela e passava defronte a porta em que se encontrava o
depoente [...]”.[26]
Também presa no DOPS em março de 1966, a
advogada Élida Costa afirmou que, ao ouvir “gritos, urros de dor e
ruídos de coisas que caíam”, um “agente policial” lhe explicara que
“se tratava de uma festa em [um] outro andar”.[27]
Ao deparar-se com “uns seis ou oito presos”, todos da Carris”,
quando ia ao banheiro, ela contou-lhes o que passava, “e o risco
que todos [eles] corriam”.[28]
Élida passou a noite temendo “que o
mesmo poderia lhe suceder”. Temor acrescido quando, de madrugada,
“viu, com os próprios olhos, um rapaz que, pelo estado de seu corpo,
que estava inclinado para frente, ia sendo carregado por dois
homens”. Na ocasião, “ouviu dizer” que o preso estava ferido,
sangrava e se encontrava em “coma” e que “fora recolhido a uma cela
fechada à chave”. Mais tarde, o ex-sargento “foi levado”, com
dificuldades, “pelos presos”, até a advogada, que ouviu do mesmo
chamar-se Soares.
[29]
Na Ilha do Presídio
Por não dobrar-se às exigências dos
algozes, Manoel Raimundo foi torturado em forma incessante, por mais
de uma semana, pelos torcionários à procura de informação sobre seus
companheiros de luta e de ideal, sendo recolhido apenas em 19 de
março de 1966, nove dias após sua prisão, à ilha do Presídio, no rio
Guaíba, destinada desde o golpe militar também ao encarceramento de
presos políticos. A ilha contaria com guarnição de mais de trinta
policiais.
A pequenina ilha do Presídio, com uns
cento e cinqüenta metros de comprimento por trinta a oitenta de
largura, destaca-se por suas grandes pedras de granito, a pouco mais
de dois quilômetros da costa de Guaíba. Conhecida inicialmente como
ilha das Pedras Brancas, fora ponto estratégico de ataque-defesa de
Porto Alegre na Guerra dos Farrapos. Passara a ser denominada de
ilha da Pólvora, ao receber duas construções para armazenar munição,
em 1857. De 1956 a 1973 e de 1980 a 1983, funcionara como presídio,
o que lhe assegurou sua última denominação.
A ilha do Presídio, caracterizada pela
forte umidade, era local onde os prisioneiros políticos
encontravam-se relativamente protegidos das torturas
policiais, devido à estreiteza das instalações, ao elevado número de
detidos, às dificuldades dos inquisidores de se deslocarem até ela.
Para serem interrogados, os prisioneiros eram habitualmente levados
de volta a Porto Alegre, onde ficavam entregues à violência e ao
arbítrio dos militares e policiais torturadores. Hoje, as
instalações da ilha encontram-se abandonadas e depredadas.
Em 1966, o guarda civil Selço José
Muller dos Santos permaneceu encarcerado na ilha por dez dias. Mais
tarde, declarou que, na ocasião, auxiliou Manoel Raimundo a se mover
“até sua cela”, pois se encontrava “bastante ferido”, com
“dificuldade para locomover-se”.[30]
À noite, Selço preparava “salmoura para passar nas costas e pernas
de Manoel”, partes do corpo muito feridas devido aos espancamentos,
segundo relatou o próprio Manoel.
[31]
Selço teria aconselhado ao sargento que “pusesse água com açúcar” em
“uma espécie de hematoma” que tinha no olho. Devido a ferimento
propiciado pelo tenente Nunes durante a tortura, Manoel Raimundo
perdera parcialmente a visão de um olho.
[32]
Cf. FONSECA, Pedro C. D. Vargasxe "Vargas": o
capitalismo em construção. 1906-1954. São Pauloxe "São
Paulo": Brasiliense, 1989; BRANDI, Paulo. Vargas: da
vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1983. pp. 231
et seq.
Cf.
MARKUN, Paulo & HAMILTON,
DUDA. 1961: que as armas não falem. São Paulo: SENAC,
2001.
Cf. SKIDMORE, Thomas.
Brasil:
de Castelo a Tancredo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988;
BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. O governo João Goulart:
as lutas sociais no Brasil. 1961-1964. 7 ed. rev. e ampl.
Brasília: EdiUnB; Rio de Janeiro, Revan, 2001.
Cf. VARGAS, Índio. Guerra é guerra, dizia o torturador.
3 ed. Rio de Janeiro: Codecri, 1981. p. 32.
Cf. VARGAS, Índio. Guerra é guerra, dizia o torturador.
Ob.cit.
p.18.
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